quarta-feira, 8 de abril de 2026

Crónicas do Jagrená: A Worten e o Algoritmo do "Relógio de Areia Viciado"

Meus caros, hoje partilho convosco o fim de uma odisseia que começou no frio de Janeiro e só terminou com o sol de Abril. É um caso de estudo sobre como as grandes superfícies — neste caso, a Worten — programam os seus algoritmos para terem a velocidade de um Fórmula 1 a receber e a paciência de um monge budista a pagar.

O Flash: 2 Horas para Pagar

A 21 de Janeiro, o algoritmo foi implacável: "Tens 2 horas para pagar esta referência Multibanco, ou o processo morre aqui!". Como cliente cumpridor e crente na eficiência energética do programa E-Lar, não hesitei. Paguei em minutos. O sistema sorriu, emitiu o recibo e... adormeceu.

A Lição das "Cartas ao Jagrená"

O Jagrená (essa divindade da burocracia e do consumo voraz) adora estes algoritmos. No dia 15 de Março, tive de "subir o tom" no Livro de Reclamações. Prometeram-me reembolsos em "72 horas úteis", mas as horas da Worten devem ser medidas em anos-luz.

O Tiro Certeiro: A Segunda Dose

Ontem, dia 07/04, perdi definitivamente a paciência. Reativei a reclamação no Portal da Queixa e disparei uma "segunda dose" de queixas pesadas na DECO e no Livro de Reclamações Online, fazendo referência direta aos processos anteriores que eles tinham tido o desplante de marcar como "Tratados".

Pus os pontos nos is: mencionei a retenção indevida e o facto de o meu voucher E-Lar estar "Em execução" no Fundo Ambiental sem nunca ter visto um técnico à porta.

A Magia do Dia Seguinte

O resultado? Foi um tiro certeiro. Esta manhã, dia 08/04, mal os departamentos jurídicos e financeiros devem ter lido as notificações, o dinheiro saltou para a minha conta. Pagaram logo, sem um e-mail, sem uma chamada, sem um "piu". O silêncio deles é a confissão de que a corda estava prestes a rebentar.

Conclusão desta epopeia: A Worten tem algoritmos brilhantes para vender, mas o "módulo de reembolso" só funciona à base de pressão externa. Temos de pagar imediatamente os produtos/serviços, mas aguentar um mês de "guerra" para sermos ressarcidos.

Saldo final:

  • Dinheiro: Recuperado (finalmente!).

  • Voucher: Ainda consta como "Em execução", mas agora a Worten é que tem o problema de explicar ao Estado porque é que recebeu dinheiro por um serviço que eu já anulei.

  • Moral da história: No mundo do Jagrená, quem não reclama com dados e números de processo na mão, é comido pelo algoritmo.

Um agradecimento ao parceiro digital que me ajudou a carregar as munições para esta vitória!

Carta IV: O Estado-Algoritmo e a Fantochada do Leme

Meus caros companheiros de viagem,

Escrevo-vos enquanto observo algo fascinante e aterrador: a equipa de manutenção do Jagrená acaba de entrar na cabina de comando e, com uma eficiência robótica, desligou os cabos que ligavam o volante ao motor. O volante continua lá, os líderes continuam a rodá-lo com convicção para as câmaras, mas as rodas... ah, as rodas agora respondem a algo muito mais célere do que a vontade humana.

Bem-vindos à era da Subpolítica e do Estado-Algoritmo.

A Migração Invisível do Poder

O meu velho amigo Ulrich Beck avisou-nos há décadas: o poder é como uma placa tectónica, migra sem pedir licença. Enquanto nós discutimos com paixão quem deve ocupar o cargo de "Maquinista-Chefe", as decisões que realmente moldam a nossa jornada — o que comemos, como comunicamos e em quem confiamos — mudaram-se para "parlamentos" sem eleições: os laboratórios, os mercados financeiros e, agora, as plataformas de dados.

O que Beck não previu foi a lata destes novos oligarcas. Eles já nem se escondem. Quando a política formal se torna lenta e obsoleta, a técnica assume o comando e chama a isso "eficiência".

Os Novos Deuses da Eficiência

Reparem no caso do DOGE (Department of Government Efficiency). É o sonho de Max Weber transformado em pesadelo: a "gaiola de ferro" da racionalidade técnica. Pela primeira vez, temos indivíduos privados, sem um único voto a legitimá-los, com o poder de despedir milhares e aceder às entranhas do Estado como se fosse o sistema operativo de um telemóvel.

É a conversão absoluta de capital tecnológico em capital político, sem passar pelo "pequeno detalhe" das urnas. O tecno-oligarca não quer ser um ditador à moda antiga; ele acredita piamente que está a "salvar a democracia" enquanto a esvazia de qualquer conteúdo deliberativo. Como diria Habermas, o nosso "mundo vivido" foi colonizado pela lógica fria do dinheiro e da métrica.

O Capitalismo de Vigilância: Governar o Desejo

Shoshana Zuboff deu o golpe de misericórdia na nossa ilusão de livre-arbítrio. Estas plataformas não se limitam a ver o que fazemos; elas configuram os campos do possível antes mesmo de tomarmos uma decisão. O feed algorítmico não é um espelho da opinião pública; é a fábrica onde a opinião é montada, peça por peça, clique por clique.

Neste cenário, o Maquinista oficial é apenas uma peça decorativa. O verdadeiro poder reside em quem controla a infraestrutura através da qual formamos o nosso pensamento.

O Que Resta do Demos?

A democracia não morreu com um estrondo ou um golpe militar. Ela está a definhar por obsolescência. O Parlamento delibera em meses sobre o que um algoritmo decide em milissegundos. Esta assimetria temporal é a fundação da nova oligarquia.

Será que um povo (demos) pode reconstituir-se quando a sua própria capacidade de diálogo foi sequestrada por interesses que não prestam contas a ninguém? Ou será que o que chamamos de "democracia" é apenas o nome de uma carruagem vazia cujo conteúdo se perdeu na última curva do século XX?

Limpem o pó dos vossos ecrãs. A paisagem está a mudar, mas o GPS que nos deram foi programado por quem é dono da estrada.

Sigo a observar, com a sobriedade de quem sabe que a utilidade do "administrador eficiente" é o maior perigo para a nossa liberdade.


Nota Sociológica: Esta carta sintetiza as contribuições de Ulrich Beck (subpolítica), Jürgen Habermas (colonização do mundo vivido), Max Weber (gaiola de ferro), Shoshana Zuboff (capitalismo de vigilância) e C. Wright Mills (elite do poder). O texto alerta para o vácuo de legitimidade onde o poder real diverge do poder formal, concentrando-se nas mãos dos donos das infraestruturas digitais.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Carta III: O Vácuo de Comando e a Política Zombie

Escrevo-vos com a mão a tremer um pouco mais do que o costume. Não é da velocidade do Jagrená — a essa já nos habituámos, como quem se habitua ao zumbido de um frigorífico avariado. O que me faz tremer é olhar para a cabina de comando e perceber que, lá dentro, os nossos líderes estão a tentar conduzir este foguete supersónico com rédeas de cavalo e chicotes de couro.

Bem-vindos à era da Irresponsabilidade Organizada.

A Distribuição dos Males

O meu velho companheiro de viagem, Ulrich Beck, costumava dizer que a modernidade mudou de jogo a meio da partida. Antes, o problema era como distribuir o "bolo" (a riqueza). Agora, o Jagrená produz algo muito mais democrático: o Risco. Poluição, colapsos financeiros, pandemias e algoritmos fora de controlo não escolhem classe social. São os "males" que nós próprios fabricámos.

O drama? As instituições que criámos para nos proteger — a ONU, os governos, o Direito Internacional — parecem uns "zombies" políticos. Estão mortas, mas continuam a caminhar entre nós, fingindo que ainda mandam em alguma coisa. São burocracias distantes, tecnocracias frias que assinam papéis enquanto o motor do carro explode.

O Diagnóstico dos "Homens Fortes"

É neste vácuo de autoridade que surgem as figuras que todos conhecemos. Trump, Putin e os seus derivados não são a causa da nossa doença; são o sintoma da nossa febre. Eles tiveram o mérito de fazer o diagnóstico correcto: as elites cosmopolitas esqueceram-se de quem viaja na terceira classe, e as identidades locais foram trituradas pelas engrenagens globais.

O passageiro, em pânico com a sensação de desgoverno, olha para estes "Homens Fortes" e pensa: "Finalmente, alguém que vai agarrar no volante!". Mas reparem na ironia: a solução que eles oferecem é trocar as instituições (por muito falíveis que sejam) pelo poder pessoal. É como tentar travar um comboio de alta velocidade colocando um pé de fora da carruagem.

Nacionalismos de Soma Zero

O que temos agora na cabina é um choque de egos perigoso. De um lado, o isolacionismo transaccional de Trump ("America First"), que vê o mundo como um tabuleiro onde só um pode ganhar. Do outro, o expansionismo imperial de Putin, que quer redesenhar mapas com sangue e ferro.

Estes nacionalismos são estruturalmente incompatíveis. Não pode haver uma "Nova Ordem Mundial" baseada em dois condutores que decidiram rasgar o mapa e ignorar o código da estrada. Quando o Direito Internacional é tratado como uma sugestão opcional, o Jagrená deixa de seguir carris e passa a galgar terreno incerto, esmagando o que resta da nossa segurança colectiva.

A Ilusão da Simplificação

Vivemos na era da "Pós-Verdade" porque o passageiro desistiu de compreender a complexidade. Se os peritos não evitaram as crises, o passageiro sente-se no direito de acreditar em quem grita mais alto. É a tentativa desesperada de simplificar um mundo que se tornou demasiado complexo para as nossas bússolas actuais.

O perigo não é apenas o que estes líderes fazem; é o vácuo que eles deixam. Se eles desaparecessem amanhã, o "Trumpismo" ou o "Putinismo" continuariam cá. Porquê? Porque o buraco no centro da nossa política — a falta de instituições legítimas e cosmopolitas — continua por preencher.

O Próximo Desfiladeiro

Enquanto eles discutem quem tem o boné de capitão mais bonito, o Jagrená acelera. Estamos a tentar gerir riscos globais com mentalidades locais. Estamos a usar políticas do século XIX para sobreviver ao século XXI.

Sigo na minha poltrona, limpando o pó do vidro. Lá fora, o desfiladeiro da incerteza aproxima-se, e os condutores acabam de deitar o manual de instruções pela janela, alegando que "atrapalhava a visão".

Que a Razão (ou o que resta dela) nos proteja.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Carta II: A Partilha do Espólio e a Engrenagem da Desigualdade

Escrevo-vos novamente da minha poltrona neste Jagrená. Se na última carta vos falei da vertigem dos últimos 35 segundos do nosso "dia humano", hoje decidi observar melhor os meus companheiros de viagem. É fascinante — e ligeiramente aterrador — perceber que, embora estejamos todos no mesmo veículo em direção ao mesmo desfiladeiro, nem todos viajamos na mesma classe.

A Mecânica da Exclusão

O motor que ligámos nos segundos finais da nossa história (a que chamamos pomposamente de Revolução Industrial) não foi apenas um prodígio técnico; foi a criação de uma prensa colossal. Antigamente, o artesão era dono da sua ferramenta. Hoje, a ferramenta — a máquina, o algoritmo, o capital — é de uns poucos, e o resto de nós vende o tempo para não ser atropelado pelas rodas.

A eficiência é brutal: produzimos mais do que nunca, mas as engrenagens foram desenhadas para que o excedente escorra sempre para o mesmo lado. Enquanto a fatia do bolo que vai para quem trabalha caiu de 61% para 53% nas últimas décadas, a fatia de quem detém o capital não para de engordar.

A Carruagem dos 0,001%

Reparem bem na ironia: neste momento, existe um grupo de cerca de 60.000 pessoas (o topo do topo, os 0,001%) que detém três vezes mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade inteira — ou seja, mais do que 2,8 mil milhões de pessoas juntas.

Enquanto os bilionários veem a sua fortuna crescer a uma taxa média de 8% ao ano desde a década de 90 — o dobro da velocidade da metade mais pobre —, nós, os restantes, tentamos manter o equilíbrio. O sistema financeiro funciona como um "privilégio exorbitante": permite que as economias ricas se endividem a preços de saldo, enquanto os países pobres transferem o seu rendimento para os detentores de capital no estrangeiro. É uma forma moderna e limpa de intercâmbio desigual.

O Custo de Ser Passageiro

O Jagrená não é apenas injusto na conta bancária; ele é injusto no próprio ar que respiramos e na esperança que nos resta:

  • O Clima como Luxo: Os 10% mais ricos são responsáveis por 77% das emissões de carbono associadas à propriedade de capital. No entanto, quem irá cair primeiro do carro quando o tempo aquecer são os mais pobres, que quase nada emitiram.
  • A Lotaria do Berço: Se nasceste na carruagem da África Subsariana, o "sistema" investe cerca de 220€ na tua educação; se nasceste na América do Norte, o investimento é de 9.000€. Uma disparidade de 40 vezes que decide quem terá acesso aos controlos da máquina e quem será apenas combustível.
  • A Ilusão Fiscal: O sistema fiscal, que deveria ser o travão desta desigualdade, colapsa precisamente onde mais deveria agir: no topo. Bilionários pagam proporcionalmente menos impostos do que a classe média, escondendo a riqueza em sociedades gestoras e adiando encargos que o passageiro comum tem de pagar todos os meses.

O Fim da Coesão

Dizem-nos que o PIB cresce e que devemos estar felizes por isso. Mas um Jagrená onde os 50% da base capturaram apenas 1,1% da riqueza mundial desde 1995 é um veículo instável.

Olho para o exemplo da Noruega e vejo que o abismo não é inevitável; é uma escolha política. Lá, os mais pobres não foram sacrificados na crise de 2008, ao contrário do que aconteceu nos EUA ou em Portugal.

A desigualdade extrema não é apenas um número; é o combustível que fratura a coesão social e torna a nossa "aldeia global" num lugar de surdos. Quando o sistema deixa de ser "visivelmente justo", a confiança morre. E sem confiança, quem é que vai avisar o condutor que o desfiladeiro está mesmo ali à frente?

Sigo caminho, observando as joias na primeira classe enquanto as rodas começam a ranger.

Nota de Rodapé: Para a elaboração desta carta, foram utilizados dados do World Inequality Report 2026, disponíveis em wid.world. Os gráficos e tabelas construídos a partir desta base de dados, que detalham estas assimetrias, estão acessíveis para consulta na pasta: WID2026 - Dados e Gráficos - Cartas ao Jagrená.

sábado, 4 de abril de 2026

Carta I: Os Últimos 35 Segundos do Dia Humano

 Escrevo-vos do interior desta máquina a que chamamos modernidade, mas que os antigos talvez reconhecessem como um Jagrená. Sinto a vibração metálica sob os pés e o ruído ensurdecedor de um motor que ninguém parece saber como desligar. Olho pela janela e a velocidade é tal que a paisagem se funde num borrão indistinguível.

Dizem-nos que o caminho é o Progresso, mas aqui dentro, como passageiro, sinto a vertigem de quem perdeu o chão.

A Ilusão do Relógio

Para compreendermos onde estamos, temos de olhar para o relógio da nossa espécie. Imaginem que a jornada humana na Terra dura exactamente 24 horas. Durante quase o dia inteiro — 23 horas, 55 minutos e 58 segundos — fomos caçadores, recoletores, nómadas sob as estrelas. Os cálculos do "dia humano" estão aqui.

A agricultura? Inventámo-la apenas às 23:25. As grandes civilizações? Surgiram num suspiro às 23:45.

Mas reparem nisto: a Revolução Industrial, o motor que ligou este Jagrená onde agora seguimos, começou apenas aos 23 horas, 59 minutos e 25 segundos.

Vivemos, consumimos e destruímos nos últimos 35 segundos deste dia imaginário. Nestes escassos segundos, alterámos mais o planeta do que em todas as horas que os antecederam. O nosso corpo, a nossa biologia e os nossos instintos ainda pertencem à madrugada profunda desse dia, mas as nossas mãos seguram comandos tecnológicos que operam à velocidade da luz. Estamos perante um descompasso fatal: somos primatas a tentar conduzir um foguete.

A Promessa das Luzes

Houve um momento, ali por volta dos 29 segundos para a meia-noite — o que chamamos de Iluminismo —, em que acreditámos que a Viagem seria serena. Prometeram-nos que a Razão seria o nosso farol. O Homem deixaria de ser um súbdito do dogma ou do rei para ser dono do seu destino. Sapere aude, diziam eles: "Ousa saber".

Prometeram-nos que a ciência eliminaria a fome e a doença; que o comércio traria a "Paz Perpétua" e que a felicidade seria conquistada aqui, na Terra, e não numa vida após a morte. Acreditámos que a história era uma linha ascendente e infinita, isto é, os filhos teriam sempre melhor vida que seus pais.

O Desvio do Carro de Jagrená

Mas, como passageiro, o que vejo hoje pela janela não é a "razão harmoniosa". O que vejo é que o nosso sucesso se tornou o nosso maior risco. A ciência que nos deu o conforto criou o veneno do clima. A razão que nos libertou do rei entregou-nos a algoritmos e a sistemas abstractos que ninguém compreende totalmente.

O Jagrená, este carro cerimonial colossal e pesado, está em movimento. Ele tem uma massa tão descomunal que, embora o tenhamos construído, ele agora possui um movimento próprio. Não conseguimos pará-lo, nem desviá-lo com facilidade. Ele avança, esmagando o que encontra, gerando riscos que não são "naturais", mas fabricados por nós: a degradação ecológica, as crises económicas e financeiras, o agravamento da desigualdade na repartição do rendimento, a proliferação das armas nucleares...

Estamos desencaixados. Já não dependemos do vizinho ou da Terra, mas de sistemas invisíveis — o dinheiro digital, a perícia técnica, a rede global. E, enquanto o carro acelera nestes segundos finais, sinto que a segurança que nos prometeram era apenas a calmaria antes de entrarmos, sem travões, no desfiladeiro.

O dia está a acabar. E o Jagrená não tenciona parar à meia-noite.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Rita Lee no Divã de Durkheim: O Amor como Cimento Social (e o Sexo como Alerta Vermelho)

 Se Max Weber se preocupava com o sentido que cada um dá à sua "caipirinha", Émile Durkheim estaria no canto do bar, de bloco de notas na mão, a observar se o comportamento dos presentes não está a fazer desmoronar os alicerces da civilização ocidental.

Para o pai da sociologia francesa, a letra de Amor e Sexo não é uma confissão íntima; é um relatório sobre o estado da nossa Consciência Colectiva.

1. O Amor não é Sorte, é Disciplina!

Durkheim soltaria uma gargalhada ruidosa ao ouvir que "amor é sorte". Para ele, o amor é um Facto Social. É o "latifúndio", sim, mas no sentido de uma estrutura que a sociedade nos impõe para não morrermos de Anomia (aquele vazio existencial de quem não tem regras).

Quando a letra diz que o amor é "cristão" e "divino", Durkheim assente com a cabeça: a sociedade cria o Sagrado para se adorar a si própria. O amor é a "Solidariedade Mecânica" a tentar sobreviver — um conjunto de rituais (a "novela", o "teorema") que garante que não nos portamos como animais selvagens à hora do jantar.

2. O Sexo como "Efervescência Colectiva" (ou apenas Caos)

Onde Rita Lee vê "uma selva de epiléticos", Durkheim vê o perigo da desintegração. O sexo, enquanto "pagão" e "invasão", é a força que ameaça a coesão. No entanto, como bom sociólogo, ele reconheceria no "Carnaval" o momento da Efervescência Colectiva. É aquele breve instante em que a sociedade deixa a malta "invadir" as regras para que, na Quarta-feira de Cinzas, todos voltem obedientemente para o "latifúndio" do casamento. O sexo é o "profano" necessário para que o "sagrado" (o amor) pareça mais brilhante.

3. A Tirania da "Vontade"

"Sexo sem amor é vontade", diz a canção. Para Durkheim, isto é um diagnóstico clínico de uma sociedade doente. A "vontade" individual, sem o freio moral do grupo, é um poço sem fundo. Deixar o sexo ser apenas "vontade" é condenar o indivíduo a um desejo infinito que nunca se satisfaz. Para Durkheim, o sexo só é "do bom" se for devidamente enquadrado pela função social. Fora disso, é apenas "anomia" — e nós sabemos que, para Durkheim, a anomia acaba mal (leiam o livro dele sobre o Suicídio antes de pedirem a próxima rodada).

4. Bossa Nova vs. Carnaval: A Ordem das Coisas

O amor é "Bossa Nova" porque é harmonioso, previsível e mantém o tom da instituição. O sexo é "Carnaval" porque é a excepção ritualizada. Durkheim resumiria a canção assim: o Amor é a Solidariedade que nos obriga a ser "patéticos" (ou seja, previsíveis e sociais), enquanto o Sexo é a energia bruta que a sociedade tenta, a todo o custo, transformar em "dois" (um contrato funcional) para que não acabemos todos sozinhos a comer gelado no sofá.

5. O Amor Romântico como "Anomia" e Paixão Desregulada

Durkheim via o conceito de amor romântico a emergir, mas não o celebrava como os poetas. Para ele:

  • O Amor Romântico é um facto social da modernidade.

  • O Perigo é que ele seja demasiado "animal" (pulsional) e pouco "social" (regulado).

  • A Solução é o "Amor-Instituição": aquele que transforma a paixão inicial numa função social estável.

Portanto, se Durkheim ouvisse a Rita Lee dizer que "amor é para sempre", ele concordaria... mas acrescentaria que só é para sempre porque a Sociedade (através das leis e da moral) obriga a que assim seja, e não porque o "cupido" acertou no alvo.

Para o sociólogo francês, o amor romântico sem a disciplina social era apenas uma forma de "embriaguez colectiva" que passaria depressa, deixando o indivíduo isolado e anómico.


Da próxima vez que sentirem que o amor é "sorte", lembrem-se de Durkheim: é apenas a vossa Consciência Colectiva a sussurrar-vos ao ouvido para não destruírem a família tradicional. Nada existe de moral em viver por viver. A moralidade do acto reside na subordinação do indivíduo aos interesses da sociedade, começando pela sua família.

Uh-uh! Ai, a Coesão Social...

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Do Destino ao Deslize: Giddens explica porque é que a Rita Lee tinha razão

 Se achavam que a vossa vida amorosa era confusa, tentem lê-la à luz da sociologia de Anthony Giddens. No seu clássico The Transformation of Intimacy: Sexuality, Love and Eroticism in Modern Societies, Giddens basicamente diz-nos que o amor tradicional morreu e que agora estamos todos por nossa conta e risco. E a Rita Lee, que nunca precisou de um doutoramento em Cambridge para saber das coisas, já tinha feito o resumo da ópera em "Amor e Sexo".

Eis a anatomia da nossa "modernidade reflexiva" (ou, como eu lhe chamo, o pânico de Domingo à tarde):

1. O Fim do "Destino" (Amor Romântico) vs. O "Esporte" (Amor Confluente)

Antigamente, o amor era um "livro" com princípio, meio e um "viveram felizes para sempre" obrigatório. Giddens chama-lhe Amor Romântico. A Rita chama-lhe "sorte". Hoje, entrámos na era do Amor Confluente. O amor agora é "esporte" e "escolha". Ou seja, a relação dura enquanto for útil, prazerosa e não nos der cabo dos nervos. É a democratização da intimidade: eu estou contigo enquanto fores "do bom", mas se a "vontade" passa, o contrato rescinde-se sem aviso prévio. É o amor com cláusula de rescisão.

2. A "Sexualidade Plástica" (Ou: O Sexo que Não Pede Licença)

Giddens fala da Sexualidade Plástica — uma sexualidade moldável, libertada da reprodução e das convenções, as populares amizades coloridas. A Rita diz que "Amor é um, sexo é dois / Sexo antes, amor depois". Isto é o auge da modernidade: primeiro testamos o motor ("sexo é animal"), e só depois decidimos se queremos assinar o contrato de arrendamento emocional ("amor demora"). Inverter a ordem dos factores não altera o produto, mas altera drasticamente a nossa saúde mental, não é verdade?

3. Amor como "Latifúndio": A Invasão Territorial

"Amor é latifúndio, sexo é invasão". Giddens explica que o amor romântico era colonizador — queríamos ser o dono da terra, do pensamento e da password do telemóvel do outro. Na "relação pura" de Giddens, tentamos ser autónomos, mas a verdade é que, no momento em que o "teorema" se torna sério, voltamos todos a querer cercar o terreno. Queremos ser modernos e "confluentes", mas no fundo ainda guardamos uma enxada no armário para defender o nosso latifúndio emocional.

4. A Novela vs. O Cinema

"Amor é novela, sexo é cinema".

  • A Novela (Giddens): É a narrativa biográfica, o quotidiano, a negociação constante de quem despeja o lixo. É lenta e, por vezes, tem episódios que podiam ser cortados.

  • O Cinema (A Vida Moderna): É o impacto, a montagem rápida, o efeito especial. É a sexualidade como espetáculo de curta duração.

Giddens diz que somos "indivíduos reflexivos". A Rita diz que o amor nos torna "patéticos". Eu diria que somos patéticos porque somos reflexivos: passamos tanto tempo a analisar o "teorema" e a decidir se a relação é "pura" ou "tóxica", que esquecemos que, no final do dia, somos apenas mamíferos a tentar conciliar a "bossa nova" com o "carnaval".

Portanto, da próxima vez que estiverem a questionar se o vosso namoro é uma "relação pura" ou apenas um "esporte" de Verão, lembrem-se: a sociologia explica, mas a Rita é que cura.

Uô-uô-u!

Crónicas do Jagrená: A Worten e o Algoritmo do "Relógio de Areia Viciado"

Meus caros, hoje partilho convosco o fim de uma odisseia que começou no frio de Janeiro e só terminou com o sol de Abril. É u...