Escrevo-vos com a mão a tremer um pouco mais do que o costume. Não é da velocidade do Jagrená — a essa já nos habituámos, como quem se habitua ao zumbido de um frigorífico avariado. O que me faz tremer é olhar para a cabina de comando e perceber que, lá dentro, os nossos líderes estão a tentar conduzir este foguete supersónico com rédeas de cavalo e chicotes de couro.
Bem-vindos à era da Irresponsabilidade Organizada.
A Distribuição dos Males
O meu velho companheiro de viagem, Ulrich Beck, costumava dizer que a modernidade mudou de jogo a meio da partida. Antes, o problema era como distribuir o "bolo" (a riqueza). Agora, o Jagrená produz algo muito mais democrático: o Risco. Poluição, colapsos financeiros, pandemias e algoritmos fora de controlo não escolhem classe social. São os "males" que nós próprios fabricámos.
O drama? As instituições que criámos para nos proteger — a ONU, os governos, o Direito Internacional — parecem uns "zombies" políticos. Estão mortas, mas continuam a caminhar entre nós, fingindo que ainda mandam em alguma coisa. São burocracias distantes, tecnocracias frias que assinam papéis enquanto o motor do carro explode.
O Diagnóstico dos "Homens Fortes"
É neste vácuo de autoridade que surgem as figuras que todos conhecemos. Trump, Putin e os seus derivados não são a causa da nossa doença; são o sintoma da nossa febre. Eles tiveram o mérito de fazer o diagnóstico correcto: as elites cosmopolitas esqueceram-se de quem viaja na terceira classe, e as identidades locais foram trituradas pelas engrenagens globais.
O passageiro, em pânico com a sensação de desgoverno, olha para estes "Homens Fortes" e pensa: "Finalmente, alguém que vai agarrar no volante!". Mas reparem na ironia: a solução que eles oferecem é trocar as instituições (por muito falíveis que sejam) pelo poder pessoal. É como tentar travar um comboio de alta velocidade colocando um pé de fora da carruagem.
Nacionalismos de Soma Zero
O que temos agora na cabina é um choque de egos perigoso. De um lado, o isolacionismo transaccional de Trump ("America First"), que vê o mundo como um tabuleiro onde só um pode ganhar. Do outro, o expansionismo imperial de Putin, que quer redesenhar mapas com sangue e ferro.
Estes nacionalismos são estruturalmente incompatíveis. Não pode haver uma "Nova Ordem Mundial" baseada em dois condutores que decidiram rasgar o mapa e ignorar o código da estrada. Quando o Direito Internacional é tratado como uma sugestão opcional, o Jagrená deixa de seguir carris e passa a galgar terreno incerto, esmagando o que resta da nossa segurança colectiva.
A Ilusão da Simplificação
Vivemos na era da "Pós-Verdade" porque o passageiro desistiu de compreender a complexidade. Se os peritos não evitaram as crises, o passageiro sente-se no direito de acreditar em quem grita mais alto. É a tentativa desesperada de simplificar um mundo que se tornou demasiado complexo para as nossas bússolas actuais.
O perigo não é apenas o que estes líderes fazem; é o vácuo que eles deixam. Se eles desaparecessem amanhã, o "Trumpismo" ou o "Putinismo" continuariam cá. Porquê? Porque o buraco no centro da nossa política — a falta de instituições legítimas e cosmopolitas — continua por preencher.
O Próximo Desfiladeiro
Enquanto eles discutem quem tem o boné de capitão mais bonito, o Jagrená acelera. Estamos a tentar gerir riscos globais com mentalidades locais. Estamos a usar políticas do século XIX para sobreviver ao século XXI.
Sigo na minha poltrona, limpando o pó do vidro. Lá fora, o desfiladeiro da incerteza aproxima-se, e os condutores acabam de deitar o manual de instruções pela janela, alegando que "atrapalhava a visão".
Que a Razão (ou o que resta dela) nos proteja.