Não havia necessidade… de tanto exagero! Afinal, quem diria que umas inocentes tendas de campismo armadas no Rossio e na Praça D. João I constituíam uma ameaça tão grave à soberania nacional?
Depois de dezenas de milhares de cidadãos terem descido pacificamente a Avenida da Liberdade e ocupado as praças em defesa do direito à habitação, as autoridades decidiram que o verdadeiro flagelo do país não era a especulação imobiliária ou a incompatibilidade entre as rendas e os salários, mas sim... a lona. Sim, foram precisas forças especializadas para lidar com um total de 171 estruturas de acampamento (117 em Lisboa e 54 no Porto).
E que demonstração de eficácia! Mobilizar cerca de 30 carrinhas do Corpo de Intervenção, com elementos armados com escudos, bastões, tasers, shotguns e acompanhados por cães, para desmantelar tendas a partir da uma da manhã é obra de uma subtileza incomparável. Segundo os dados oficiais da PSP, a operação fez apenas 11 feridos — incluindo três polícias, um deles alegadamente atingido por um canídeo de um manifestante — e resultou em 31 detidos por desobediência. Já os movimentos sociais e médicos no terreno pintam um cenário ligeiramente mais dramático, apontando para cerca de 60 feridos (com mais de 20 pessoas a necessitar de atendimento no Hospital de São José). Mas que importam os feridos quando a ordem pública e a circulação nas praças foram restabelecidas em escassos minutos?
Ora, é aqui que reside a verdadeira ironia. Não havia necessidade de criar políticas públicas de habitação sérias e compatíveis com os salários reais dos portugueses, quando se pode simplesmente resolver o problema com uma carga policial histórica que correu manifestantes de todas as gerações rua abaixo até ao Terreiro do Paço ou ao Martim Moniz. Para quê perder tempo a legislar sobre habitação acessível, se o Estado pode demonstrar a sua força com dezenas de agentes prontos a carregar sobre quem apenas entoava “O Povo Unido Jamais será vencido”?
Os manifestantes responderam com o mote “Mais casas, menos bastão”, mas a mensagem parece clara: enquanto as políticas habitacionais continuarem a falhar aos trabalhadores, o orçamento do Estado continuará a investir em equipamento de choque. Como os cidadãos prometeram voltar no dia seguinte, fica a certeza de que a única coisa que teima em não aparecer na praça pública é uma solução à altura da dignidade de quem procura uma casa para viver.
COMUNICADO DA ACAMPADA LISBOA
Na madrugada de hoje, 25 de Outubro, dezenas de manifestantes foram brutalmente agredidos pela polícia de intervenção. Destes, mais de 20 foram para o Hospital de São José e muitos outros foram assistidos no local pela equipa de cuidados da Acampada. Depois, fomos perseguidos durante horas pela baixa da cidade – Praça da Figueira, Martim Moniz, Rua da Palma, Mouraria, Intendente, Graça – com cães e balas de borracha, mostrando que o objectivo não era apenas tirar as nossas tendas do Rossio, mas sim encurralar-nos e fazer-nos sentir medo. Neste momento, encontram-se cerca de 30 pessoas detidas.
Depois de uma manifestação que reuniu milhares de pessoas em marcha, entre o Marquês de Pombal e a Praça do Rossio, a Acampada reergueu as suas infraestruturas, entre a montagem de mais de 100 tendas, programação cultural gratuita, realização de assembleia e cantina popular pronta a servir comida a quem viesse tomar o Rossio enquanto lugar simbólico de uma luta pelo acesso à habitação em Portugal.
Para muitas das pessoas que aderiram a esta forma de protesto e reivindicação, a tenda transcende já o carácter simbólico: trata-se da solução possível para a qual estamos a ser empurradxs quando deixamos de poder pagar a renda de uma casa ou de um quarto.
Os primeiros dias da semana passada mostraram uma capacidade de organização sem precedentes, tanto em Lisboa como no Porto e nas demais cidades que se juntaram às Acampadas através de outros processos reivindicativos: afinal a cidade pode voltar a pertencer-nos.
A polícia, a mando da classe e projecto político que orienta a sua acção, oficializou a violência deliberada sobre manifestantes pacíficos, na tentativa de impedir a continuidade das suas justas reivindicações. Mas isso apenas revela que essa mesma classe política e os seus lacaios têm medo. Perante isso, reafirmamos que cá continuaremos, a dar corpo a uma luta imprescindível pelo direito a ter um tecto.
