Há dias em que a modernidade tecnológica decide morder a própria cauda, proporcionando um espectáculo digno de registo a qualquer observador atento das nossas dinâmicas sociais. O protagonista da patuscada desta semana? O meu estimado Google Pixel 8.
Tudo começou com uma bela tarde de sol em Coruche. Trinta e dois graus no termómetro e o telemóvel a servir de GPS no carro. A meio da viagem, o ecrã do Pixel — que pelos vistos sofre de uma sensibilidade romântica ao calor — decidiu manifestar o seu desagrado ficando completamente verde. Um verde alface, garrido, impossível de ignorar. Hardware em stresse, diagnóstico claro: ecrã nas couves.
Sabendo que a própria Google reconheceu um defeito crónico nestes painéis e alargou a garantia, recorri ao suporte oficial da marca via chat. E foi aqui que entrei numa dimensão paralela que faria o funcionário mais ranzinza de uma antiga Repartição de Finanças parecer um modelo de eficácia e flexibilidade.
Primeira pérola da assistente do outro lado do mundo: o meu Pixel, cujo IMEI foi devidamente verificado, teria sido "fabricado em Espanha". Ora, todos sabemos que os semicondutores e a montagem destas peças raras vêem da China, mas quem era eu para contrariar a nova geografia corporativa da Silicon Valley? O problema é que, por ter essa suposta certidão de nascimento espanhola, a Google exigia-me 153€ pela reparação em solo português. Injusto, mas vá lá, a urgência de comunicação impunha o pragmatismo. Aceitei pagar.
E aí atingimos o pico do absurdo kafkiano.
Para pagar os tais 153€, a multinacional exigia um cartão de crédito com validação obrigatória por 3D Secure. Para os menos avisados, isto significa que, para concluir o pagamento no computador, o banco envia uma notificação ou um código para... o telemóvel. Sim, caros leitores, para consertar o ecrã do smartphone precisava de autorizar o pagamento, com o tal ecrã pifado.
Perante a pescadinha de rabo na boca, tentei a bonomia lusa: — “Não me pode dar uma referência Multibanco?” Silêncio do outro lado. A assistente entrou em curto-circuito e pediu-me tempo para pesquisar... No quartel-general da Google, a fantástica e evoluída rede SIBS que gerencia os nossos pagamentos há décadas é um mistério tão insondável como a Atlântida. — “E uma transferência por IBAN? Ou pagamento à cobrança na entrega?” — “Impossível, senhor José. Só cartão de crédito.”
A maior empresa de tecnologia do planeta conseguiu criar um bloqueio burocrático-digital absolutamente intransponível para si própria. A situação tornou-se tão surreal que a própria assistente da Google, a quem chamarei Esmeralda, acabou por me perguntar, num laivo de desespero, se eu não teria porventura um amigo em Espanha. Se eu conseguisse inventar uma morada do outro lado da fronteira, o sistema lá aceitaria a gratuitidade! É extraordinário: perante a rigidez de um algoritmo cego, a própria funcionária da Silicon Valley viu-se forçada a sugerir uma manobra de desenrascanço digna do mais puro engenho luso para tentar ludibriar a inteligência artificial da sua própria casa.
Como a perspectiva de ficar um mês isolado do mundo — e das minhas aplicações bancárias — à espera que a burocracia ibérica da Google se decidisse era absolutamente deprimente, recorri à velha máxima de que os grandes problemas resolvem-se localmente.
Fui ao centro comercial. Enquanto desfrutava de um lanche descansado, os técnicos de uma conhecida loja de assistência rápida (a iServices) trocaram-me o ecrã por um original em menos de uma hora, carimbaram-me três anos de garantia na peça e devolveram-me o Pixel 8 impecável. Tudo pago, na hora, sem necessidade de consultar mapas de Espanha.
A Silicon Valley que me desculpe, mas contra a eficácia de um balcão de vão de escada e de um pastel de nata, o vosso algoritmo não tem a menor hipótese. O Gemini até diz, com alguma graça, que a iServices parece “um balcão de vão de escada” por ser um autêntico templo dedicado aos iPhones; mas a verdade é que a Google deveria equacionar seriamente um acordo com a melhor reparadora de smartphones e watches do nosso mercado. Em vez de nos empurrarem para a Worten, que repara desde frigoríficos a computadores e mais não sei quê, ganhariam muito mais em apostar na especialização. Tenham paciência, senhores da Google: chegaram a este mercado muito depois da Apple, e a melhor maneira de continuarem a conquistar-lhe quota de mercado não é com burocracias ibéricas, mas sim através da plena satisfação dos clientes.