Crescemos a ouvir dizer que a vida é uma corrida justa. Que o mercado é um árbitro cego e que, se trabalharmos muito, o topo da pirâmide espera-nos de braços abertos. É uma história lindíssima, daquelas que dão óptimos guiões de Hollywood e discursos inspiradores no LinkedIn. Pena é que, quando se abre a cortina da realidade, o cenário seja ligeiramente mais... hereditário.
Anda por aí a circular no Facebook um texto — abaixo incorporado — daqueles que põe o dedo na ferida e que irrita profundamente a malta que acha que o seu primeiro milhão de euros foi fruto de "acordar às cinco da manhã" (e não do generoso fundo fiduciário do papá). O autor da publicação explicava, e bem, que a nossa pirâmide social está avariada: transformou-se numa máquina onde quem nasce no topo compra o passe VIP para continuar no topo, e quem nasce na base fica condenado a ver o futuro por um canudo.
Se Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron fossem vivos e lessem este texto, provavelmente comentariam a publicação com um valente: "Nós bem avisámos em 1970, mas vocês preferiram continuar a acreditar no Pai Natal da Meritocracia!"
O Truque de Magia Favorito da Direita (e da Escola)
O texto expõe o grande truque de ilusionismo social da direita: convencer toda a gente de que quem está em cima merece e quem está em baixo falhou por pura preguiça. É o cúmulo da sofisticação ideológica. Mas Bourdieu e Passeron foram mais longe e explicaram como a engrenagem funciona no dia-a-dia, apontando o dedo ao maior cúmplice deste crime: o sistema de ensino.
A escola adora posar de santa e neutra. Diz que avalia todos por igual. Mas, na actualidade, ela funciona frequentemente como um exame de natação onde os filhos da burguesia entram de fato de banho e os filhos da classe trabalhadora entram com uma armadura de ferro medieval. Os primeiros herdaram em casa o "capital cultural" — os códigos, a linguagem, as viagens, os livros no armário. Os segundos herdaram a urgência de pagar a renda e a exaustão dos pais.
Quando a escola avalia os dois com a mesma régua, comete o que os sociólogos franceses chamavam de violência simbólica. Transforma uma vantagem à partida (privilégio) num prémio de chegada (mérito). E o pior? O aluno que reprova vai para casa a chorar, achando que a culpa é da sua falta de talento. O sistema não precisa de lhe bater; a própria vítima auto-exclui-se, reconhecendo a "justiça" da sua exclusão. Génio, não é?
A Raiva Desce, o Dinheiro Sobe
Mas a ironia do texto atinge o auge quando descreve a mecânica do populismo: quando as coisas apertam na base, a linha ideológica dominante raramente aponta para o topo; ensina a olhar para quem está ainda mais abaixo.
É o desespero do remediado a odiar o pobre, o pobre nacional a espumar de raiva contra o imigrante, o precário a revoltar-se contra quem recebe apoios sociais. Cria-se uma mini-pirâmide de miséria e preconceito no fundo do poço. Os dominados passam a policiar-se uns aos outros, enquanto os donos do topo assistem ao espectáculo de camarote, vendo o capital acumular-se. Como diz o texto: "a raiva desce na pirâmide [...] e, enquanto a raiva desce, o dinheiro sobe". Bourdieu chamaria a isto a eficácia perfeita da dominação interiorizada.
A Liberdade no Papel não Enche a Barriga
Terminamos com a grande pérola do texto: a desmontagem da "liberdade" abstracta. Dizer que um analfabeto, um sem-abrigo ou alguém preso a um salário de miséria é "livre" porque ninguém o proíbe por lei de comprar um iate, é de um cinismo atroz.
A liberdade real precisa de chão. Precisa de escola pública, de hospitais acessíveis e de direitos laborais que impeçam as pessoas de serem tratadas como meras linhas descartáveis numa folha de Excel.
A nossa economia não devia ser uma religião fundamentalista à qual sacrificamos as nossas vidas. Mas enquanto continuarmos a achar que a pirâmide social reflecte o esforço e não uma engrenagem fria de reprodução de privilégios, continuaremos a lamber as botas que nos esmagam.
Obrigado ao autor do post por resumir a Sociologia da Educação em poucos parágrafos. Bourdieu, onde quer que esteja, de certeza que fez um gosto na publicação.
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