sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Guia Prático para Perceber o Apocalipse da IA

Ilustração satírica sobre a regulação da IA e captura regulatória por líderes tecnológicos
A construção da muralha regulatória: protecção da humanidade ou blindagem do oligopólio?


Depois de mais uma semana em que a actualidade foi invadida pelos grandes profetas da Inteligência Artificial, vale a pena organizar as ideias sobre a incrível generosidade do nosso ecossistema tecnológico:

  • O Drama dos Fundadores Prometeus: Sam Altman e Dario Amodei andavam muito descansados a criar uma superinteligência até que, subitamente, olharam para o ecrã e gritaram: “Oh não! Criámos algo tão poderoso que pode destruir a humanidade daqui a dez anos! Alguém nos regule, por favor!”. Coincidência absoluta: regular o sector agora implica criar uma muralha burocrática e financeira que impede qualquer startup ou projecto open-source de lhes fazer concorrência. Salva-se a humanidade e, de caminho, garante-se o oligopólio a tempo do IPO. Eficiência máxima.

  • A Cortina de Fumo Existencial: Prometer a extinção da espécie para 2036 é uma jogada de marketing brilhante. Falar do fim do mundo sai de graça e dá capas de revista. Já falar dos data centres a beberem rios de água, a derreterem as redes eléctricas regionais e a disparar a pegada de carbono... isso dá mau aspecto no relatório de sustentabilidade. Nada como o medo do Juízo Final para abafar a factura da luz de hoje.

  • Os Convidados Surpresa: Elon Musk, como não podia deixar de ser, correu a lançar o Grok para não ficar fora da festa, provando que nem sempre ter milhares de processadores resulta num produto útil. Entretanto, Bill Gates surge muito preocupado com o futuro da civilização, enquanto a Microsoft obriga o resto do mundo a deitar computadores perfeitamente funcionais para o lixo só porque não têm o chip TPM 2.0 para correr a actualização da praxe.

  • O Pormenor Silencioso: E enquanto todos gritam, fazem teatro e pedem leis à medida, o Gemini da Google continua ali, metido no motor de busca de toda a gente, a processar tráfego e a facturar em silêncio. Sem grandes dramas shakesperianos, mas a facturar.

Em suma: como nos lembra a metáfora de Anthony Giddens, já todos viajávamos a alta velocidade no descontrolado carro de Jagrená muito antes destas ferramentas existirem. A IA não é a força criadora do caos; é apenas o mais recente e potente combustível a acelerar o Jagrená por cima de tudo o que se atravessa no caminho. Por isso, não se preocupem com minudências como o consumo de água ou as redes eléctricas. O importante é segurarmo-nos bem enquanto o carro acelera — preferencialmente, subscrevendo o plano Premium.

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