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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Paradoxo da Educação Revisitado: A IA e a Violência Simbólica na Era Digital


É interessante ler o texto de Steve Hargadon sob a ótica da Sociologia, recorrendo aos conceitos de Pierre Bourdieu. O texto em análise, ao descrever o ciclo de promessas tecnológicas não cumpridas na educação e ao revelar o caráter profundo de reprodução social da "máquina" escolar, dialoga diretamente com os conceitos centrais de campo, habitus, capital cultural e violência simbólica.





1. O Campo Educacional e a Inércia Estrutural

O autor do texto descreve a escola como uma "máquina da educação" que "absorve" e que "não se move", apesar das sucessivas ondas tecnológicas (rádio, TV, computadores, IA). Na ótica de Bourdieu, esta "máquina" é, na verdade, o Campo Educacional.

O Campo Educacional é um espaço social com suas próprias regras (o currículo, a avaliação, os rituais), suas hierarquias e, crucialmente, seus interesses específicos (o monopólio da certificação legítima). A inércia observada não é uma falha da tecnologia, mas a resistência estrutural do campo a qualquer mudança que ameace as posições e o status dos seus agentes dominantes (professores, administradores, formuladores de políticas).

  • A Absorção Tecnológica: As novas tecnologias (a "nova camada de tinta") são "arrebatadas pelo sistema e remodeladas em sombras de si mesmas". Isso ocorre porque o campo exerce sua força de ortodoxia. A tecnologia não é usada para subverter o sistema de avaliação ou a estrutura de poder, mas sim para reforçar o status quo. A IA, por exemplo, corre o risco de ser usada para a gestão de conformidade ou para a personalização de exercícios que apenas replicam o formato de avaliação tradicional, em vez de fomentar a "aprendizagem agêntica" genuína.

2. O Capital Cultural e o "Jogo da Escola" (Paradoxo da Educação)

O texto atinge o cerne da teoria bourdieusiana ao identificar o que chama de "paradoxo da educação": "as escolas se comprometem a liberar o potencial de cada criança, mas muitas vezes ensinam à maioria dos alunos que eles não são 'os inteligentes'". Mais ainda, o autor afirma que os alunos bem-sucedidos o são porque sabem como "o jogo da escola é jogado".

Para Bourdieu, este "jogo" é a manifestação da eficácia do Capital Cultural.

  • Capital Cultural Incorporado: Os alunos que "sobem ao topo" não são apenas "acadêmicos", mas aqueles cujas famílias (ou mentores) lhes transmitiram, desde a infância, o habitus compatível com o sistema escolar. Eles dominam o que Bourdieu chama de arbitrário cultural dominante – as atitudes, o vocabulário, as referências e os códigos implícitos valorizados pela escola.

  • A Ilusão Meritocrática (Violência Simbólica): O sistema escolar mascara a sua função de reprodução social sob o véu da meritocracia. Ao desvalorizar o capital cultural das classes populares (e o "efeito calculadora" da IA pode ser visto como um novo modo de desqualificação) e valorizar apenas o capital dos dominantes, a escola exerce Violência Simbólica. Os alunos que falham aceitam o veredito (que "não são os inteligentes") porque a origem do seu sucesso ou fracasso parece baseada na sua "natureza" individual (inteligência, esforço) e não na sua posição social e na distribuição desigual de capital cultural. A "mentira reconfortante" que o autor menciona é o pilar da violência simbólica.

3. Ameaça da IA: Atrofia do Habitus

A preocupação do autor com o "efeito calculadora" e a atrofia dos "músculos mentais" pode ser traduzida como a ameaça à formação de um Habitus autônomo e crítico.

  • O Habitus Crítico: O objetivo idealizado de uma educação libertadora (o "ensino generativo" e a "aprendizagem agêntica") é formar um habitus dotado de um alto grau de autonomia, capaz de pensamento crítico, escrita reflexiva e raciocínio complexo.

  • O Risco da Dependência: Se a IA for usada como um muleta para imitar os sinais de verdade e precisão, o habitus dos alunos será moldado pela dependência técnica e pela conformidade superficial. O resultado é a produção de agentes que dominam a performance da inteligência, mas não a inteligência em si. Isso atende perfeitamente à necessidade do Estado-nação (como sugerido pelo texto) de produzir "trabalhadores" e manter "o controle e a estabilidade" – agentes que sabem "nadar em suas raias" (conformidade) em vez de questionar a estrutura da piscina.

Conclusão

Na perspectiva de Bourdieu, o texto é uma constatação sociológica da autonomia relativa do campo educacional e da sua função central na reprodução das desigualdades sociais através da consagração do capital cultural. A IA, como qualquer tecnologia anterior, não é o fator de mudança; é um novo objeto de disputa no campo.

A única forma de a IA realizar a promessa de "ensino generativo e aprendizagem agêntica" não é pela sua tecnologia, mas pela mudança nas relações de poder e nas disposições do habitus dos agentes dentro do campo. Enquanto a estrutura profunda do sistema for dominada pela lógica da seleção e da conformidade — isto é, pela reprodução do capital cultural dominante —, a IA servirá apenas para pintar de cores novas a mesma máquina de reprodução. O desafio não é tecnológico, mas político e sociológico.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A Escola necessita urgentemente de uma actualização

domingo, 26 de agosto de 2012

Educação Proibida

Inquestionavelmente sabe-se que a grande maioria das crianças aos 5 anos são mais curiosas, mais criativas e têm uma mentalidade mais aberta para a resolução de problemas que aos 15. Passar de uma estimativa de 98% das crianças com estas características para outra com 10%, atribuindo a culpa ao sistema escolar, é suficiente para obrigar a ver este vídeo qualquer interessado no ensino.

Quando a Escola uniformiza objectivos, desvaloriza a singularidade dos trajectos. Não é por mal que a Escola tenta uniformizar também os trajectos... mas alunos e professores sentem-se reduzidos na sua dignidade.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Escolas matam a criatividade

Inicialmente as crianças não têm receio de errar e podem ser criativas. A Escola "ensina-lhes" o pavor pelo erro e transforma-os em adultos "normais", bons para encher chouriços ;)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Para que servem os pais?


A Confap quer transformar as escolas em colégios internos. Pediu agora a extensão de horário de 8 para 12 horas, mas certamente a lógica da escola-depósito não ficará por aqui, e o Ministério da Educação compreende imediatamente que os papás não podem "perder tempo" com as crianças.

A possibilidade de as escolas do 1.º ciclo do ensino básico funcionarem 12 horas por dia, entre as sete da manhã e as sete da tarde, posta esta semana em cima da mesa pela Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), está longe de gerar consensos. A filosofia é adequar o horário das escolas públicas às jornadas de trabalho dos pais, libertando-os da necessidade de recorrer aos ATL (Actividades de Tempos Livres) que, ainda por cima, saem muito caros. De caminho, procura-se pôr a escola pública a funcionar numa lógica de centro escolar, capaz de oferecer terreno seguro para a brincadeira e para aprendizagens alternativas.

Para os porta-vozes da Confap a escola-armazém "tem que obedecer à regra dos três D's: descansar, divertir e desenvolver", defende Lucília Salgado. Um tempo que "seja de aprendizagem mas com características lúdicas e sem stress escolar".
Em defesa deste modelo recordam que "imensa gente frequentou colégios internos, portanto muito mais longe da família, e não me parece que isso lhes tenha tirado capacidade de imaginação ou autonomia". (Fórum Confap)

Contra este modelo manifestou-se Daniel Sampaio, afirmando que "é fundamental a vinculação de uma criança a um adulto seguro e disponível, não fazendo sentido aceitar que esse desígnio possa alguma vez ser bem substituído por uma instituição como a escola, por melhor que ela seja". (Ler artigo)

Sobre este tema é oportuno recordar o artigo de Joaquim Azevedo, E24: a grande solução para a educação.

  • De facto, a E24 é a grande solução social do futuro. Famílias não haverá (e para que é que deveria haver, se os pais não ligam nada aos filhos e os filhos aos pais, se as famílias se fazem e desfazem ao ritmo dos bonecos de neve), os empregos serão cada vez mais precários, incertos e mal pagos (e para quê ser diferente se podemos agora combinar dois e três turnos?) (...)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Na escola em 1969 e em 2009...



"Todos pensam em deixar um planeta melhor para os nossos filhos... Quando é que pensarão em deixar filhos melhores para o nosso planeta?"

Uma criança que aprende o respeito e a honra dentro da própria casa e recebe o exemplo dos seus pais, torna-se um adulto comprometido em todos os aspectos, inclusive em respeitar o planeta onde vive...



Mail em circulação na Internet.

sábado, 9 de maio de 2009

Dá Deus pão a quem não tem dentes!

Não reconhecemos o valor daquilo que é gratuito. O ensino obrigatório desvaloriza-se com a sua extensão e gratuitidade, mas para vivermos numa sociedade livre precisamos de um Universo mais educado. No entanto vai-se frequentemente longe demais quando se pretende responsabilizar a Escola por tudo o que corre mal na sociedade.

Quando hoje li no EXPRESSO que as escolas irão distribuir preservativos aos alunos do 10º ano, ultrapassando as funções dos serviços de saúde, recordei-me da utilidade que os meninos lhe dão em África ;)

domingo, 3 de maio de 2009

Medina Carreira critica a escola-depósito



Eis alguns extractos da entrevista:

  • O que vai derrotar a democracia de 76 é a economia.

    Estamos a viver acima das possibilidades, consumindo 111 € por cada 100 € de produção, agravando o endividamento.

    A escola é inclusiva se as pessoas estão lá para aprender. Se não estão aprender têm que ir para outro sítio…. Mete-se toda a gente num estádio de futebol a dar pontapés na bola! Mas na escola só pode estar quem queira aprender. O ensino em Portugal é uma intrujice cara e depois inverte-se isto. Vamos avaliar os professores, nem sei porque critério, no estado em que aquilo está parece-me que é uma tontice, mas não se avaliam os alunos. Isto tem pés e cabeça? Isto é de uma sociedade de gente com juízo?


O resto parece resumir-se a que o grande problema da democracia são os partidos, porque no nosso regime estes servem-se do Estado em vez de servir o país.

sábado, 2 de maio de 2009

Uma espécie de Jihad educacional


  • Por ser obrigatória, a escolaridade não é sinónimo de mais e melhor educação Sucedem coisas na Educação que nos remetem para o limbo das verdades absolutas e das guerras sagradas e sugerem uma espécie de Jihad educacional. Com uma diferença de monta: Maomé queria converter; Sócrates quer obrigar. Manter o maior número de almas na escola, quer queiram quer não, tornou-se mais fundamentalista que conseguir conversões ao islamismo. Com uma segunda diferença de monta: Maomé não escapou sem a concorrência de Cristo, Buda ou Vishnu; Sócrates está acompanhado por todos, do CDS ao Bloco, passando pelo PSD e PC, mais sindicatos, associações de pais e outras cortes. Até Louçã gritou aleluia na Assembleia da República. Um bingo politicamente correcto!

    Blasfemo, eu sou de opinião que obrigar os portugueses a permanecerem na escola até aos 18 anos é um rematado disparate. Eis alguns dos argumentos com que fundamento esta opinião:

    1. Vivemos tempos onde as leis e as práticas são cada vez menos democráticas. À bruta aqui, placidamente ali, o polvo socializante do Estado, em verdadeira deriva autoritária, vai-nos sufocando e controlando electronicamente. Os direitos do Estado são constantemente invocados para espezinhar, com a submissão generalizada duma sociedade abúlica, os direitos do cidadão. Serve tudo como argumento: a fuga ao fisco ou as normalizações comunitárias; a dificuldade de esterilizar as colheres de pau ou a bondade de respirar ar puro e fazer jogging ao domingo e feriados. Como pai, não aceito que o Estado decida por mim e pelos meus filhos a educação que eles prosseguem. Como cidadão, quero liberdade para trabalhar aos 16 anos, como, aliás, o próprio Código do Trabalho consigna. Deve o Estado garantir a todos que queiram e tenham capacidade para tal, sublinhe-se, a prossecução de estudos, sem entraves. Mas não deve o Estado impor a Escola a quem já pode ser responsabilizado por crime, sabe o que faz e quer ir trabalhar. Porque ao invés de ser compulsiva, a Educação deve ser tida como um direito. Chega de Estado que diz proteger-nos de tudo menos dele próprio e de uma certa geração política de que o primeiro-ministro é rematado exemplo.

    2. Ao argumento anterior, que é teórico, acrescem outros, de natureza prática. Os nove anos de ensino obrigatório, aprovados em 1986, demoraram 10 anos a transpor para a prática efectiva. Ainda hoje não são cumpridos na íntegra. Se teimarmos neste disparate e quisermos manter na Escola, à força e à pressa, quem lá não quer estar ou não tem capacidade para prosseguir estudos, acrescentaremos mais violência e mais indisciplina a um ambiente que já é grave. Tal medida, a não colher o primeiro argumento, pressuporia uma preparação que não foi feita (basta ver a ligeireza da ministra, que não há muito disse que a medida seria um erro, e agora afirma que não precisa nem de mais escolas nem de mais professores para receber os estimados 30.000 novos alunos). Pressuporia uma reformulação completa dos objectivos e das vias do ensino secundário, principalmente quanto ao ensino profissional que, como está, é um criminoso logro. Pressuporia a efectiva gratuidade do ensino, que está longe de estar cumprida no quadro dos 9 anos vigentes. Se uma das causas do actual abandono, que se aproxima dos 40 por cento, radica nesta variável, alguém de bom senso antecipa que a sociedade, com dois milhões de pobres e dois milhões de assistidos, mais de meio milhão de desempregados e PIB a cair aos trambolhões, pague para ficar com os filhos 12 anos sentados na Escola? Com outros salários, com outro nível de vida, talvez. Assim, obviamente não! E não me venham com a falácia das bolsas, que um Estado quase falido não vai pagar logo que passem as eleições. É só olhar para a história de 2005 a 2009 para perceber que estamos nas antípodas da seriedade e no terreno do mais rudimentar marketing político.

    3. O que os outros fizeram deve servir-nos para aprender e integrar o nosso processo de decisão. Não temos que inventar a roda, mas não temos que decidir porque os outros fizeram. Chega de servilismos à Europa e à OCDE. Aqui, devemos fazer em cada momento o que é adequado à nossa realidade e à nossa cultura. Mas, sobretudo, não mintam. Quem disse que a maioria dos países da Europa já mantém os jovens na escola até aos 18 anos? Na Europa a 27 só é assim em cinco países (Alemanha, Polónia, Bélgica, Holanda e Hungria). Os outros 22 libertam os jovens da obrigatoriedade do ensino aos 16 anos, ou antes. A Áustria, a Dinamarca, a Suécia e a Finlândia, que não são propriamente atrasados, pertencem a esse grupo e têm uma escolaridade obrigatória de nove anos.

    Por ser obrigatória, a escolaridade não é sinónimo de mais e melhor educação. Se o interesse for percepcionado e o desejo de aprender for efectivo, não é necessária a obrigatoriedade. Os jovens procurarão livremente mais formação. Mas tal não acontecerá enquanto os longos percursos de escolaridade desembocarem no desemprego ou servirem, tão-só, para alimentar os call centers, que acolhem actualmente 50 mil licenciados ou universitários, a 500 euros de salário, mês sim, mês não.

    In PÚBLICO, 29/04/2009, Santana Castilho



Imagine-se o que vem a caminho:

1. - Trabalhar com 18 anos será considerado exploração de menores;

2. - Aos 18 anos não deverão poder responder pelos seus actos, para terem uma boa desculpa nos casos de violência escolar;

3. - Enfim, aos 18 anos estarão aptos a votar porque já viram toda a pornochanchada.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Continuar a abandalhar a educação


  • Doze horas é a carga horária mínima anual para os temas de educação sexual serem tratados na escola. Esta é uma das propostas previstas no projecto entregue ontem no Parlamento pelo PS, que prevê ainda a inclusão obrigatória da educação sexual nas escolas e um dia para assinalar o tema.
    A iniciativa legislativa é da Juventude Socialista (JS) mas apresentada pelo PS, informa o vice-presidente da bancada parlamentar socialista e ex-líder da JS, Pedro Nuno Santos.
    PÚBLICO, 13.02.2009


Escolarizar a educação sexual é certamente roubar aos jovens o encanto da descoberta. A escola deveria limitar-se ao seu core business, os saberes clássicos: ensinar a ler, escrever, contar, raciocinar em termos lógicos... e já agora a saber utilizar as tecnologias da informação. Se a escola cumprisse a sua função, cada qual seria livre para aprender o que desejasse.

Juntar rapazes com raparigas - que obviamente têm interesses diferentes - para lhes "dar" educação sexual acabará por ser mais uma seca da escola depósito.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A falência da escola-depósito


  • O Conselho Executivo (CE) da Escola Básica 2, 3 de Santa Maria, em Beja, demitiu-se em bloco, «saturado» com vários casos de violência no estabelecimento de ensino, como agressões entre alunos e a funcionários, professores e pais.
    «Apresentámos a demissão, porque estamos cansados e saturados com vários casos de violência na escola, que deixaram de ser pontuais e passaram a ser frequentes», explicou hoje à agência Lusa a professora e presidente demissionária do CE da escola, Domingas Velez.
    Diário Digital, 27 de Outubro de 2008


Uma escola inclusiva não é um depósito de crianças!

Seria interessante estudar a relação entre a imposição de aulas de substituição sem sentido, violentas em si mesmas, e a generalização da violência nas escolas.

sábado, 23 de agosto de 2008

Basta ficar aprovado a Educação Física para passar de ano!


Não estou a inventar. Vou copiar o início do artigo do EXPRESSO.

  • Luís, 15 anos, já mudou várias vezes de escola e chumbou a oito das nove disciplinas curriculares do 6º ano de escolaridade. Só passou a educação física. Apesar deste resultado, passou para o 7º ano e está inscrito noutra escola vizinha. Aconteceu na EBI 2,3 Vasco Santana, em Odivelas, e não é caso único no país.
    EXPRESSO/Assinatura


Este aluno só ficou aprovado em Educação Física e mesmo assim transitou de ano. Que excelente exemplo!

Há justificações para tudo! Naturalmente que não são consensuais.


Como se compatibilizam exemplos destes com o discurso do trabalho?

Recordo a lei de ouro do trabalho escolar: MAIS TRABALHO deverá traduzir-se sempre por uma MAIOR CLASSIFICAÇÃO.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Rigor???

  • A treta educativa de que somos todos iguais e temos todos os mesmos direitos

    Bristol. Inglaterra, cidade de médias dimensões, chuva, uma escola cheia de miúdos, cerca de mil, e quatro escolas estrangeiras de visita: Espanha, Portugal, Noruega e Lituânia. Seria mais uma experiência profissional, uma das muitas que já integrei, e não mereceria lugar no jornal se não tivesse vivido momentos que me fazem pensar para além do profissional.
    Fiquei impressionada com o rigor, com a formalidade, da escola que visitei. Os alunos, miúdos entre os dez e os dezassete anos, usam uniforme, cumprem horário - não há campainha -, são castigados e premiados, cumprem regras e são educados para o reconhecimento da autoridade e o respeito pela hierarquia. aqueles miúdos não precisam de toques estridentes de campainha para saberem que devem dirigir-se para as aulas, não arrumam os seus materiais em algazarra, ao som irritante da dita cuja. Desde pequenos aprendem a regular-se pelos seus relógios e, para eles, é normal e correcto que assim seja. Estes miúdos e professores têm aulas apenas de 60 minutos, entram às 8h30m e saem sempre às 14h40m. Estes alunos e professores têm tempo para viver para além da escola: para ler, brincar, estudar, conviver, fazer desporto, etc. No entanto, estes miúdos não têm mais insucesso que os portugueses e, pelo contrário, de forma geral, mostram muito maior domínio das competências básicas! Então, parece-me, está provado que o sistema português, que abusa do tempo passado na sala de aula e minimiza o rigor, está completamente errado! Um professor inglês, surpreso face ao tempo que os nossos alunos passam na escola e face à duração das aulas, mostrou-se um artigo científico onde se prova que, para além dos 60 minutos, a capacidade de concentração e trabalho de qualquer criança e/ ou jovem é nula!! Perante esta situação, eu, que há muito desconfio do sistema português, fiquei angustiada. será que a equipa ministerial, as várias desde há muitos anos, não conhecem outras realidades, não fazem estudos, não comparam metodologias e sucessos, não lêem revistas científicas, não estudam as mais recentes filosofias e psicologias da aprendizagem?!! E, para além disso, como pode a UE, a tal União de proximidades, de objectivos comuns, aceitar regras tão profundamente diferentes entre os diferentes estados-membros? Porque dos cinco países presentes Portugal é o único com aulas de 90 minutos (e 135! BARBARIDADE!), o único em que os alunos passam tantas horas na escola, o único em que ainda vigora a treta educativa de que somos todos iguais e temos todos os mesmos direitos! Em Inglaterra, os miúdos crescem aprendendo e compreendendo que o Professor é detentor de sabedoria, de poder conferido por um estatuto profissional, que deve ser respeitado e obedecido. Os mais pequenos, miúdos de onze anos, com o seu uniforme de calças pretas e azul-turquesa, respeitam até o seu delegado de turma que, para se distinguir do todo da turma, usa... gravata! Quando me contaram, sorri. Achei que era mais uma loucura exagerada dos ingleses. Mas, agora, vivi a experiência, observei os miúdos e, sinceramente, lamentei a triste realidade do meu país...
    Um país sem regras, um lugar onde vale tudo, um espaço onde os limites são confusos, não pode funcionar! Mais uma vez, como já outras vezes me aconteceu, dei comigo a pensar o que é que, de facto e com efeitos visíveis, foi feito, em termos de educação cívica e cultural, desde 1974 até hoje. A resposta, para não ser pessimista e porque acabei de chegar cheia de esperanças, é que quase nada. Porque não se pode educar sem regras, sem impor limites, sem definir hierarquias e sem fomentar a autonomia!
    Bom, eu não queria viver nada em Inglaterra. Não gosto da chuva contínua, dos edifícios tristes nem da língua grosseira. Mas invejo o modelo educativo que eles praticam! Invejo um povo que não tem medo de dizer que é diferente ser-se professor ou aluno, que não receia ser apelidado de fascista, apenas por estabelecer e fazer cumprir regras. esta gente, os ingleses de hoje, descendem de quem viveu a guerra e reconstruiu um país. Será que a nós nos falta, ainda, a experiência da guerra? Terror, já nós conhecemos...

    Maria Luísa Moreira
    Professora


O texto foi publicado dia 24 de Janeiro de 2008. Chegou-me num .jpg por mail, mas não é possível identificar o respectivo Jornal, embora uma pesquisa na Internet tenha revelado que este artigo já esteve nos servidores da VEJA. Mantive os sublinhados da autora.
Agradeço o trabalho de digitação do Cantinho da Educação.

Nos países com sistemas educativos que funcionam bem, todos se vão rir do prémio dos 500 euros inventado pelo ME. Os bons estudantes consideram a sua educação como um investimento a longo prazo, mas um Ministério sem perspectivas de futuro só poderia criar jackpots anuais. Portugal deixou de ser o "bom aluno" da União Europeia, para se tornar a anedota da União.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Uma mãe e encarregada de educação agradecida

Transcrevo abaixo um mail que circula na Internet, denunciando a política educativa do ME como ajustamento dos recursos humanos à escola-depósito.


CARTA DE AGRADECIMENTO

Logo depois de ter lido aqueles documentos sobre a avaliação dos professores, pensei como lhe deveria agradecer, Srª Ministra. Afinal, aquelas horas passadas diariamente junto do meu filho a verificar se os cadernos e as fichas estavam bem organizados, a preparar a mochila e as matérias a estudar para o dia seguinte, a folhear a caderneta escolar, a analisar e a assinar os trabalhos e os testes realizados nas muitas disciplinas, a curar a inflamação de uma garganta dorida pela voz de comando “Vai estudar!” ou pela frase insistentemente repetida, de 2ª a 6ª feira: “DESPACHA-TE! AINDA CHEGAS ATRASADO!” ou o incómodo e o tempo perdido para o levar diariamente à Escola, percorrendo, mais cedo do que seria necessário, um caminho contrário àquele que me conduziria ao meu emprego, tinham finalmente, os seus dias contados. Doravante, essa responsabilidade passaria para a Escola e, individualmente, para cada um dos seus professores. Finalmente, poderei ir ao cinema, dar dois dedos de conversa no Café do Sr. Artur, trocar umas receitinhas com a minha vizinha (está entrevadinha, coitadinha!) ou acomodar-me deliciosamente no sofá da sala a ver a minha telenovela brasileira preferida.

O rapaz ainda me alertou para os efeitos das faltas o conduzirem à realização de uma prova de recuperação. Fiz contas e encolhi os ombros - poupo gasóleo e muitos minutos de caminho, de tráfego e de ajuntamentos. Afinal, ele até é esperto e, se calhar, na internet, encontra alguns trabalhos ou testes já feitos… Sempre pode fazer “copy – paste”… Efectivamente, as provas de recuperação parecem-me a melhor solução para acabar com a minha asfixia matinal e vespertina. Ontem, a minha vizinha da frente, que tem dois ganapos na escola do meu, disse-me que, se ele continuar a faltar, o vêm buscar a casa, e que, no próximo ano lectivo, os professores vão tomar conta deles depois das aulas.

Oiro sobre azul. Obrigada, Srª Ministra. A Senhora é que percebe desta coisa de ser mãe! A Senhora desculpe a minha ousadia, mas será que também não seria possível fazer uma lei para os miúdos poderem ficar a dormir na escola? Bastava mandar retirar as mesas e cadeiras das salas de aula e substituí-las por beliches, à noite. De manhã, era só desmontar e voltar a arrumar. Têm bar, cantina e até duche. Com jeito, eles ainda aprendiam alguma coisinha sobre tarefas domésticas, porque, em casa, não os podemos obrigar a fazer nada ou somos acusados de exploradores do trabalho infantil com a ameaça dos putos ainda poderem apresentar queixa junto das autoridades policiais.

Ao Sábado, Srª Ministra, podiam ocupá-los com actividades desportivas ou de grupo, teatro, catequese, escuteiros, defesa pessoal…

O ideal mesmo era que os pudéssemos ir buscar ao Domingo, só para não se esquecerem dos rostos familiares.

O meu medo, Srª Ministra é aquela ideia que a minha vizinha Sandrinha, aquela dos três ganapos, comentava hoje comigo. Dizia-me que a Senhora Ministra quer criar o ensino doméstico. Eu acho que ela deve ter ouvido mal ou então confundiu o jornal da SIC com aquele programa da troca de casais do canal 24. Eu acho que isso não vinga em Portugal, porque não temos a extensão de uma América do Norte ou de uma Austrália e, por outro lado, tinha que comprar e equipar os VEI (veículos de educação itinerante), o que iria agravar mais o deficit das contas públicas e o insucesso dos nossos miúdos. Foi isso eu disse à Sandrinha. Acho que ela deve estar enganada. Logo agora, que podemos respirar de alívio porque não temos que nos preocupar com a escola dos garotos, essa ideia vinha destruir tudo, porque os obrigava a ficar em casa para receberem os VEI e aos pais ainda iria ser exigido algum acompanhamento.

A Senhora faça é aquilo que decidiu e não oiça o que os inimigos dos pais e das mães lhe tentam dizer (já agora, lembre-se da minha sugestãozita!). Assim, os professores, com medo da sua própria avaliação, passam a dar boas notas e a passar todos os miúdos e, desta forma, o nosso país varre o lixo para debaixo do tapete, porque é muito feio e incomodativo mostrarmos, lá fora, que somos menos capacitados que os nossos “hermanos” europeus.

Uma mãe e encarregada de educação agradecida

O Regresso do Morto-Vivo (ou como a IA me obrigou a trabalhar na reforma)

 Quem me conhece sabe que, no ano passado, arrumei definitivamente os manuais, fechei o giz no armário e decretei a merecida a...