Depois do alvoroço e das detenções da praça, a assembleia popular no Rossio deu uma lição magistral de dialéctica revolucionária. Percebeu-se, finalmente, que o derrube do capital e a exigência de habitação não exigem necessariamente o sacrifício de uma pneumonia ou o afrontamento do artigo do Código de Estrada que regula o ruído nocturno.
Passou-se, assim, da acampada à aconchada.
Perante a iminência da força pública e o aproximar da hora limite das 00h30, venceu a sensatez pátria: desarmaram-se as tendas, dobraram-se os duplos tectos com apuro técnico e decidiu-se protestar ao relento, bem juntinhos, no aconchego do colectivo. Criou-se até um novo slogan de intervenção socioafectiva — “polícia, alinha, vamos fazer conchinha” —, demonstrando que a luta de classes também se pode travar com ternura e cordão sanitário contra a brisa da madrugada.
A colaboração institucional atingiu o seu apogeu quando o camião da limpeza urbana entrou em cena. Em vez da barricada, optou-se pela cidadania exemplar: os manifestantes levantaram-se, contornaram a estátua de D. Pedro IV para deixar lavar o chão, e ainda se ofereceram para apanhar o lixo. Afinal, a revolução faz-se, mas com o chão limpo e sem estorvar os trabalhadores do município.
O senhor comandante da PSP delimitou as regras do jogo democrático: ruído zero, via circulável desimpedida para o trânsito e nada de privatizar a praça. Os cartazes ficaram, a Unidade Especial desmobilizou e o povo recolheu à conchinha. Como alguém bem lembrou da multidão a incentivar o deitar: “xixi, cama”.
A luta continua, sim senhora. Mas à portuguesa: sem desrespeitar os horários das limpezas, sem fazer barulho depois das duas da manhã e, acima de tudo, com o devido respeito pelo conforto de uma boa conchinha.
