Dizem que a vida é feita de escolhas, mas, às vezes, a vida é feita de adaptações que acabam por se tornar o melhor dos caminhos. Quando o liceu era para os filhinhos do papá e as escolas técnicas para outros, restou-me a Escola Comercial. E quando o mundo do trabalho me fechou as portas porque a caligrafia me desacretitava, a solução não foi o conformismo, mas sim a dactilografia estratégica.
Preenchi o impresso para o concurso de professores numa máquina de escrever. O sistema, na sua ironia habitual, agradeceu-me a "paciência". Mal sabiam eles que aquele era o meu primeiro passo rumo a uma autonomia que ninguém se atreveria a prever.
Fui feliz nas aulas porque era novo e levava ideias arejadas. Mas o verdadeiro salto deu-se quando os computadores e a Internet deixaram de ser ficção para passarem a ser a minha ferramenta de trabalho. Enquanto muitos se perdiam a perguntar "por onde entrava a Internet", eu já estava a caminho de Londres para dominar o inglês que as páginas da rede exigiam.
O que se seguiu foi o que gosto de chamar de "Burguesia Digital":
- O investimento inicial: Criar blogues, organizar recursos, obrigar os alunos a pensar e a publicar online. Dá trabalho, é certo, mas cria uma estrutura que se sustenta.
- O retorno: Tempo. Tempo para fazer um Mestrado em Sociologia quando os horários de "níveis novos" (aqueles que ninguém queria) me deram dias livres. Tempo para transformar a obrigação em saber.
Hoje, os blogues são o meu arquivo vivo. No início, este caminho não foi uma escolha consciente, mas foi a adaptação necessária à realidade. Hoje, é um caminho feliz. O gosto de aprender algo novo todos os dias não é uma meta; é o estado natural de quem descobriu que, se a mão não escreve de forma legível para o mundo, as teclas abrem portas que o mundo nem sequer sabe que existem. Escolhi ser eterno estudante.

