terça-feira, 21 de julho de 2026

O Império do Item e a Humana Arte de Evitar o X,4

Ontem li no blogue Terrear, do sempre atento Jorge Morais de Almeida (JMA), uma reflexão magnífica sobre a transformação do professor: deixámos de ser avaliadores de provas para passarmos a burocratas classificadores de N itens. O sistema, na sua obsessão de ser impecável nas planilhas de Excel, trocou a validade (saber se o aluno realmente percebe algo da matéria) pela fiabilidade (garantir que dois analfabetos funcionais dêem exactamente a mesma nota ao mesmo pedaço de frase). Aumenta-se o rigor, mas perde-se em justeza e justiça.

A coisa fez-me recuar no tempo. Na minha tese de mestrado em Sociologia, andei a espreitar os exames do 12.º ano do mítico ano de 2001, fixando-me em seis disciplinas para tentar decifrar a "mente professoral". E a distinção era clara: nas plurianuais (Português e Matemática), onde o drama durava três anos, os professores viram-se obrigados a "inventar" a avaliação de ciclo para evitar que uma média aritmética fria resultasse num fatídico 9. Nas anuais (Biologia, Química, Psicologia e IDES), a gestão era outra, mas o objectivo o mesmo: ninguém ficava preso na porta do exame sem poder jogar a sua última cartada.

Claro que o rigor varia com a tribo. As disciplinas de Matemática e Ciências Naturais (MCN) sempre foram notoriamente mais severas do que as de Humanidades e Ciências Sociais (HCS). Nas exactas, aceita-se com naturalidade uma discrepância brutal entre a nota da escola e a do exame. Os professores de ciências, antecipando o massacre habitual da prova nacional, até já davam a nota interna "com desconto para a queda". Era a prevenção da injustiça por via do amortecimento prévio.

Depois, havia o trabalho de campo nos exames. No início da carreira, os colegas mais velhos explicavam-me com pragmatismo o funcionamento do controlo institucional: ninguém iria rever os critérios das respostas de cada questão, mas uma falha na soma das cotações da prova seria detectada no imediato por qualquer auditoria administrativa. Daí o conselho cínico de que a caligrafia servia de filtro rápido para adivinhar a qualidade do texto e que o único erro proibido era o da máquina de calcular. Preferi sempre continuar a ler o que os alunos escreviam, mas adoptei uma regra de ouro preventiva: o X,4 não existia. Deixar um aluno num 9,4 ou num 13,4 era um convite à neuropatia do encarregado de educação e um íman de reapreciações. Nos problemas de cálculo — onde é manifestamente mais simples e elegante "descobrir" mais uma décima perdida na estrutura de um raciocínio —, espremia-se o critério até encontrar a justiça do X,5. Se não dava mesmo, a prova era reajustada para X,3 ou X,2. Uma classificação perigosa é que não podia lá ficar.

Quando os exames nacionais do secundário regressaram, lá por 1997, as perguntas de escolha múltipla eram um detalhe decorativo: 60 em 200 pontos. O resto era reflexão, discurso e raciocínio aberto. Hoje, em nome da adorada "fiabilidade", a estrutura foi devidamente higienizada: 140 em 200 pontos são questões fechadas. Ora, para classificar este tipo de questões em vez de estar a avaliar raciocínios articulados, francamente não vale a pena gastar o tempo nem o salário de um professor. Uma máquina de leitura óptica faz o serviço mais depressa e sem pedir café.

O verdadeiro drama da classificação por itens e da corrida à automação total não é o computador falhar na soma; é que, depois de somados os pontos pelo algoritmo, não resta um único ser humano no processo para introduzir um pingo de humanidade. Ninguém revê a prova globalmente, ninguém espreita o contexto, ninguém salva o coitado que ficou pendurado no X,4.

Resta-nos a esperança de que a Inteligência Artificial, quando tomar conta disto por completo, seja programada com um algoritmo de sensibilidade pedagógica que faça esse reajuste necessário à humanização dos exames. Se for bem treinada, talvez a IA aprenda a evitar o X,4 reintroduzindo a justiça professoral no processo de classificação dos exames.

Ler Mais – O Contexto Político da Cegueira Digital

A publicação do artigo acima não é fruto do acaso; é uma resposta direta à urgência do momento que o sistema educativo português atravessa. Numa altura em que o Ministério da Educação está sob fogo cruzado pelas falhas operacionais e logísticas na "revolução digital" da classificação dos exames — com servidores que falham, prazos que derrapam e o caos mediático na publicação das notas —, este texto cumpre uma função essencial: **muda o foco da eficiência do meio para a justeza do fim.**

Enquanto a discussão pública se perde na espuma dos dias sobre se as plataformas informáticas funcionam ou não, é crucial olharmos para o que acontece quando elas funcionam. A cegueira deste processo, tão bem sinalizada por Jorge Morais de Almeida (JMA), reside na eliminação total da sensibilidade pedagógica em prol de uma miragem de "neutralidade tecnológica".

A minha reflexão, ancorada na experiência e na investigação sociológica, procura demonstrar que a justiça da avaliação não se encontra na precisão matemática do algoritmo ou na atomização por itens isolados. Pelo contrário, as estratégias informais e de "justiça preventiva" que os professores sempre usaram — como o combate ético ao fatídico X,4 nas provas limiares ou o "desconto para a queda" inventado pelos professores de ciências — provam que a escola pública só tem sido inclusiva porque os docentes souberam atuar como amortecedores humanos da rigidez burocrática.

Se retirarmos ao professor o seu papel de avaliador soberano e o transformarmos num mero operador de introdução de dados em grelhas de questões fechadas, matamos a validade do próprio exame. A crítica ao Ministro da Educação não deve ser apenas porque as plataformas informáticas vão "abaixo"; deve ser, fundamentalmente, porque a pedagogia e a humanidade da avaliação estão a ser sacrificadas no altar de uma engenharia tecnocrática que confunde rigor com mecanização.

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