quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A geometria variável da lona: quando a tenda é legal... excepto se precisar de tecto

Ah, a bela e maleável geometria da lei portuguesa! É fascinante perceber como o Código da Tenda e o Regulamento do Espaço Público sofrem de uma admirável miopia dependendo de quem lá decide estender o colchonete.

Pois é, se farda a rigor — seja da PSP, da GNR ou dos bombeiros a marchar estoicamente por quarenta e tais dias —, a lona ganha automaticamente uma chancela constitucional de utilidade pública. Se a bandeira for a da restauração aflita em plena pandemia, ou os jovens da JSD preocupados com o tecto académico, a barraca é recebida com cordialidade democrática. Até a geopolítica mundial e a causa palestiniana conseguiram encontrar abrigo jurídico nos relvados universitários do Minho a Coimbra. E que dizer dos professores, que através do sindicato STOP montaram mais de trinta tendas no Rossio e no Largo do Carmo? Esses também mereceram a complacência dos calendários de protesto.

Mas cruzem-se os limites do pitoresco corporativo ou estudantil e o abismo abre-se: o cidadão comum, aquele que simplesmente se lembra de armar tenda porque o salário actual apenas lhe permite sonhar com a marquise de um T0, afinal comete um atentado à ordem pública. É obra de génio jurídico: o único acampamento verdadeiramente ilegal é, por pura ironia cósmica, aquele cujo tema é exactamente... a falta de habitação. Afinal, montar tenda na rua quando não se tem casa para onde ir é de uma ousadia imperdoável; as autoridades preferem claramente os desprovidos de abrigo por força maior aos desprovidos de tecto por protesto.

Inspirado na notícia da SIC Notícias.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

A Formulística do Milagre Imobiliário: Como Fazer Sobrar Casas e Faltar Tectos

Ilustração satírica sobre um adulto a trabalhar num portátil no seu quarto de infância enquanto analisa os preços da habitação O regresso forçado ao quarto de infância: quando a casa é um activo financeiro e o tecto um privilégio.

 Não há como não admirar a precisão matemática da nossa gestão nacional: Portugal consegue a façanha admirável de ter mais casas do que famílias e, simultaneamente, uma crise de habitação que faz a Idade Média parecer uma época de grande mobilidade imobiliária.

A receita é simples e baseia-se num equilíbrio magistral:

  1. A Casa como Obra de Arte Sem Uso: Para quê arrendar ou habitualmente ocupar um imóvel, correndo o risco de desgaste, quando se pode usá-lo como um activo financeiro que valoriza gloriosamente sozinho, fechado e a apanhar pó? É a magia do betão especulativo: quanto menos se usa, mais vale.

  2. A Lógica dos Doutos Legisladores: Quem melhor para desenhar a reforma da lei da habitação do que um conjunto de representantes que, por mero acaso, soma dezenas de milhões de euros em património e centenas de milhares em rendimentos prediais? Obviamente, trata-se de um altruísmo puro. Quem mais entenderia tão intimamente as dores do mercado do que os seus próprios senhorios? É reconfortante saber que as leis do espaço público e da propriedade são feitas com tanta "isenção".

  3. O Fantasma das Rendas do Século Passado: Décadas a congelar rendas para "proteger" o mercado garantiram que hoje o mercado de arrendamento seja uma espécie de mito urbano — algo de que os mais velhos ouvem falar e que os mais jovens nunca viram. O resultado? Uma juventude que, mesmo trabalhando a tempo inteiro, alcança a independência financeira por volta dos 45 anos, continuando no quarto da infância a contribuir para a coesão familiar forçada.

  4. Lisboa, a Capital da Vanguarda Social: No topo de tudo isto, a nossa capital ostenta com orgulho uma das menores quotas de habitação pública de todas as capitais europeias. Afinal, para quê gastar recursos em habitação pública quando se pode usar o Corpo de Intervenção da PSP às seis da manhã para remover tendas no Rossio? Problema resolvido: sem tendas na praça, deixa de haver crise na cidade. A ordem pública fica impecável e a estética urbana salva.

No fundo, é tudo uma questão de perspectiva. A bomba social não está a rebentar; está apenas a fazer o ruído natural de um mercado a "ajustar-se". E se não consegue pagar uma casa nem uma renda, lembre-se: a culpa é sua, que teima em querer morar dentro de um activo financeiro.

Grande Alerta de Imparcialidade e Futurologia Imobiliária! 🏠✨

Acalmem-se, jovens e inquilinos! A paciência acabou e a justiça social finalmente chegou ao mercado de arrendamento.

Com um Governo e uma maioria parlamentar que, entre eles, contam com um "modesto" património de 55,6 milhões de euros em imóveis, mais de 800 mil euros anuais em rendimentos prediais declarados e participações em dezenas de empresas do sector imobiliário, podemos ficar totalmente descansados: a reforma da lei da habitação está em mãos absolutamente insuspeitas e desinteressadas!

Com tanto conhecimento "de causa" e "no terreno", eis as medidas revolucionárias que certamente podemos esperar para resolver a crise das casas:

  1. Aumentos de Renda Cívicos e Ilimitados: Afinal, limitar rendas é tão ultrapassado! O mercado livre precisa de respirar. Se a renda subir 300%, encare isso como um incentivo pedagógico para trabalhar mais horas ou procurar um segundo (ou terceiro) emprego.

  2. Direitos dos Inquilinos? Um Luxo Desnecessário: Para quê tanta burocracia para despejar alguém ou ajustar preços? Menos direitos para quem vive na casa significa mais paz de espírito para quem cobra a renda ao fim do mês.

  3. Isenções Fiscais para Quem Mais Precisa (os Senhorios, claro!): Nada como garantir que quem declara mais de 100 mil euros por ano em rendas tenha uma folguinha nos impostos. Afinal, ser proprietário de dezenas de imóveis exige um sacrifício enorme que devia ser recompensado pela pátria!

  4. Ouvir as Ruas? Jamais! Como bem prometeu o Governo, o "grito das ruas" e as acampadas de jovens não vão perturbar este belo trabalho legislativo. Para quê ouvir quem procura casa quando se pode consultar pareceres de associações de proprietários onde os próprios líderes partidários são sócios?

Tudo pensado ao pormenor, com a máxima empatia de quem sabe perfeitamente o que é ter de escolher entre pagar a renda ou fazer compras no supermercado... ou talvez não! 🔑💸

Fonte: Público. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Salário, Pão, Habitação

Ah, mas que exagero! Afinal, quem precisa de se preocupar com detalhes banais como Salário, Pão e Habitação? É evidente que pagar 1500 euros de renda com um salário de 1100 euros é apenas um excelente exercício de poupança e criatividade para os jovens! Devem estar todos a viver no luxo e nem sabem!

Convém recordar que o problema não é novo... mas que se tem agravado. Recordou-me o Sérgio Godinho, que em 1974 cantava um hino da Revolução que ficou por cumprir, porque só existe Liberdade a sério depois de as necessidades básicas da população se encontrarem satisfeitas: “A paz, o pão, habitação, saúde, educação".



A paz, o pão, habitação, saúde e educação 
A paz, o pão, habitação, saúde e educação
♪ 
Viemos com o peso do passado e da semente 
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente 
E a sede de uma espera só se estanca na torrente 
E a sede de uma espera só se estanca na torrente 
Vivemos tantos anos a falar pela calada 
Só se pode querer tudo quando não se teve nada 
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada 
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada 
Ai, só há liberdade a sério quando houver 
A paz, o pão, habitação, saúde, educação 
Só há liberdade a sério quando houver 
Liberdade de mudar e decidir 
Quando pertencer ao povo o que o povo produzir 
E quando pertencer ao povo o que o povo produzir 
♪ 
Viemos com o peso do passado e da semente 
Esperar tantos anos, torna tudo mais urgente 
E a sede de uma espera só se estanca na torrente 
E a sede de uma espera só se estanca na torrente 
Vivemos tantos anos a falar pela calada 
Só se pode querer tudo quando não se teve nada 
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada 
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada 
Ai, só há liberdade a sério quando houver 
A paz, o pão, habitação, saúde, educação 
Só há liberdade a sério quando houver 
Liberdade de mudar e decidir 
Quando pertencer ao povo o que o povo produzir 
E quando pertencer ao povo o que o povo produzir 
♪ 
Viemos com o peso do passado e da semente 
Esperar tantos anos, torna tudo mais urgente 
E a sede de uma espera só se estanca na torrente 
E a sede de uma espera só se estanca na torrente 
Vivemos tantos anos a falar pela calada 
Só se pode querer tudo quando não se teve nada 
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada 
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada 
Ai, só há liberdade a sério quando houver 
A paz, o pão, habitação, saúde, educação 
Só há liberdade a sério quando houver 
Liberdade de mudar e decidir 
Quando pertencer ao povo o que o povo produzir 
E quando pertencer ao povo o que o povo produzir 
A paz, o pão, habitação, saúde, educação 
A paz, o pão, habitação, saúde, educação 
A paz, o pão, habitação, saúde, educação 
A paz, o pão, habitação, saúde, educação 
A paz, o pão, habitação, saúde, educação 
A paz, o pão, habitação...

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O Dia em que Descobri que a Inteligência Artificial Sou Eu!

A Digi chegou, viu e conquistou, mas esqueceu-se de um pequeno detalhe para quem ainda gosta de ter a televisão aberta numa aba do browser enquanto finge que trabalha: não tem um portal Web Digi TV. Nada de nostv, meo tv ou vodafone tv. Para a Digi, se queremos ver televisão no computador, a resposta implícita parece ser «compre um smartphone maior».

Em 2025, revoltado com este deserto digital, lá andei a investigar. Descobri a extensão Fast IPTV para o Chrome, carreguei o link dos canais de sinal aberto em Portugal (https://m3upt.com/iptv) e voilà! Fiquei com o problema resolvido. Como bom cidadão da rede, partilhei a dádiva divina: escrevi um artigo no blogue intitulado «Ver TV no PC - Todos os canais de sinal aberto na Web» e lancei o link no Reddit para salvar a pátria.

Avançamos para hoje.

Num piscar de olhos, a maior parte dos canais da lista simplesmente evaporou-se. Fiquei reduzido à boa e velha RTP — o que é excelente se eu quiser rever o Preço Certo ou o telejornal de 1988, mas manifestamente insuficiente para a minha overdose de informação diária.

De volta ao ponto de partida, decidi recorrer à tecnologia de ponta. Fui bater à porta do Gemini, o supercomputador de Inteligência Artificial da Google, alimentado por biliões de parâmetros, redes neuronais avançadas e os servidores mais potentes do planeta. Formulei a pergunta com todo o rigor cívico: «Como ver canais de TV abertos no PC em Portugal?»

O Gemini pensou durante dois milissegundos, processou a sabedoria acumulada da humanidade e devolveu-me triunfante a solução perfeita: o link para o meu próprio blogue, via Reddit.

A grande revolução da Inteligência Artificial afinal é isto: um espelho digital de alcance global. O supercérebro da Google não sabe como ver a SIC ou a TVI no PC; o Gemini limita-se a ir ao Reddit ler o que eu próprio escrevi no ano passado para me dar como resposta aquilo que já sei que deixou de funcionar.

Moral da história: se a IA sou eu, acho que vou enviar as facturas da electricidade e da Internet para Silicon Valley. Quanto à televisão no PC... bem, se alguém descobrir a solução, faça o favor de publicar no Reddit. É que o Gemini precisa de aprender a resposta para me poder explicar mais tarde.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Do Panteão à marca registada: a metamorfose da camisola 7

A grande vantagem de se ser uma marca global é que a realidade do campo passa a ser apenas um detalhe decorativo. Há já mais de 16 anos — digamos, sensivelmente desde o episódio de 2010, na África do Sul: “Fale com o Carlos Queiroz” — que a camisola número 7 da Selecção funciona mais como um valor activo do balanço financeiro e um contrato de direitos de imagem do que como uma escolha de rendimento desportivo.

Acontece que o futebol, na sua teimosia táctica, continua a insistir em jogar-se com 11 elementos que correm, pressionam e aceitam as ordens de quem está no banco.

Jorge Jesus, especialista em colocar a utilidade do colectivo acima de qualquer estatuto, cometeu o sacrilégio de o deixar 45 minutos a aquecer na linha lateral em Copenhaga. Para o jogador comum, o aquecimento serve para entrar em jogo. Para um produto corporativo com jacto privado à porta, 45 minutos de corrida de aquecimento sem chamada ao relvado é uma clara quebra de contrato.

Golos de bicicleta e momentos de antologia: gestos técnicos que começam a ficar ensombrados pela gestão do final de carreira.

A comparação com o passado torna-se inevitável e dolorosa. Quando Eusébio perdeu o seu fulgor e a capacidade de fazer a diferença em campo, não exigiu avenças de titularidade nem ameaçou sair do palco. Manteve-se como embaixador afectivo do futebol português, um símbolo de união, simplicidade e amor à camisola que o tempo encarregou de guiar até ao Panteão Nacional. Já Ronaldo prefere a lógica da multinacional: quando a utilidade desportiva se esgota, activa-se o protocolo de evacuação imediata no jacto privado.

Pelo caminho, enlameiam-se belas memórias e momentos de pura plasticidade — como os golos de bicicleta que outrora paravam o País e arrancavam aplausos em qualquer estádio do Mundo —, reduzindo monumentos do desporto a notas de rodapé de um ego ferido.

A Selecção venceu a Dinamarca por 4-2, demonstrando a estranha teoria de que dez jogadores no relvado a correr produzem mais do que um monumento no ataque. O capitão promete agora contar «a sua verdade» a seu tempo. Ficamos a aguardar o comunicado oficial ao mercado, de preferência em formato de webinar ou através de uma publicação patrocinada nas redes sociais.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Calma, Amores: Ninguém Quer Roubar a Vossa Colecção de Iates

A desigualdade de riqueza na Europa: uma metáfora visual

Se a riqueza da Europa fosse um bolo: 50% da população estaria a disputar as migalhas (1,6%), enquanto 10% da mesa devora mais de dois terços do bolo — com o topo 1% a ficar, sozinho, com quase um terço de tudo.

Há dias em que a caridadezinha de serviço e os apóstolos do livre mercado sem travões acordam em sobressalto, sobressaltados com o espectro do «Limitarismo». «Valha-me Deus, querem acabar com a minha sagrada e esforçada capacidade de acumular o meu 15.º bilião!», grita o multimilionário de serviço, entre uma garfada de caviar e uma vista d’olhos nos mapas de navegação do seu jacto privado.

Acalmem-se. Ninguém está a tentar cortar a mesada a quem ganha a vida a trabalhar. O que a apresentação «Limitarismo: O Tecto da Riqueza» propõe é simplesmente um bocadinho de higiene económica e de lucidez civilizacional.

Senão veja-se o escândalo das evidências:

  1. A Eficiência Económica (ou a mania de querer pôr o dinheiro a circular): É preciso um desplante enorme para lembrar que um euro adicional no bolso de quem ganha o salário mínimo serve para comprar pão, livros e pagar a luz, ao passo que o mesmo euro no bolso do topo 1% serve apenas para engordar uma conta num paraíso fiscal. Aparentemente, chamar a isto «baixa propensão marginal ao consumo» e preferir uma economia real dinâmica em vez de um motor entalado com gordura financeira é uma audácia desmedida.

  2. A Equidade (e o mito do «Self-Made Man» que nunca dorme): Ainda há quem acredite, piamente, que acumular dezenas de milhares de milhões é fruto de trabalhar 800 horas por dia. O facto de a sorte geográfica, a herança familiar, a genética e os monopolismos de mercado contarem mais do que o esforço puramente individual é um detalhe chato que a narrativa meritocrática prefere ignorar. Limitar as disparidades salariais entre CEOs e trabalhadores e redistribuir lucros? Que afronta!

  3. A Estabilidade Macroeconómica (o vício da captura): Estranho, também, é ver o FMI — esse perigoso antro de esquerdistas radicais — a avisar que a desigualdade extrema estagna o crescimento e sufoca a economia. Mas claro, nada garante melhor a estabilidade do que deixar o excesso de capital converter-se em poder político de lóbi, compra de comunicação social e controlo das regras do jogo.

  4. A Sustentabilidade do Planeta (o carbono de uns poucos contra o ar de todos): E para fechar com chave de ouro, a ecologia. Se um cidadão comum emite umas modestas 8 toneladas de CO2 por ano, o topo 1% gasta uma média de 101 toneladas, havendo quem atinja confortavelmente as 8000 toneladas anuais a passear de jacto e iate. Mas a culpa do aquecimento global, como todos sabemos, é do utilizador que se esqueceu de separar a palhinha do sumo.

Para quem quiser perceber como a introdução de um tecto à riqueza extrema não serve para punir o sucesso, mas sim para garantir que a democracia e o planeta sobrevivem à voragem da acumulação infinita, deixo o convite para aprofundarem o tema.

Valerá a pena ler a apresentação completa «Limitarismo: O Tecto da Riqueza». Quem sabe se não descobrem que ter um chão digno para todos exige, afinal, que a casa tenha um tecto.


Adenda: Esta mensagem e a respetiva apresentação no Google Docs baseiam-se no vídeo “Limitarianism: The case against extreme wealth – with Ingrid Robeyns”.

A geometria variável da lona: quando a tenda é legal... excepto se precisar de tecto

Ah, a bela e maleável geometria da lei portuguesa! É fascinante perceber como o Código da Tenda e o Regulamento do Espaço Públ...