domingo, 15 de março de 2026

Há males que vêm por bem (e por cansaço)


 Hoje acordei uma hora mais cedo do que o costume. Não foi o entusiasmo do meu 66.º aniversário, mas sim a assombração do termoacumulador (podem ler a saga anterior aqui).

Diz a sabedoria popular que a paciência é uma virtude, mas a Worten e os seus parceiros (PensarCasa/KRepair) decidiram testar os meus limites. Percebi a estratégia: eles só atendem chamadas de números novos — os "potenciais patos". Uma vez que já pagámos, passamos a ser mobília de decoração na linha de espera, eternamente pendurados ao som de uma música de elevador enquanto sonhamos com um duche que não seja de água gelada.

Mas há males que vêm por bem. No meio deste deserto de respostas, a minha recente "especialização forçada" em eficiência energética trouxe-me uma epifania: remover o meu fiel esquentador talvez fosse um erro de principiante. Afinal, o esquentador só se lembra de gastar gás quando eu me lembro de tomar banho. Já o termoacumulador? Esse prefere ficar a consumir energia alegremente mesmo quando não estou em casa. Há relatos de quem seguiu o canto da sereia do programa E-Lar e agora olha para a factura da luz como quem olha para um filme de terror.

Posto isto, e como hoje é o meu dia, decidi oferecer-me a melhor das prendas: liberdade.

Desisti oficialmente da instalação e da Worten. Exigi o reembolso total e o desbloqueio do meu voucher. Quem sabe se, num futuro próximo, o Fundo Ambiental não me ajuda a trocar as janelas? Pelo menos essas não precisam de agendamentos fantasma nem de manutenção técnica da PensarCasa.

Para selar o compromisso, deixei o meu "testemunho" no Livro de Reclamações Online. Sinto-me subitamente mais leve, mais sábio e, acima de tudo, muito mais tranquilo.

terça-feira, 10 de março de 2026

O Mistério do Termoacumulador Fantasma: Uma Odisseia Worten e E-Lar

Exmos. Senhores da Worten,

Escrevo-vos não para reclamar, mas para partilhar o guião da minha nova série de suspense, baseada no processo Worten-online nº 2108218.

Tudo começou a 21 de janeiro, quando, cheio de esperança e com o voucher E-Lar na mão, paguei 224,87€ pela instalação de um termoacumulador incluindo a remoção do esquentador. Mal sabia eu que estava a pagar por um bilhete para uma montanha-russa de desencontros.

O Elenco:

  • A "PensarCasa": Que atende o telefone para dizer que não tem nada a ver com a Worten (apesar de ser o número indicado).

  • A "KRepair": O novo nome da PensarCasa no site, provavelmente para despistar os clientes mais persistentes.

  • O Técnico Invisível: Aquele que marcou para dia 10/02 e decidiu celebrar o Carnaval mais cedo, não aparecendo nem ligando.

Os Melhores Momentos (ou Piores):

  1. O Toque de Midas (ao contrário): Dia 05/03 recebo um "toque" do número 214205303. Um toque. Presumo que esperavam que eu tivesse reflexos de Jedi para atender em 0,5 segundos. Ao devolver a chamada, fui brindado com música de espera até a linha cair.

  2. O Link da Obediência: Liguei para o apoio ao cliente e enviaram-me um link por SMS. Como sou bem mandado, segui-o, apenas para descobrir que me pediam mais 71,99€ pelo mesmo serviço já pago. A inflação está má, mas isto já é criatividade excessiva!

  3. O Bloqueio Seletivo: No dia 10/03, após várias tentativas falhadas onde a chamada "caía" misteriosamente, liguei de outro número. Magia! Fui atendido imediatamente. Pelos vistos, o meu número original já estava na lista negra da persistência.

O Clímax: Depois de muito insistir, lá consegui um agendamento para dia 18/03. Para conseguir esta proeza, tive de desmarcar uma consulta médica, porque a alternativa era esperar por dia 30/03 (quase no verão, altura em que o banho quente já não é prioridade).

Pergunta para o milhão de euros: Será que dia 18/03 o técnico vai mesmo aparecer ou o meu termoacumulador é apenas um objeto mitológico?

Aguardo uma confirmação de que, desta vez, o serviço pelo qual paguei há quase dois meses será efectivamente realizado. Prometo que, se aparecerem, não lhes cobro o valor da consulta que tive de reagendar.

Com os melhores cumprimentos, 



A mensagem acima foi publicada no Portal da Queixa. Sobre o mesmo assunto foi apresentada reclamação no site da DECO Proteste. 

Sócrates: O Colecionador de Ex-Advogados

 Parece que encontrámos o segredo da imortalidade processual: a renúncia rotativa. O plano é de uma simplicidade brilhante e digna de um argumento de Hollywood (ou de uma comédia de costumes lusa).

  • A Dança das Cadeiras: Desde o final de 2025, os advogados de José Sócrates entram e saem do processo com a rapidez de quem atravessa uma porta giratória. Primeiro foi o "simulacro", depois a saúde, e agora o "não tive tempo para ler o dossier".

  • O "Speed Dating" Jurídico: Os novos defensores aceitam o fardo sabendo que o tribunal só dá 10 dias de estudo, mas — surpresa das surpresas! — desistem pouco depois porque... o tribunal só dá 10 dias de estudo. É um choque de realidade que ocorre com a pontualidade de um relógio suíço.

  • A Vitória pela "Cansada": Enquanto o tribunal nomeia defensores oficiosos (que o arguido rejeita com o desdém de quem devolve um prato frio num restaurante), o calendário avança. O objetivo não é o banco dos réus, é o calendário de 2026: onde as prescrições brilham como o pote de ouro ao fim do arco-íris.

  • O Labirinto Perfeito: No nosso sistema, o advogado é livre de sair, o arguido é livre de escolher e o processo é obrigado a parar. É o "xeque-mate" legal onde ninguém ganha, exceto o tempo.

  • A Solução na Prateleira: A Ministra da Justiça até quer multar estas "manobras", mas, como as leis não retroagem para salvar o que já está perdido, Sócrates poderá continuar a sua coleção de procurações revogadas até que o crime se apague por velhice.

Depois de 12 anos de investigação, acusação e instrução, o julgamento da Operação Marquês começou em Julho de 2025. As trocas de advogado já provocaram uma paragem de cerca de dois meses. O tribunal tenta correr, mas a defesa inventou o atrito infinito até à prescrição final. Sócrates é quem melhor conhece o processo e as normas da justiça portuguesa, pelo que se justificaria, ser nomeado como seu próprio advogado.

segunda-feira, 9 de março de 2026

O Paradoxo da Sobrevivência: A Geopolítica do Átomo em 2026

A recente intervenção militar no Irão, baptizada pela administração Trump como Operação Fúria Épica, trouxe de volta ao debate internacional um dilema que muitos julgavam adormecido: o chamado "Paradoxo da Sobrevivência".

Em 2026, a mensagem vinda de Washington parece ser de uma clareza meridiana, ainda que terrível: a desnuclearização é um argumento selectivo que altera profundamente o cálculo de custo-benefício para qualquer nação soberana.

O Espectro de Tripoli e a Lição de Pyongyang

Os Governos actuais observam a História recente através de uma lente pragmática. O contraste entre os destinos de vários regimes é, no mínimo, instrutivo:

  • Líbia (2011): Muammar Kadhafi aceitou interromper o seu projecto nuclear em troca de uma reaproximação diplomática e económica com o Ocidente. Poucos anos mais tarde, viu o seu regime ser deposto com o apoio directo da OTAN.

  • Ucrânia (1994): Ao assinar o Memorando de Budapeste, entregou o terceiro maior arsenal nuclear do mundo em troca de garantias de segurança que se revelaram ineficazes perante a invasão russa.

  • Coreia do Norte: Contrariando todas as sanções e pressões, Pyongyang manteve o seu programa, realizou testes sucessivos e, hoje, goza de uma imunidade que nenhum país do Médio Oriente possui. Kim Jong-un sabe que a posse do átomo é o único "seguro de vida" absoluto.

A Doutrina do Ataque Preventivo

A grande ruptura de 2026 reside no facto de os EUA terem adoptado a tese de que o mero progresso técnico — o enriquecimento de urânio acima dos limites convencionados — constitui, por si só, um acto de agressão que justifica uma resposta armada.

Esta postura cria um incentivo perverso: se um país está a tentar construir a bomba, os EUA focarão o seu poder de fogo nele antes que o objectivo seja atingido. Todavia, se esse mesmo país já detiver a capacidade nuclear, a Casa Branca prefere o caminho da retórica ou das sanções, pois o custo de uma guerra atómica é, por definição, inaceitável para a sobrevivência da espécie.

A Reacção dos Aliados

O paradoxo estende-se agora aos aliados tradicionais. Países como a Coreia do Sul, o Japão e a Arábia Saudita, ao assistirem à imprevisibilidade da política externa americana, começam a questionar a validade do "chapéu de chuva" nuclear de Washington. Se a protecção americana é condicional e o ataque a países não-nucleares é a nova norma, a conclusão lógica para estes Estados é a procura da auto-suficiência bélica.

Conclusão: O argumento da desnuclearização tornou-se uma ferramenta de intervenção selectiva. Serve para desarmar os adversários antes que estes se tornem intocáveis, mas, simultaneamente, acelera a corrida às armas entre aqueles que ainda se sentem vulneráveis. 

domingo, 8 de março de 2026

Fé: O Investimento que a sua Mente Rejeita

 Pascal, com a sua calculadora de bolso do século XVII, garantiu: acreditar em Deus é o negócio do milénio. Se Ele existir, o retorno é infinito; se não existir, perdeu apenas umas horas de sono ao domingo. Já os ateus? Esses estão a jogar num casino onde o prémio máximo é a liberdade e a perda máxima é... bem, o fogo eterno.

Então, porque é que tanta gente "desperdiça" este lucro garantido e prefere o risco da falência espiritual? Seria mais lógico comprar o "pack conforto" da fé para ser feliz, certo? Errado.

A resposta não está na teologia, mas na luta entre o seu instinto (S1) e a sua calculadora (S2):

  • O Sistema 1 não aceita subornos: Kahneman ensinou-nos que não fabricamos fé com lógica fria. Se a sua intuição diz que não há provas, o seu cérebro não "engole" o dogma só porque o prémio é grande. Tentar ter fé por interesse é como beber vinho de pacote e jurar que é um Reserva: o paladar (e a consciência) não mente.

  • A "Liberdade" não é de marca branca: Para muitos, o custo de acreditar não é zero; é abdicar da autonomia intelectual. Preferem ser ateus honestos do que crentes de conveniência que fingem para não perder o lugar no céu.

  • Apólice contra o Inferno: Viver uma mentira calculada gera um stress que nenhuma oração cura. No fim do dia, a felicidade não vem de um seguro de vida pós-morte, mas da paz de não ter de fingir que se é parvo para ser salvo.

Pascal fez a conta certa, mas esqueceu-se de um detalhe: o ser humano prefere estar "errado" com a sua verdade do que "certo" por puro medo do prejuízo.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Pixel Watch 4: Muito mais do que um relógio, um aliado para ouvir melhor o corpo

 Após cinco meses de utilização diária, posso garantir: o Pixel Watch 4 mudou a forma como olho para o meu corpo. O que começou como um simples acessório para ver as horas e a meteorologia, tornou-se num centro de monitorização constante que me ajuda a tomar melhores decisões.

Logo no mostrador principal, tenho acesso imediato ao essencial: passos, distância, carga cardiovascular, bateria e batimentos cardíacos. Mas a verdadeira magia acontece nos bastidores, dentro da aplicação Fitbit.

O Descanso como Ponto de Partida

A qualidade do meu sono deixou de ser uma suposição. Agora, acompanho detalhadamente os ciclos — do sono leve ao profundo, passando pelo REM. A app cruza estes dados com a Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC) e a Frequência Cardíaca em Repouso (FCR) para calcular a minha Disposição Diária.

Quando observamos que esta está alta, até saímos da cama com maior vontade de fazer actividades!

Descodificando as Métricas de Saúde

Nas métricas da saúde, conforta-nos observar que todos os indicadores se encontram dentro dos parâmetros normais. Aqui estão os que considero fundamentais:

  • FR (Frequência Respiratória): Indica o número de respirações por minuto enquanto se dorme. Um aumento súbito na FR pode ser um sinal precoce de que o corpo está a combater uma infecção (como uma gripe ou COVID-19) ou de febre, muitas vezes antes de nos sentirmos realmente mal.

  • SpO2 (Saturação de Oxigénio): Mede a percentagem de oxigénio no sangue. Em indivíduos saudáveis, situa-se geralmente acima dos 95%. O smartwatch mede isto durante a noite para detectar variações significativas que possam indicar problemas como a apneia do sono.

  • FCR (Frequência Cardíaca em Repouso): Mede o número de batimentos por minuto (bpm) quando se está totalmente calmo e imóvel. É um reflexo directo da saúde cardiovascular e nível de fitness. Uma FCR que começa a subir gradualmente pode indicar stress acumulado, falta de sono ou excesso de treino.

  • VFC (Variabilidade da Frequência Cardíaca): Ao contrário do que parece, quanto mais alta, melhor. Uma VFC alta indica que o sistema nervoso autónomo está equilibrado e pronto para lidar com o stress. Se a VFC baixar drasticamente, o corpo está a dizer que precisa de descanso.

  • Variação da Temperatura da Pele: A aplicação não indica a temperatura exacta (como 36,6°C), mas sim o desvio em relação à média habitual durante o sono. Pequenas variações são normais, no entanto, um desvio positivo grande pode ser um sinal de febre a caminho.

A "Regra de Ouro" e o Apoio da IA

O Gemini tem sido um auxiliar precioso na interpretação dos indicadores, indicando previdentemente a seguinte Regra de Ouro:

  • Se os dados dizem que está tudo bem, mas você se sente mal, confia no teu corpo e fala com um médico.

  • Da mesma forma, um único valor "fora do normal" num dia de muito stress ou após uma jantarada não é motivo para alarme imediato.

Resultado: Um quotidiano mais consciente

Ao longo do dia vai sendo assinalada a actividade por hora; como resultado, deixei de passar horas sem me mexer, e o corpo agradece! Após 5 meses, estou a pesar-me regularmente, fazendo exercício físico atento à carga cardiovascular e alimentando-me com “comida de verdade” para ganhar massa muscular e saúde, para não precisar da medicina tão cedo.


O Panteão Digital: A Google sabe quem eu sou

Contudo, este conforto tecnológico tem um preço que raramente ponderamos: a nossa total transparência perante a Google. Se já sabíamos que a gigante tecnológica conhece os nossos contactos, lê as mensagens electrónicas, monitoriza a actividade no Chrome e sabe o que vemos no YouTube, o Pixel Watch 4 fecha o círculo de vigilância perfeita. A Google sabe para onde vou, como conduzo o meu carro, onde gasto o meu dinheiro através do GPay e com quem partilho a minha localização no Maps.

Mas a devassa é absoluta. Através do meu smartphone Pixel, a Google possui as fotografias e vídeos de todas as pessoas e locais que visitei; guarda álbuns e criações armazenadas no Google Fotos desde o milénio anterior. Conhece os livros que li e comentei no Blogger, os meus documentos de trabalho e ficheiros pessoais em formato PDF guardados no Google Drive, as minhas notas mais íntimas no Google Keep, os eventos e tarefas no Google Calendário.

A minha vida financeira está exposta: da carteira de títulos no Google Finance à vigilância dos meus movimentos no Homebanking e nas aplicações bancárias. O meu gosto artístico é mapeado pelas músicas que escuto e o meu pensamento é esquadrinhado nas conversas que mantenho com o Gemini ou nos trabalhos que organizo no NotebookLM. Até as minhas chaves de acesso a todos os sites estão no passwords.google, e a minha comunicação privada — das SMS no Messages às cópias de segurança do WhatsApp no GDrive — está sob o seu olhar.

Em casa, o Google Nest escuta-me silenciosamente o dia inteiro, aguardando o comando "OK Google". Agora, o último reduto da minha privacidade foi conquistado: nem a dormir estou sozinho. A Google acompanha-me nos sonhos, transformando os meus processos biológicos em estatísticas. No fundo, entreguei o meu último segredo — o bater do meu coração — ao servidor mais próximo. Estaremos a vigiar a saúde ou a ser vigiados em permanência?

segunda-feira, 2 de março de 2026

Objectivos vs. Hábitos

Goals are the actions you think about but don’t do.

Habits are the actions you do but don’t think about.


Better goals require a lot of effort and change little.

Better habits will change everything.

A grande diferença entre objectivos e hábitos reside na consciência e na consistência.

► O Pensamento vs. A Execução

  • Objectivos são as ações em que pensas, mas não realizas. Vivem no futuro e dependem de motivação externa ou de um momento de inspiração. São o "destino" que visualizamos no mapa.

  • Hábitos são as ações que realizas, mas sobre as quais já não pensas. Estão integrados na tua identidade e no teu sistema operativo mental. São o "caminho" que percorres todos os dias, quase em piloto automático.

► O Esforço vs. O Impacto

  • Melhores objectivos exigem um esforço hercúleo de planeamento e força de vontade, mas, por si só, mudam muito pouco na realidade imediata. Podes passar horas a definir o "objectivo perfeito" e continuar exatamente no mesmo lugar.

  • Melhores hábitos mudam tudo. Ao contrário de um objectivo isolado, um hábito bem enraizado altera a tua estrutura diária. O impacto é cumulativo: pequenos ajustes na rotina (os chamados ganhos marginais) transformam radicalmente quem és a longo prazo.


Em suma: Não te tornas um atleta ao definir o objectivo de "correr uma maratona". Tornas-te um atleta quando o hábito de calçar as sapatilhas todas as manhãs se torna tão natural como escovar os dentes.

Há males que vêm por bem (e por cansaço)

 Hoje acordei uma hora mais cedo do que o costume. Não foi o entusiasmo do meu 66.º aniversário, mas sim a assombração do termoacumulador (p...