sábado, 8 de agosto de 2026

O Privilégio de Acordar

Há momentos na vida em que a fragilidade do nosso corpo e da nossa existência se revela sem aviso. A recente entrevista de Nuno Markl ao programa Alta Definição, conduzida por Daniel Oliveira, serviu de espelho para uma reflexão profunda sobre o que significa escapar do abismo e regressar para contar a história.

Após superar dois AVCs e um longo processo de reabilitação, Markl verbalizou um conflito interior que muitos de nós já sentiram, ou intuíram, ao passar por momentos de fronteira. Quando Daniel Oliveira lhe perguntou qual seria a pergunta cuja resposta gostaria de ter garantida, a resposta de Markl foi ao fundo da questão existencial:

«Gostaria de tirar dúvidas sobre se existe uma entidade suprema de facto, chamemos-lhe Deus por exemplo. (...) No entanto, depois de me safar de dois AVC’s e de estar aqui, eu sei que é com muito trabalho meu, mas gostaria de saber se houve mais alguém envolvido. Há alguém a ver isto e jogar connosco tipo Sims?»

Esta oscilação entre a memória afectiva da fé (como a presença de Deus na casa das avós católicas na infância) e o rigor de quem reconhece o seu próprio esforço e a lógica da ciência é o retrato fiel da mente humana perante o imponderável. Por um lado, o fascínio pela complexidade do mundo:

«Tem que existir qualquer coisa. Isto é tudo muito bizarro e muito cheio de detalhes... Mas por outro lado a minha mente racional diz que se calhar não, isto é tudo um acaso... mas gostaria de saber mais qualquer coisa sobre o sentido da vida.»

Quando sentimos que estivemos, ainda que por instantes, com um pé do "lado de lá", as urgências artificiais do quotidiano desfazem-se. A dúvida sobre se somos peças num tabuleiro vasto ou meros frutos de um acaso biológico não traz angústia — traz uma capacidade renovada de espanto.

A verdadeira lição de quem passa por estes processos não está em encontrar uma certeza dogmática sobre a existência de uma força suprema, mas em reconhecer a densidade do presente. Percebe-se, finalmente, que o maior mistério e a maior dádiva não estão no que virá depois ou nas mecânicas invisíveis do universo, mas na simplicidade do regresso: a conquista diária da autonomia, o corpo a reconstruir-se e o renovado e extraordinário privilégio de abrir os olhos a cada manhã.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A estatística do pirilampo e a vertigem do click

Há uma venerável tradição no jornalismo moderno que consiste em olhar para o mundo através do buraco de uma fechadura e, acto contínuo, anunciar ao país que o horizonte desapareceu.

O Professor Luís Aguiar-Conraria assinou no Expresso um texto exemplar sobre esta curiosa arte de fabricar o apocalipse à semana. O enredo é simples, quase bucólico: as candidaturas ao ensino superior atrasaram-se um par de dias por mor de um percalço informático na emissão das fichas ENES. Nada que perturbasse o destino do mundo ou a contagem final dos prazos — que, para cúmulo, até eram mais longos este ano.

Porém, para a nossa imprensa sequiosa de drama, um atraso burocrático de quarenta e oito horas não é um contratempo: é uma tragédia nacional. Em menos de nada, lá surgiram as manchetes catastróficas a proclamar que o país tinha deixado de querer estudar. Ao quinto dia, já se contabilizavam quedas vertiginosas de 63% e se encomendavam exéquias à juventude portuguesa.

Marshall McLuhan explicou-nos, há meio século, que o meio é a mensagem. Tinha razão, mas pecou por escassez. Hoje, o meio não é apenas a mensagem: é uma vertigem. A imprensa já não informa sobre a realidade; compete com ela em velocidade. E nessa corrida desenfreada pelo clique imediato, um facto completo e contextualizado é um obstáculo imperdoável. A notícia tem de ser rápida, quente e, sobretudo, assustadora. Se a realidade recusa cooperar com a catástrofe, pior para a realidade: ajusta-se a escala, isola-se o primeiro dia da contagem e serve-se o pânico em bandeja de prata.

Seguiram-se, como era inevitável, os habituais doutores da mula ruça, prontos a explicar a "crise" com teorias de profundidade abissal: a demografia, o preço das casas em Lisboa, a desvalorização dos diplomas e a sociologia do desalento. Ninguém ousou olhar para o óbvio — a mudança das regras dos exames e um simples relógio burocrático. Para quê a simplicidade dos factos quando se pode ter a sumptuosidade de uma boa teoria do caos?

A verdadeira notícia — a de que as candidaturas estavam, afinal, a subir e a recuperar — ficou na gaveta. Afinal de contas, "tudo corre dentro da normalidade" é uma manchete que não vende jornais, não gera shares e, pior do que tudo, obriga a pensar antes de escrever. E pensar, nos tempos que correm, é um luxo que o algoritmo não tolera.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Xadrez

Brancas a jogar.

Promover a:

domingo, 2 de agosto de 2026

Puzzle 15

Tente completar o puzzle em menos de 80 movimentos.
Movimentos: 0

sábado, 1 de agosto de 2026

Palavras Cruzadas

Palavras Cruzadas de Economia A

Passe o rato nas quadrículas assinaladas a azul para ver a pista.

Horizontais

  • L2 (C2-8): Toda a situação onde se confrontam as intenções de produção dos produtores - a «oferta» de um bem - e as solicitações de consumo dos consumidores - a «procura» de um bem, de que resulta o «preço de mercado» (preço de equilíbrio) para aquele bem.
  • L4 (C8-10): Designação do conjunto de países que constituíam a UE, antes de 1993.
  • L7 (C1-9): Consumo excessivo, sem critérios e compulsivo.
  • L10 (C1-8): Rubrica da Balança de Pagamentos que agrega bens, serviços, rendimentos e transferências.

Verticais

  • C2 (L2-9): Forma de mercado de concorrência imperfeita em que a oferta se encontra concentrada numa única empresa que tem total poder para determinar os preços.
  • C4 (L1-5): Valor de um bem expresso numa unidade monetária.
  • C7 (L6-8): Resultado final da actividade de produção das unidades produtivas residentes na economia, geralmente referido a um ano.
  • C10 (L1-8): Bem cuja procura varia inversamente com o rendimento.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Alterações Climáticas

Correspondência - Alterações Climáticas

Desafio Climático: Exercício de Correspondência

Relacione cada um dos 8 conceitos sobre as alterações climáticas com a sua definição correcta:

1. Efeito de Estufa
2. Justiça Climática
3. Ponto de Inflexão (Tipping Point)
4. Descarbonização
5. Mitigação
6. Adaptação
7. Acidificação dos Oceanos
8. Créditos de Carbono

terça-feira, 28 de julho de 2026

O Progresso Digital da AT: Tão Avançado... Quando Cobra!

Vivemos na era da modernização administrativa. O Estado investe milhões na desmaterialização de processos, apregoa a transição digital a sete ventos e enche o peito para falar da «equivalência plena» entre o documento electrónico e o velhinho papel. A Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) costuma ser a estrela da companhia neste circo tecnológico: para cobrar impostos, penhorar contas em milissegundos ou emitir notificações automáticas, o sistema é uma maravilha da informática digna da ficção científica.

Porém, a magia do bit e do byte esbarra numa parede de betão assim que o vector da transacção muda de direcção — ou seja, quando é o contribuinte a exercer um direito ou a pedir um benefício a que tem direito.

Enviei-lhes recentemente, através do próprio e-balcão, o Atestado Médico de Incapacidade Multiusos (AMIM) electrónico — um ficheiro PDF dotado de assinatura digital qualificada do presidente da junta médica e com código de verificação autêntico, passível de validação directa no site do SNS24. Juntei a declaração de início do processo num ficheiro ZIP. Tudo limpo, rastreável e ecologicamente correcto.

A resposta da AT é uma verdadeira obra-prima do surrealismo burocrático.

Informam, muito solenemente, que o e-balcão «não é o meio adequado» e exigem o envio por correio de... uma cópia autenticada do atestado para a Direcção de Serviços de Registo de Contribuintes, na Avenida João XXI. Ou seja: exige-se que um documento que nasceu digital, validado por criptografia de chave pública do próprio Estado, seja impresso em papel, levado a uma Junta de Freguesia ou Cartório para receber um carimbo a tinta, e depois metido num envelope com um selo.

É o apogeu da modernidade: a «digitalização» do Estado funciona tão bem que obriga o cidadão a converter dados binários em celulose, só para que um funcionário possa olhar para um carimbo físico e certificar que aquele ficheiro de computador era mesmo de verdade.

Como já adivinhava o desfecho deste teatro burocrático, não perdi tempo a esperar pela resposta do e-balcão: a papelada selada, carimbada e devidamente santificada pelo correio registado com aviso de recepção já seguiu viagem ontem.

Quanto a responder à AT no e-balcão? Nem vale a pena gastar teclado. O sistema não foi feito para dialogar, foi feito para dar ordens em diferido. O melhor mesmo é deixar o registo público para memória futura: a transição digital em Portugal é fantástica, desde que o papel nunca acabe.

O Privilégio de Acordar

Há momentos na vida em que a fragilidade do nosso corpo e da nossa existência se revela sem aviso. A recente entrevista de Nu...