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sábado, 18 de abril de 2026

Carta V: O Camarote do Topo e a Ilusão do Travão

Estimados companheiros de viagem,

Escrevo-vos das entranhas deste nosso Jagrená, essa máquina colossal que, segundo dizem as más-línguas da sociologia, deveria estar sob o nosso controlo, mas que parece ter ganho uma vontade própria — e um apetite voraz.

É fascinante observar a dinâmica a bordo. No Camarote do Topo, onde habita o 1% mais "esclarecido", a vista é magnífica. Estão tão ocupados a decidir onde investir os seus dobrões que nem reparam que as suas assinaturas financeiras pesam mais no motor do que o estilo de vida de metade dos passageiros da terceira classe. É uma forma admirável de eficiência: enquanto os de baixo tentam não ser esmagados pelas rodas, os de cima geram 41% das emissões apenas com o movimento das suas canetas e carteiras.

O nosso condutor — se é que alguém ainda segura o leme — parece acreditar que o Jagrená tem combustível infinito. Mas os números são teimosos:

  • A Explosão de Passageiros: Em 1800, antes desta engrenagem industrial acelerar, éramos apenas 1 milhar de milhões de almas; hoje, o Jagrená range sob o peso de 8,2 milhares de milhões de passageiros.
  • A Grande Divergência: Naquela época, o rendimento de um camponês era sensivelmente o mesmo em qualquer parte do Mundo; hoje, a desigualdade é o combustível que nos faz derrapar, com o topo 0,001% a deter mais riqueza do que toda a metade inferior da humanidade.
  • O Esmagamento do Espaço: Em 1800, ocupávamos meros 2% da Terra. Hoje, a nossa pegada expandiu-se para 32%, mas o verdadeiro escândalo é o que sobra: 67% do solo é sacrificado à criação de gado para saciar a nossa dieta industrial, deixando uns miseráveis 1% para a vida selvagem.

Já estamos a consumir os recursos do planeta 80% mais depressa do que a Terra consegue regenerar. É como se estivéssemos a queimar a madeira das próprias rodas para manter a caldeira acesa. Dizem-nos que o problema é o excesso de passageiros, mas a verdade é que, se todos quiséssemos jantar como os passageiros americanos, precisaríamos de cinco Jagrenás para sustentar a ementa.

Enquanto isso, o ciclo é perfeito na sua ironia:

  • Os 1% mais abastados investem, o clima aquece, e a riqueza deles poderá subir dos actuais 38% para 46% até 2050. Têm maior riqueza que os 90% mais pobres!
  • Os mais pobres, lá em baixo, recebem as inundações e as secas como "gorjeta" por uma festa a que não foram convidados.

Diz o Tratado do Alto-Mar que teremos santuários em 2030. Esperemos que o Jagrená não tenha passado por cima deles com os seus mega-arrastões até lá.

Até à próxima missiva, se o solo não ceder antes.

Um Passageiro Atento (mas sem travões)


Fontes:
Population Matters.
Center for Sustainable Systems, University of Michigan. 2025.
Relatório do Desenvolvimento Humano, 2025.
World Inequality Report 2026.

quarta-feira, 19 de março de 2008

1945–2005: Dois Mundos Diferentes

60 anos depois, o Mundo não é mais o mesmo. A UNESCO apresenta alguns exemplos interessantes.

http://unesdoc.unesco.org/images/0014/001420/142021e.pdf


A população mundial quase triplicou de 1945 para 2005.

A percentagem da população a viver nas cidades, que representava menos de 29% do total, está quase a tornar-se dominante.

Menos de metade das pessoas teriam competências para ler um texto, contra 81.7%.

A esperança de vida aumentou cerca de 20 anos, permitindo o convívio dos avós com os netos.

A democracia parlamentar impôs-se definitivamente como regime político.

A percentagem de mulheres nos parlamentos cresceu 5.3 vezes, mantendo-se longe da equidade em qualquer país.

A fertilidade decresceu, pois as mulheres descobriram outros papéis além de mães e donas de casa.

A taxa de mortalidade infantil decresceu espectacularmente de 226 por mil para 86 por mil, em larga medida graças ao desenvolvimento da medicina. Este indicador é mais expressivo que a esperança de vida devido à fragilidade das crianças.

A área florestada caiu de 50 milhões de km quadrados para 39.

O consumo anual de água triplicou. Isto é, cresceu sensivelmente ao ritmo da população.

O consumo anual de petróleo cresceu 8.5 vezes!
A população tornou-se mais consumista do outro negro. A maior justificação para o aquecimento global e alterações climáticas está aqui. É óbvio que este tipo de crescimento económico não pode continuar porque não é compatível com os recursos do planeta. É necessário impor um modelo de desenvolvimento sustentável, mas quem tem autoridade para isso?

O turismo massificou-se crescendo 32.3 vezes!


Estes indicadores são apenas médias, e uma vez que foram calculadas para o Mundo ocultam realidades muito distintas.



Isto é, para que a China atingisse o "nível de desenvolvimento" dos EUA seriam necessários 665 milhões de carros de passageiros só na China! E a Terra aguentaria? Quem tem legitimidade para impor limites ao crescimento industrial dos chineses?

O Regresso do Morto-Vivo (ou como a IA me obrigou a trabalhar na reforma)

 Quem me conhece sabe que, no ano passado, arrumei definitivamente os manuais, fechei o giz no armário e decretei a merecida a...