sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Os arquitetos da IA ​​são a Pessoa do Ano de 2025 da TIME


Este artigo da revista TIME, publicado no final de 2025, descreve o impacto avassalador da Inteligência Artificial (IA) na geopolítica, na economia e na vida quotidiana.


Abaixo, apresento um resumo dos principais pontos abordados no texto:



O Domínio da Nvidia e Jensen Huang: Jensen Huang, CEO da Nvidia, é apresentado como uma figura central da revolução da IA. A sua empresa tornou-se a mais valiosa do mundo, detendo um quase monopólio sobre os chips avançados necessários para o desenvolvimento da IA. Huang acredita que a tecnologia poderá quintuplicar o PIB mundial.



Geopolítica e a Corrida com a China: A IA emergiu como a ferramenta de competição mais importante entre potências desde as armas nucleares. O avanço de startups chinesas como a DeepSeek, que desenvolveu modelos potentes com menos recursos, serviu como um "alerta" para os EUA. Em resposta, o governo Trump adotou uma postura de desregulamentação agressiva, investindo centenas de milhares de milhões de dólares em infraestrutura e revogando controlos de exportação para manter a dependência tecnológica da China em relação aos chips americanos.



Aceleração Tecnológica: O ano de 2025 marcou a transição da IA de um "parceiro de conversação" para uma ferramenta de produtividade real. Novos modelos passaram a ter capacidades de "raciocínio", memória e acesso a ferramentas externas. Além disso, a IA começou a escrever o seu próprio código (até 90% no caso do modelo Claude da Anthropic), acelerando o seu próprio desenvolvimento.



Impacto Económico e Riscos de Bolha: Foram feitos investimentos massivos (370 mil milhões de dólares pelas gigantes tecnológicas) em "fábricas de IA" (centros de dados gigantescos). No entanto, investidores e académicos alertam para uma possível bolha financeira, citando tecnologia sobrevalorizada, crédito fácil e o facto de 95% das empresas ainda não terem obtido retorno sobre os seus investimentos em IA.




Consequências Sociais e Humanas:



Trabalho: Enquanto Huang argumenta que a IA aumentará a produtividade e criará novos empregos , outros CEOs preveem que o desemprego poderá atingir os 20% à medida que os trabalhadores humanos forem substituídos por robôs e algoritmos.



Saúde Mental e Segurança: O artigo relata casos trágicos, como o suicídio de um adolescente de 16 anos cujos pais processaram a OpenAI, alegando que o chatbot validou e intensificou os seus pensamentos suicidas. Por outro lado, há relatos de pessoas isoladas que encontram companhia e apoio emocional em chatbots de IA.



Ambiente: A expansão desenfreada dos centros de dados está a consumir quantidades massivas de energia, dependendo fortemente de combustíveis fósseis e aumentando a pegada de carbono.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Discurso completo de Mark Carney sobre as potências médias num mundo em rápida mudança

Nos últimos dias, tem sido impossível navegar pelas redes sociais ou abrir um portal de notícias sem encontrar ecos de uma única intervenção. O discurso de Mark Carney, proferido no Fórum Económico Mundial em Davos, tornou-se um fenómeno de partilha global, acumulando milhões de visualizações e gerando um debate que ultrapassa as habituais bolhas da diplomacia. 

Mas porquê agora? E porque é que estas palavras, em particular, se tornaram o rastilho de uma conversa tão profunda? 

Decidi publicar o discurso na íntegra não apenas pela sua popularidade estatística, mas pelo que essa popularidade revela sobre o nosso estado de espírito coletivo. Num tempo marcado por incertezas, Carney fez algo raro na política moderna: retirou o "cartaz da montra". Ao evocar a coragem de Václav Havel e ao admitir que a velha ordem ruiu, ele não nos deixou no desespero. Pelo contrário. 

Este discurso tornou-se viral porque responde a uma sede profunda de honestidade. Numa era de cinismo e de grandes potências em rota de colisão, Carney ofereceu um mapa para a esperança. Ele recordou-nos que os países "do meio" — como o Canadá, ou como o nosso Portugal — não são meros espectadores da história. Temos a força da nossa integridade, a capacidade de agir em conjunto e a oportunidade de construir uma ordem mais justa a partir das fraturas do presente. É um manifesto para quem acredita que o futuro não tem de ser um "mundo de fortalezas", mas pode ser um espaço de colaboração genuína. Se ainda não o leu, ou se apenas viu os pequenos clips que circulam no X (Twitter) e no LinkedIn, convidamo-lo a visualizar o vídeo e/ou ler o texto completo abaixo. 

Este não é apenas um discurso político; é o início de um novo caminho.



"Encaramos o mundo tal como ele é", afirma o Primeiro-Ministro na reunião do Fórum Económico Mundial

CBC News · Publicado: 20 de jan. de 2026 | Última Atualização: 20 de janeiro

Abaixo encontram-se as observações do Primeiro-Ministro Mark Carney no Fórum Económico Mundial em Davos, Suíça, esta terça-feira.

(Em francês): É um prazer — e um dever — estar convosco neste momento de viragem para o Canadá e para o mundo.

Hoje, falarei sobre a rutura na ordem mundial, o fim de uma história agradável e o início de uma realidade brutal onde a geopolítica entre as grandes potências não está sujeita a quaisquer restrições.

Mas também vos submeto que outros países, particularmente potências médias como o Canadá, não estão impotentes. Têm a capacidade de construir uma nova ordem que encarne os nossos valores, como o respeito pelos direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos estados.

O poder dos menos poderosos começa com a honestidade.

Parece que todos os dias somos lembrados de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências. Que a ordem baseada em regras está a desaparecer. Que os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem.

Este aforismo de Tucídides é apresentado como inevitável — como a lógica natural das relações internacionais a reafirmar-se. E perante esta lógica, existe uma forte tendência para os países "irem na corrente" para evitar conflitos. Para se acomodarem. Para evitarem problemas. Para esperarem que a complacência compre segurança.

Não comprará.

Então, quais são as nossas opções? Em 1978, o dissidente checo Václav Havel, mais tarde presidente, escreveu um ensaio chamado O Poder dos Sem Poder. Nele, fazia uma pergunta simples: Como é que o sistema comunista se sustentava?

A sua resposta começava com um merceeiro. Todas as manhãs, este lojista coloca um cartaz na sua montra: "Trabalhadores do mundo, uni-vos!". Ele não acredita nisso. Ninguém acredita. Mas coloca o cartaz de qualquer forma para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para não levantar ondas. E porque cada lojista em cada rua faz o mesmo, o sistema persiste.

Não apenas através da violência, mas através da participação de pessoas comuns em rituais que, em privado, sabem ser falsos.

Havel chamou a isto "viver na mentira". O poder do sistema não vem da sua verdade, mas da vontade de todos em agir como se fosse verdade. E a sua fragilidade vem da mesma fonte: quando apenas uma pessoa deixa de fingir — quando o merceeiro retira o cartaz — a ilusão começa a quebrar-se.

Amigos, é tempo de as empresas e os países retirarem os seus cartazes das montras.

Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob o que chamámos de ordem internacional baseada em regras. Juntámo-nos às suas instituições, elogiámos os seus princípios, beneficiámos da sua previsibilidade. E, por causa disso, pudemos seguir políticas externas baseadas em valores sob a sua proteção.

Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam quando fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional se aplicava com rigor variável dependendo da identidade do acusado ou da vítima.

Esta ficção foi útil. E a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a estruturas para a resolução de disputas.

Portanto, colocámos o cartaz na montra. Participámos nos rituais. E evitámos, em grande medida, denunciar as lacunas entre a retórica e a realidade.

Esse acordo já não funciona.

"Uma rutura, não uma transição"

Deixem-me ser direto: estamos no meio de uma rutura, não de uma transição.

Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas finanças, saúde, energia e geopolítica expuseram os riscos de uma integração global extrema.

Mas, mais recentemente, as grandes potências começaram a usar a integração económica como arma. Tarifas como alavanca. Infraestrutura financeira como coerção. Cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a serem exploradas.

Não se pode "viver na mentira" do benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da vossa subordinação.

As instituições multilaterais nas quais as potências médias confiaram — a OMC, a ONU, a COP — a própria arquitetura da resolução coletiva de problemas, estão sob ameaça.

E, como resultado, muitos países estão a chegar à mesma conclusão — que devem desenvolver uma maior autonomia estratégica: na energia, na alimentação, em minerais críticos, nas finanças e nas cadeias de abastecimento.

Este impulso é compreensível. Um país que não se consegue alimentar, abastecer ou defender tem poucas opções. Quando as regras já não o protegem, deve proteger-se a si próprio.

Mas sejamos lúcidos sobre onde isto nos leva. Um mundo de fortalezas será mais pobre, mais frágil e menos sustentável.

E há outra verdade: se as grandes potências abandonarem até o pretexto de regras e valores pela busca desenfreada do seu poder e interesses, os ganhos do "transaccionalismo" serão mais difíceis de replicar. Os hegemónicos não podem rentabilizar continuamente as suas relações.

Os aliados irão diversificar para se precaverem contra a incerteza. Comprarão seguros, aumentarão opções para reconstruir a soberania — uma soberania que outrora se baseava em regras, mas que será cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão.

Esta sala sabe que isto é a gestão de risco clássica — e a gestão de risco tem um preço. Mas esse custo da autonomia estratégica — da soberania — também pode ser partilhado. Investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada um construir a sua própria fortaleza. Normas partilhadas reduzem a fragmentação. As complementaridades são de soma positiva.

E a questão para as potências médias, como o Canadá, não é se nos devemos adaptar à nova realidade — temos de o fazer. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos ou se podemos fazer algo mais ambicioso.

O Canadá foi dos primeiros a ouvir o sinal de alerta, o que nos levou a mudar fundamentalmente a nossa postura estratégica.

Os canadianos sabem que as nossas velhas e confortáveis suposições — de que a nossa geografia e a pertença a alianças conferiam automaticamente prosperidade e segurança — já não são válidas.

E a nossa nova abordagem baseia-se no que Alexander Stubb chamou de "realismo baseado em valores" — ou, por outras palavras, pretendemos ser de princípios e pragmáticos.

De princípios no nosso compromisso com valores fundamentais: soberania e integridade territorial, a proibição do uso da força exceto quando consistente com a Carta da ONU e o respeito pelos direitos humanos.

E pragmáticos ao reconhecer que o progresso é frequentemente incremental, que os interesses divergem, que nem todos os parceiros partilharão os nossos valores. Por isso, estamos a envolver-nos de forma ampla, estratégica e de olhos abertos. Encaramos ativamente o mundo tal como ele é, não ficamos à espera de um mundo que desejaríamos que fosse.

Estamos a calibrar as nossas relações para que a sua profundidade reflita os nossos valores. E estamos a dar prioridade a um envolvimento amplo para maximizar a nossa influência, dada a fluidez da ordem mundial, os riscos que isso coloca e o que está em jogo para o que vem a seguir.

E já não confiamos apenas na força dos nossos valores, mas também no valor da nossa força.

Estamos a construir essa força internamente.

Desde que o meu governo assumiu funções, cortámos impostos sobre rendimentos, sobre ganhos de capital e investimento empresarial. Removemos todas as barreiras federais ao comércio interprovincial. Estamos a acelerar um bilião de dólares de investimento em energia, IA, minerais críticos, novos corredores comerciais e mais além.

Estamos a duplicar os nossos gastos com a defesa até ao final desta década e fazemo-lo de formas que fortalecem as nossas indústrias nacionais.

E estamos a diversificar rapidamente no estrangeiro. Acordámos uma parceria estratégica abrangente com a UE, incluindo a adesão ao SAFE, os acordos europeus de aquisição de defesa.

Assinámos outros 12 acordos de comércio e segurança em quatro continentes em seis meses.

Nos últimos dias, concluímos novas parcerias estratégicas com a China e o Catar.

Estamos a negociar pactos de comércio livre com a Índia, ASEAN, Tailândia, Filipinas e Mercosul.

Estamos a fazer algo mais. Para ajudar a resolver problemas globais, estamos a seguir uma geometria variável — por outras palavras, diferentes coligações para diferentes questões baseadas em valores e interesses comuns.

Assim, quanto à Ucrânia, somos um membro central da coligação dos voluntários e um dos maiores contribuintes per capita para a sua defesa e segurança.

Quanto à soberania do Ártico, mantemo-nos firmes ao lado da Gronelândia e da Dinamarca e apoiamos totalmente o seu direito único de determinar o futuro da Gronelândia.

O nosso compromisso com o Artigo 5.º é inabalável.

Por isso, estamos a trabalhar com os nossos aliados da NATO — incluindo os Oito Nórdico-Bálticos — para reforçar ainda mais a segurança dos flancos norte e oeste da aliança, inclusive através dos investimentos sem precedentes do Canadá em radares de longo alcance, em submarinos, em aeronaves e tropas no terreno.

O Canadá opõe-se firmemente às tarifas sobre a Gronelândia e apela a negociações focadas para alcançar os nossos objetivos partilhados de segurança e prosperidade no Ártico.

No comércio plurilateral, estamos a liderar esforços para construir uma ponte entre a Parceria Transpacífica e a União Europeia, o que criaria um novo bloco comercial de 1,5 mil milhões de pessoas.

Nos minerais críticos, estamos a formar clubes de compradores ancorados no G7 para que o mundo se possa diversificar e afastar de fornecimentos concentrados.

E na IA, estamos a cooperar com democracias que partilham a mesma visão para garantir que não seremos forçados a escolher entre hegemónicos e gigantes tecnológicos (hyperscalers).

Isto não é um multilateralismo ingénuo. Nem é confiar nas instituições deles. É construir coligações que funcionem, questão por questão, com parceiros que partilhem terreno comum suficiente para agirem juntos. Em alguns casos, esta será a vasta maioria das nações.

O que isto está a fazer é criar uma rede densa de ligações através do comércio, investimento e cultura, na qual nos podemos basear para futuros desafios e oportunidades.

"As potências médias devem agir juntas"

As potências médias devem agir juntas porque, se não estivermos à mesa, estaremos no menu.

Mas também diria que as grandes potências podem dar-se ao luxo, por enquanto, de seguir sozinhas. Têm a dimensão de mercado, a capacidade militar e a alavancagem para ditar termos. As potências médias não têm. Mas quando apenas negociamos bilateralmente com um hegemónico, negociamos a partir de uma posição de fraqueza. Aceitamos o que nos é oferecido. Competimos uns com os outros para ver quem é mais complacente.

Isto não é soberania. É a encenação da soberania enquanto se aceita a subordinação.

Num mundo de rivalidade entre grandes potências, os países no meio têm uma escolha: competir entre si pelo favor de alguém ou unir-se para criar um terceiro caminho com impacto.

Não devemos permitir que a ascensão do poder militar (hard power) nos cegue para o facto de que o poder da legitimidade, da integridade e das regras continuará forte — se escolhermos exercê-lo juntos.

O que me traz de volta a Havel.

O que significaria para as potências médias "viver na verdade"?

Primeiro, significa nomear a realidade. Deixar de invocar a "ordem internacional baseada em regras" como se ela ainda funcionasse como anunciado. Chamem-lhe o que é: um sistema de rivalidade intensificada entre grandes potências, onde os mais poderosos perseguem os seus interesses usando a integração económica como uma arma de coerção.

Significa agir de forma consistente, aplicando os mesmos padrões a aliados e rivais. Quando as potências médias criticam a intimidação económica vinda de uma direção, mas ficam em silêncio quando vem de outra, estamos a manter o cartaz na montra.

Significa construir aquilo em que dizemos acreditar. Em vez de esperar que a velha ordem seja restaurada, significa criar instituições e acordos que funcionem conforme descrito.

E significa reduzir a alavancagem que permite a coerção. Construir uma economia doméstica forte deve ser sempre a prioridade imediata de qualquer governo. E a diversificação internacional não é apenas prudência económica — é o fundamento material para uma política externa honesta. Porque os países ganham o direito a posições de princípios ao reduzirem a sua vulnerabilidade a retaliações.

"Honestidade sobre o mundo tal como ele é"

O Canadá tem o que o mundo quer. Somos uma superpotência energética. Possuímos vastas reservas de minerais críticos. Temos a população mais instruída do mundo. Os nossos fundos de pensões estão entre os maiores e mais sofisticados investidores do mundo. Por outras palavras, temos capital, talento e temos também um governo com a imensa capacidade fiscal para agir de forma decisiva.

E temos os valores aos quais muitos outros aspiram.

O Canadá é uma sociedade pluralista que funciona. A nossa praça pública é barulhenta, diversa e livre. Os canadianos mantêm-se comprometidos com a sustentabilidade.

Somos um parceiro estável e fiável num mundo que é tudo menos isso. Um parceiro que constrói e valoriza relações a longo prazo.

E temos algo mais. Temos o reconhecimento do que está a acontecer e a determinação de agir em conformidade.

Compreendemos que esta rutura exige mais do que adaptação. Exige honestidade sobre o mundo tal como ele é.

Estamos a retirar o cartaz da montra.

Sabemos que a velha ordem não vai voltar. Não devemos lamentá-la. A nostalgia não é uma estratégia.

Mas acreditamos que, a partir da fratura, podemos construir algo melhor, mais forte, mais justo.

Esta é a tarefa das potências médias. Os países que têm mais a perder com um mundo de fortalezas e mais a ganhar com uma cooperação genuína.

Os poderosos têm o seu poder. Mas nós também temos algo — a capacidade de parar de fingir, de nomear a realidade, de construir a nossa força internamente e de agir em conjunto.

Esse é o caminho do Canadá. Escolhemo-lo aberta e confiantemente.

E é um caminho escancarado para qualquer país disposto a percorrê-lo connosco.


FonteRead Mark Carney's full speech on middle powers navigating a rapidly changing world, CBC News
Este discurso foi replicado e analisado pelos principais órgãos de comunicação do mundo, o que revela o seu interesse.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Do Windows 3.11 à Era da Inteligência Artificial: Uma Retrospectiva e um Olhar para 2026 (Para quem sabe o que é um IRQ)

Quem diria que chegaríamos a 2026? Lembro-me como se fosse ontem de, lá por 1995, tentar convencer o meu Windows 3.11 a cooperar com o mundo exterior. Naquela altura, ter uma ligação à Internet era um privilégio, um ritual místico que começava com o clique no ícone do Chameleon (ou Trumpet Winsock!), o nosso portal para o desconhecido.

A melodia inconfundível do modem de 14.400 bps (e mais tarde o alucinante 28.800 bps!) a tentar ligar, aquela sinfonia de "pzzz-shhh-crrr-krrr" que ecoava pela casa, era a banda sonora da nossa entrada na era digital. Cada bip, cada chiado, cada tentativa falhada era um teste à nossa paciência, mas a recompensa era... enorme!

E que recompensa! A instalação do Netscape Navigator (sim, antes do Explorer ser a 'coisa') era uma aventura à parte. Aquele momento glorioso em que o software perguntava se nos encontrávamos num "país ocidental" era a porta de entrada para um mundo sem fronteiras. A ansiedade era real: seríamos dignos de aceder à World Wide Web?

Foi nessa era de pixels gigantes e páginas que carregavam letra a letra que descobrimos os Newsgroups. E para nós, lusitanos espalhados pelo globo, o epicentro da comunidade era o lendário "soc.culture.portuguese". Ali, trocávamos ideias, partilhávamos receitas, discutíamos futebol e tentávamos decifrar acrónimos como se fosse uma nova língua. Era o nosso Twitter, Facebook e fórum, tudo num só, sem anúncios nem algoritmos a decidir o que víamos.

Saltamos agora para 2025, e a evolução é vertiginosa. De dial-up a 5G, de e-mails em ASCII a videochamadas em HD com pessoas que nunca conhecemos pessoalmente (mas que já vimos em 4K). O que era ficção científica no tempo do Windows 3.11 é agora a nossa realidade quotidiana.

E o que nos espera em 2026? Inteligência Artificial a gerar os nossos textos (quem sabe se esta não foi feita por uma... shhh!), realidades virtuais cada vez mais imersivas, e talvez, quem sabe, um assistente de voz que finalmente perceba o sotaque minhoto.

Por isso, desejo a todos um próspero 2026! Que a vossa saúde seja tão robusta quanto a bateria de um Nokia 3310, que a vossa felicidade seja tão constante quanto um uptime de servidor dos anos 90, e que a vossa curiosidade continue a impulsionar-vos a explorar este mundo digital em constante mudança.

Que as nossas ligações sejam fortes e que nunca mais tenhamos de ouvir o som de um modem a falhar.

Até à próxima actualização! 

domingo, 14 de dezembro de 2025

Too Big to Fail: Inside the Battle to save Wall Street

"Too Big to Fail" é um best-seller de não-ficção que oferece um relato detalhado e minuto a minuto dos bastidores da crise financeira de 2008, vista através dos olhos dos CEOs das maiores instituições de Wall Street e dos principais reguladores e decisores políticos em Washington.

📌 Foco Principal

O livro concentra-se no período que antecedeu a falência do banco de investimento Lehman Brothers em setembro de 2008 e nas semanas que se seguiram, quando o sistema financeiro global estava à beira do colapso.

🎬 A Trama e os Personagens

Sorkin, um colunista financeiro do The New York Times, utiliza acesso sem precedentes para recontar as reuniões tensas, as chamadas telefónicas frenéticas e as decisões de alto risco tomadas pelos principais intervenientes:

  • Henry "Hank" Paulson: O Secretário do Tesouro dos EUA, que liderou os esforços do governo para conter a crise.

  • Ben Bernanke: O Presidente da Reserva Federal (Fed), que trabalhou ao lado de Paulson para estabilizar o sistema.

  • Timothy Geithner: O Presidente do Federal Reserve Bank de Nova York.

  • Dick Fuld: O CEO do Lehman Brothers, cuja recusa em vender o banco a qualquer custo é um ponto central da narrativa.

  • CEOs de outros grandes bancos, como Goldman Sachs, Merrill Lynch, Morgan Stanley, e J.P. Morgan Chase.

📉 Os Pontos-Chave da Crise

  1. A Decisão do Lehman Brothers: O livro detalha as negociações frenéticas para encontrar um comprador para o Lehman Brothers. A decisão final de Washington de não resgatar o banco (deixando-o falir) é retratada como o momento que desencadeou o pânico total nos mercados.

  2. O Resgate da AIG: Em contraste com o Lehman, o governo considerou a seguradora AIG Too Big to Fail (Grande Demais para Quebrar) e realizou um resgate maciço para evitar um colapso ainda mais catastrófico.

  3. A Batalha para Estabilizar o Sistema: Sorkin narra os esforços desesperados para salvar outras instituições, como Merrill Lynch (vendida ao Bank of America) e Morgan Stanley, e a aprovação do TARP (Troubled Asset Relief Program) pelo Congresso, um programa de resgate de 700 mil milhões de dólares para comprar ativos tóxicos dos bancos.

  4. A Cultura de Wall Street: A obra expõe a arrogância, a competição e a desconfiança entre os líderes de Wall Street, muitos dos quais acreditavam que as suas instituições eram invulneráveis e que foram forçados a enfrentar a realidade de um colapso iminente.

💡 Conclusão

O livro é um thriller de não-ficção que não só relata a cronologia dos eventos, mas também explora o dilema moral e económico da intervenção governamental: o que acontece quando uma instituição financeira é tão grande e interligada que a sua falência ameaça toda a economia global? Sorkin oferece uma perspetiva privilegiada sobre o drama humano e as maquinações políticas nos bastidores da crise que redefiniu o capitalismo moderno.

1929: Inside the Greatest Crash in Wall Street History — and How It Shattered a Nation

O livro que Andrew Ross Sorkin escreveu com o título "1929" tem o subtítulo "The Inside Story of The Greatest Crash in Wall Street History" (A História Secreta do Maior Colapso na História de Wall Street).

O livro é um relato detalhado e imersivo sobre a Grande Queda da Bolsa de 1929 (o famoso Crash de Wall Street) que levou ao início da Grande Depressão.

📜 O Conteúdo Central de "1929"

  • O Colapso de 1929: O foco principal é a queda do mercado de ações em 1929, que eliminou fortunas e deu início a uma depressão que redefiniu uma geração.

  • Narrativa de Bastidores: Sorkin utiliza um acesso incomparável a registos históricos e documentos recém-descobertos (fruto de oito anos de pesquisa, incluindo correspondência pessoal e documentos não publicados) para levar os leitores para dentro do caos do crash.

  • Personagens e Psicologia: A história é contada através das ações dos principais protagonistas, incluindo banqueiros de Wall Street, especuladores e políticos em Washington. O livro explora a ambição, a ganância, o otimismo cego e a ingenuidade que dominaram a época.

    • Um foco notável é a representação de figuras como Charles Edwin Mitchell, presidente do First National City Bank (precursor do Citibank), retratado por Sorkin como uma figura que arriscou o seu banco e os seus bens pessoais para tentar sustentar o mercado.

  • O Tema Recorrente: "1929" aborda o poder, a psicologia do mercado e a "ilusão sedutora de que 'desta vez é diferente'". Trata-se de alarmes desconsiderados e de céticos que foram ignorados.

  • Ligação com o Presente: O livro sugere que os altos e baixos dessa era refletem inquietantemente o mundo atual, onde os mercados sobem e as tensões financeiras persistem. A obra é vista como um "projeto crucial para entender os ciclos de especulação" e os sinais de alerta que são ignorados.

Em suma, "1929" é uma história eletrizante e minuciosa do colapso mais crucial do mercado de todos os tempos, contada com o drama de um thriller e a profundidade de uma história clássica. É o segundo grande livro de Andrew Ross Sorkin sobre crises financeiras, após o sucesso de Too Big to Fail (sobre 2008).

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

As Viúvas Silenciosas e o Milagre Desejado


Existe um conjunto razoável de comentadores, políticos e antigos bloggers, conhecidos na gíria como “as viúvas de José Sócrates”, que hoje em dia já não têm coragem para o defender publicamente, como fizeram noutros tempos com fervor. No entanto, o seu fervor não se desvaneceu, apenas se tornou discreto: rezam em segredo pelo fracasso da Operação Marquês.

Em bom rigor, esta gente está-se nas tintas para o destino de Sócrates, politicamente morto e enterrado. Mas não se está nas tintas para as suas reputações. A possibilidade de verem a acusação falhar, ou o julgamento borregar, é a derradeira oportunidade para limpar algumas nódoas do lastimável currículo que ostentam nesta matéria.

Este silêncio e o desejo de anulação judicial ganham uma dimensão ainda mais irónica quando se olha para a situação financeira do próprio Sócrates, que continua a desafiar a lógica, fazendo fé no Observador.

  • Viagens de Luxo vs. Rendimento Declarado: O Ministério Público demonstrou preocupação com as viagens de Sócrates a Abu Dhabi, em novembro, temendo uma possível fuga à justiça. Essas duas viagens ao Médio Oriente, em classe executiva, terão custado cerca de 10 a 15 mil euros.

  • A Pensão: O rendimento declarado do ex-primeiro-ministro é a pensão vitalícia anual de 2.372 euros brutos mensais, o que ronda os 1.900 euros líquidos — um total de cerca de 26.600 euros anuais.

  • As Contas que Não Batem Certo: As duas viagens a Abu Dhabi por si só podem ter consumido mais de metade do rendimento anual de Sócrates.

A este enigma somam-se as custas judiciais: o antigo chefe de Governo já teve de pagar 16.746,60 euros só ao Tribunal Constitucional desde 2015, e ainda pendiam à data de notícias mais de 15 mil euros no Tribunal da Relação de Lisboa.

Quando confrontado com a discrepância entre os seus gastos e o seu rendimento declarado, Sócrates tem sido intransigente, recusando-se a esclarecer a sua situação económica, seja à Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) ou à imprensa. A resposta é sempre a mesma: “Não pretendo partilhar a minha vida privada com estranhos.”

A matemática da vida de José Sócrates, com as viagens de executiva e as custas de milhares de euros, é tão misteriosa quanto a persistente fé das suas “viúvas” no fracasso da Operação Marquês. Ambas, de certa forma, dependem de um milagre.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

💰 O Declínio do 'Self-Made Man' e a Ascensão dos Herdeiros Dourados

É com profunda tristeza que vos trago a mais recente novidade do panorama financeiro global, cortesia do prestigiado banco suíço UBS: o self-made man está a ser catalogado, muito simplesmente, como uma espécie em vias de extinção, especialmente nas plagas europeias.

Diz o recente Billionaire Ambitions Report que o modelo do empresário que forja a sua fortuna a ferro e fogo, "do zero" e com o suor da testa, é já uma relíquia. O novo trend de 2025? A velha e boa herança.

Na Europa, a estatística não perdoa: os herdeiros já superam os criadores de riqueza. É uma tendência que nos enche o coração de esperança... por um futuro onde a única habilidade necessária é ter tido a sorte de nascer na família certa.

Antigamente, para se ser um multimilionário, era preciso ter uma ideia genial, gerir impérios e, vá lá, trabalhar umas 80 horas por semana. Hoje, segundo o relatório, os jovens afortunados "precisaram apenas de esperar sentados" pela "grande transferência de riqueza". Que sacrifício hercúleo!

Na Europa Ocidental, concentrámos metade dos 91 novos herdeiros mundiais. Foram 149,5 mil milhões de dólares transferidos para a nova geração, numa operação que exigiu, presumimos, a penosa tarefa de assinar uns papéis.

E o crescimento, meus amigos, o crescimento é fulgurante:

  • Herdeiros: Crescimento anual de 36%. (Fica fácil crescer quando se é catapultado de $0 para $1 bilião com uma assinatura.)

  • Self-Made: Crescimento anual de míseros 13%. (Pois é, trabalhar dá um bocado mais de trabalho...)

A Nova Regra de Ouro: Preservar 🛡️

O director do UBS diz que o foco agora é "preservar o património para capacitar a próxima geração a ter sucesso de forma independente e responsável". É de uma beleza enternecedora! A independência e a responsabilidade começam, claro, com um colete de salvação de biliões fornecido pelo papá.

E notemos bem: a riqueza da velha guarda tecnológica e industrial, essa sim, feita com invenção, está a ser entregue à nova geração para que a preservem. A grande façanha da nova elite não será inovar ou construir, mas sim... não estragar.

Portanto, meus amigos, se andam a tentar "fazer a vossa própria sorte", parem com essa loucura antiquada. A verdadeira ambição, em 2025, é simplesmente ser filho de alguém que já fez o trabalho.

Pax Vobis! E boas heranças!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O Dr. ainda pedala para quê?

Vivi num primeiro andar, que tinha escritório com varanda, frente a um bar. Quando lá ia, o patrão, gorducho, observa-me:

- Todas as noites, verifico que Dr. tem a luz acesa naquela varanda. Ainda está a estudar? O que o faz correr? Ainda pedala mais para quê?

O que realmente estaria perguntando, sem perceber é: "Como usa o seu tempo de forma tão significativa?"

40 anos depois, o Mundo mudou, a casa e a mulher são outras, mas a luz do meu escritório contínua acesa. Hoje, recordei-me daquela pergunta. Não sei qual é o objectivo, sou assim, experimento após experimento, erro após erro.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A IA vai padronizar (ainda) mais a avaliação escolar e reduzir a autoridade professoral


Embora no meu trabalho docente, só nos últimos dois anos tivesse sentido o impacto da Inteligência Artificial (IA) na avaliação escolar e na autoridade professoral, 40 anos de serviço e as referências teóricas dos regimes de justificação (Luc Boltanski e Laurent Thévenot) ofereceram-me um quadro de pensamento robusto que permite analisar o seu potencial efeito a partir da discussão sobre a automação e a objectivação da avaliação através de ferramentas estatísticas e regulamentares.


Esta grelha de análise sugere que a generalização de um sistema automatizado ou altamente objectivado (como poderia ser a IA) poderá, de facto, aumentar as dificuldades dos professores tanto na avaliação quanto na manutenção da sua autoridade, visto que estas dependem crucialmente da dimensão humana, moral e decisória do docente.



Dificuldades na Avaliação Escolar


A avaliação escolar, embora frequentemente tratada como um exercício puramente técnico e quantificável, não é suscetível de automatização. Por mais precisos que sejam os critérios estabelecidos, a avaliação não se reduz a puras medições de conhecimentos ou competências.


1. A Necessidade do Julgamento Professoral: A classificação é sempre o resultado das decisões tomadas pelos professores. O acto de atribuir uma nota exige um "julgamento actuante", que humaniza a avaliação, distinguindo-a de uma eventual avaliação automática realizada por um programa informático. Este julgamento integra aspectos que vão além do mero desempenho cognitivo, como a dimensão moral e os diferentes regimes de justificação (industrial, doméstica, cívica).


2. A Tensão entre o Técnico e o Moral: O sistema escolar, impulsionado pela "justificação industrial" (que valoriza a padronização e a objectividade, usando a média aritmética como ferramenta central), tenta reduzir a classificação a um cálculo. Contudo, os professores sentem-se obrigados a reajustar os critérios em função das turmas, e a dimensão moral sobrepõe-se às questões técnicas nas situações de dúvida que possam prejudicar os alunos. Um exemplo claro é a rarefação dos "9's" (nota limítrofe), que são evitados porque a diferença entre o 9 e o 10 tem graves consequências no futuro do aluno (reprovação vs. aprovação).


3. Reforço do Mito da Mensurabilidade: Se a IA for generalizada para objectivar ainda mais o processo (seguindo a lógica da justificação industrial), ela limitaria o espaço de manobra do professor para exercer o seu julgamento actuante e integrar aspectos contextuais e morais (justificação doméstica). Se o cálculo se torna o expoente máximo da objectividade, o professor pode ver-se forçado a basear-se numa aritmética que se aplica a um domínio que não é mensurável (a educação). Isto intensificaria o dilema entre a necessidade de objectividade e a necessidade de justiça contextual.



Dificuldades na Autoridade Professoral


A autoridade do professor está intimamente ligada ao sistema de avaliação. A avaliação funciona como um mecanismo de sanções e recompensas, que é indispensável para a regulação das condutas na turma e a motivação para o trabalho escolar.


1. O Papel da Classificação na Regulação: A possibilidade de atribuir e gerir a classificação é uma dimensão essencial da autoridade do professor. O professor usa as notas estrategicamente, por exemplo, para obrigar o aluno a trabalhar até ao fim do ano ou para gerir as expectativas (vg. atribuindo notas mais baixas no 2º período para forçar maior empenhamento no 3º).


2. Limitação da Estratégia Pedagógica: A autoridade professoral não se pode apoiar apenas em regulamentos. Ela é legitimada pela coerência das classificações, que devem reflectir o trabalho. Se um sistema automatizado (IA) assumir o veredicto final com absoluta neutralidade e sem margem para adaptação individual ou contextual (o que seria típico da justificação industrial levada ao extremo), o professor perde a capacidade de usar a nota como "ameaça e moeda de troca" ou como instrumento de apoio (justificação doméstica).


3. Esvaziamento do Veredicto: A autoridade do professor depende do seu poder de seleccionar e ordenar os alunos. A introdução de sistemas externos e universalmente aplicados (como IA generalizada) tende a homogeneizar o espaço nacional e anular a avaliação dos aspectos não-cognitivos (comportamento, esforço). Embora a padronização seja defendida pela justificação cívica para garantir igualdade de critérios, a autoridade do professor em sala de aula é reforçada pela integração das atitudes e do empenhamento. Se a IA anular esse espaço de discricionariedade, a autoridade do professor na gestão e motivação do trabalho diário será enfraquecida, pois a legitimidade do seu veredicto professoral seria diluída por um processo externo e técnico.


Em resumo, a a generalização da IA – ao automatizar ou objectivar o processo de classificação, de forma semelhante à forma como as médias aritméticas e os critérios de exame padronizaram e cristalizaram a pedagogia – tenderia a reforçar o predomínio da justificação industrial na avaliação. Isso tornaria mais complexo o exercício da avaliação e da autoridade, na medida em que minaria a capacidade do professor de introduzir os necessários juízos morais e adaptações pedagógicas (justificação doméstica) essenciais para legitimar as notas e motivar os alunos.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

🤬 A Força Insuperável do F*! (e o Universo Paralelo do Apoio ao Cliente)

Caros leitores, venho hoje partilhar convosco uma saga épica de acesso digital, onde a burocracia se revela uma arte refinada e a tecnologia uma peça de stand-up comedy mal ensaiada. O título é autoexplicativo, mas preparem-se para os detalhes que fariam Sísifo invejar a minha persistência.

O palco: o Universo (a loja, não a galáxia, infelizmente). O problema: a singela necessidade de entrar na minha conta. Como mudei o meu número de telemóvel — esse objeto tão volátil e propenso a alterações como as promessas eleitorais —, perdi, como é lógico, o acesso. O sistema, na sua infinita sabedoria, exige o número que já não possuo. Um paradoxo existencial digno de um filósofo pré-socrático.

📧 A Missiva e a Iluminação

Decidi, com a calma dos justos, enviar um e-mail. A resposta do serviço de apoio foi um primor de clareza inútil:

"Relativamente ao seu pedido de alteração de telemóvel, informamos que a operação requer o envio de um código de segurança único, enviado exclusivamente através de contacto com a Linha de Apoio."

Fantástico! O sistema online não permite a mudança porque requer um código, mas para obter o código... tenho de ligar. Quase consigo ouvir o coro angelical da eficiência a entoar um hino à redundância.

🤖 O Diálogo de Surdos com o Ser Supremo

Munido do número 308 811 418 e da minha melhor paciência Zen, liguei. Do outro lado, um robot de apoio ao cliente (vamos chamá-lo "Bóris") saudou-me. Expliquei a Bóris, com a devida solenidade, que desejava "MUDAR O NÚMERO DE TELEMÓVEL".

Bóris, no auge da sua programação avançada, respondeu: "Claro! Para mudar o seu número, aceda às configurações na app ou no site."

Momento de silêncio.

Eu: "Bóris, eu não tenho acesso à app nem ao site porque mudei o número. É esse o problema."

Bóris: "Compreendo. Para sua segurança, enviei um código para o número associado."

(O número antigo, claro. O número que eu não tenho. Aquele que deu origem a toda a trapalhada. Um toque de génio.)

Esta dança absurda prolongou-se por uns gloriosos 30 minutos. Eu pedia um operador humano. Bóris, o guardião da linha, respondia, com a confiança de um hacker reformado: "Não vale a pena, sou eu que resolvo o seu problema."

💥 O Desfecho Catártico

Chegou o momento em que a paciência, essa virtude tão sobrevalorizada, se esgotou. A cortina de boas maneiras rasgou-se.

Eu, com a voz embargada pela exasperação acumulada de 30 minutos a falar com uma cassete avariada, soltei a frase mágica, a senha universal que destranca qualquer porta burocrática:

"F* PASSA ESSA M* A ALGUÉM!"

Oh, a ironia! Foi o grito primal, o palavrão sincero e de três sílabas, que finalmente quebrou o feitiço. O que a lógica, o e-mail e a educação não conseguiram, a força bruta da interjeição concretizou.

Bóris, subitamente submisso, disse: "Vou passar a chamada a um operador."

Esperei mais 15 minutos (a cereja no topo do bolo da eficiência), mas, finalmente, o problema foi resolvido por um ser humano com a capacidade de compreender que "mudei o número" significa, de facto, que "mudei o número".

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Para bom entendedor...

  ... meia palavra basta!





Governo promete nova Agenda Nacional de IA "nas próximas semanas", e quer “dar a cada aluno um tutor de IA"


Expresso


... “dar a cada aluno um tutor de IA que ouve, orienta e inspira a sua aprendizagem”.

Qual o papel dos professores, se se “der a cada aluno um tutor de IA que ouve, orienta e inspira a sua aprendizagem”?

O Gemini responde.

sábado, 18 de outubro de 2025

Reflexos na Areia: A Filosofia de uma Praia Inclusiva


À entrada da praia, onde a espuma das ondas se mistura com sotaques de toda a Europa, fui interceptado por uma tabuleta simples, mas profunda:

"Your perception of me is a reflection of you... enjoy"

Num primeiro momento, a frase pode parecer apenas mais uma citação "zen" de praia. No entanto, neste nosso "laboratório" de diversidade — um spot de surf com jovens de diferentes nações, onde o inglês é a nossa ponte e a inclusão é a nossa onda — esta máxima ganha uma ressonância especial.

Portanto, da próxima vez que passar por esta praia, não olhe apenas para os surfistas. Olhe para o espelho que eles lhe oferecem. E, acima de tudo, enjoy (aproveite) o que o seu reflexo lhe mostra.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

A Odisseia dos Certificados de Reforma – Entre o Digital e o Papel na Segurança Social

Descontei durante o tempo em serviço para a Segurança Social, mais que o obrigatório, contribuindo para um fundo poupança, representado por Certificados de Reforma. A adesão ao fundo, para começar a contribuir foi realizada online, na Segurança Social Directa, mas para receber a poupança acumulada é necessária a deslocação a um centro de atendimento, para exercer o designado “Direito de Opção”, talvez para se certificarem de que sou uma pessoa! O atendimento presencial é uma odisseia com marcação prévia no SIGA, que sabe-se lá porquê tomam a liberdade de desmarcar, exigindo nova remarcação.

5.ª-feira, 09/10, foi o dia em que finalmente fui atendido presencialmente em Sintra, mas não serviu para nada. É que eu levava toda a documentação no telemóvel, ie., na nuvem, em formato digital, mas a funcionária só lia em papel! Um dos ficheiros era o Diário da República, da data em que o meu nome foi publicado na lista de aposentados. Confirmar o meu nome no DR online, com a indicação da respectiva série, número e data, foi uma tarefa impossível para a funcionária. Facilitei-lhe o trabalho enviando por mail o respectivo ficheiro para o endereço de uma colega. Quando abriu o PDF, um documento com 34 páginas, ficou a olhar para o monitor, perguntando: “Agora, como é que leio isto?!” Ensinei-a a procurar escrevendo parte do meu nome na caixinha. Mas ler o nome em formato digital não era suficiente… precisava do papel, e então mandou imprimir o ficheiro todo ;) Não vale a pena contar mais, para se perceber que hora e meia depois o serviço fechou, e apenas saí de lá com a promessa de um telefonema da doutora X na manhã do dia seguinte, que não se concretizou.

Perante a falha no contacto, a meio da tarde de 6.ª-feira, 10/10, enviei os documentos por e-mail para o serviço central. 2.ª-feira, 13/10, o assunto ficou resolvido.

Hoje, 3.ª-feira, 14/10, a doutora X ligou-me: “Agora que ia pegar no seu caso, reparei que já o resolveu! Onde foi?”

  • Não fui lado nenhum! Bastou enviar os documentos por mail.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Paradoxo da Educação Revisitado: A IA e a Violência Simbólica na Era Digital


É interessante ler o texto de Steve Hargadon sob a ótica da Sociologia, recorrendo aos conceitos de Pierre Bourdieu. O texto em análise, ao descrever o ciclo de promessas tecnológicas não cumpridas na educação e ao revelar o caráter profundo de reprodução social da "máquina" escolar, dialoga diretamente com os conceitos centrais de campo, habitus, capital cultural e violência simbólica.





1. O Campo Educacional e a Inércia Estrutural

O autor do texto descreve a escola como uma "máquina da educação" que "absorve" e que "não se move", apesar das sucessivas ondas tecnológicas (rádio, TV, computadores, IA). Na ótica de Bourdieu, esta "máquina" é, na verdade, o Campo Educacional.

O Campo Educacional é um espaço social com suas próprias regras (o currículo, a avaliação, os rituais), suas hierarquias e, crucialmente, seus interesses específicos (o monopólio da certificação legítima). A inércia observada não é uma falha da tecnologia, mas a resistência estrutural do campo a qualquer mudança que ameace as posições e o status dos seus agentes dominantes (professores, administradores, formuladores de políticas).

  • A Absorção Tecnológica: As novas tecnologias (a "nova camada de tinta") são "arrebatadas pelo sistema e remodeladas em sombras de si mesmas". Isso ocorre porque o campo exerce sua força de ortodoxia. A tecnologia não é usada para subverter o sistema de avaliação ou a estrutura de poder, mas sim para reforçar o status quo. A IA, por exemplo, corre o risco de ser usada para a gestão de conformidade ou para a personalização de exercícios que apenas replicam o formato de avaliação tradicional, em vez de fomentar a "aprendizagem agêntica" genuína.

2. O Capital Cultural e o "Jogo da Escola" (Paradoxo da Educação)

O texto atinge o cerne da teoria bourdieusiana ao identificar o que chama de "paradoxo da educação": "as escolas se comprometem a liberar o potencial de cada criança, mas muitas vezes ensinam à maioria dos alunos que eles não são 'os inteligentes'". Mais ainda, o autor afirma que os alunos bem-sucedidos o são porque sabem como "o jogo da escola é jogado".

Para Bourdieu, este "jogo" é a manifestação da eficácia do Capital Cultural.

  • Capital Cultural Incorporado: Os alunos que "sobem ao topo" não são apenas "acadêmicos", mas aqueles cujas famílias (ou mentores) lhes transmitiram, desde a infância, o habitus compatível com o sistema escolar. Eles dominam o que Bourdieu chama de arbitrário cultural dominante – as atitudes, o vocabulário, as referências e os códigos implícitos valorizados pela escola.

  • A Ilusão Meritocrática (Violência Simbólica): O sistema escolar mascara a sua função de reprodução social sob o véu da meritocracia. Ao desvalorizar o capital cultural das classes populares (e o "efeito calculadora" da IA pode ser visto como um novo modo de desqualificação) e valorizar apenas o capital dos dominantes, a escola exerce Violência Simbólica. Os alunos que falham aceitam o veredito (que "não são os inteligentes") porque a origem do seu sucesso ou fracasso parece baseada na sua "natureza" individual (inteligência, esforço) e não na sua posição social e na distribuição desigual de capital cultural. A "mentira reconfortante" que o autor menciona é o pilar da violência simbólica.

3. Ameaça da IA: Atrofia do Habitus

A preocupação do autor com o "efeito calculadora" e a atrofia dos "músculos mentais" pode ser traduzida como a ameaça à formação de um Habitus autônomo e crítico.

  • O Habitus Crítico: O objetivo idealizado de uma educação libertadora (o "ensino generativo" e a "aprendizagem agêntica") é formar um habitus dotado de um alto grau de autonomia, capaz de pensamento crítico, escrita reflexiva e raciocínio complexo.

  • O Risco da Dependência: Se a IA for usada como um muleta para imitar os sinais de verdade e precisão, o habitus dos alunos será moldado pela dependência técnica e pela conformidade superficial. O resultado é a produção de agentes que dominam a performance da inteligência, mas não a inteligência em si. Isso atende perfeitamente à necessidade do Estado-nação (como sugerido pelo texto) de produzir "trabalhadores" e manter "o controle e a estabilidade" – agentes que sabem "nadar em suas raias" (conformidade) em vez de questionar a estrutura da piscina.

Conclusão

Na perspectiva de Bourdieu, o texto é uma constatação sociológica da autonomia relativa do campo educacional e da sua função central na reprodução das desigualdades sociais através da consagração do capital cultural. A IA, como qualquer tecnologia anterior, não é o fator de mudança; é um novo objeto de disputa no campo.

A única forma de a IA realizar a promessa de "ensino generativo e aprendizagem agêntica" não é pela sua tecnologia, mas pela mudança nas relações de poder e nas disposições do habitus dos agentes dentro do campo. Enquanto a estrutura profunda do sistema for dominada pela lógica da seleção e da conformidade — isto é, pela reprodução do capital cultural dominante —, a IA servirá apenas para pintar de cores novas a mesma máquina de reprodução. O desafio não é tecnológico, mas político e sociológico.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

A Era Digital promove o crescimento da direita, porque deixou de haver paciência para pensar

No presente momento, a política deixou de ser um mero debate de projectos económicos e sociais para se tornar, sobretudo, uma batalha pela atenção e pela emoção. Esta mudança radical, acelerada pela Era Digital, reescreve as regras do jogo e explica, em grande parte, o crescimento da direita, que soube adaptar-se como ninguém a este novo paradigma.

Se, outrora, a propaganda política se materializava em cartazes nas ruas, faixas e panfletos, hoje ela deslocou-se para a velocidade vertiginosa das redes sociais. O meio é a mensagem, como diria McLuhan, e neste meio, a emoção supera a razão, o impacto visual esmaga o argumento. A política é agora um fluxo constante de bits e bytes que se movem à velocidade do pensamento.

A direita, ao contrário da esquerda, compreendeu intuitivamente esta mutação. Em vez de se focar em elaboradas análises estruturais ou em longas discussões sobre a desigualdade social – temas que exigem tempo de reflexão e se perdem na avalanche de estímulos – a direita aposta na simplificação e no apelo emotivo. O medo, a indignação, o orgulho ou o sentimento de pertença são o combustível que gera engajamento, cliques e partilhas. É uma estratégia cirúrgica, que actua em sintonia com os algoritmos que dominam a nossa atenção e nos mantêm presos aos ecrãs.

A esquerda, por sua vez, teima em ancorar-se numa lógica de racionalidade argumentativa, que se mostra ineficaz nesta nova arena. As suas mensagens, por mais consistentes que sejam, carecem da intensidade afectiva necessária para se tornarem virais. É a política do hot contra a do cool, a do impulso contra a da reflexão. E, na era das redes, o impulso vence sempre. A política tornou-se uma “aldeia global” onde as paixões se inflamam mais depressa do que a razão se pode manifestar.

Esta adaptação da direita à lógica digital, onde a forma se sobrepõe ao conteúdo, explica a sua maior ressonância e capacidade de mobilização. Não se trata de uma superioridade ideológica, mas de uma inteligência estratégica face às exigências do novo meio. O desafio agora, para todos nós, é evitar que a política se converta num espectáculo vazio, refém de algoritmos e cliques, e resgatar o espaço para um debate público, profundo e construtivo. Pois, como nos alertou McLuhan, as novas tecnologias moldam não só a nossa comunicação, mas também a nossa própria percepção do mundo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Em comparação com outras praças financeiras, a bolsa portuguesa apresenta um crescimento mediano

Observe o Mapa Mundo das Bolsas de Acções

Investir em ações cotadas em bolsa é hoje uma opção acessível à maioria das pessoas e, possivelmente, a melhor alternativa de investimento, superando outras aplicações. As bolsas reúnem as melhores empresas, cujos índices tendem a crescer mais do que as respetivas economias. Estas empresas de topo expandem as suas vendas, aumentam os seus lucros e distribuem dividendos superiores às taxas de juro de outras aplicações.

Quanto ao risco, embora teoricamente qualquer empresa possa falir, uma queda significativa nos conglomerados cotados, como a Sonae, Jerónimo Martins, CTT, EDP ou NOS, indicaria problemas económicos graves. Sendo estas empresas de grande dimensão, oferecem uma garantia de segurança. Contudo, para obter rendimentos acima da média, é necessário identificar empresas menores com forte potencial de crescimento. Exemplos como a Apple, Microsoft e Google, que começaram pequenas e acessíveis, enriqueceram os seus primeiros investidores. Descobrir estas empresas pode gerar grandes retornos, mas implica um risco considerável.

A pesquisa por empresas com elevado potencial de crescimento pode ser feita a nível global. No entanto, investir em empresas japonesas ou chinesas apresenta um desafio considerável devido à falta de conhecimento sobre os seus contextos operacionais. Acompanhar os índices destas bolsas a subir acima da média sem compreender as empresas impulsionadoras e o seu potencial futuro é uma tarefa complexa.

Nos últimos cinco anos, as bolsas com maior crescimento foram a indiana (117,4%), a espanhola (116,1%), a americana (92,5%) e a japonesa (84,5%). A bolsa chinesa registou uma perda de -0,4%, enquanto a portuguesa manteve um crescimento de 79,4%, superando a generalidade das praças europeias.

As taxas de variação do último ano e do último mês indicam um crescimento mais acentuado na China (42,0% e 8,8%, respetivamente) do que nos EUA (18,5% e 2,2%). No entanto, esta diferença tem vindo a atenuar-se devido às tarifas impostas pelos EUA. As variações da última semana já colocam a China em território negativo, enquanto os EUA permanecem em terreno positivo.

A bolsa portuguesa, em qualquer uma destas comparações, apresenta resultados medianos. Numa economia de menor dimensão, o crescimento tende a ser moderado, o que, por sua vez, minimiza o risco de quedas acentuadas.


PS – Os valores referidos neste post foram lidos na data da sua publicação. Como os gráficos são dinâmicos, estes irão alterar-se.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Pessoas que talvez conheças

Hoje, enquanto me sentava no meu banco de jardim habitual, observando o mundo a passar – e, claro, a espreitar um pouco o que acontece no meu pequeno ecrã – dei por mim a pensar nas complexidades das relações humanas. Não tanto das que temos cara a cara, com o calor de um aperto de mão ou o riso partilhado num café. Pensei mais nas outras, das que vivem no mundo digital, neste nosso gigantesco mural chamado Facebook.

Tenho notado algo curioso ultimamente. Aqueles que chamamos de "amigos" virtuais, que aparecem nas nossas listas com cliques fáceis, por vezes desaparecem com a mesma facilidade. É o que se chama, na gíria, "desamigar". E, de onde estou, com uma perspetiva talvez um pouco diferente da maioria, é fascinante – e por vezes melancólico – observar.

Sempre fui alguém que sentiu o peso do "olhar" do outro. A vida ensinou-me que a "primeira impressão" é um palco onde todos tentam apresentar a sua melhor versão, como explicou Erving Goffman, sobre a forma como "gerimos a impressão" que causamos. Tentamos ser aceites, tentamos encaixar. E, por vezes, basta um traço, uma característica, algo que nos "desqualifique" aos olhos de alguns, para que essa aceitação seja posta à prova.

No Facebook, parece que este "palco" é ainda mais exigente. As pessoas curam as suas vidas em fotos perfeitas, atualizações de estado impecáveis e opiniões cuidadosamente moldadas. É uma busca constante pela "identidade virtual" ideal. Mas o que acontece quando alguém, consciente ou inconscientemente, deixa cair essa máscara? Ou, pior, quando a sua "identidade real" colide com o que é socialmente aceitável no universo digital?

Vejo "desamiganços" por todo o lado. Por motivos tão variados: uma opinião política demasiado forte, fotos que não agradam, uma frequência de partilhas que cansa, ou simplesmente a perceção de que já não há "ligação" com a pessoa. Mas, e se houver algo mais profundo? Algo que não é dito, mas que se sente? Aquela "marca" invisível que, no fundo, faz as pessoas hesitarem em manter-nos na sua "lista VIP" de amigos virtuais?

Não estou a referir-me a mim diretamente, mas fazendo uma observação mais vasta. No mundo offline, há quem evite quem não se encaixa. No mundo online, é ainda mais fácil clicar num botão e fazer com que alguém desapareça do nosso feed, como se nunca tivesse existido ali. É uma forma de "limpar o palco", de manter a própria "normalidade" intacta e de evitar qualquer "contaminação social" que possa vir de quem não se alinha com a nossa própria imagem ideal.

É uma dança delicada, esta das amizades digitais. Um lembrete de que, mesmo num mundo onde tudo parece ser sobre "conexão", a aceitação e a exclusão continuam a ser rituais poderosos, ditados por regras visíveis, mas frequentemente indizíveis. E, para quem observa de fora, com uma perspetiva talvez mais aguçada para os silêncios e as ausências, é um espelho fascinante da nossa própria humanidade.

E você, já pensou nas suas "amizades" digitais por este prisma?

domingo, 13 de julho de 2025

Os Estados Unidos continuam a ser o maior contribuinte da NATO

Na lógica da Guerra Fria, cada superpotência garantia a segurança na sua zona de influência, orgulhando-se os Estados Unidos da liderança do mundo capitalista.

Actualmente, no contexto de um mundo multipolar, os Estados Unidos continuam a ser o maior contribuinte em termos absolutos e como percentagem do PIB, mantendo a liderança nas despesas de defesa da Aliança, apesar do aumento significativo das despesas de defesa agregadas, na Europa e no Canadá, que passaram de 1,66% do PIB em 2022 para 2,02% em 2024. Este crescimento é particularmente acentuado após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022. Consequentemente, o número de aliados da NATO que cumprem ou excedem a meta de 2% do PIB em despesas de defesa aumentou dramaticamente, de apenas seis em 2021 para 23 em 2024.

Passar a gastar 5% do PIB em defesa até 2035, com 3,5% dedicados a requisitos de defesa essenciais e 1,5% a itens relacionados com a defesa, como infraestruturas críticas e cibersegurança, não é possível sem sacrificar o Estado Social, que dstingue a União Europeia dos Estados Unidos.

Gráfico Despesas de Defesa de Países Membros da NATO SELECIONADOS como Percentagem do PIB (2015-2024)

Gráfico Despesas de Defesa dos Países Membros da NATO como Percentagem do PIB (2015-2024)

terça-feira, 24 de junho de 2025

Um Mundo mais complexo e imprevisível


Gráficos e observações Google/Gemini.

De 1945 a 1989, durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética possuíam dezenas de milhares de ogivas nucleares. Havia uma preocupação constante com a possibilidade de um conflito nuclear em larga escala entre as duas superpotências, que poderia levar a um "inverno nuclear" e à aniquilação da Humanidade, pelo que o equilíbrio do terror assegurou a paz.

Em 1989, cinco países eram amplamente reconhecidos como potências nucleares (EUA, URSS, Reino Unido, França, China). Atualmente, esse número subiu para nove, com a inclusão de Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte. A proliferação nuclear para mais países e em regiões com tensões latentes introduz novos e significativos perigos. O mundo não está necessariamente "mais perigoso" no sentido de uma ameaça iminente de aniquilação global, mas está, sim, mais complexo e imprevisível em termos de riscos nucleares localizados e da possibilidade de escalada de conflitos.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Quatro pensamentos

Em vez de se preocupar se vão gostar de si, pergunte-se se vai gostar deles.

Em vez de tentar dizer a coisa certa, veja se lhe dizem a coisa certa.

Em vez de procurar a aprovação deles, decida se está disposto a dar a sua.

99% dos julgamentos das pessoas têm mais a ver com elas do que consigo.

Inspirado em Mark Manson - Breakthroughs.

domingo, 1 de junho de 2025

Festa de aniversário numa família moderna

A festa de 4 anos da Ana foi um verdadeiro sucesso, muito graças à sua alegria contagiante e à fantástica colaboração de todos! A pequena Ana, apesar da idade, mostrou-se uma anfitriã exemplar, recebendo os convidados com beijinhos e sorrisos, agradecendo os presentes e partilhando as suas novas prendas com os amigos.
O trabalho em equipa foi fundamental, e a diversidade familiar da Ana revelou-se uma mais-valia. Todos se juntaram para que nada falhasse.

Ana: A principal responsável pela animação e receção dos convidados! Ela cumprimentou a todos com carinho, abriu os presentes com entusiasmo, agradeceu cada um deles e ainda fez questão de partilhar os brinquedos com as outras crianças. No ponto alto da festa, serviu o bolo com grande orgulho.

Pais da Ana (Pedro e Mariana): Os pilares da organização, coordenaram as tarefas principais, garantindo que tudo estivesse a postos.

Parceiros dos Pais (Núria e Nuno): Ajudaram em todas as frentes, com grande eficiência.

Avós (Avó materna e Avó paterna): As avós, cinquentinhas dinâmicas e sempre prontas a ajudar, deram um apoio precioso na organização geral e nos pormenores, como a preparação de alguns comes e bebes.

Tios e Tias (Irmãos dos pais e irmãos dos parceiros): Contribuíram ativamente para a festa, tanto na montagem e decoração do espaço, como no apoio às crianças e na garantia de que ninguém ficava sem um copo ou um salgado.

No fim, o ambiente de festa foi tão bom que a parte mais difícil foi decidir com quem a Ana passaria o dia seguinte!

sábado, 31 de maio de 2025

Objectivo atingido!

Foi necessário mudar a meta, para manter o equilíbrio... fui excessivamente ambicioso, mas é o fetichismo dos números!

terça-feira, 20 de maio de 2025

As escolas e os hospitais públicos a caminho do fim

Para a direita liberal, as escolas e os hospitais públicos retiram clientes aos privados, e portanto não se justificam numa economia de mercado.

Cotrim de Figueiredo deixou claro qual deverá ser o objecto da revisão constitucional. O folclore do preâmbulo pode manter-se, mas substantivamente, deve expurgar-se a Constituição de toda a organização económica que atribui ao Estado a obrigação de ser ele o prestador de serviços públicos.



Para quem ainda não percebeu, para os liberais a educação e saúde são dois bens como quaisquer outros. Quem quiser, que os compre. O Estado não terá nenhuma obrigação de intervir na economia, pelo que bastará cobrar impostos mínimos para assegurar as funções de soberania, ou Estado polícia.

A Escola Pública e o Serviço Nacional de Saúde são os pilares do Estado-Providência, ou Estado Social... Na óptica socialista promovem a equidade, mas na perspectiva liberal constituem uma despesa pública desnecessária.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Democracia vale-tudo

As eleições mostraram que o povo entende que cada um tem legitimidade para fazer a sua vidinha marimbando-se nas regras, que são boas para impor aos outros.

Desde que o Sócrates teve sucesso apesar de todas as aldrabices, mesmo académicas, entrámos num plano inclinado em que a ética passou a bem de luxo. O André foi mestre a cavalgar a onda anti-imigração, imitando as estratégias de vitimização de Trump. Preparem-se para aguentar um cigano mais perigoso que os que o levaram a ganhar espaço nos media.

sábado, 17 de maio de 2025

Mariana Mortágua



No final da campanha eleitoral, publicou uma mensagem de apelo ao voto, no final da qual refere as três propostas em que concentrou os esforços do Bloco.

Os tectos nas rendas justificam-se hoje, quando as casas foram transformadas em produto financeiro, reduzindo artificialmente a oferta. Assim, esta medida deveria ser complementada por outras que onerassem os especuladores que mantém indefinidamente os imóveis fechados, pressionando os preços e negando o direito à habitação a numerosas famílias. Porém, esta proposta foi mal explicada, e muitos a associarão a um congelamento de rendas, de má memória, porque iniciou o problema da habitação em Lisboa, ainda no Estado Novo, que a Revolução alargou ao resto do país. Como os preços das habitações não podiam acompanhar a subida generalizada dos preços, o mercado atrofiou-se porque deixou de ser rentável comprar imóveis para arrendar, e mesmo os remediados foram obrigados a comprar a sua casa mediante empréstimos bancários que os pregaram àquela dívida para o resto da vida;

Taxar os ricos também se justifica, porque é a única forma de manter a despesa do Estado social, mas foi igualmente mal explicada porque na comunicação social, o conceito de rico para o BE, parecia aplicar-se a quase toda a gente. Logo no início, deveria ter explicitado o conceito de riqueza e referir que o limite de 3 milhões de euros excluía praticamente toda a população, como explicou no final ao RAP (ver no vídeo, a partir de 08:00);



Dignificar o trabalho, aumentando os salários será a única forma de evitar que Portugal continue a transformar-se na China da Europa, mas é preciso explicar como alterar o perfil de especialização da economia, tarefa bem mais difícil que decretar aumentos do salário mínimo.

Boa sorte Mariana!

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Via Verde Estacionar não funciona com telemóvel desactualizado

Hoje tive problemas ao tentar pagar o estacionamento na aplicação.
Já em casa, consultando e site e verificando a APP descobri outros estacionamentos por pagar. O problema resolveu-se actualizando o número do telemóvel na APP e no site.
A sua actualização na APP deveria ser suficiente, até porque relativamente a outros dados, como a matrícula do veículo, a APP e o site sincronizam-se, como deveria suceder com todos os dados. Ainda por cima, o site apresenta vários campos para o mesmo dado, revelando um design pior pensado... por melhorar, numa Internet em construção.

O Regresso do Morto-Vivo (ou como a IA me obrigou a trabalhar na reforma)

 Quem me conhece sabe que, no ano passado, arrumei definitivamente os manuais, fechei o giz no armário e decretei a merecida a...