Se Max Weber se preocupava com o sentido que cada um dá à sua "caipirinha", Émile Durkheim estaria no canto do bar, de bloco de notas na mão, a observar se o comportamento dos presentes não está a fazer desmoronar os alicerces da civilização ocidental.
Para o pai da sociologia francesa, a letra de Amor e Sexo não é uma confissão íntima; é um relatório sobre o estado da nossa Consciência Colectiva.
1. O Amor não é Sorte, é Disciplina!
Durkheim soltaria uma gargalhada ruidosa ao ouvir que "amor é sorte". Para ele, o amor é um Facto Social. É o "latifúndio", sim, mas no sentido de uma estrutura que a sociedade nos impõe para não morrermos de Anomia (aquele vazio existencial de quem não tem regras).
Quando a letra diz que o amor é "cristão" e "divino", Durkheim assente com a cabeça: a sociedade cria o Sagrado para se adorar a si própria. O amor é a "Solidariedade Mecânica" a tentar sobreviver — um conjunto de rituais (a "novela", o "teorema") que garante que não nos portamos como animais selvagens à hora do jantar.
2. O Sexo como "Efervescência Colectiva" (ou apenas Caos)
Onde Rita Lee vê "uma selva de epiléticos", Durkheim vê o perigo da desintegração. O sexo, enquanto "pagão" e "invasão", é a força que ameaça a coesão. No entanto, como bom sociólogo, ele reconheceria no "Carnaval" o momento da Efervescência Colectiva. É aquele breve instante em que a sociedade deixa a malta "invadir" as regras para que, na Quarta-feira de Cinzas, todos voltem obedientemente para o "latifúndio" do casamento. O sexo é o "profano" necessário para que o "sagrado" (o amor) pareça mais brilhante.
3. A Tirania da "Vontade"
"Sexo sem amor é vontade", diz a canção. Para Durkheim, isto é um diagnóstico clínico de uma sociedade doente. A "vontade" individual, sem o freio moral do grupo, é um poço sem fundo. Deixar o sexo ser apenas "vontade" é condenar o indivíduo a um desejo infinito que nunca se satisfaz. Para Durkheim, o sexo só é "do bom" se for devidamente enquadrado pela função social. Fora disso, é apenas "anomia" — e nós sabemos que, para Durkheim, a anomia acaba mal (leiam o livro dele sobre o Suicídio antes de pedirem a próxima rodada).
4. Bossa Nova vs. Carnaval: A Ordem das Coisas
O amor é "Bossa Nova" porque é harmonioso, previsível e mantém o tom da instituição. O sexo é "Carnaval" porque é a excepção ritualizada. Durkheim resumiria a canção assim: o Amor é a Solidariedade que nos obriga a ser "patéticos" (ou seja, previsíveis e sociais), enquanto o Sexo é a energia bruta que a sociedade tenta, a todo o custo, transformar em "dois" (um contrato funcional) para que não acabemos todos sozinhos a comer gelado no sofá.
5. O Amor Romântico como "Anomia" e Paixão Desregulada
Durkheim via o conceito de amor romântico a emergir, mas não o celebrava como os poetas. Para ele:
O Amor Romântico é um facto social da modernidade.
O Perigo é que ele seja demasiado "animal" (pulsional) e pouco "social" (regulado).
A Solução é o "Amor-Instituição": aquele que transforma a paixão inicial numa função social estável.
Portanto, se Durkheim ouvisse a Rita Lee dizer que "amor é para sempre", ele concordaria... mas acrescentaria que só é para sempre porque a Sociedade (através das leis e da moral) obriga a que assim seja, e não porque o "cupido" acertou no alvo.
Para o sociólogo francês, o amor romântico sem a disciplina social era apenas uma forma de "embriaguez colectiva" que passaria depressa, deixando o indivíduo isolado e anómico.
Da próxima vez que sentirem que o amor é "sorte", lembrem-se de Durkheim: é apenas a vossa Consciência Colectiva a sussurrar-vos ao ouvido para não destruírem a família tradicional. Nada existe de moral em viver por viver. A moralidade do acto reside na subordinação do indivíduo aos interesses da sociedade, começando pela sua família.
Uh-uh! Ai, a Coesão Social...



