Se Adam Smith e Max Weber regressassem hoje ao palco terreno para analisar o admirável mundo novo do trumpismo e do movimento MAGA, muito dificilmente conteriam um trejeito de espanto — seguido, certamente, de uma gargalhada amarga.
A grande ironia da narrativa política contemporânea é a facilidade com que qualquer tentativa de regulação de mercado ou de criação de um direito social básico é logo brindada com o epíteto de «comunismo». A linguagem atinge contornos verdadeiramente cómicos, como se a União Soviética tivesse ressuscitado e estivesse prestes a desembarcar com três divisões em Cuba.
No entanto, quando observamos a prática trumpista com os óculos da sociologia e da economia clássica, o cenário inverte-se de forma retumbante.
O "Corporativismo" e a Mão Invisível Esmagada
Adam Smith, o pai do liberalismo económico, nunca foi um ingénuo apologista da ganância ilimitada. Smith alertou-nos expressamente para a tendência natural de os agentes económicos conspirarem contra o público, erguendo monopólios destrutivos. Para o pensador escocês, a «mão invisível» só funciona quando acompanhada de uma concorrência leal, da promoção da eficiência, da provisão de bens públicos e da preservação da equidade.
O que o trumpismo nos propõe não é o capitalismo plural de Smith, mas sim um corporativismo puro e duro. Quando se atribui um poder absoluto e desmedido a um par de impérios corporativos e a tecnofuturistas omnipresentes, o mercado deixa de ser um instrumento de liberdade cívica para se transformar num feudo. Se a república limita o poder político através da separação de poderes e da Constituição, por que razão haveria o poder económico de crescer sem freios até ao monopólio?
A Ética Perdida e a Burocracia Bizarra
Por seu lado, Max Weber explicou-nos em tempos que o capitalismo moderno exige uma ética racional e contida. Um capitalismo desprovido de limites morais e voltado unicamente para a pilhagem não é economia de mercado: é barbárie imoral.
Weber, o grande teórico da burocracia impessoal e eficiente, ficaria estupefacto perante as novas investidas contra a máquina do Estado. A ideia de criar comissões de "eficiência" (como o famigerado DOGE) onde jovens libertários entram pelos departamentos a ditar quotas aleatórias de despedimento — «hoje cortam-se 34%, amanhã 57%», sem qualquer avaliação de desempenho — é o oposto da racionalidade capitalista. É uma espécie de purga estalinista em versão tech, em que comissários politizados competem entre si para ver quem envia a lista de despedidos mais vistosa para o chefe. O resultado final, como não podia deixar de ser, é a mais completa ineficiência e o agravamento dos custos públicos.
A Nomenclatura e a Pós-Verdade
O ramalhete completa-se com o absoluto desprezo pela verdade objectiva e pelo Estado de Direito. Ao transformar-se a verdade na mera vontade do líder de ocasião, a comunicação social alinhada assume o papel de um verdadeiro Pravda no coração da república. Para cumular, a corrupção e o compadrio em redor da família reinante fazem invejar as mais intrincadas nomenclaturas dos regimes absolutistas de outrora.
Conclui-se, assim, uma extraordinária pirueta histórica: aqueles que passam o tempo a agitar o espantalho do "comunismo" contra qualquer regulação democrática acabaram por adoptar, ponto por ponto, o modus operandi dos regimes autoritários que dizem detestar.
Se o capital deve ser controlado no mercado e banido da política — como advogariam Smith e Weber em cinco segundos —, resta saber quando é que a república acordará para expulsar os novos barões do parlamento e devolver a economia à sua verdadeira ética.