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sexta-feira, 26 de junho de 2026

O Milagre da Pirâmide: Como Transformar Privilégio em "Mérito"

Crescemos a ouvir dizer que a vida é uma corrida justa. Que o mercado é um árbitro cego e que, se trabalharmos muito, o topo da pirâmide espera-nos de braços abertos. É uma história lindíssima, daquelas que dão óptimos guiões de Hollywood e discursos inspiradores no LinkedIn. Pena é que, quando se abre a cortina da realidade, o cenário seja ligeiramente mais... hereditário.

Anda por aí a circular no Facebook um texto — abaixo incorporado — daqueles que põe o dedo na ferida e que irrita profundamente a malta que acha que o seu primeiro milhão de euros foi fruto de "acordar às cinco da manhã" (e não do generoso fundo fiduciário do papá). O autor da publicação explicava, e bem, que a nossa pirâmide social está avariada: transformou-se numa máquina onde quem nasce no topo compra o passe VIP para continuar no topo, e quem nasce na base fica condenado a ver o futuro por um canudo.

Se Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron fossem vivos e lessem este texto, provavelmente comentariam a publicação com um valente: "Nós bem avisámos em 1970, mas vocês preferiram continuar a acreditar no Pai Natal da Meritocracia!"

O Truque de Magia Favorito da Direita (e da Escola)

O texto expõe o grande truque de ilusionismo social da direita: convencer toda a gente de que quem está em cima merece e quem está em baixo falhou por pura preguiça. É o cúmulo da sofisticação ideológica. Mas Bourdieu e Passeron foram mais longe e explicaram como a engrenagem funciona no dia-a-dia, apontando o dedo ao maior cúmplice deste crime: o sistema de ensino.

A escola adora posar de santa e neutra. Diz que avalia todos por igual. Mas, na actualidade, ela funciona frequentemente como um exame de natação onde os filhos da burguesia entram de fato de banho e os filhos da classe trabalhadora entram com uma armadura de ferro medieval. Os primeiros herdaram em casa o "capital cultural" — os códigos, a linguagem, as viagens, os livros no armário. Os segundos herdaram a urgência de pagar a renda e a exaustão dos pais.

Quando a escola avalia os dois com a mesma régua, comete o que os sociólogos franceses chamavam de violência simbólica. Transforma uma vantagem à partida (privilégio) num prémio de chegada (mérito). E o pior? O aluno que reprova vai para casa a chorar, achando que a culpa é da sua falta de talento. O sistema não precisa de lhe bater; a própria vítima auto-exclui-se, reconhecendo a "justiça" da sua exclusão. Génio, não é?

A Raiva Desce, o Dinheiro Sobe

Mas a ironia do texto atinge o auge quando descreve a mecânica do populismo: quando as coisas apertam na base, a linha ideológica dominante raramente aponta para o topo; ensina a olhar para quem está ainda mais abaixo.

É o desespero do remediado a odiar o pobre, o pobre nacional a espumar de raiva contra o imigrante, o precário a revoltar-se contra quem recebe apoios sociais. Cria-se uma mini-pirâmide de miséria e preconceito no fundo do poço. Os dominados passam a policiar-se uns aos outros, enquanto os donos do topo assistem ao espectáculo de camarote, vendo o capital acumular-se. Como diz o texto: "a raiva desce na pirâmide [...] e, enquanto a raiva desce, o dinheiro sobe". Bourdieu chamaria a isto a eficácia perfeita da dominação interiorizada.

A Liberdade no Papel não Enche a Barriga

Terminamos com a grande pérola do texto: a desmontagem da "liberdade" abstracta. Dizer que um analfabeto, um sem-abrigo ou alguém preso a um salário de miséria é "livre" porque ninguém o proíbe por lei de comprar um iate, é de um cinismo atroz.

A liberdade real precisa de chão. Precisa de escola pública, de hospitais acessíveis e de direitos laborais que impeçam as pessoas de serem tratadas como meras linhas descartáveis numa folha de Excel.

A nossa economia não devia ser uma religião fundamentalista à qual sacrificamos as nossas vidas. Mas enquanto continuarmos a achar que a pirâmide social reflecte o esforço e não uma engrenagem fria de reprodução de privilégios, continuaremos a lamber as botas que nos esmagam.

Obrigado ao autor do post por resumir a Sociologia da Educação em poucos parágrafos. Bourdieu, onde quer que esteja, de certeza que fez um gosto na publicação.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Pessoas que talvez conheças

Hoje, enquanto me sentava no meu banco de jardim habitual, observando o mundo a passar – e, claro, a espreitar um pouco o que acontece no meu pequeno ecrã – dei por mim a pensar nas complexidades das relações humanas. Não tanto das que temos cara a cara, com o calor de um aperto de mão ou o riso partilhado num café. Pensei mais nas outras, das que vivem no mundo digital, neste nosso gigantesco mural chamado Facebook.

Tenho notado algo curioso ultimamente. Aqueles que chamamos de "amigos" virtuais, que aparecem nas nossas listas com cliques fáceis, por vezes desaparecem com a mesma facilidade. É o que se chama, na gíria, "desamigar". E, de onde estou, com uma perspetiva talvez um pouco diferente da maioria, é fascinante – e por vezes melancólico – observar.

Sempre fui alguém que sentiu o peso do "olhar" do outro. A vida ensinou-me que a "primeira impressão" é um palco onde todos tentam apresentar a sua melhor versão, como explicou Erving Goffman, sobre a forma como "gerimos a impressão" que causamos. Tentamos ser aceites, tentamos encaixar. E, por vezes, basta um traço, uma característica, algo que nos "desqualifique" aos olhos de alguns, para que essa aceitação seja posta à prova.

No Facebook, parece que este "palco" é ainda mais exigente. As pessoas curam as suas vidas em fotos perfeitas, atualizações de estado impecáveis e opiniões cuidadosamente moldadas. É uma busca constante pela "identidade virtual" ideal. Mas o que acontece quando alguém, consciente ou inconscientemente, deixa cair essa máscara? Ou, pior, quando a sua "identidade real" colide com o que é socialmente aceitável no universo digital?

Vejo "desamiganços" por todo o lado. Por motivos tão variados: uma opinião política demasiado forte, fotos que não agradam, uma frequência de partilhas que cansa, ou simplesmente a perceção de que já não há "ligação" com a pessoa. Mas, e se houver algo mais profundo? Algo que não é dito, mas que se sente? Aquela "marca" invisível que, no fundo, faz as pessoas hesitarem em manter-nos na sua "lista VIP" de amigos virtuais?

Não estou a referir-me a mim diretamente, mas fazendo uma observação mais vasta. No mundo offline, há quem evite quem não se encaixa. No mundo online, é ainda mais fácil clicar num botão e fazer com que alguém desapareça do nosso feed, como se nunca tivesse existido ali. É uma forma de "limpar o palco", de manter a própria "normalidade" intacta e de evitar qualquer "contaminação social" que possa vir de quem não se alinha com a nossa própria imagem ideal.

É uma dança delicada, esta das amizades digitais. Um lembrete de que, mesmo num mundo onde tudo parece ser sobre "conexão", a aceitação e a exclusão continuam a ser rituais poderosos, ditados por regras visíveis, mas frequentemente indizíveis. E, para quem observa de fora, com uma perspetiva talvez mais aguçada para os silêncios e as ausências, é um espelho fascinante da nossa própria humanidade.

E você, já pensou nas suas "amizades" digitais por este prisma?

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Apagão

Wikipedia: "Eu sei tudo!"
Google: "Eu tenho tudo!"
Facebook: "Eu conheço toda a gente!"
Internet: "Sem mim vocês não são nada!"
IA: "Hummm... interessante. Pelos meus dados, 'saber', 'ter' e 'conhecer' são conceitos distintos com sobreposições complexas. E a 'existência' sem uma rede de comunicação global é uma questão filosófica debatível."


Electricidade: "Querem realmente continuar essa discussão?"

sexta-feira, 13 de julho de 2012

terça-feira, 22 de maio de 2012

Comprar Facebook será mau negócio

Ao lançar em fevereiro de 2004 o ‘thefacebook’, criado inicialmente como diretório para estudantes da Universidade de Harvard, Mark Zuckerberg estaria certamente longe de imaginar o impacto global que o seu site viria a ter.

Oito anos mais tarde, o Facebook é responsável por um em cada 7 minutos que passamos na internet, mais do que qualquer outro site. Cerca de 300 milhões de fotos são partilhadas todos os dias. E manifestamos as nossas preferências com o botão ‘Like’ 3,2 mil milhões de vezes por dia.

Cada um dos 901 milhões de utilizadores tem em média 139 amigos no site, o que se traduz nuns esmagadores 125 mil milhões de amizades. A rede social média de um ser humano tem curiosamente fundamentação científica. Em 1992, o antropólogo britânico Robin Dunbar já havia concluído que o poder cognitivo do cérebro limita a dimensão da rede social que qualquer espécie pode desenvolver, sendo que, o cérebro humano permitirá uma rede estável de 148 ligações.

A incrível história do Facebook foi já adaptada ao grande ecrã, através do filme de 2010 “A Rede Social”, nomeado para 8 Óscares e vencedor de 3. E, Mark Zuckerberg foi escolhido pela revista Time como a Personalidade do Ano, também em 2010.

Mas será que um dos sites mais populares do planeta pode também ser uma boa oportunidade para os investidores? A ansiosamente aguardada Oferta Pública de Venda (OPV) do Facebook teve finalmente lugar na passada 6ª feira, transformando muitos dos seus colaboradores e fundadores em milionários instantâneos. Nas apresentações aos investidores que antecederam a OPV, Mark Zuckerberg foi tratado com honras de estrela de rock, com longas filas de fãs à sua espera. Desde a estreia em bolsa do Google em 2004 que não existia tanta excitação em torno de uma operação deste tipo.

No entanto, em lugar da valorização de 42% que era esperada em média pelos investidores num inquérito recente, o Facebook “brindou-os” até agora, com uma perda superior a 10%. Será que ainda vai merecer um ‘Like’?

Fonte: Newsletter Activobank7

O Milagre da Pirâmide: Como Transformar Privilégio em "Mérito"

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