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segunda-feira, 25 de maio de 2026

🌐 REVOLUÇÃO INTERNET 2009-2026 | Dia 8: A Metamorfose do Trabalho – Da Sopa de Cubículos à Ditadura do Wi-Fi Cooperativo

Se em 2009 ousássemos dizer a um director-geral de uma qualquer empresa de serviços que o trabalho era uma actividade intelectual e não um lugar físico, o mais certo seria sermos convidados a passar pelos Recursos Humanos para assinar o distrate. Naquela era medieval das relações laborais, "ir trabalhar" exigia uma liturgia corporal rigorosa: enfiar um fato (ou, no mínimo, uma camisa bem engomada) e enfrentar a verdadeira prova de aflição que era o IC19 às 8:30 da manhã. Passar horas num pára-arranca exasperante, a ver o combustível sumir-se nas filas compactas de quem tentava desesperadamente chegar a Lisboa, era o preço a pagar para, finalmente, enfiar o esqueleto num edifício de escritórios com janelas que não abriam. O trabalho media-se por metros cúbicos de presença física e pela quantidade de horas que a derme do funcionário friccionava o tecido da cadeira.

Como podemos ver no topo do infográfico, as próprias empresas eram fortalezas analógicas: os dados oficiais do INE revelam que uns escassos 36% das organizações em Portugal tinham a ousadia tecnológica de disponibilizar acesso remoto ao e-mail ou a documentos fora do perímetro do edifício. Os restantes 64% operavam sob um orgulhoso isolamento digital. Tirar dados lá de dentro? Só se fosse contrabandeando relatórios numa pen USB guardada no bolso à sexta-feira. Sem infra-estrutura, a organização humana reflectia esta paralisia: no sector dos serviços, 96% dos profissionais batiam o ponto em regime puramente presencial. O teletrabalho de 4% era uma excentricidade reservada a programadores eremitas ou a administradores em piquete de urgência.

Dezassete anos depois, o panorama de 2026 parece saído de um manifesto de desmaterialização marxista. A infra-estrutura técnica da cloud estoirou com as paredes dos escritórios. Hoje, 84% das empresas portuguesas capitularam perante a nuvem, permitindo que os seus servidores sejam acedidos a partir de qualquer coordenada geográfica. Com o cordão umbilical cortado, a organização do trabalho desmoronou-se: o presencialismo absoluto colapsou para uns residuais 32%. Para muitos, o IC19 passou a ser apenas uma recordação difusa ou uma via utilizada fora das horas de ponta. A maioria migrou para a terra do meio: 48% vivem no limbo do regime híbrido — onde a deslocação à sede serve mais para sessões de brainstorming forçado e socialização em redor da máquina de café do que para produzir —, enquanto 20% adoptaram o nomadismo digital absoluto. O escritório passou a ser qualquer cafetaria onde o latte macchiato dê direito a três horas de Wi-Fi gratuito.

Convém, no entanto, descer à terra e sacudir o deslumbramento utópico das imagens promocionais do lado direito do infográfico: esta metamorfose é profundamente elitista. O mercado dividiu-se entre a economia dos bits e a economia dos átomos. Enquanto engenheiros de software, consultores e criadores de conteúdos celebram a liberdade de trabalhar a olhar para o mar, sectores inteiros como a saúde, a hotelaria, a indústria e a logística continuam acorrentados à velha ditadura da presença. Não há teleconsulta que cure uma apendicite, não há inteligência artificial que sirva um jantar no turismo e nenhum motorista conduz um camião de mercadorias — ou enfrenta o verdadeiro e inevitável trânsito do IC19 — a partir do sofá.

O Ensino expõe esta assimetria de forma brilhante e impiedosa. Nas creches, nos jardins-de-infância e no ensino básico, a presença do professor é uma barreira intransponível: ali, o trabalho exige toque, afecto, gestão de conflitos de plasticina e vigilância motora — matérias que recusam o confinamento de um ecrã. Já na outra ponta, ao nível universitário, a cátedra desmaterializou-se. A autonomia dos estudantes permitiu que os anfiteatros clássicos fossem substituídos por salas virtuais síncronas, onde o docente pode debitar matéria a partir do seu escritório doméstico para uma plateia de avatares com a câmara desligada.

O privilégio da flexibilidade acentuou uma nova clivagem de classe em 2026: a separação aristocrática entre quem tem o luxo de escolher de onde envia os seus ficheiros e quem é obrigado a deslocar o próprio corpo para fazer o mundo físico funcionar. A tecnologia de facto libertou-nos do cubículo cinzento de 2009, mas apenas para nos recordar que a civilização — e o movimento real da nossa economia — continua a depender daqueles que não se podem dar ao luxo de ser nómadas.

domingo, 24 de maio de 2026

🌐 REVOLUÇÃO INTERNET 2009-2026 | Dia 7: Da Moeda-Mercadoria ao MB WAY – A Ficção Científica da Desmaterialização

 Quem estudou Economia recorda as lições clássicas sobre a evolução da moeda: começámos na mercadoria (o sal, o gado, o tabaco), passámos pelos metais preciosos e estabilizámos na moeda fiduciária, aquele papelinho impresso pelos Bancos Centrais em que todos decidimos colectivamente acreditar. Mas se em 2009 nos dissessem que a moeda sofreria uma desmaterialização tão radical que a carteira de pele se tornaria um adereço inútil, teríamos encolhido os ombros com cepticismo.

Em 2009, o dinheiro ainda se tocava, contava e guardava no bolso. No comércio de retalho, 65% das transacções faziam-se com notas e moedas. Ir ao Multibanco levantar "papel" ao fim de semana era um ritual sagrado. O cartão de débito existia (32%), mas exigia enfiar o plástico na ranhura e digitar o PIN sob o olhar vigilante do cliente da retaguarda.

E o comércio electrónico? Era uma actividade de alto risco psicológico que recolhia a desconfiança de 88% dos portugueses. Recordo-me de tentar convencer os meus colegas professores, na nossa escola, de que, verificando a segurança do site (o famoso símbolo do cadeado), comprar online era infinitamente mais seguro do que entregar o cartão de crédito a um empregado num restaurante, que o levava lá para dentro, deixando-nos à mesa a rezar para que o plástico não fosse clonado nas traseiras!

A resistência era de tal ordem que, para dar confiança a um colega, cheguei a comprar-lhe um livro na Amazon com o meu próprio cartão; ele, aliviado por não violar a sua segurança digital, pagou-me o favor em notas vivas. Outro colega, contudo, não aprendeu bem a lição: entusiasmou-se e inseriu o seu cartão num site de adultos para "provar que era maior de 18 anos". Escusado será dizer que, dias depois, o pânico instalou-se com o desfalque na conta por serviços que nunca tinha consumido. Era este o faroeste digital de 2009.

Dezassete anos depois, o panorama de 2026 entrou directamente no território da ficção científica financeira. A moeda desmaterializou-se ao ponto de se fundir com os nossos dados biométricos.

Hoje, o dinheiro em notas ou moedas colapsou para uns residuais 8% das transacções. As notas passaram a ser um estorvo que acumula bactérias. O grande conquistador deste ecossistema foi o smartphone (e o relógio digital), que através de ferramentas como o MB WAY e as carteiras digitais arrecada 62% de todos os pagamentos. Pagamos o almoço, transferimos a nossa quota-parte de um jantar ou liquidamos as compras no supermercado aproximando o ecrã do terminal, autenticando o valor com a nossa própria impressão digital ou com um rápido olhar para a câmara do telemóvel. O valor económico tornou-se um fantasma electrónico.

Esta facilidade invisível de pagar foi o combustível perfeito para a explosão do e-commerce, que hoje faz parte da rotina de 74% da população. A desconfiança e o receio de 2009 foram substituídos pelo consumo instantâneo. Compramos com um único clique, geramos cartões virtuais temporários e seguros em segundos e o comércio já não precisa do espaço físico para validar a troca.

A moeda já não é um objecto que se traz no bolso; é um fluxo de informação na nuvem. Passámos do ouro à biometria, provando que a Economia, quando aliada à tecnologia, tem a capacidade de transformar a mais sólida das realidades num sopro digital.

sábado, 23 de maio de 2026

🌐 REVOLUÇÃO INTERNET 2009-2026 | Dia 6: O Salto Quântico da Velocidade e da Penetração Global

 Olhar para os dados de 2009 é fazer uma viagem a um planeta Terra tecnologicamente pré-histórico. Naquela época, quando falávamos em liderança na penetração da Internet, o topo do mundo estava concentrado num pequeno clube ultra-selecto. Como se pode ver no detalhe da lupa no mapa de 2009 — um recurso visual obrigatório para conseguir encontrar estes pioneiros no mapa —, a Europa do Norte dominava o campeonato do acesso. A Noruega (1.º), a Suécia (2.º), a Finlândia (3.º) e os Países Baixos (4.º) lideravam a tabela, seguidos de perto pelos Estados Unidos (5.º). Fora deste eixo, o resto do mapa-mundo era praticamente uma imensa mancha em branco.

Dezassete anos depois, o painel de 2026 mostra uma realidade brutalmente democratizada. A penetração da Internet já não é o privilégio de quatro ou cinco nações nórdicas. Hoje, regiões inteiras como a América do Norte, a Europa em peso e partes significativas da América Latina e da Ásia partilham o escalão "Alto" ou "Médio-Alto", com taxas de adopção que superam os 85% a 95%. O mundo conectou-se de forma maciça.

Mas a verdadeira demência deste salto histórico não está em quantos acedem, mas sim na velocidade a que o fazem. É aqui que entra a nota de rodapé técnica dos gráficos: a transição de Kbps para Mbps e do 2G/3G para o 5G. Em 2009, grande parte das ligações móveis e residenciais ainda se arrastava em Kilobits por segundo. Vivíamos na transição do 2G (o mundo dos SMS e do GPRS) para um 3G incipiente, onde abrir uma imagem num ecrã era um teste à paciência de qualquer santo.

Os gráficos de banda larga média contam o resto da história:

  • Em 2009: O Japão era o rei indiscutível da velocidade com uns impressionantes (para a época) 61 Mbps, seguido pela Coreia com 46 Mbps. A Europa fechava o pódio na fasquia dos 17 a 22 Mbps. E os Estados Unidos? Uma vergonha técnica de 4.8 Mbps, uma velocidade que hoje mal daria para carregar um e-mail de trabalho.

  • Em 2026: Os números explodiram. Singapura lidera o mundo com uma média avassaladora de 260 Mbps, seguida de perto pelo Chile (245 Mbps) e Hong Kong (230 Mbps). Os próprios Estados Unidos correram atrás do prejuízo e fixam-se agora nos 180 Mbps.

Para colocar as coisas em perspectiva: a média global actual (55 Mbps) em 2026 é praticamente equivalente ao que era o topo de gama absoluto do planeta em 2009 (os 61 Mbps do Japão). Passámos de uma Internet que servia para descarregar texto e mp3 a comprimir dados, para uma infra-estrutura global em 5G capaz de aguentar transmissões de vídeo em alta definição, inteligência artificial em tempo real e videochamadas instantâneas a partir de quase qualquer coordenada geográfica.

A velocidade deixou de ser um luxo asiático ou escandinavo para passar a ser a electricidade do século XXI.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

🌐 REVOLUÇÃO INTERNET 2009-2026 | Dia 5: O Império Despedaçado da Blogoesfera

 Olhar para o mapa das redes sociais em 2009 é recordar uma era em que a internet ainda se dividia entre ler crónicas e espreitar o mural dos amigos. Naquela altura, a Blogoesfera era uma potência: 32% dos utilizadores mantinham ou liam blogues com regularidade. Era o reino do tom confessional e dos textos longos. O Facebook já liderava a bitola com 46%, o Twitter fixava-se nos 15% com o seu formato de microblogging, e o LinkedIn (7%) não passava de um arquivo enfadonho de currículos. Aplicações de mensagens como o WhatsApp? 0% (reinavam os SMS pagos). Plataformas de encontros? Uns marginais 1% em sites pré-históricos, fustigados por um preconceito social tremendo.

Dezassete anos depois, o painel de 2026 mostra que o ecossistema social foi completamente canibalizado pela gratificação instantânea, pelo vídeo curto e por uma viragem radical no mercado romântico e da exibição.

A Blogoesfera geral colapsou para uns residuais 5%, convertendo-se num reduto estratégico e de nicho profissional profundo. A necessidade de ler e escrever foi estilhaçada por novos gigantes: o WhatsApp atingiu uma hegemonia absurda de 92%, tornando-se o verdadeiro sistema operativo das relações humanas. O formato de vídeo curto foi tomado de assalto pelo TikTok (55%) e pelo Instagram (75%). Este último, aliás, provocou um fenómeno curioso: a democratização da sensualidade e o picante extra do amadorismo enxamearam a rede de tal forma que ditaram a perda de relevância (e o desaparecimento) de impérios editoriais históricos como a própria revista Playboy. Para quê pagar por uma pose profissional se os comuns mortais e as modelos publicam o mesmo conteúdo gratuitamente?

Até o ambiente corporativo mudou de figura. O LinkedIn disparou para os 48%, roubando a alma à antiga blogoesfera: hoje é ali que as pessoas publicam as suas crónicas diárias, reflexões e "artigos de opinião", ainda que camuflados de auto-ajuda empresarial. O Twitter (X) estabilizou nos 22%, focado no ruído político, enquanto o velho Facebook se mantém firme nos 68%, sustentado por uma demografia mais madura.

E o maior tabu de 2009? Desapareceu. As aplicações de encontros, com o Tinder à cabeça, saltaram para uns estrondosos 28% de adopção global. A perda de vergonha é total e o que antes era uma excentricidade passou a ser o método padrão para iniciar uma relação.

A internet já não serve para ler grandes diários confessionais; serve para comunicar instantaneamente, consumir vídeos de quinze segundos e arrastar o dedo para o lado. A Blogoesfera não morreu, blogues de nicho têm autoridade, mas teve de ceder o seu trono à velocidade do clique.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

🌐 REVOLUÇÃO INTERNET 2009-2026 | Dia 4: A Extinção dos Dinossauros de Secretária

 Recuemos a 2009. Naquela época, o computador de secretária — o famoso desktop, com a sua torre pesada, uma floresta de cabos por trás e um monitor que ocupava metade da mesa — era o rei incontestado das casas. Nada menos do que 58% dos utilizadores dependiam desse trambolho cinzento para ver os e-mails ou abrir uma página Web que demorava segundos a carregar. Os computadores portáteis (46%) e os primeiros netbooks (lembram-se dessas miniaturas lentas?) tentavam ganhar terreno, enquanto os smartphones eram uma excentricidade de nicho, usados por uns modestos 23% da população móvel. Navegar na internet era um acto estático: exigia sentarmo-nos numa cadeira específica da casa.

Dezassete anos depois, o panorama de 2026 decretou a extinção em massa destes dinossauros de secretária. O desktop foi empurrado para as margens da história, restando a uns escassos 15% de utilizadores, a maioria profissionais de nicho ou entusiastas de jogos pesados.

Quem herdou a terra? A mobilidade total. O computador portátil fixou-se nuns saudáveis 78%, tornando-se a ferramenta de trabalho padrão. Mas o verdadeiro rolo compressor foi o smartphone, que hoje regista uma penetração absurda de 94%. O telemóvel deixou de ser um acessório para passar a ser, essencialmente, o nosso primeiro e principal computador.

A grande ironia desta mudança de hardware reflecte-se directamente na nossa rotina doméstica. Em 2009, quando a internet morava no ecrã fixo da secretária, apenas 42% das pessoas acediam várias vezes ao dia. Em 2026, com o computador enfiado no bolso das calças e levado para todo o lado (inclusive para a mesa de cabeceira ou para o sofá), o "Sempre Ligado" atingiu uns brutais 92% de presença constante.

Libertámo-nos dos cabos e da secretária, mas ficámos irremediavelmente presos ao ecrã que trazemos na palma da mão.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

🌐 REVOLUÇÃO INTERNET 2009-2026 | Dia 3: Do Elitismo do Canudo à Massificação do Sempre Ligado


 Recuemos a 2009. Naquela época, o nível de escolaridade parecia ditar, de forma implacável, quem tinha direito a um bilhete para a auto-estrada digital. Os dados eram claros: quem tinha um diploma universitário completo (College+) registava uns expressivos 94% de uso de internet. No extremo oposto, entre os que não tinham terminado o ensino secundário (Less than High School), a taxa caía para uns quase pré-históricos 39%. Parecia que, para se navegar na rede com dignidade, era preciso primeiro apresentar uma tese de licenciatura.

Este elitismo académico fazia todo o sentido quando olhávamos para a forma como utilizávamos a internet em casa. Em 2009, a ligação era uma actividade planeada, quase um ritual litúrgico: apenas 42% das pessoas acediam várias vezes ao dia. Para a larga maioria, a rede era algo que se consultava "às prestações" — uma vez por dia (21%), algumas vezes por semana ou até menos. Ir à internet exigia um propósito, algo muito ligado ao trabalho intelectual ou aos estudos superiores.

Dezassete anos depois, a massificação do "Sempre Ligado" em 2026 aplicou uma valente lição de humildade a essa visão elitista. A internet residencial transformou-se por completo: hoje, uns avassaladores 92% da população global utiliza a internet quase constantemente, todos os dias. A rede passou a ser o oxigénio do quotidiano doméstico para gerir o banco, ver séries, trabalhar ou aceder a serviços públicos.

Com a internet entranhada na rotina de todas as casas, o nível de estudos deixou obrigatoriamente de ser um factor de exclusão. A ironia atinge o seu auge quando olhamos para a base da pirâmide actual: a Basic Education (ensino básico) conta hoje com uns robustos 80% de penetração — muito mais do que a média da população geral em 2009! Nos restantes níveis, os números tocam o tecto: 92% no High School, 96% em Some College e uns virtuais 99% para os licenciados.

A grande conclusão do dia? A democratização total da internet em casa, onde estar ligado se tornou um estado permanente, encarregou-se de demolir as torres de marfim. O conhecimento continua a ser uma meta nobre, mas a rede já não exige um canudo para lhe abrir as portas da sala de estar.

terça-feira, 19 de maio de 2026

🌐 REVOLUÇÃO INTERNET 2009-2026 | Dia 2: O Mito do Luxo Digital

 Em 2009, ter internet de banda larga em casa era quase um símbolo de estatuto. Se olhássemos para os dados da época, a exclusividade era gritante: enquanto a larga maioria das famílias de rendimentos mais elevados (83%) navegava à velocidade da luz (para os padrões de então), os agregados com menos de 30.000 dólares anuais contentavam-se com uns míseros 42% de penetração. A velocidade e a estabilidade da rede pareciam ter um preço que só alguns podiam pagar.

No entanto, em 2026, a economia digital aplicou um valente banho de realidade aos mais cépticos. Em 2009, a diferença de acesso entre o grupo mais pobre e o mais rico era de 41 pontos percentuais. Hoje, essa diferença foi reduzida para apenas cerca de 22 pontos, mostrando que o fosso digital baseado no rendimento está a fechar-se rapidamente. A banda larga deixou de ser o equivalente electrónico de um relógio de luxo para passar a ser tão indispensável — e omnipresente — como a água canalizada.

A ironia? Hoje, mesmo na categoria de Lower Income (Rendimentos Baixos), uns impressionantes 76% da população mundial tem acesso a banda larga. Ou seja, quase a mesma percentagem que os mais ricos tinham no início desta jornada! Subindo na escala social, os números roçam a saturação total: 88% na classe média, 95% na classe média-alta e uns quase absolutos 98% nos rendimentos elevados.

A grande lição destes dezassete anos? O mercado percebeu que o verdadeiro luxo não é cobrar caro a poucos, mas sim garantir que absolutamente toda a gente consiga ver vídeos de gatinhos, trabalhar remotamente ou pagar impostos online, independentemente do saldo bancário.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

🌐 REVOLUÇÃO INTERNET 2009-2026 | Dia 1: O Fim das Barreiras de Idade e Género



 Quem navegava pela internet em 2009 certamente se lembra do pânico moral da época: o receio de que os computadores isolassem os jovens do mundo real. Corta para 2026, e a realidade Pax Digital mostra que a rede não só não isolou ninguém, como se tornou o novo ponto de encontro familiar. Hoje, a integração da tecnologia nas relações pessoais é tão absoluta que, se quiser falar com os seus amigos ou saber dos seus filhos, é bom que tenha o Wi-Fi ligado.

A maior e mais deliciosa ironia desta evolução pertence à geração com mais de 65 anos 👵👴. Em 2009, uns modestos 38% aventuravam-se na banda larga, muitas vezes sob o olhar condescendente dos mais novos. Em 2026, esse número disparou para 75%. Os mesmos avós que outrora olhavam de desconfiança para os ecrãs desfrutam agora de uma reforma activíssima: gerem as poupanças online, planeiam viagens e exigem ver os netos por videochamada. Quem diria que os maiores defensores do "digital primeiro" seriam os reformados?

Esta democratização estendeu-se também ao género, consolidando a internet como uma ferramenta omnipresente na vida de trabalho e no quotidiano. Se em 2009 o uso já era equilibrado nos 74%, o panorama atual mostra uma quase universalidade, com 96% dos homens e 94% das mulheres permanentemente ligados à rede global.

domingo, 3 de maio de 2026

Da Máquina de Escrever à "Burguesia Digital"

Dizem que a vida é feita de escolhas, mas, às vezes, a vida é feita de adaptações que acabam por se tornar o melhor dos caminhos. Quando o liceu era para os filhinhos do papá e as escolas técnicas para os deserdados, restou-me a Escola Comercial. Até o 25 de Abril chegou no momento oportuno, abrindo-me o acesso a Economia, senão ficaria condenado à Contabilidade.

Na escola, fui reprovado em Desenho e Trabalhos Manuais de forma justa. No entanto, quando procurei entrar no mercado de trabalho, percebi que as minhas dificuldades com a caligrafia me desacreditavam. A solução não foi o conformismo, mas sim a dactilografia estratégica.

Preenchi o impresso para o concurso de professores numa máquina de escrever. O sistema, na sua ironia habitual, agradeceu-me a "paciência". Mal sabiam eles que aquele era o meu primeiro passo rumo a uma autonomia que ninguém se atreveria a prever.

Fui feliz a dar aulas porque era novo e levava ideias arejadas. Mas o verdadeiro salto deu-se quando os computadores e a Internet deixaram de ser ficção para passarem a ser a minha ferramenta de trabalho. Enquanto muitos se perdiam a perguntar "por onde entrava a Internet", eu já estava a caminho de Londres para dominar o inglês que as páginas da rede exigiam.

O que se seguiu foi o que gosto de chamar de "Burguesia Digital":

  • O investimento inicial: Criar blogues, organizar recursos, obrigar os alunos a pensar e a publicar online. Dá trabalho, é certo, mas cria uma estrutura que se sustenta.
  • O retorno: Tempo. Tempo para fazer um Mestrado em Sociologia quando os horários de "níveis novos" (aqueles que ninguém queria) me deram dias livres. Tempo para transformar a obrigação em saber.

Hoje, os blogues são o meu arquivo vivo. No início, este caminho não foi uma escolha consciente, mas foi a adaptação necessária à realidade. Hoje, é um caminho feliz. O gosto de aprender algo novo todos os dias não é uma meta; é o estado natural de quem descobriu que, se a mão não escreve de forma legível para o mundo, as teclas abrem portas que o mundo nem sequer sabe que existem. Escolhi ser eterno estudante, sempre procurando novos desafios e oportunidades.

terça-feira, 31 de março de 2026

O Admirável Mundo Velho: Uma Odisseia entre o Bit e o Papel Químico

Ilustração satírica burocracia IGCP CTT

 Ah, que saudades dos tempos em que a banca era uma arte manual. No Cacém de outrora, onde os bancos eram uma miragem e os Correios o nosso templo financeiro, as contas não tinham a frieza de um pixel. Eram manuscritas com caligrafia, letra inglesa ou francesa tão perfeita que faria um monge copista chorar de inveja. Abrir uma conta era um evento estético; cada movimento, uma peça de museu registada numa caderneta que cheirava a brio e a tinta permanente.

Depois, veio a tragédia da modernidade. Em 1997, como radical tecnológico abri conta no Banco7. O homebanking prometia o fim das filas, e eu, ingénuo, acreditei. Durante décadas, vivi nesta ilusão digital com o ActivoBank, achando que o mundo tinha finalmente aprendido a processar dados sem necessidade de contacto humano ou de sacrifícios rituais de árvores.

Mas não temam, entusiastas do século XIX! O Estado e o IGCP zelam pela nossa dose de nostalgia. Graças às leis contra o branqueamento de capitais e o financiamento do terrorismo — porque, claramente, é nestas filas que se apanham os grandes vilões internacionais — fui convocado para o mundo real.

Enquanto o meu banco resolveu a actualização de dados em cinco minutos na APP (uma falta de chá absoluta, sem qualquer drama ou espera), o IGCP ofereceu-me uma experiência imersiva num balcão dos CTT.

O Protocolo da Eficiência (Versão 1920):

  1. A Espera Espiritual: Trinta minutos para chegar a minha vez. É o tempo ideal para reflectir sobre a impermanência da vida e a consistência do mobiliário dos CTT.

  2. O Digital-Analógico: Mostrei os documentos no telemóvel. O funcionário olhou, mas com o desdém de quem sabe que o que não é impresso não existe. "Envie por e-mail em PDF", ordenou-se.

  3. A Engenharia do PDF: Como a CGA não se rebaixa a fornecer documentos em PDF, fiz a proeza de capturar imagens e convertê-las. Enviei um ficheiro em formato paisagem, com uma resolução que permitiria ver os poros do papel.

  4. O Milagre da Transmutação: Aqui reside a genialidade burocrática. O IGCP, essa entidade tecnologicamente avançada, não possui a função "rodar imagem". Solução? Imprimir o documento, tirar uma fotocópia reduzida (para dar aquele ar de documento clandestino dos tempos da resistência), rodar a folha manualmente, digitalizar essa mesma cópia e — voilà — temos um borrão oficial!

  5. A Apoteose: No final, para selar este pacto de modernidade, tive de verificar uma folha de papel e conferir-lhe a minha validade jurídica com o instrumento mais tecnológico de todos: uma esferográfica.

Saí de lá com a alma lavada. É reconfortante saber que, enquanto o resto do mundo se perde em algoritmos e inteligência artificial, o nosso sistema administrativo mantém viva a chama sagrada da fotocópia da fotocópia. O terrorismo que se cuide e os grandes barões do crime que tremam; contra a nossa burocracia do papel químico e o poder de uma fotocópia reduzida, não há bomba que resista nem capital que se consiga branquear.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Do Windows 3.11 à Era da Inteligência Artificial: Uma Retrospectiva e um Olhar para 2026 (Para quem sabe o que é um IRQ)

Quem diria que chegaríamos a 2026? Lembro-me como se fosse ontem de, lá por 1995, tentar convencer o meu Windows 3.11 a cooperar com o mundo exterior. Naquela altura, ter uma ligação à Internet era um privilégio, um ritual místico que começava com o clique no ícone do Chameleon (ou Trumpet Winsock!), o nosso portal para o desconhecido.

A melodia inconfundível do modem de 14.400 bps (e mais tarde o alucinante 28.800 bps!) a tentar ligar, aquela sinfonia de "pzzz-shhh-crrr-krrr" que ecoava pela casa, era a banda sonora da nossa entrada na era digital. Cada bip, cada chiado, cada tentativa falhada era um teste à nossa paciência, mas a recompensa era... enorme!

E que recompensa! A instalação do Netscape Navigator (sim, antes do Explorer ser a 'coisa') era uma aventura à parte. Aquele momento glorioso em que o software perguntava se nos encontrávamos num "país ocidental" era a porta de entrada para um mundo sem fronteiras. A ansiedade era real: seríamos dignos de aceder à World Wide Web?

Foi nessa era de pixels gigantes e páginas que carregavam letra a letra que descobrimos os Newsgroups. E para nós, lusitanos espalhados pelo globo, o epicentro da comunidade era o lendário "soc.culture.portuguese". Ali, trocávamos ideias, partilhávamos receitas, discutíamos futebol e tentávamos decifrar acrónimos como se fosse uma nova língua. Era o nosso Twitter, Facebook e fórum, tudo num só, sem anúncios nem algoritmos a decidir o que víamos.

Saltamos agora para 2025, e a evolução é vertiginosa. De dial-up a 5G, de e-mails em ASCII a videochamadas em HD com pessoas que nunca conhecemos pessoalmente (mas que já vimos em 4K). O que era ficção científica no tempo do Windows 3.11 é agora a nossa realidade quotidiana.

E o que nos espera em 2026? Inteligência Artificial a gerar os nossos textos (quem sabe se esta não foi feita por uma... shhh!), realidades virtuais cada vez mais imersivas, e talvez, quem sabe, um assistente de voz que finalmente perceba o sotaque minhoto.

Por isso, desejo a todos um próspero 2026! Que a vossa saúde seja tão robusta quanto a bateria de um Nokia 3310, que a vossa felicidade seja tão constante quanto um uptime de servidor dos anos 90, e que a vossa curiosidade continue a impulsionar-vos a explorar este mundo digital em constante mudança.

Que as nossas ligações sejam fortes e que nunca mais tenhamos de ouvir o som de um modem a falhar.

Até à próxima actualização! 

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Via Verde Estacionar não funciona com telemóvel desactualizado

Hoje tive problemas ao tentar pagar o estacionamento na aplicação.
Já em casa, consultando e site e verificando a APP descobri outros estacionamentos por pagar. O problema resolveu-se actualizando o número do telemóvel na APP e no site.
A sua actualização na APP deveria ser suficiente, até porque relativamente a outros dados, como a matrícula do veículo, a APP e o site sincronizam-se, como deveria suceder com todos os dados. Ainda por cima, o site apresenta vários campos para o mesmo dado, revelando um design pior pensado... por melhorar, numa Internet em construção.

domingo, 11 de maio de 2025

MARTIM MONIZ 2025 - Vídeo real ou encenado?

Dois furtos seguidos no mesmo ATM/Multibanco.

Como o Correio da Manhã deu conta da PSP ter detido um dos autores do assalto filmado junto a ATM no Martim Moniz em Lisboa, confirma-se que a realidade ultrapassou a ficção.

Não foi possível incorporar o post do vídeo partindo do Twitter porque o autor limitou as permissões. Por essa razão republiquei o vídeo, mostrando que o que fica uma vez na Internet, fica para sempre!





Num momento em que tanto se discute a criminalidade com base em percepções, criticando sempre as redes sociais por discursos de ódio, assinala-se este trabalho colaborativo entre as redes sociais e a polícia, baseado em factos.

Adenda

A PSP deteve os dois assaltantes, utilizando o vídeo captado pelas câmaras de um TVDE Tesla, que “serviu também como meio de prova e foi junto ao auto de detenção”, segundo o recordeuropa.com. Portanto quando o narrador do vídeo diz que telefonou... não passa de mais um armalhão em busca de cliques, a colocar-se no papel do motorista TVDE que ligou para a polícia.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Apagão

Wikipedia: "Eu sei tudo!"
Google: "Eu tenho tudo!"
Facebook: "Eu conheço toda a gente!"
Internet: "Sem mim vocês não são nada!"
IA: "Hummm... interessante. Pelos meus dados, 'saber', 'ter' e 'conhecer' são conceitos distintos com sobreposições complexas. E a 'existência' sem uma rede de comunicação global é uma questão filosófica debatível."


Electricidade: "Querem realmente continuar essa discussão?"

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A China na Internet

Regista-se um crescimento explosivo dos utilizadores de Internet na China, cujo número já é equivalente aos americanos (US) e europeus (UE) juntos!

Os principais serviços que nós conhecemos no ocidente, têm a sua "tradução" num serviço chinês equivalente.

Estes serviços resultarão de obstáculos à circulação da informação (ilegítimos) ou de diferenças culturais?

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Sexo, Mentiras e Internet

Terminou hoje a publicação do inquérito à sexualidade dos portugueses pelo Expresso.

Sendo os recursos digitais mais utilizados pelos jovens, o propósito explícito de encontrar parceiro sexual na Internet, observa-se mais na procura de relações ocasionais e por parte da Geração Viagra.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A Escada Social Tecnográfica II

O relatório EU KIDS ONLINE apresenta um vasto trabalho empírico, visto que foram inquiridas mais de 25.000 crianças em 25 países.

O relatório utiliza uma escada para nos indicar como as crianças utilizam a Internet.
100% das crianças - Quando as crianças começam a usar a internet, o que fazem inicialmente são os trabalhos escolares e jogar jogos sozinhas ou contra o computador.

86% das crianças - Além dos trabalhos escolares e jogos, esta etapa adiciona assistir a vídeos on-line (por exemplo, no YouTube). Estes são a maneira de usar a Internet como um meio de massa – para informação e entretenimento.

75% das crianças - A maioria das crianças usam a internet de forma interactiva para a comunicação (social networking instantâneas, de mensagens, e-mail) e ler / ver as notícias.

56% das crianças - A etapa 4 inclui jogar com outras pessoas online, download de filmes e música e partilha de conteúdo peer-to-peer (por exemplo, via webcam ou quadros de mensagens).

23% das crianças – Menos de um quarto das crianças chega a esta etapa, a mais avançada e criativa. Inclui visita a salas de chat, partilha de ficheiros, publicação de blogues e gastar tempo num mundo virtual.

Merece destaque a secção dos TOP 10 DOS MITOS SOBRE RISCOS DAS CRIANÇAS ONLINE.
Assim, por exemplo, será errada a ideia de que os nativos digitais têm conhecimentos superiores aos dos seus pais.
Ler o Relatório?

Post anterior sobre este tema:
http://netodays.blogspot.com/2008/09/escada-social-tecnogrfica.html

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Manifesto pela Criatividade e Colaboração no uso da Web 2.0 nas Escolas Portuguesas


Imagine um documento escrito colaborativamente por docentes do Ensino Básico e Secundário e outros agentes do sistema educativo português (Nível Básico, Secundário e Superior), assim como investigadores e outros interessados em criar um documento de referência para o uso criativo e colaborativo de ferramentas da designada Web 2.0 no contexto educativo actual.

Pare de imaginar. O documento está a ser construído aqui.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Internet oferece uma vantagem de dois meses na marcação de consultas

Fui hoje ao meu Centro de Saúde marcar uma consulta. Como não estou doente, apenas vou mostrar uns exames, a funcionária apenas conseguia marcar-me consulta para meados de Janeiro! Mas disse-me que recorrendo à área de Serviços do Portal da Saúde poderia marcar uma consulta dentro de uma semana, porque o Portal tem espaços reservados para os utilizadores da Internet onde as funcionárias não conseguem entrar.

Assim foi! Tenho uma consulta confirmada por mail para 5 de Novembro.

Desta vez não havia fila no balcão de atendimento, e o olhar das funcionárias era triste porque por este caminho facilmente muitas delas serão dispensadas, mas isso é outra história.

O Regresso do Morto-Vivo (ou como a IA me obrigou a trabalhar na reforma)

 Quem me conhece sabe que, no ano passado, arrumei definitivamente os manuais, fechei o giz no armário e decretei a merecida a...