Quem estudou Economia recorda as lições clássicas sobre a evolução da moeda: começámos na mercadoria (o sal, o gado, o tabaco), passámos pelos metais preciosos e estabilizámos na moeda fiduciária, aquele papelinho impresso pelos Bancos Centrais em que todos decidimos colectivamente acreditar. Mas se em 2009 nos dissessem que a moeda sofreria uma desmaterialização tão radical que a carteira de pele se tornaria um adereço inútil, teríamos encolhido os ombros com cepticismo.
Em 2009, o dinheiro ainda se tocava, contava e guardava no bolso. No comércio de retalho, 65% das transacções faziam-se com notas e moedas. Ir ao Multibanco levantar "papel" ao fim de semana era um ritual sagrado. O cartão de débito existia (32%), mas exigia enfiar o plástico na ranhura e digitar o PIN sob o olhar vigilante do cliente da retaguarda.
E o comércio electrónico? Era uma actividade de alto risco psicológico que recolhia a desconfiança de 88% dos portugueses. Recordo-me de tentar convencer os meus colegas professores, na nossa escola, de que, verificando a segurança do site (o famoso símbolo do cadeado), comprar online era infinitamente mais seguro do que entregar o cartão de crédito a um empregado num restaurante, que o levava lá para dentro, deixando-nos à mesa a rezar para que o plástico não fosse clonado nas traseiras!
A resistência era de tal ordem que, para dar confiança a um colega, cheguei a comprar-lhe um livro na Amazon com o meu próprio cartão; ele, aliviado por não violar a sua segurança digital, pagou-me o favor em notas vivas. Outro colega, contudo, não aprendeu bem a lição: entusiasmou-se e inseriu o seu cartão num site de adultos para "provar que era maior de 18 anos". Escusado será dizer que, dias depois, o pânico instalou-se com o desfalque na conta por serviços que nunca tinha consumido. Era este o faroeste digital de 2009.
Dezassete anos depois, o panorama de 2026 entrou directamente no território da ficção científica financeira. A moeda desmaterializou-se ao ponto de se fundir com os nossos dados biométricos.
Hoje, o dinheiro em notas ou moedas colapsou para uns residuais 8% das transacções. As notas passaram a ser um estorvo que acumula bactérias. O grande conquistador deste ecossistema foi o smartphone (e o relógio digital), que através de ferramentas como o MB WAY e as carteiras digitais arrecada 62% de todos os pagamentos. Pagamos o almoço, transferimos a nossa quota-parte de um jantar ou liquidamos as compras no supermercado aproximando o ecrã do terminal, autenticando o valor com a nossa própria impressão digital ou com um rápido olhar para a câmara do telemóvel. O valor económico tornou-se um fantasma electrónico.
Esta facilidade invisível de pagar foi o combustível perfeito para a explosão do e-commerce, que hoje faz parte da rotina de 74% da população. A desconfiança e o receio de 2009 foram substituídos pelo consumo instantâneo. Compramos com um único clique, geramos cartões virtuais temporários e seguros em segundos e o comércio já não precisa do espaço físico para validar a troca.
A moeda já não é um objecto que se traz no bolso; é um fluxo de informação na nuvem. Passámos do ouro à biometria, provando que a Economia, quando aliada à tecnologia, tem a capacidade de transformar a mais sólida das realidades num sopro digital.
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