quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Sapiens: História Breve da Humanidade

Gosto de começar os livros pelo fim, para conhecer antecipadamente o destino. A Brief History of Humankind – Sapiens, de Yuval Noah Harari, expõe a grande ironia da nossa história: o avanço avassalador da ciência e da tecnologia tem impulsionado a humanidade rumo ao carro de Jagrená, falhando completamente em tornar-nos mais felizes.

Há setenta mil anos, o *Homo sapiens* ainda era um animal insignificante, vivendo sua vida num canto da África. Nos milénios seguintes, transformou-se no senhor de todo o planeta e no terror do ecossistema. Hoje, está prestes a se tornar um deus, pronto para adquirir não apenas a juventude eterna, mas também as capacidades divinas de criação e destruição.

Infelizmente, o domínio dos *Sapiens* na Terra produziu, até agora, pouca coisa de que possamos nos orgulhar. Dominamos o ambiente, aumentamos a produção de alimentos, construímos cidades, estabelecemos impérios e criamos vastas redes comerciais. Mas será que diminuímos a quantidade de sofrimento no mundo? Repetidas vezes, enormes aumentos no poder humano não melhoraram necessariamente o bem-estar dos *Sapiens* individuais e, geralmente, causaram imensa miséria a outros animais.

Nas últimas décadas, finalmente fizemos progressos reais no que diz respeito à condição humana, com a redução da fome, das epidemias e da guerra. No entanto, a situação dos outros animais está se deteriorando mais rapidamente do que nunca, e a melhoria na sorte da humanidade é recente e frágil demais para que se possa ter certeza da sua permanência.

Além disso, apesar das coisas surpreendentes que os humanos são capazes de fazer, continuamos incertos quanto aos nossos objectivos e parecemos tão insatisfeitos quanto sempre. Evoluímos de canoas para galés, depois para navios a vapor e naves espaciais — mas ninguém sabe para onde estamos indo. Somos mais poderosos do que nunca, mas temos pouquíssima ideia do que fazer com todo esse poder. Pior ainda: os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. Deuses por conta própria, tendo apenas as leis da física como companhia, não prestamos contas a ninguém. Consequentemente, causamos estragos aos outros animais e ao ecossistema ao nosso redor, buscando pouco mais do que nosso próprio conforto e diversão, sem jamais encontrar satisfação.

Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?

sábado, 22 de agosto de 2026

Da Folha de Papel nos Anos 80 ao Ecrã Tátil: A Linguagem como Rasteira aos Mais Vulneráveis

Existe uma continuidade perversa entre a burocracia de papel e os algoritmos do século XXI. O suporte mudou — passámos do impresso a tinta para os píxeis do smartphone —, mas o mecanismo de dominação permanece intocável: o uso deliberado da linguagem como armadilha para os mais vulneráveis.

Nas secretarias escolares dos anos 80, em plena consolidação do ensino unificado, o formulário de matrícula perguntava aos alunos: «Prescinde de Educação Moral e Religiosa?». Para uma criança ou uma família com menor capital escolar, o verbo prescindir era uma palavra estranha. A mente, por associação fonética imediata, colava-a ao termo mais próximo do seu vocabulário quotidiano: precisar. Ao responderem convictamente «Não!» — pensando que afirmavam «não preciso disso para nada» —, a burocracia registava um «não prescindo» e inscrevia-os na disciplina. A armadilha perfeita: o consentimento para a submissão era extraído através da própria iliteracia linguística que o sistema falhava em proteger.

Hoje, a Google Play Store aperfeiçoou a mesma técnica na era do pixel. Ao tentar instalar uma aplicação, o utilizador é confrontado com um texto em letra minúscula, sobre fundo escuro: «Perde o seu direito de retratação». O termo técnico — que significa simplesmente «perde o direito de desistir e pedir o reembolso nos 14 dias seguintes» — surge envolvido num "juridiquês" impenetrável. Quem não domina o código jurídico lê à pressa, clica em "Aceitar" para libertar o ecrã e vê serem-lhe cobrados 42,99 € sem regresso possível.

Como ensinava Pierre Bourdieu, estamo-nos a referir à violência simbólica: o poder de impor um significado como legítimo dissimulando as relações de força que lhe dão origem. A linguagem erudita ou técnica actua como um filtro de classe. Os mais vulneráveis não falham por falta de inteligência, mas porque não possuem as chaves de descodificação do código dominante.

A sociologia da justificação de Luc Boltanski, safaria a Google do julgamento moral conjugando a cidade industrial com a cidade mercantil: alega a neutralidade do algoritmo, o cumprimento estrito das directivas comunitárias e a eficiência do mercado. Para a grande multinacional, o texto está lá; se o utilizador não o leu ou não o compreendeu, a culpa é individualizada. A assimetria de poder é formalmente convertida num "consentimento informado".

Mas a Google não é um mero intermediário neutro. Por cada assinatura, compra in-app ou licença "vitalícia" de 42,99 € vendida através da Play Store, a Google cobra uma comissão que varia entre os 15% e os 30%. O modelo financeiro da loja está desenhado para incentivar o maior volume possível de transacções digitais, independentemente de a aplicação ser de extrema qualidade ou um mero wrapper para captar conversões impulsivas.

Ao abrigo das leis do comércio electrónico, a Google posiciona-se como uma simples plataforma de distribuição, atirando a responsabilidade pelo conteúdo, legalidade e utilidade da aplicação para o programador (developer). A Google limita-se a gerir o motor de pagamentos e a colocar o aviso legal "standard" (como o tal do direito de retratação) para se blindar legalmente contra processos de consumidores ou das entidades reguladoras.

A interface da Play Store é desenhada para cumprir o mínimo regulatório exigido pela União Europeia, mas sem criar um atrito financeiro real. Se o aviso fosse demasiado claro, em formato grande e com uma linguagem simples (ex.: "Atenção: vai pagar 42,99 € agora e não pode pedir o dinheiro de volta"), as taxas de conversão de muitas destas aplicações caíam a pique.

Quer seja no impresso de papel da escola nos anos 80, quer seja no ecossistema digital de hoje, o truque é o mesmo: criar atrito cognitivo nos mais fracos para garantir o resultado que convém à instituição. A linguagem, que deveria servir para libertar e esclarecer, continua a ser desenhada como uma ferramenta de controlo e captura.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Jogo do Galo

Sua vez (X)

sábado, 8 de agosto de 2026

O Privilégio de Acordar

Há momentos na vida em que a fragilidade do nosso corpo e da nossa existência se revela sem aviso. A recente entrevista de Nuno Markl ao programa Alta Definição, conduzida por Daniel Oliveira, serviu de espelho para uma reflexão profunda sobre o que significa escapar do abismo e regressar para contar a história.

Após superar dois AVCs e um longo processo de reabilitação, Markl verbalizou um conflito interior que muitos de nós já sentiram, ou intuíram, ao passar por momentos de fronteira. Quando Daniel Oliveira lhe perguntou qual seria a pergunta cuja resposta gostaria de ter garantida, a resposta de Markl foi ao fundo da questão existencial:

«Gostaria de tirar dúvidas sobre se existe uma entidade suprema de facto, chamemos-lhe Deus por exemplo. (...) No entanto, depois de me safar de dois AVC’s e de estar aqui, eu sei que é com muito trabalho meu, mas gostaria de saber se houve mais alguém envolvido. Há alguém a ver isto e jogar connosco tipo Sims?»

Esta oscilação entre a memória afectiva da fé (como a presença de Deus na casa das avós católicas na infância) e o rigor de quem reconhece o seu próprio esforço e a lógica da ciência é o retrato fiel da mente humana perante o imponderável. Por um lado, o fascínio pela complexidade do mundo:

«Tem que existir qualquer coisa. Isto é tudo muito bizarro e muito cheio de detalhes... Mas por outro lado a minha mente racional diz que se calhar não, isto é tudo um acaso... mas gostaria de saber mais qualquer coisa sobre o sentido da vida.»

Quando sentimos que estivemos, ainda que por instantes, com um pé do "lado de lá", as urgências artificiais do quotidiano desfazem-se. A dúvida sobre se somos peças num tabuleiro vasto ou meros frutos de um acaso biológico não traz angústia — traz uma capacidade renovada de espanto.

A verdadeira lição de quem passa por estes processos não está em encontrar uma certeza dogmática sobre a existência de uma força suprema, mas em reconhecer a densidade do presente. Percebe-se, finalmente, que o maior mistério e a maior dádiva não estão no que virá depois ou nas mecânicas invisíveis do universo, mas na simplicidade do regresso: a conquista diária da autonomia, o corpo a reconstruir-se e o renovado e extraordinário privilégio de abrir os olhos a cada manhã.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A estatística do pirilampo e a vertigem do click

Há uma venerável tradição no jornalismo moderno que consiste em olhar para o mundo através do buraco de uma fechadura e, acto contínuo, anunciar ao país que o horizonte desapareceu.

O Professor Luís Aguiar-Conraria assinou no Expresso um texto exemplar sobre esta curiosa arte de fabricar o apocalipse à semana. O enredo é simples, quase bucólico: as candidaturas ao ensino superior atrasaram-se um par de dias por mor de um percalço informático na emissão das fichas ENES. Nada que perturbasse o destino do mundo ou a contagem final dos prazos — que, para cúmulo, até eram mais longos este ano.

Porém, para a nossa imprensa sequiosa de drama, um atraso burocrático de quarenta e oito horas não é um contratempo: é uma tragédia nacional. Em menos de nada, lá surgiram as manchetes catastróficas a proclamar que o país tinha deixado de querer estudar. Ao quinto dia, já se contabilizavam quedas vertiginosas de 63% e se encomendavam exéquias à juventude portuguesa.

Marshall McLuhan explicou-nos, há meio século, que o meio é a mensagem. Tinha razão, mas pecou por escassez. Hoje, o meio não é apenas a mensagem: é uma vertigem. A imprensa já não informa sobre a realidade; compete com ela em velocidade. E nessa corrida desenfreada pelo clique imediato, um facto completo e contextualizado é um obstáculo imperdoável. A notícia tem de ser rápida, quente e, sobretudo, assustadora. Se a realidade recusa cooperar com a catástrofe, pior para a realidade: ajusta-se a escala, isola-se o primeiro dia da contagem e serve-se o pânico em bandeja de prata.

Seguiram-se, como era inevitável, os habituais doutores da mula ruça, prontos a explicar a "crise" com teorias de profundidade abissal: a demografia, o preço das casas em Lisboa, a desvalorização dos diplomas e a sociologia do desalento. Ninguém ousou olhar para o óbvio — a mudança das regras dos exames e um simples relógio burocrático. Para quê a simplicidade dos factos quando se pode ter a sumptuosidade de uma boa teoria do caos?

A verdadeira notícia — a de que as candidaturas estavam, afinal, a subir e a recuperar — ficou na gaveta. Afinal de contas, "tudo corre dentro da normalidade" é uma manchete que não vende jornais, não gera shares e, pior do que tudo, obriga a pensar antes de escrever. E pensar, nos tempos que correm, é um luxo que o algoritmo não tolera.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Xadrez

Brancas a jogar.

Promover a:

domingo, 2 de agosto de 2026

Puzzle 15

Tente completar o puzzle em menos de 80 movimentos.
Movimentos: 0

Sapiens: História Breve da Humanidade

Gosto de começar os livros pelo fim, para conhecer antecipadamente o destino. A Brief History of Humankind – Sapiens , de Yuva...