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sábado, 18 de abril de 2026

Carta V: O Camarote do Topo e a Ilusão do Travão

Estimados companheiros de viagem,

Escrevo-vos das entranhas deste nosso Jagrená, essa máquina colossal que, segundo dizem as más-línguas da sociologia, deveria estar sob o nosso controlo, mas que parece ter ganho uma vontade própria — e um apetite voraz.

É fascinante observar a dinâmica a bordo. No Camarote do Topo, onde habita o 1% mais "esclarecido", a vista é magnífica. Estão tão ocupados a decidir onde investir os seus dobrões que nem reparam que as suas assinaturas financeiras pesam mais no motor do que o estilo de vida de metade dos passageiros da terceira classe. É uma forma admirável de eficiência: enquanto os de baixo tentam não ser esmagados pelas rodas, os de cima geram 41% das emissões apenas com o movimento das suas canetas e carteiras.

O nosso condutor — se é que alguém ainda segura o leme — parece acreditar que o Jagrená tem combustível infinito. Mas os números são teimosos:

  • A Explosão de Passageiros: Em 1800, antes desta engrenagem industrial acelerar, éramos apenas 1 milhar de milhões de almas; hoje, o Jagrená range sob o peso de 8,2 milhares de milhões de passageiros.
  • A Grande Divergência: Naquela época, o rendimento de um camponês era sensivelmente o mesmo em qualquer parte do Mundo; hoje, a desigualdade é o combustível que nos faz derrapar, com o topo 0,001% a deter mais riqueza do que toda a metade inferior da humanidade.
  • O Esmagamento do Espaço: Em 1800, ocupávamos meros 2% da Terra. Hoje, a nossa pegada expandiu-se para 32%, mas o verdadeiro escândalo é o que sobra: 67% do solo é sacrificado à criação de gado para saciar a nossa dieta industrial, deixando uns miseráveis 1% para a vida selvagem.

Já estamos a consumir os recursos do planeta 80% mais depressa do que a Terra consegue regenerar. É como se estivéssemos a queimar a madeira das próprias rodas para manter a caldeira acesa. Dizem-nos que o problema é o excesso de passageiros, mas a verdade é que, se todos quiséssemos jantar como os passageiros americanos, precisaríamos de cinco Jagrenás para sustentar a ementa.

Enquanto isso, o ciclo é perfeito na sua ironia:

  • Os 1% mais abastados investem, o clima aquece, e a riqueza deles poderá subir dos actuais 38% para 46% até 2050. Têm maior riqueza que os 90% mais pobres!
  • Os mais pobres, lá em baixo, recebem as inundações e as secas como "gorjeta" por uma festa a que não foram convidados.

Diz o Tratado do Alto-Mar que teremos santuários em 2030. Esperemos que o Jagrená não tenha passado por cima deles com os seus mega-arrastões até lá.

Até à próxima missiva, se o solo não ceder antes.

Um Passageiro Atento (mas sem travões)


Fontes:
Population Matters.
Center for Sustainable Systems, University of Michigan. 2025.
Relatório do Desenvolvimento Humano, 2025.
World Inequality Report 2026.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Carta II: A Partilha do Espólio e a Engrenagem da Desigualdade

Escrevo-vos novamente da minha poltrona neste Jagrená. Se na última carta vos falei da vertigem dos últimos 35 segundos do nosso "dia humano", hoje decidi observar melhor os meus companheiros de viagem. É fascinante — e ligeiramente aterrador — perceber que, embora estejamos todos no mesmo veículo em direção ao mesmo desfiladeiro, nem todos viajamos na mesma classe.

A Mecânica da Exclusão

O motor que ligámos nos segundos finais da nossa história (a que chamamos pomposamente de Revolução Industrial) não foi apenas um prodígio técnico; foi a criação de uma prensa colossal. Antigamente, o artesão era dono da sua ferramenta. Hoje, a ferramenta — a máquina, o algoritmo, o capital — é de uns poucos, e o resto de nós vende o tempo para não ser atropelado pelas rodas.

A eficiência é brutal: produzimos mais do que nunca, mas as engrenagens foram desenhadas para que o excedente escorra sempre para o mesmo lado. Enquanto a fatia do bolo que vai para quem trabalha caiu de 61% para 53% nas últimas décadas, a fatia de quem detém o capital não para de engordar.

A Carruagem dos 0,001%

Reparem bem na ironia: neste momento, existe um grupo de cerca de 60.000 pessoas (o topo do topo, os 0,001%) que detém três vezes mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade inteira — ou seja, mais do que 2,8 mil milhões de pessoas juntas.

Enquanto os bilionários veem a sua fortuna crescer a uma taxa média de 8% ao ano desde a década de 90 — o dobro da velocidade da metade mais pobre —, nós, os restantes, tentamos manter o equilíbrio. O sistema financeiro funciona como um "privilégio exorbitante": permite que as economias ricas se endividem a preços de saldo, enquanto os países pobres transferem o seu rendimento para os detentores de capital no estrangeiro. É uma forma moderna e limpa de intercâmbio desigual.

O Custo de Ser Passageiro

O Jagrená não é apenas injusto na conta bancária; ele é injusto no próprio ar que respiramos e na esperança que nos resta:

  • O Clima como Luxo: Os 10% mais ricos são responsáveis por 77% das emissões de carbono associadas à propriedade de capital. No entanto, quem irá cair primeiro do carro quando o tempo aquecer são os mais pobres, que quase nada emitiram.
  • A Lotaria do Berço: Se nasceste na carruagem da África Subsariana, o "sistema" investe cerca de 220€ na tua educação; se nasceste na América do Norte, o investimento é de 9.000€. Uma disparidade de 40 vezes que decide quem terá acesso aos controlos da máquina e quem será apenas combustível.
  • A Ilusão Fiscal: O sistema fiscal, que deveria ser o travão desta desigualdade, colapsa precisamente onde mais deveria agir: no topo. Bilionários pagam proporcionalmente menos impostos do que a classe média, escondendo a riqueza em sociedades gestoras e adiando encargos que o passageiro comum tem de pagar todos os meses.

O Fim da Coesão

Dizem-nos que o PIB cresce e que devemos estar felizes por isso. Mas um Jagrená onde os 50% da base capturaram apenas 1,1% da riqueza mundial desde 1995 é um veículo instável.

Olho para o exemplo da Noruega e vejo que o abismo não é inevitável; é uma escolha política. Lá, os mais pobres não foram sacrificados na crise de 2008, ao contrário do que aconteceu nos EUA ou em Portugal.

A desigualdade extrema não é apenas um número; é o combustível que fratura a coesão social e torna a nossa "aldeia global" num lugar de surdos. Quando o sistema deixa de ser "visivelmente justo", a confiança morre. E sem confiança, quem é que vai avisar o condutor que o desfiladeiro está mesmo ali à frente?

Sigo caminho, observando as joias na primeira classe enquanto as rodas começam a ranger.

Nota de Rodapé: Para a elaboração desta carta, foram utilizados dados do World Inequality Report 2026, disponíveis em wid.world. Os gráficos e tabelas construídos a partir desta base de dados, que detalham estas assimetrias, estão acessíveis para consulta na pasta: WID2026 - Dados e Gráficos - Cartas ao Jagrená.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

💰 O Declínio do 'Self-Made Man' e a Ascensão dos Herdeiros Dourados

É com profunda tristeza que vos trago a mais recente novidade do panorama financeiro global, cortesia do prestigiado banco suíço UBS: o self-made man está a ser catalogado, muito simplesmente, como uma espécie em vias de extinção, especialmente nas plagas europeias.

Diz o recente Billionaire Ambitions Report que o modelo do empresário que forja a sua fortuna a ferro e fogo, "do zero" e com o suor da testa, é já uma relíquia. O novo trend de 2025? A velha e boa herança.

Na Europa, a estatística não perdoa: os herdeiros já superam os criadores de riqueza. É uma tendência que nos enche o coração de esperança... por um futuro onde a única habilidade necessária é ter tido a sorte de nascer na família certa.

Antigamente, para se ser um multimilionário, era preciso ter uma ideia genial, gerir impérios e, vá lá, trabalhar umas 80 horas por semana. Hoje, segundo o relatório, os jovens afortunados "precisaram apenas de esperar sentados" pela "grande transferência de riqueza". Que sacrifício hercúleo!

Na Europa Ocidental, concentrámos metade dos 91 novos herdeiros mundiais. Foram 149,5 mil milhões de dólares transferidos para a nova geração, numa operação que exigiu, presumimos, a penosa tarefa de assinar uns papéis.

E o crescimento, meus amigos, o crescimento é fulgurante:

  • Herdeiros: Crescimento anual de 36%. (Fica fácil crescer quando se é catapultado de $0 para $1 bilião com uma assinatura.)

  • Self-Made: Crescimento anual de míseros 13%. (Pois é, trabalhar dá um bocado mais de trabalho...)

A Nova Regra de Ouro: Preservar 🛡️

O director do UBS diz que o foco agora é "preservar o património para capacitar a próxima geração a ter sucesso de forma independente e responsável". É de uma beleza enternecedora! A independência e a responsabilidade começam, claro, com um colete de salvação de biliões fornecido pelo papá.

E notemos bem: a riqueza da velha guarda tecnológica e industrial, essa sim, feita com invenção, está a ser entregue à nova geração para que a preservem. A grande façanha da nova elite não será inovar ou construir, mas sim... não estragar.

Portanto, meus amigos, se andam a tentar "fazer a vossa própria sorte", parem com essa loucura antiquada. A verdadeira ambição, em 2025, é simplesmente ser filho de alguém que já fez o trabalho.

Pax Vobis! E boas heranças!

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Portugal, o país mais desigual da Área Euro, persiste na chinenização do trabalho

Alguns extractos do Relatório da Oxfam:
  • A crise da dívida soberana na zona do euro poderia muito bem designar-se de "crise do desemprego" em Portugal, como em outros Estados-Membros do sul da Europa. Esta crise levará à perda da geração de mão-de-obra qualificada em Europa. Mais que as variações do PIB e das taxas de juro da dívida soberana, o número de pessoas sem trabalho pode ser visto como um indicador de quão duramente o país foi atingido pela crise e as medidas de austeridade.
  • Portugal reduziu abruptamente os gastos em educação, entre 2010 e 2012, 23 por cento em dois anos. Acompanhando esse número, entre os grupos que visitam centros de emprego, os professores viram o mais significativo aumento em todo o país em 2012. Enquanto isso, o governo aumentou o mínimo de alunos por turma para 26 com um máximo de 30, entre o 5º e o 12º anos de escolaridade (10-18 anos de idade).
  • Vitor Gaspar, advertiu que "a disciplina orçamental" não vai acabar, mesmo que as medidas de austeridade acordadas entre a Troika e o Governo Português sejam respeitadas e concluídas em 2014. Gaspar afirmou ainda que o trabalho para reduzir os níveis de dívida não será concluída em 2014 ou no ano seguinte: "Vai levar os esforços de uma geração".

  • Fonte: THE TRUE COST OF AUSTERITY AND INEQUALITY, Setembro de 2013, OXFAM.

sábado, 20 de outubro de 2012

Como a desigualdade de rendimentos prejudica as sociedades

Os economistas colocam sempre o crescimento do produto e do rendimento como condição necessária para o desenvolvimento, argumentando que antes de se distribuir a riqueza, esta terá que ser criada.

Richard G. Wilkinson argumenta que nos países desenvolvidos a riqueza criada já é suficiente, dependendo o nosso bem-estar do modo como esta se encontra repartida. Os gráficos abaixo mostram que não se verifica correlação entre o indicador da saúde e problemas sociais com o Rendimento Nacional Bruto per capita, mas que se verifica forte correlação daquele indicador com a inequidade(desigualdade) na repartição do rendimento.





No conjunto de países seleccionados, Portugal é mais pobre (menor Rendimento Nacional Bruto per capita) e aquele em que a esperança de vida é mais baixa (00:51);

Em cada país observar-se-ia que a esperança de vida aumenta com o nível de rendimento, porque os mais têm maior acesso aos cuidados de saúde (01:18);

Os países onde o rendimento se encontra pior distribuído são Singapura, EUA, Portugal e Reino Unido. O rendimento está mais equitativamente distribuído no Japão, Finlândia, Noruega e Suécia (02:32). No primeiro grupo a desigualdade de rendimentos duplica relativamente ao segundo, composto por democracias bem-sucedidas;

Verifica-se uma correlação positiva entre as desigualdades na repartição do rendimento e o índice de saúde e problemas sociais: esperança de vida, resultados dos alunos em matemática e literacia, taxa de mortalidade infantil, taxas de homicídio, proporção da população na prisão, taxas de natalidade na adolescência, níveis de confiança, obesidade, doenças mentais incluindo dependência de drogas e do álcool, e (ausência de) mobilidade social (03:07);

Observando os mesmos índices relativamente ao Produto Nacional Bruto per capita não se observa qualquer correlação (04:07);

O índice de bem-estar das crianças (calculado pela UNICEF) encontra-se inversamente correlacionado com a desigualdade na repartição do rendimento, isto é, os jovens têm pior bem-estar nas sociedades mais desiguais (04:45);

O índice de bem-estar das crianças não mostra qualquer correlação com o Rendimento Nacional per capita (04:58);

Estes dados sugerem que o bem-estar social nas nossas sociedades já não depende do Rendimento Nacional e do crescimento económico. Isso é muito importante em países mais pobres, mas não no mundo rico e desenvolvido. Mas as diferenças entre nós, e a posição que ocupamos relativamente aos outros, agora importam muito (05:12); Nos países onde o rendimento se encontra pior distribuído as pessoas confiam menos nas outras (05:36);

A percentagem das doenças mentais (indicador do OMS) é maior nos países com o rendimento pior distribuído (06:48);

As taxas de homicídio são mais elevadas nos estados dos EUA e províncias do Canadá onde o rendimento está pior distribuído (07:19);

A proporção da população na prisão é maior nos países com o rendimento está pior distribuído (07:35);

Os jovens abandonam o ensino secundário em maior proporção nos estados dos EUA onde a repartição do rendimento é mais desigual (08:07);

A mobilidade social é mais reduzida nos países com distribuição do rendimento menos equitativa. Será que os pais ricos têm filhos ricos, e os pais pobres têm filhos pobres? O rendimento dos pais é muito mais importante nos EUA, Reino Unido e Portugal que nos países escandinavos, onde a mobilidade social é mais efectiva. Os americanos que queiram viver o sonho americano devem emigrar para a Dinamarca! (08:19);

A Suécia e o Japão são países muito diferentes. Não importa como se consegue a maior igualdade, desde que se consiga obtê-la de algum modo (10:55);

Utilizando a taxa de mortalidade infantil, indicadores da educação ou da saúde, verifica-se que os benefícios da melhor repartição do rendimento não são extensivos apenas aos pobres, mas a todos os grupos sociais (11:25);

Os efeitos psicossociais da desigualdade, relacionados com sentimentos de superioridade e de inferioridade, de ser valorizado ou desvalorizado, respeitado ou desrespeitado. O sentimento de competição gerado pelo status guia o consumismo nas nossas sociedades, e leva também à insegurança do status. Preocupamo-nos mais com a forma como somos vistos pelos outros, se somos considerados atraentes, inteligentes, etc. Os juízos de avaliação social e o medo desses juízos, aumentam (12:50);

As tarefas que incluíam a ameaça da avaliação social revelaram-se mais stressantes. Ameaças à autoestima ou ao status social, em que outros podem julgar negativamente o nosso desempenho (14:00);

A correlação, só por si, não prova causalidade, mas parece demonstrado um stress crónico associado às disparidades sociais (15:33);

A mensagem a reter, é esta: podemos melhorar a qualidade real da vida humana através da redução das diferenças de rendimento entre nós. De repente, temos controlo sobre o bem-estar psicossocial de sociedades inteiras, e isso é excitante (16:26).

sábado, 8 de setembro de 2012

Gostava de ter escrito esta

Não leves a mal; tiro-te um mês do teu salário para o dar ao teu patrão. É para criar emprego. Estás a ver?

Ladrões de Biciletas

A malta não gostou de confirmar que vão sempre aos bolsos dos mesmos - quanto aos rendimentos do capital Passos Coelho apenas fez uma referência breve, dando-lhes realmente um bónus -, e a Troika que a até aqui tem sido recebida com alguma simpatia passou a ser alvo de campanhas de protesto como esta. Já estão marcadas manifestações para dia 15, mas isto pelo Facebook é tudo muito rápido e nunca se sabe como fica.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Insucesso escolar, qualidade e equidade na educação e desenvolvimento económico

  • A redução do fracasso escolar é positiva, tanto para a sociedade como para os indivíduos. Também pode contribuir para o crescimento económico e o desenvolvimento social. Na verdade, os sistemas de ensino com melhor desempenho entre os países da OCDE são aqueles que combinam qualidade e equidade. Equidade, na área da educação, significa que circunstâncias pessoais ou sociais como o género, a origem étnica ou o meio familiar não representam nenhum obstáculo para a realização do potencial educacional (equidade) e que todos os indivíduos atingem pelo menos um nível mínimo básico de formação (inclusão). Nesses sistemas educacionais, a vasta maioria dos alunos tem a possibilidade de atingir altos níveis de formação, independentemente das respectivas circunstâncias pessoais e sócio-económicas.
    Equidade e Qualidade na Educação. Apoio às escolas e aos alunos desfavorecidos, OCDE, 2012.
Continuando a ler o documento da OCDE, é fácil concluir que as suas propostas apenas são exequíveis com mais professores, o oposto do que está a fazer-se.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Sócrates, podes seguir em frente!


Apesar de Portugal se estar submetido à disciplina da zona Euro, o FMI voltou a pronunciar-se recentemente sobre a economia portuguesa. No seu entendimento:

  • Estão a ser tomadas medidas decisivas, centradas no sector público, para corrigir os desequilíbrios acumulados durante os anos 90, e os resultados estão a ser visíveis. As condições mundiais mais frágeis tornam mais difícil e urgente fazer face aos desafios económicos de Portugal. As políticas deverão tirar partido dos progressos recentes e evitar pôr em causa os objectivos de longo prazo para obter ganhos a curto prazo. Isto significa que se deverá prosseguir a consolidação e as reformas orçamentais, mantendo a solidez do sistema financeiro e prosseguindo a implementação de reformas do lado da oferta, para tornar a economia mais produtiva e flexível e reactivar o processo de convergência.
    Relatório do FMI   Backup




Apesar de o país se estar a afastar dos padrões europeus, como “em média” continua viver acima das suas possibilidades, a receita é continuar a apertar o cinto daqueles que a quem é possível apertar mais. A crise não é sentida por todos, porque por exemplo, as vendas de automóveis, certamente de alta cilindrada, até estão a aumentar. Sobre a crescente inequidade na repartição do rendimento o relatório não diz uma palavra. Chama a atenção para a necessidade de evitar que os custos do trabalho degradem a competitividade da economia, e elogia “a solidez do sistema financeiro e bem supervisionado”(?). As famílias portuguesas estão muito endividadas porque compraram a sua habitação quando mal podiam adquirir uma bicicleta, mas “o Banco de Portugal está ciente destas vulnerabilidades, que não são novas, e tem adoptado uma abordagem pró-activa”, exigindo aos bancos o reforço dos amortecedores de liquidez, para fazer face a potenciais faltas de liquidez...

Pelo caminho que o FMI aconselha, cada passo em frente já sabe onde vamos dar.

Analise-se o percurso que temos feito utilizando os próprios números do FMI. Em 1995 o Produto Interno Bruto per capita português não se afastava tanto do espanhol nem do grego. Em 2006 fomos passados pela Eslovénia. A distância relativamente aos outros países aumenta se perspectivarmos 2013.

Fonte: World Economic Outlook Database, FMI

Belo caminho!




Post
relacionado
Programa de Estabilização Económica, 1978-79, também conhecido como primeiro pacote do FMI. Numa imagem sintetizam-se as políticas então propostas.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

É escandaloso que um gestor receba num mês o mesmo que um trabalhador em 13,7 anos! (*)

Quando Helena Garrido procurava apresentar argumentos na esfera da racionalidade económica para justificar tamanha discrepância, não conseguiu melhor que o recurso à metáfora da água e dos diamantes. Foi obrigada a recorrer à metáfora precisamente porque não tem argumentos no âmbito da racionalidade económica.

O termo de comparação para os administradores portugueses, quando pensam no seu ordenado, são os administradores alemães, independentemente da produtividade das empresas. Já quando “estudam” os salários dos trabalhadores têm que ter necessariamente em conta a “produtividade das empresas”... Como resultado Portugal continua a desenvolver uma repartição do rendimento terceiro-mundista que cada vez mais nos envergonhará no contexto da União Europeia.

Luc Boltanski explica que os seres humanos convivem bem com uma multiplicidade de justificações contraditórias entre si, que seleccionam em função da situação em que se encontram.
Mais um exemplo. O protesto contra o desrespeito dos Direitos Humanos na China também convive muito bem o crescente consumo dos produtos chineses... não dá jeito nenhum pensar na política quando vamos às compras, não é?




(*) As contas são simples. http://vistodaeconomia.blogspot.com/ indica que o salário médio da administração foi, o ano passado, 164,1 vezes a remuneração média dos outros trabalhadores, no caso da Sonae SGPS - liderada por Paulo Azevedo, filho de Belmiro de Azevedo. 164,1/12=13,7.

sábado, 8 de março de 2008

2/3 dos professores desceram hoje a Avenida da Liberdade, na "Marcha da Indignação"


  • Dezenas de milhares de professores convergiram em Lisboa para a "Marcha da Indignação".
    Foi um protesto de professores sem precedentes. Os sindicatos dizem que cerca de 100 mil estiverem em Lisboa. A PSP aponta para uma adesão de 85 mil pessoas.
    RTP






1ª Foto: RTP. 2ª Foto: EXPRESSO. 3ª Foto: PÚBLICO


Para a história ficam os números, porque é fácil contar cabeças, e como este indicador é mensurável, é exactamente isso que fica objectivado.

O que pensam os professores que se manifestaram, isso é muito mais importante e heterogéneo,
mas não cabe em poucas linhas, nem dá jeito para fazer notícias. Compreende-se bem. Sai tanta legislação sobre educação, que só a conhecessem os professores que a isso são obrigados, mas numa democracia toda a gente tem direito de expressar a sua opinião. Assim, a imagem simplista que ficou dos docentes na opinião pública foi a de uma reles corporação que está a defender os seus actores medíocres.

  • Nesta altura do campeonato já toda a gente percebeu que o problema não está em Maria de Lurdes Rodrigues, como também não estava no sacrificado ministro da Saúde Correia de Campos. O problema é mais fundo, mais antigo e mais complicado de enfrentar: Portugal é, de há muito, um país mental e estruturalmente corporativo e qualquer reforma que qualquer governo intente esbarra sempre contra uma feroz resistência da corporação atingida. E para que serve uma corporação? Para proteger os medíocres, não os bons. Acontece com os professores, com os médicos, com os magistrados, com os agentes culturais, com os empresários encostados ao Estado.
    Miguel Sousa Tavares (EXPRESSO/Assinatura)


Certamente que José Sócrates também lê o artigo deste opinion maker do EXPRESSO. Recordo-lhe que a justiça é sempre concebida em termos relativos. Sem dúvida que é injusto continuar a sobrecarregar os professores com novas tarefas, retirando-lhes os outrora “direitos adquiridos”, sem ter coragem para tocar nos outros servidores do Estado, designadamente nos magistrados e nos políticos. Dói muito dar um clique até ao site da CGA e ver que os professores são os únicos licenciados que contribuem para a redução do défice orçamental. Se José Sócrates tivesse coragem para enfrentar todos os grupos sócio-profissionais com a mesma determinação teria certamente o meu voto, apesar das inúmeras horas de sono que me tem roubado. E para cúmulo, a Ministra é tão habilidosa, que nem terei direito a ser avaliado!

segunda-feira, 3 de março de 2008

União Nacional contra Maria de Lurdes Rodrigues


Não vou perder-me nos motivos que os professores têm para se mostrar indignados com a actuação da Ministra da Educação, apesar de pessoalmente ter até motivos adicionais aos que têm sido apontados. Não vale a pena bater mais numa senhora que já está a cair. Porém, importa reflectir sobre os motivos que terão levado à formação desta estranha “União Nacional” contra a Ministra, que inclui todos os sindicatos e partidos – incluindo sectores do PS – bem como uma serie de movimentos “espontâneos”. Como explicar esta unanimidade dos docentes que agora despertou, e que antes estava adormecida? Que bicho lhes mordeu que os pôs a mexer? Estão a maltratar o Deixa-Andar?

Evidentemente que o motivo que desencadeou a cadeia de manifestações que actualmente se vive foi o Decreto Regulamentar nº 2/2008, de 10 de Janeiro, que estipula como deverá decorrer o processo de avaliação dos professores. Em muitos pontos a Ministra falhou ou não foi hábil num processo delicado, onde as novidades iam surgindo de dia para dia, num trabalho feito em cima do joelho e ao sabor da inspiração de cada dia, oferecendo pretexto a uma assinalável indignação legítima dos professores. Eu tomo a liberdade de me incluir neste conjunto.

Agora quando vejo nos TeleJornais a “União Nacional” contra a Ministra, lembro-me de muitas coisas, ainda de forma desestruturada, mas que gostaria de deixar aqui registadas:

1. Cavaco Silva, enquanto professor de Economia Pública explicava no início dos anos 80 que os professores não precisavam de ser bem remunerados porque eram “professoras”, e se ganhassem melhor poriam em causa o poder dos maridos;

2. Os Licenciados foram aceitando salários mais baixos enquanto docentes, relativamente a outras profissões, porque dispunham de outras regalias, designadamente a ausência de um chefe para aturar e um horário de 22 horas lectivas semanais.

3. As escolas aceitaram todos os Licenciados desempregues até ao dia em que ficaram com as suas vagas preenchidas. A partir do momento em que ficaram "cheias", a sociedade portuguesa começou a conhecer o fenómeno de desemprego entre os Licenciados. A geração que encheu as escolas nunca conheceu o desemprego, mas isso não significa que seja mais competente, apenas teve a vantagem de viver noutra conjuntura económica e social, mas não o reconhece, e luta por direitos adquiridos que são uma miragem para os jovens.

4. Muitos professores colocados nas escolas, conseguem ter tempo para uma segunda actividade, o que é plenamente aceite pelos colegas por “a escola pagar mal”. Evidentemente que nunca têm tempo para ler um mal nem a Web. Alguns terão tido a primeira experiência com a Internet no Concurso para Professores Titulares...

5. A Ministra inventou a estupidez das aulas de substituição, nas quais se transformam os professores em cães de guarda para evitar que o rebanho se tresmalhe. Compreendo que queira segurança nas escolas e poupar dinheiro ao Ministério. Não compreendo que roube aos jovens tempo de convívio e que deixe subtilizados os centros de recursos que actualmente equipam as escolas.
A escola a tempo inteiro agrada às famílias que querem ter os filhos à guarda dos professores, mas traduz-se na sobrecarga destes, sem proveitos para os alunos.

6. A Ministra impôs uma sobrecarga de trabalho a todos, provavelmente na esperança de que aqueles que têm duplo ou triplo emprego abandonassem a escola. Não teve coragem para impedir as acumulações pelo simples controlo das declarações de IRS, e agora ouvirá os seus assobios no momento da saída.

7. A Ministra provavelmente mudou mais a escola em 3 anos que os seus colegas em 30. Tinha ideias fortes e incontestáveis: 1) a necessidade de criação de uma hierarquia; 2) a necessidade de avaliação dos docentes. Estes dois pontos podem parecer pouco, mas representam uma alteração radical da vida das escolas.
Recordo-me no primeiro ano em me foram distribuídas tarefas na escola, as despachei o mais rapidamente que pude. Então deram-me mais trabalho, e fui avisado que se fosse demasiado rápido levaria uma nova dose. Assim me ensinaram que o trabalho na escola “não é para ser feito, é para ir fazendo”. Foi assim que me socializaram no funcionalismo, que nivela todos os professores e obviamente detesta a avaliação. É este espírito que eu vejo na “União Nacional”.

8. A Ministra precisava de um Primeiro-Ministro que a apoiasse contra as corporações profissionais, mas Sócrates não tem legitimidade para isso. Afinal ele nem concluiu a Licenciatura, e pelo menos do ponto de vista académico, importantíssimo para os professores, Sócrates está uns pontos abaixo deles. E como o seu objectivo prioritário é manter-se na chefia do Governo, certamente que sacrificará Maria de Lurdes Rodrigues, (2005-2008).

9. Um aspecto positivo da indignação manifestada é a comparação que os professores fazem entre os seus vencimentos e os de outros servidores de Estado muito melhor remunerados, como os políticos e os juízes. A Internet possibilita hoje o acesso à lista mensal dos aposentados e reformados, logo à entrada do site da Caixa Geral de Aposentações, tornando as desigualdades na repartição do rendimento ilegítimas mais difíceis de suportar, mais intoleráveis. E Portugal tem indicadores vergonhosos segundo os parâmetros europeus quando se observa a distribuição do rendimento, problema que não é acessório quando se debate a educação. As questões andam certamente correlacionadas, porque maior rendimento significa sempre maior liberdade de escolha, e procura-se sempre a qualidade, também na educação.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Transformações profundas no papel da escola subordinadas à agenda eleitoral do PS

O objectivo dos políticos quando estão na oposição é alcançarem o Governo. Quando estão no Governo pretendem manter-se em funções. É conhecida a forma como são geridos os ciclos de quatro anos: nos primeiros dois anos deverão ser feitas as reformas necessárias, apesar de dolorosas e impopulares, podendo mesmo entrar em confronto com os governados; nos dois anos seguintes distribuem-se “rebuçados”.

Sócrates desafiou em simultâneo amplos sectores da sociedade portuguesa, para dar uma falsa imagem de independência e eficácia. Uma falsa imagem porque o seu alvo nunca foi além da classe média: atacou pensionistas, funcionários públicos, professores, médicos e juízes. Não tocou nem tocará nos políticos, nem nos dirigentes da administração pública, nem no poder financeiro. Quando começou a governar a Socratelândia o país já era aquele que tinha salários mais baixos na Europa dos 15. Com as suas orientações para a função pública, que são tomadas como referencial pelo sector privado, a Socratelândia foi mais ao fundo ainda:



A educação é uma pasta conhecida como a “torradeira” porque os ministros se vão sucedendo na pasta sem que seja possível realizar alterações de fundo respeitando os ciclos eleitorais. Desde 1970, só seis ministros se mantiveram por um período superior a 2 anos: Veiga Simão (70/74), Vítor Crespo (80/82), Roberto Carneiro (87/91), Marçal Grilo (95/99), David Justino (02/04) e Maria de Lurdes Rodrigues (05/??). Esta é uma área onde os resultados das políticas de fundo nunca são observáveis a curto prazo. Mas a Ministra não se importa de fazer os seus planos e as suas regras independentemente dos professores até com batota à mistura para mostrar resultados dum ano para o outro, e a verdade é que a humilhação dos professores lhe tem servido para conquistar simpatizantes noutras franjas da população. Por exemplo, gostaria de a ter visto num carro do corso de Carnaval, tal como vi o Sócrates com o nariz do Pinóquio ou o Ministro das Finanças a segurar mealheiros/porcos/portugueses que tentavam escapar-lhe da quinta, etc....(Carnaval de Torres Vedras). Ao contrário da restante população, os professores estabelecem facilmente a relação entre os “despachos pela Internet” e a agenda e eleitoral do PS:



O pior é que já passaram os primeiros dois anos sem que se tenham realizado as verdadeiras alterações estruturais que a sociedade portuguesa exigiria. Por exemplo, independentemente dos despachos, os recursos mais utilizados no interior das salas de aula continuam a ser o quadro/giz e o manual escolar. Esta é a realidade do quotidiano escolar desde que eu era criança... Entretanto o país já passou por uma Revolução (PREC, 11/MAR/75 a 25/NOV/75), já se extinguiu a URSS, o Mundo passou a ter novas preocupações: alterações climáticas, terrorismo, subdesenvolvimento, SIDA,... Mas a escola parece viver à parte do Mundo, com uma inércia muito maior, e por maior que seja a velocidade dos despachos nada indica que seja alterada a situação nas salas de aula, mas apenas que seja criada mais burocracia.

Lembram-se da lição da banca? Há uns anos também viviam atulhados em papéis, sem computadores. O “problema” dos bancos é que têm mesmo que apresentar resultados! Como fizeram? Modernizaram-se. Reformaram compulsivamente os quadros que não lhes interessavam. Esta Ministra está a fazer o oposto na educação, transformando as escolas em hospícios, precisamente porque nunca será responsabilizada por não obter os “resultados” a que tanto se refere. Lamentavelmente, depois de perdidos os dois primeiros anos, nem haverá “rebuçados” para distribuir na Socratelândia onde a jangada continua a ser conduzida em direcção ao precipício. E as consequências desta política não são um azar do Sócrates nem da Ministra! Eles sabem que correm o risco de não renovar o contrato!

Mas que azar poderá ter um professor que não precisa de quadro/giz nem de manual escolar na sala de aula? Eu prefiro gastar o tempo a criar materiais para os alunos a fazer planificações que são copy/paste dos programas. Corro o risco de dar mau resultado, mas mantenho-me à margem desta paranóia colectiva.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Desigualdades e subdesenvolvimento

"Não podemos deixar de nos inquietar perante as desigualdades na distribuição do rendimento que as estatísticas revelam", disse ontem à noite o Presidente, em mensagem transmitida pela RTP. As estatísticas revelam, por exemplo, que Portugal é o país da UE onde há mais desigualdade entre ricos e pobres. Cavaco Silva, 01-01-2008.

Não é novidade nenhuma, o estranho é o recado vir da direita para a esquerda ;) José Sócrates está a ultrapassar o PSD pela direita. E não sei porquê, este povo até gosta de levar nas ventas. Pela minha parte, apesar de não ser fumador, preparava-me para começar a fumar porque este fascismo higiénico me mete mais nojo que o aroma de uma fumaça ;)

Quando se tratava de proteger os não-fumadores do fumo passivo, obrigando à criação de áreas específicas para fumadores, o legislador não esteve com meias medidas e quis lá saber se os fumadores tinham ou não alguns direitos também. (MST, EXPRESSO Assinatura) A solução simplex do engenheiro farinha amparo foi proibir de fumar em todo o lado.

Para reduzir o défice orçamental e controlar a taxa de inflação também é conhecido o modelo simplex: reduzir a massa salarial da função pública, encerrar escolas e hospitais… Coragem para tocar nos senhores que enriquecem à pala do empobrecimento da generalidade da população não há. Como é possível a banca ir apresentando ano após ano lucros espectaculares numa economia em crise? Se eu percebesse o modelo do negócio não teria tempo para escrever blogues! Pois! Além da grande finança, os políticos também pertencem ao grupo dos intocáveis, pois as necessidades de eficácia também poderiam ser invocadas para justificar deputados mais especializados e menos numerosos. O Governo não tem coragem para reduzir o número de deputados de 230 para 100 porque se o número de lugares no Parlamento diminuísse, muitos históricos dos vários partidos, ex-ministros e secretários de Estado, figuras públicas, teriam de ficar de fora (José António Saraiva, 2007, Política à Portuguesa, Oficina do Livro).

A conformidade perante leis fundamentalistas é apenas um sinal de anuência com o subdesenvolvimento. A adesão ao modelo simplex apenas se justifica por ausência de alternativas no espaço político, anunciando que há que reinventar o debate o debate político!

O Regresso do Morto-Vivo (ou como a IA me obrigou a trabalhar na reforma)

 Quem me conhece sabe que, no ano passado, arrumei definitivamente os manuais, fechei o giz no armário e decretei a merecida a...