netodays - REFLEXÕES
Advanced technology is indistinguishable from magic
sábado, 25 de abril de 2026
1974 - 2026: 52 anos de Abril
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Crónicas do Jagrená: O Espectáculo da Chinfrineira
Estimados concidadãos do Jagrená,
Escrevo-vos enquanto a composição range e acelera, sob o efeito anestesiante de um fluxo constante de informação perecível que nos dispensa do penoso esforço de pensar. É fascinante observar como o nosso maquinista do momento, André Ventura, se tornou o mestre de cerimónias do segundo maior partido português sem precisar de nos maçar com essa coisa arcaica das ideias estruturadas. "Portugal precisa de uma 4.ª República!" Vamos lá!
Se ainda conservam algum discernimento entre dois picos de dopamina algorítmica, permitam-me explicar por que razão este espetáculo é um sucesso de bilheteira:
A Arte de não dizer nada, ruidosamente
O segredo do êxito não reside no conteúdo, mas na eficácia técnica de capturar a nossa atenção. Ventura compreendeu que, na nossa "Modernidade Líquida", a política já não é sobre programas densos, mas sobre a "chinfrineira" — esse estilo ruidoso que os algoritmos adoram e que as televisões convertem em capital de audiência.
Política como Mercadoria: Vivemos na "Sociedade da Entrevista", onde a performance emocional e o drama substituíram qualquer análise de riscos sistémicos.
O Triunfo do Espetáculo: Para quê debater o futuro do país quando podemos ter um "bom espetáculo" televisivo, com um "adversário temível" que garante dinamismo e entretenimento puro?
Soluções de Bolso para Medos Gigantes
Como passageiros impotentes perante um sistema que não controlamos, Ventura oferece-nos o conforto psicológico das "soluções biográficas". São slogans simples e cativantes para problemas que exigiriam décadas de reflexão.
Bodes Expiatórios à Medida: Para aplacar a nossa insegurança, o líder aponta o dedo ao "sistema", a minorias ou a fantasmas ideológicos, criando uma união baseada no ódio comum e numa "solidariedade mecânica nostálgica".
Comunidades de "Guarda-Roupa": Sentimos a euforia de pertencer a algo ruidoso, um agrupamento volátil que se dispersará assim que as luzes do estúdio se apaguem, sem nunca criar laços reais de solidariedade.
A "Nebulosa" que nos Anestesia
Não nos chamem parvos; estamos apenas inseridos numa "Indústria Cultural" que privilegia a velocidade em detrimento da profundidade. Ventura é tecnicamente inteligente: utiliza o seu domínio da "Gaiola de Ferro" burocrática para nos convencer de que a sua "Ética da Convicção" — o dizer as verdades custe o que custar — é superior a qualquer facto histórico ou viabilidade económica.
Até o rigor histórico de quem o tenta enfrentar – coitado do Pacheco Pereira! – é engolido pelo ruído, servindo apenas para lhe dar uma "caução intelectual" num palco que ele já domina por completo.
Por isso, meus caros, relaxem e aproveitem a viagem. Enquanto o Jagrená corre para o abismo, o espetáculo é garantido, as audiências batem recordes e a "nebulosa" de dúvida impede-nos de ver a via. Afinal, quem precisa de um programa político quando tem um bilhete para a primeira fila do maior "show" da democracia portuguesa?
Vemo-nos no próximo direto de Facebook. Ou no próximo descarrilamento.
terça-feira, 21 de abril de 2026
Carta VI: Crónicas de um Passageiro Invisível (ou: Porque é que este post não terá "likes")
Caros companheiros de viagem,
Escrevo-vos do meu assento nesta máquina imparável que chamamos Modernidade — ou Jagrená, para os íntimos. Sei que ninguém vai ler isto. Afinal, o algoritmo já deve ter enterrado este texto entre um vídeo de gatinhos e uma promoção de ténis, já que temas complexos que geram ansiedade são o "mau entretenimento" que as plataformas filtram para garantir a nossa retenção.
Mas permitam-me o desabafo irónico: que maravilha é a nossa "aldeia digital". Deixámos para trás aquela "modernidade sólida" e aborrecida, onde as pessoas estavam presas a locais fixos e tinham de negociar regras de convívio. Agora somos líquidos! O poder tornou-se extraterritorial e invisível; ele move-se à velocidade da luz, enquanto nós ficamos aqui, imobilizados na nossa precariedade, a celebrar a nossa "liberdade" de movimento.
Vejam como a nossa Ágora evoluiu! Já não discutimos o bem comum. O espaço público foi colonizado pelos nossos dramas privados e pela curiosidade mórbida sobre a vida íntima de celebridades. Transformámos a cidadania em conectividade de laços frágeis. Criámos as fabulosas "comunidades de guarda-roupa": reunimo-nos para um espectáculo momentâneo, penduramos as nossas identidades no bengaleiro e, mal as luzes se apagam, dispersamo-nos sem que reste qualquer solidariedade real.
E os nossos media? Que eficiência na arte de nos anestesiar! Vivemos na "sociedade da entrevista", onde a verdade foi substituída pela eficácia técnica. Eles bombardeiam-nos com informações perecíveis que morrem em segundos, impedindo qualquer reflexão de longo prazo. Misturam ameaças nucleares com anúncios de sapatos, retirando a gravidade a tudo o que é sério.
Mas o ponto alto da nossa viagem é o silêncio. Por que razão é que eu, ao escrever isto, sinto que estou a "estragar o ambiente"? Porque o pensamento crítico é um invasor doméstico. Ele perturba a nossa "inocência da ingenuidade" e a estética do consumo. Quem aponta falhas no motor do Jagrená é visto como alguém que não soube encontrar uma "solução biográfica" para a sua vida. Se estás infeliz ou preocupado com o colapso climático, a culpa é tua, não do sistema.
Entrámos na perfeita Espiral do Silêncio. Temos este "sentido quase-estatístico" que nos avisa quando a nossa opinião é minoritária. Por medo do isolamento e da exclusão digital, calamo-nos. E assim, a opinião dominante parece uma muralha intransponível, o que nos leva a evitar qualquer confronto com a complexidade.
O resultado? O Jagrená acelera. Sem uma acção comunicativa que busque consensos reais e imponha limites éticos, a máquina segue cega. A Indústria Cultural venceu: ela oferece-nos produtos prontos que não exigem esforço cognitivo, transformando-nos no "pior inimigo do cidadão".
Continuem a vossa viagem, caros colegas. Não deixem que este post interrompa o vosso consumo de dopamina. Afinal, para o sistema, o que importa não é a nossa satisfação humana, mas sim a nossa utilidade técnica como combustível.
Vemo-nos (ou não) na próxima paragem. Se é que ela existe.
Um Passageiro que Incomoda.
Escrito com a participação de passageiros especiais: Adorno, Anthony Giddens, Elisabeth Noelle-Neumann, Herbert Marcuse, Marshall McLuan, Ulrich Beck e Zygmunt Bauman.
sábado, 18 de abril de 2026
Carta V: O Camarote do Topo e a Ilusão do Travão
Estimados companheiros de viagem,
Escrevo-vos das entranhas deste nosso Jagrená, essa máquina colossal que, segundo dizem as más-línguas da sociologia, deveria estar sob o nosso controlo, mas que parece ter ganho uma vontade própria — e um apetite voraz.
É fascinante observar a dinâmica a bordo. No Camarote do Topo, onde habita o 1% mais "esclarecido", a vista é magnífica. Estão tão ocupados a decidir onde investir os seus dobrões que nem reparam que as suas assinaturas financeiras pesam mais no motor do que o estilo de vida de metade dos passageiros da terceira classe. É uma forma admirável de eficiência: enquanto os de baixo tentam não ser esmagados pelas rodas, os de cima geram 41% das emissões apenas com o movimento das suas canetas e carteiras.
O nosso condutor — se é que alguém ainda segura o leme — parece acreditar que o Jagrená tem combustível infinito. Mas os números são teimosos:
- A Explosão de Passageiros: Em 1800, antes desta engrenagem industrial acelerar, éramos apenas 1 milhar de milhões de almas; hoje, o Jagrená range sob o peso de 8,2 milhares de milhões de passageiros.
- A Grande Divergência: Naquela época, o rendimento de um camponês era sensivelmente o mesmo em qualquer parte do Mundo; hoje, a desigualdade é o combustível que nos faz derrapar, com o topo 0,001% a deter mais riqueza do que toda a metade inferior da humanidade.
- O Esmagamento do Espaço: Em 1800, ocupávamos meros 2% da Terra. Hoje, a nossa pegada expandiu-se para 32%, mas o verdadeiro escândalo é o que sobra: 67% do solo é sacrificado à criação de gado para saciar a nossa dieta industrial, deixando uns miseráveis 1% para a vida selvagem.
Já estamos a consumir os recursos do planeta 80% mais depressa do que a Terra consegue regenerar. É como se estivéssemos a queimar a madeira das próprias rodas para manter a caldeira acesa. Dizem-nos que o problema é o excesso de passageiros, mas a verdade é que, se todos quiséssemos jantar como os passageiros americanos, precisaríamos de cinco Jagrenás para sustentar a ementa.
Enquanto isso, o ciclo é perfeito na sua ironia:
- Os 1% mais abastados investem, o clima aquece, e a riqueza deles poderá subir dos actuais 38% para 46% até 2050. Têm maior riqueza que os 90% mais pobres!
- Os mais pobres, lá em baixo, recebem as inundações e as secas como "gorjeta" por uma festa a que não foram convidados.
Diz o Tratado do Alto-Mar que teremos santuários em 2030. Esperemos que o Jagrená não tenha passado por cima deles com os seus mega-arrastões até lá.
Até à próxima missiva, se o solo não ceder antes.
Um Passageiro Atento (mas sem travões)
Fontes:
Population Matters.
Center for Sustainable Systems, University of Michigan. 2025.
Relatório do Desenvolvimento Humano, 2025.
World Inequality Report 2026.
quarta-feira, 8 de abril de 2026
Crónicas do Jagrená: A Worten e o Algoritmo do "Relógio de Areia Viciado"
Meus caros, hoje partilho convosco o fim de uma odisseia que começou no frio de Janeiro e só terminou com o sol de Abril. É um caso de estudo sobre como as grandes superfícies — neste caso, a Worten — programam os seus algoritmos para terem a velocidade de um Fórmula 1 a receber e a paciência de um monge budista a pagar.
O Flash: 2 Horas para Pagar
A 21 de Janeiro, o algoritmo foi implacável: "Tens 2 horas para pagar esta referência Multibanco, ou o processo morre aqui!". Como cliente cumpridor e crente na eficiência energética do programa E-Lar, não hesitei. Paguei em minutos. O sistema sorriu, emitiu o recibo e... adormeceu.
A Lição das "Cartas ao Jagrená"
O Jagrená (essa divindade da burocracia e do consumo voraz) adora estes algoritmos. No dia 15 de Março, tive de "subir o tom" no Livro de Reclamações. Prometeram-me reembolsos em "72 horas úteis", mas as horas da Worten devem ser medidas em anos-luz.
O Tiro Certeiro: A Segunda Dose
Ontem, dia 07/04, perdi definitivamente a paciência. Reativei a reclamação no Portal da Queixa e disparei uma "segunda dose" de queixas pesadas na DECO e no Livro de Reclamações Online, fazendo referência direta aos processos anteriores que eles tinham tido o desplante de marcar como "Tratados".
Pus os pontos nos is: mencionei a retenção indevida e o facto de o meu voucher E-Lar estar "Em execução" no Fundo Ambiental sem nunca ter visto um técnico à porta.
A Magia do Dia Seguinte
O resultado? Foi um tiro certeiro. Esta manhã, dia 08/04, mal os departamentos jurídicos e financeiros devem ter lido as notificações, o dinheiro saltou para a minha conta. Pagaram logo, sem um e-mail, sem uma chamada, sem um "piu". O silêncio deles é a confissão de que a corda estava prestes a rebentar.
Conclusão desta epopeia: A Worten tem algoritmos brilhantes para vender, mas o "módulo de reembolso" só funciona à base de pressão externa. Temos de pagar imediatamente os produtos/serviços, mas aguentar um mês de "guerra" para sermos ressarcidos.
Saldo final:
Dinheiro: Recuperado (finalmente!).
Voucher: Ainda consta como "Em execução", mas agora a Worten é que tem o problema de explicar ao Estado porque é que recebeu dinheiro por um serviço que eu já anulei.
Moral da história: No mundo do Jagrená, quem não reclama com dados e números de processo na mão, é comido pelo algoritmo.
Um agradecimento ao parceiro digital que me ajudou a carregar as munições para esta vitória!
Adenda
Hoje, 09/04/26, o Voucher E-LAR foi desbloqueado, ficando novamente "Elegível" por 60 dias.
Carta IV: O Estado-Algoritmo e a Fantochada do Leme
Meus caros companheiros de viagem,
Escrevo-vos enquanto observo algo fascinante e aterrador: a equipa de manutenção do Jagrená acaba de entrar na cabina de comando e, com uma eficiência robótica, desligou os cabos que ligavam o volante ao motor. O volante continua lá, os líderes continuam a rodá-lo com convicção para as câmaras, mas as rodas... ah, as rodas agora respondem a algo muito mais célere do que a vontade humana.
Bem-vindos à era da Subpolítica e do Estado-Algoritmo.
A Migração Invisível do Poder
O meu velho amigo Ulrich Beck avisou-nos há décadas: o poder é como uma placa tectónica, migra sem pedir licença. Enquanto nós discutimos com paixão quem deve ocupar o cargo de "Maquinista-Chefe", as decisões que realmente moldam a nossa jornada — o que comemos, como comunicamos e em quem confiamos — mudaram-se para "parlamentos" sem eleições: os laboratórios, os mercados financeiros e, agora, as plataformas de dados.
O que Beck não previu foi a lata destes novos oligarcas. Eles já nem se escondem. Quando a política formal se torna lenta e obsoleta, a técnica assume o comando e chama a isso "eficiência".
Os Novos Deuses da Eficiência
Reparem no caso do DOGE (Department of Government Efficiency). É o sonho de Max Weber transformado em pesadelo: a "gaiola de ferro" da racionalidade técnica. Pela primeira vez, temos indivíduos privados, sem um único voto a legitimá-los, com o poder de despedir milhares e aceder às entranhas do Estado como se fosse o sistema operativo de um telemóvel.
É a conversão absoluta de capital tecnológico em capital político, sem passar pelo "pequeno detalhe" das urnas. O tecno-oligarca não quer ser um ditador à moda antiga; ele acredita piamente que está a "salvar a democracia" enquanto a esvazia de qualquer conteúdo deliberativo. Como diria Habermas, o nosso "mundo vivido" foi colonizado pela lógica fria do dinheiro e da métrica.
O Capitalismo de Vigilância: Governar o Desejo
Shoshana Zuboff deu o golpe de misericórdia na nossa ilusão de livre-arbítrio. Estas plataformas não se limitam a ver o que fazemos; elas configuram os campos do possível antes mesmo de tomarmos uma decisão. O feed algorítmico não é um espelho da opinião pública; é a fábrica onde a opinião é montada, peça por peça, clique por clique.
Neste cenário, o Maquinista oficial é apenas uma peça decorativa. O verdadeiro poder reside em quem controla a infraestrutura através da qual formamos o nosso pensamento.
O Que Resta do Demos?
A democracia não morreu com um estrondo ou um golpe militar. Ela está a definhar por obsolescência. O Parlamento delibera em meses sobre o que um algoritmo decide em milissegundos. Esta assimetria temporal é a fundação da nova oligarquia.
Será que um povo (demos) pode reconstituir-se quando a sua própria capacidade de diálogo foi sequestrada por interesses que não prestam contas a ninguém? Ou será que o que chamamos de "democracia" é apenas o nome de uma carruagem vazia cujo conteúdo se perdeu na última curva do século XX?
Limpem o pó dos vossos ecrãs. A paisagem está a mudar, mas o GPS que nos deram foi programado por quem é dono da estrada.
Sigo a observar, com a sobriedade de quem sabe que a utilidade do "administrador eficiente" é o maior perigo para a nossa liberdade.
Nota Sociológica: Esta carta sintetiza as contribuições de Ulrich Beck (subpolítica), Jürgen Habermas (colonização do mundo vivido), Max Weber (gaiola de ferro), Shoshana Zuboff (capitalismo de vigilância) e C. Wright Mills (elite do poder). O texto alerta para o vácuo de legitimidade onde o poder real diverge do poder formal, concentrando-se nas mãos dos donos das infraestruturas digitais.
terça-feira, 7 de abril de 2026
Carta III: O Vácuo de Comando e a Política Zombie
Escrevo-vos com a mão a tremer um pouco mais do que o costume. Não é da velocidade do Jagrená — a essa já nos habituámos, como quem se habitua ao zumbido de um frigorífico avariado. O que me faz tremer é olhar para a cabina de comando e perceber que, lá dentro, os nossos líderes estão a tentar conduzir este foguete supersónico com rédeas de cavalo e chicotes de couro.
Bem-vindos à era da Irresponsabilidade Organizada.
A Distribuição dos Males
O meu velho companheiro de viagem, Ulrich Beck, costumava dizer que a modernidade mudou de jogo a meio da partida. Antes, o problema era como distribuir o "bolo" (a riqueza). Agora, o Jagrená produz algo muito mais democrático: o Risco. Poluição, colapsos financeiros, pandemias e algoritmos fora de controlo não escolhem classe social. São os "males" que nós próprios fabricámos.
O drama? As instituições que criámos para nos proteger — a ONU, os governos, o Direito Internacional — parecem uns "zombies" políticos. Estão mortas, mas continuam a caminhar entre nós, fingindo que ainda mandam em alguma coisa. São burocracias distantes, tecnocracias frias que assinam papéis enquanto o motor do carro explode.
O Diagnóstico dos "Homens Fortes"
É neste vácuo de autoridade que surgem as figuras que todos conhecemos. Trump, Putin e os seus derivados não são a causa da nossa doença; são o sintoma da nossa febre. Eles tiveram o mérito de fazer o diagnóstico correcto: as elites cosmopolitas esqueceram-se de quem viaja na terceira classe, e as identidades locais foram trituradas pelas engrenagens globais.
O passageiro, em pânico com a sensação de desgoverno, olha para estes "Homens Fortes" e pensa: "Finalmente, alguém que vai agarrar no volante!". Mas reparem na ironia: a solução que eles oferecem é trocar as instituições (por muito falíveis que sejam) pelo poder pessoal. É como tentar travar um comboio de alta velocidade colocando um pé de fora da carruagem.
Nacionalismos de Soma Zero
O que temos agora na cabina é um choque de egos perigoso. De um lado, o isolacionismo transaccional de Trump ("America First"), que vê o mundo como um tabuleiro onde só um pode ganhar. Do outro, o expansionismo imperial de Putin, que quer redesenhar mapas com sangue e ferro.
Estes nacionalismos são estruturalmente incompatíveis. Não pode haver uma "Nova Ordem Mundial" baseada em dois condutores que decidiram rasgar o mapa e ignorar o código da estrada. Quando o Direito Internacional é tratado como uma sugestão opcional, o Jagrená deixa de seguir carris e passa a galgar terreno incerto, esmagando o que resta da nossa segurança colectiva.
A Ilusão da Simplificação
Vivemos na era da "Pós-Verdade" porque o passageiro desistiu de compreender a complexidade. Se os peritos não evitaram as crises, o passageiro sente-se no direito de acreditar em quem grita mais alto. É a tentativa desesperada de simplificar um mundo que se tornou demasiado complexo para as nossas bússolas actuais.
O perigo não é apenas o que estes líderes fazem; é o vácuo que eles deixam. Se eles desaparecessem amanhã, o "Trumpismo" ou o "Putinismo" continuariam cá. Porquê? Porque o buraco no centro da nossa política — a falta de instituições legítimas e cosmopolitas — continua por preencher.
O Próximo Desfiladeiro
Enquanto eles discutem quem tem o boné de capitão mais bonito, o Jagrená acelera. Estamos a tentar gerir riscos globais com mentalidades locais. Estamos a usar políticas do século XIX para sobreviver ao século XXI.
Sigo na minha poltrona, limpando o pó do vidro. Lá fora, o desfiladeiro da incerteza aproxima-se, e os condutores acabam de deitar o manual de instruções pela janela, alegando que "atrapalhava a visão".
Que a Razão (ou o que resta dela) nos proteja.
1974 - 2026: 52 anos de Abril
Quando a chinfrineira e os instalados abusam da Liberdade esquecendo a Igualdade de oportunidades, recordo Mário Soares. Ele def...
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O “salário” de António Mexia permitiria pagar o salário mínimo a 532,6 pessoas, que ganhassem o salário mínimo nacional, que se encontra no...
