sábado, 22 de agosto de 2026

Da Folha de Papel nos Anos 80 ao Ecrã Tátil: A Linguagem como Rasteira aos Mais Vulneráveis

Existe uma continuidade perversa entre a burocracia de papel e os algoritmos do século XXI. O suporte mudou — passámos do impresso a tinta para os píxeis do smartphone —, mas o mecanismo de dominação permanece intocável: o uso deliberado da linguagem como armadilha para os mais vulneráveis.

Nas secretarias escolares dos anos 80, em plena consolidação do ensino unificado, o formulário de matrícula perguntava aos alunos: «Prescinde das aulas de Religião e Moral?». Para uma criança ou uma família com menor capital escolar, o verbo prescindir era uma palavra estranha. A mente, por associação fonética imediata, colava-a ao termo mais próximo do seu vocabulário quotidiano: precisar. Ao responderem convictamente «Não!» — pensando que afirmavam «não preciso disso para nada» —, a burocracia registava um «não prescindo» e inscrevia-os na disciplina. A armadilha perfeita: o consentimento para a submissão era extraído através da própria iliteracia linguística que o sistema falhava em proteger.

Hoje, a Google Play Store aperfeiçoou a mesma técnica na era do pixel. Ao tentar instalar uma aplicação, o utilizador é confrontado com um texto em letra minúscula, sobre fundo escuro: «Perde o seu direito de retratação». O termo técnico — que significa simplesmente «perde o direito de desistir e pedir o reembolso nos 14 dias seguintes» — surge envolvido num "juridiquês" impenetrável. Quem não domina o código jurídico lê à pressa, clica em "Aceitar" para libertar o ecrã e vê serem-lhe cobrados 42,99 € sem regresso possível.

Como ensinava Pierre Bourdieu, estamo-nos a referir à violência simbólica: o poder de impor um significado como legítimo dissimulando as relações de força que lhe dão origem. A linguagem erudita ou técnica atua como um filtro de classe. Os mais vulneráveis não falham por falta de inteligência, mas porque não possuem as chaves de descodificação do código dominante.

A sociologia da justificação de Luc Boltanski,  safaria a Google do julgamento moral conjugando a cidade industrial com a cidade mercantil: alega a neutralidade do algoritmo, o cumprimento estrito das diretivas comunitárias e a eficiência do mercado. Para a grande multinacional, o texto está lá; se o utilizador não o leu ou não o compreendeu, a culpa é individualizada. A assimetria de poder é formalmente convertida num "consentimento informado".

Quer seja no impresso de papel da escola nos anos 80, quer seja no ecossistema digital de hoje, o truque é o mesmo: criar atrito cognitivo nos mais fracos para garantir o resultado que convém à instituição. A linguagem, que deveria servir para libertar e esclarecer, continua a ser desenhada como uma ferramenta de controlo e captura.

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