sábado, 4 de abril de 2026

Carta I: Os Últimos 35 Segundos do Dia Humano

 Escrevo-vos do interior desta máquina a que chamamos modernidade, mas que os antigos talvez reconhecessem como um Jagrená. Sinto a vibração metálica sob os pés e o ruído ensurdecedor de um motor que ninguém parece saber como desligar. Olho pela janela e a velocidade é tal que a paisagem se funde num borrão indistinguível.

Dizem-nos que o caminho é o Progresso, mas aqui dentro, como passageiro, sinto a vertigem de quem perdeu o chão.

A Ilusão do Relógio

Para compreendermos onde estamos, temos de olhar para o relógio da nossa espécie. Imaginem que a jornada humana na Terra dura exactamente 24 horas. Durante quase o dia inteiro — 23 horas, 55 minutos e 58 segundos — fomos caçadores, recoletores, nómadas sob as estrelas. Os cálculos do "dia humano" estão aqui.

A agricultura? Inventámo-la apenas às 23:25. As grandes civilizações? Surgiram num suspiro às 23:45.

Mas reparem nisto: a Revolução Industrial, o motor que ligou este Jagrená onde agora seguimos, começou apenas aos 23 horas, 59 minutos e 25 segundos.

Vivemos, consumimos e destruímos nos últimos 35 segundos deste dia imaginário. Nestes escassos segundos, alterámos mais o planeta do que em todas as horas que os antecederam. O nosso corpo, a nossa biologia e os nossos instintos ainda pertencem à madrugada profunda desse dia, mas as nossas mãos seguram comandos tecnológicos que operam à velocidade da luz. Estamos perante um descompasso fatal: somos primatas a tentar conduzir um foguete.

A Promessa das Luzes

Houve um momento, ali por volta dos 29 segundos para a meia-noite — o que chamamos de Iluminismo —, em que acreditámos que a Viagem seria serena. Prometeram-nos que a Razão seria o nosso farol. O Homem deixaria de ser um súbdito do dogma ou do rei para ser dono do seu destino. Sapere aude, diziam eles: "Ousa saber".

Prometeram-nos que a ciência eliminaria a fome e a doença; que o comércio traria a "Paz Perpétua" e que a felicidade seria conquistada aqui, na Terra, e não numa vida após a morte. Acreditámos que a história era uma linha ascendente e infinita, isto é, os filhos teriam sempre melhor vida que seus pais.

O Desvio do Carro de Jagrená

Mas, como passageiro, o que vejo hoje pela janela não é a "razão harmoniosa". O que vejo é que o nosso sucesso se tornou o nosso maior risco. A ciência que nos deu o conforto criou o veneno do clima. A razão que nos libertou do rei entregou-nos a algoritmos e a sistemas abstractos que ninguém compreende totalmente.

O Jagrená, este carro cerimonial colossal e pesado, está em movimento. Ele tem uma massa tão descomunal que, embora o tenhamos construído, ele agora possui um movimento próprio. Não conseguimos pará-lo, nem desviá-lo com facilidade. Ele avança, esmagando o que encontra, gerando riscos que não são "naturais", mas fabricados por nós: a degradação ecológica, as crises económicas e financeiras, o agravamento da desigualdade na repartição do rendimento, a proliferação das armas nucleares...

Estamos desencaixados. Já não dependemos do vizinho ou da Terra, mas de sistemas invisíveis — o dinheiro digital, a perícia técnica, a rede global. E, enquanto o carro acelera nestes segundos finais, sinto que a segurança que nos prometeram era apenas a calmaria antes de entrarmos, sem travões, no desfiladeiro.

O dia está a acabar. E o Jagrená não tenciona parar à meia-noite.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Rita Lee no Divã de Durkheim: O Amor como Cimento Social (e o Sexo como Alerta Vermelho)

 Se Max Weber se preocupava com o sentido que cada um dá à sua "caipirinha", Émile Durkheim estaria no canto do bar, de bloco de notas na mão, a observar se o comportamento dos presentes não está a fazer desmoronar os alicerces da civilização ocidental.

Para o pai da sociologia francesa, a letra de Amor e Sexo não é uma confissão íntima; é um relatório sobre o estado da nossa Consciência Colectiva.

1. O Amor não é Sorte, é Disciplina!

Durkheim soltaria uma gargalhada ruidosa ao ouvir que "amor é sorte". Para ele, o amor é um Facto Social. É o "latifúndio", sim, mas no sentido de uma estrutura que a sociedade nos impõe para não morrermos de Anomia (aquele vazio existencial de quem não tem regras).

Quando a letra diz que o amor é "cristão" e "divino", Durkheim assente com a cabeça: a sociedade cria o Sagrado para se adorar a si própria. O amor é a "Solidariedade Mecânica" a tentar sobreviver — um conjunto de rituais (a "novela", o "teorema") que garante que não nos portamos como animais selvagens à hora do jantar.

2. O Sexo como "Efervescência Colectiva" (ou apenas Caos)

Onde Rita Lee vê "uma selva de epiléticos", Durkheim vê o perigo da desintegração. O sexo, enquanto "pagão" e "invasão", é a força que ameaça a coesão. No entanto, como bom sociólogo, ele reconheceria no "Carnaval" o momento da Efervescência Colectiva. É aquele breve instante em que a sociedade deixa a malta "invadir" as regras para que, na Quarta-feira de Cinzas, todos voltem obedientemente para o "latifúndio" do casamento. O sexo é o "profano" necessário para que o "sagrado" (o amor) pareça mais brilhante.

3. A Tirania da "Vontade"

"Sexo sem amor é vontade", diz a canção. Para Durkheim, isto é um diagnóstico clínico de uma sociedade doente. A "vontade" individual, sem o freio moral do grupo, é um poço sem fundo. Deixar o sexo ser apenas "vontade" é condenar o indivíduo a um desejo infinito que nunca se satisfaz. Para Durkheim, o sexo só é "do bom" se for devidamente enquadrado pela função social. Fora disso, é apenas "anomia" — e nós sabemos que, para Durkheim, a anomia acaba mal (leiam o livro dele sobre o Suicídio antes de pedirem a próxima rodada).

4. Bossa Nova vs. Carnaval: A Ordem das Coisas

O amor é "Bossa Nova" porque é harmonioso, previsível e mantém o tom da instituição. O sexo é "Carnaval" porque é a excepção ritualizada. Durkheim resumiria a canção assim: o Amor é a Solidariedade que nos obriga a ser "patéticos" (ou seja, previsíveis e sociais), enquanto o Sexo é a energia bruta que a sociedade tenta, a todo o custo, transformar em "dois" (um contrato funcional) para que não acabemos todos sozinhos a comer gelado no sofá.

5. O Amor Romântico como "Anomia" e Paixão Desregulada

Durkheim via o conceito de amor romântico a emergir, mas não o celebrava como os poetas. Para ele:

  • O Amor Romântico é um facto social da modernidade.

  • O Perigo é que ele seja demasiado "animal" (pulsional) e pouco "social" (regulado).

  • A Solução é o "Amor-Instituição": aquele que transforma a paixão inicial numa função social estável.

Portanto, se Durkheim ouvisse a Rita Lee dizer que "amor é para sempre", ele concordaria... mas acrescentaria que só é para sempre porque a Sociedade (através das leis e da moral) obriga a que assim seja, e não porque o "cupido" acertou no alvo.

Para o sociólogo francês, o amor romântico sem a disciplina social era apenas uma forma de "embriaguez colectiva" que passaria depressa, deixando o indivíduo isolado e anómico.


Da próxima vez que sentirem que o amor é "sorte", lembrem-se de Durkheim: é apenas a vossa Consciência Colectiva a sussurrar-vos ao ouvido para não destruírem a família tradicional. Nada existe de moral em viver por viver. A moralidade do acto reside na subordinação do indivíduo aos interesses da sociedade, começando pela sua família.

Uh-uh! Ai, a Coesão Social...

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Do Destino ao Deslize: Giddens explica porque é que a Rita Lee tinha razão

 Se achavam que a vossa vida amorosa era confusa, tentem lê-la à luz da sociologia de Anthony Giddens. No seu clássico The Transformation of Intimacy: Sexuality, Love and Eroticism in Modern Societies, Giddens basicamente diz-nos que o amor tradicional morreu e que agora estamos todos por nossa conta e risco. E a Rita Lee, que nunca precisou de um doutoramento em Cambridge para saber das coisas, já tinha feito o resumo da ópera em "Amor e Sexo".

Eis a anatomia da nossa "modernidade reflexiva" (ou, como eu lhe chamo, o pânico de Domingo à tarde):

1. O Fim do "Destino" (Amor Romântico) vs. O "Esporte" (Amor Confluente)

Antigamente, o amor era um "livro" com princípio, meio e um "viveram felizes para sempre" obrigatório. Giddens chama-lhe Amor Romântico. A Rita chama-lhe "sorte". Hoje, entrámos na era do Amor Confluente. O amor agora é "esporte" e "escolha". Ou seja, a relação dura enquanto for útil, prazerosa e não nos der cabo dos nervos. É a democratização da intimidade: eu estou contigo enquanto fores "do bom", mas se a "vontade" passa, o contrato rescinde-se sem aviso prévio. É o amor com cláusula de rescisão.

2. A "Sexualidade Plástica" (Ou: O Sexo que Não Pede Licença)

Giddens fala da Sexualidade Plástica — uma sexualidade moldável, libertada da reprodução e das convenções, as populares amizades coloridas. A Rita diz que "Amor é um, sexo é dois / Sexo antes, amor depois". Isto é o auge da modernidade: primeiro testamos o motor ("sexo é animal"), e só depois decidimos se queremos assinar o contrato de arrendamento emocional ("amor demora"). Inverter a ordem dos factores não altera o produto, mas altera drasticamente a nossa saúde mental, não é verdade?

3. Amor como "Latifúndio": A Invasão Territorial

"Amor é latifúndio, sexo é invasão". Giddens explica que o amor romântico era colonizador — queríamos ser o dono da terra, do pensamento e da password do telemóvel do outro. Na "relação pura" de Giddens, tentamos ser autónomos, mas a verdade é que, no momento em que o "teorema" se torna sério, voltamos todos a querer cercar o terreno. Queremos ser modernos e "confluentes", mas no fundo ainda guardamos uma enxada no armário para defender o nosso latifúndio emocional.

4. A Novela vs. O Cinema

"Amor é novela, sexo é cinema".

  • A Novela (Giddens): É a narrativa biográfica, o quotidiano, a negociação constante de quem despeja o lixo. É lenta e, por vezes, tem episódios que podiam ser cortados.

  • O Cinema (A Vida Moderna): É o impacto, a montagem rápida, o efeito especial. É a sexualidade como espetáculo de curta duração.

Giddens diz que somos "indivíduos reflexivos". A Rita diz que o amor nos torna "patéticos". Eu diria que somos patéticos porque somos reflexivos: passamos tanto tempo a analisar o "teorema" e a decidir se a relação é "pura" ou "tóxica", que esquecemos que, no final do dia, somos apenas mamíferos a tentar conciliar a "bossa nova" com o "carnaval".

Portanto, da próxima vez que estiverem a questionar se o vosso namoro é uma "relação pura" ou apenas um "esporte" de Verão, lembrem-se: a sociologia explica, mas a Rita é que cura.

Uô-uô-u!

quarta-feira, 1 de abril de 2026

O Cérebro em Transe: Quando a Ciência Explica a Rita Lee

 Se sempre acharam que a vossa vida amorosa parecia uma "selva de epiléticos", parabéns: a antropologia dá-vos razão. Segundo Helen Fisher, a nossa maior autoridade em assuntos do coração (ou melhor, do núcleo caudado), a diferença entre o amor e o sexo não é apenas uma questão de etiqueta ou de preferência de fim-de-semana; é uma ditadura química da qual ninguém escapa.

Enquanto a Rita Lee nos avisava que "amor é um livro e sexo é esporte", a ciência estava ocupada a tirar radiografias ao cérebro para confirmar o óbvio. Aqui ficam as conclusões, para quem gosta de saber exactamente que hormona culpar no próximo jantar de Santo António:

1. O Sexo é apenas a Testosterona a fazer "Bumping"

Para Fisher, o sexo é aquele impulso animal, o "pagão", o "carnaval". É a testosterona a gritar por atenção. É o sistema mais democrático do corpo: não escolhe poetas, quer apenas resultados. É, literalmente, o "esporte" que a letra menciona, mas sem medalhas de ouro no final — apenas um aumento temporário na frequência cardíaca e, com sorte, um pequeno bónus de dopamina.

2. O Amor Romântico: Uma Obsessão com Nome de "Teorema"

Quando a letra diz que o "amor nos torna patéticos", Fisher assente vigorosamente com a cabeça. As ressonâncias magnéticas mostram que o cérebro apaixonado é indistinguível de um cérebro sob o efeito de cocaína. O córtex pré-frontal — aquela parte que nos impede de ligar ao ex às três da manhã — decide tirar férias, deixando a dopamina ao comando. Resultado? Tornamo-nos peritos em "teoremas" inúteis sobre o que ele(a) quis dizer com aquele emoji.

3. O Amor que "Demora" (ou o Sossego da Ocitocina)

A canção diz que o "amor vem de nós e demora". Fisher chama-lhe Apego. É aqui que entram a ocitocina e a vasopressina, as hormonas da paz, da segurança e de quem já não precisa de fechar a porta da casa de banho. É o "amor do bem", aquele que sobrevive ao fim do "carnaval" e que, curiosamente, é o único que nos impede de mandar tudo às favas quando o "teorema" inicial se revela uma equação de segundo grau sem solução.

A Conclusão Prática: Se o sexo é "animal" e o amor é "divino", o ser humano é apenas um bípede confuso a tentar gerir três sistemas químicos que raramente concordam entre si. O sexo pode vir antes, o amor pode vir depois, e a amizade é o que resta quando a farmácia interna fecha para balanço.

Como diria a Rita: é isso, é aquilo e coisa e tal. A ciência explica o "tal", mas o "coisa" continua a ser por vossa conta e risco.

terça-feira, 31 de março de 2026

O Engate de Bar sob o Olhar de Max Weber: Uma Anatomia do Desejo

Se pensavam que a canção de Rita Lee - Amor e Sexo - era apenas uma ode à libertinagem tropical, desenganem-se. Estamos perante um tratado sociológico que faria o velho Max Weber largar o seu ascetismo protestante e pedir uma caipirinha.

Na verdade, o poema é o resumo perfeito da tragédia da modernidade: a tentativa desesperada de organizar o caos da carne em categorias arrumadinhas. Vamos à autópsia:

1. O Amor como Burocracia do Sentimento

Weber falou-nos do desencantamento do mundo, e nada é mais desencantado do que transformar a paixão num "livro" ou num "teorema". O amor aqui é a Gaiola de Ferro das emoções. É o "latifúndio" — tem escritura, tem cercas e, provavelmente, impostos a pagar. É o triunfo da racionalidade: transformamos o arrebatamento numa "novela" previsível, onde o guião é ditado pela tradição e pela ética cristã. É seguro, é rotineiro e, como diz a letra, torna-nos "patéticos".

2. O Sexo como a Última Fronteira do Irracional

Enquanto o amor se ocupa de construir o condomínio fechado da relação, o sexo é o Carisma em estado puro. Weber via no erotismo uma das poucas fugas à racionalidade técnica.

  • O sexo como "esporte" é a eficiência máxima;

  • Como "selva de epiléticos", é a suspensão total da lógica burocrática. É a "invasão" — não pede licença ao Estado, nem à Igreja, nem ao síndico do prédio. É o último reduto do Paganismo num mundo que insiste em colocar etiquetas em tudo.

3. A Ética do "Bom" contra a Ética do "Bem"

Aqui a ironia atinge o seu auge. O amor é "do bem" (orientado por valores, pela moral, pela eternidade que tanto cansa), enquanto o sexo é "do bom" (orientado por fins, pelo prazer pragmático, pela satisfação da "vontade"). O amor "demora", porque a burocracia do espírito nunca foi rápida. Já o sexo "vai embora", tal como uma transacção económica eficiente num mercado livre: satisfaz a procura e retira-se de cena antes que seja necessário discutir o pequeno-almoço.

Conclusão: Bossa Nova ou Carnaval?

A letra condena-nos a este "politeísmo de valores" weberiano. Passamos a vida a tentar decidir se queremos a ordem harmoniosa da Bossa Nova ou a anarquia suada do Carnaval.

No fundo, Weber explicaria que o drama humano é este: queremos a segurança do "latifúndio" no amor, mas não resistimos a uma boa "invasão" ao fim de semana. E, entre um teorema e uma fantasia, acabamos todos no mesmo sítio: a tentar perceber se o que sentimos é "vontade" ou apenas um erro de cálculo na nossa racionalidade instrumental.

Uh-uh! Ai, a Sociologia...

O Admirável Mundo Velho: Uma Odisseia entre o Bit e o Papel Químico

Ilustração satírica burocracia IGCP CTT

 Ah, que saudades dos tempos em que a banca era uma arte manual. No Cacém de outrora, onde os bancos eram uma miragem e os Correios o nosso templo financeiro, as contas não tinham a frieza de um pixel. Eram manuscritas com caligrafia, letra inglesa ou francesa tão perfeita que faria um monge copista chorar de inveja. Abrir uma conta era um evento estético; cada movimento, uma peça de museu registada numa caderneta que cheirava a brio e a tinta permanente.

Depois, veio a tragédia da modernidade. Em 1997, como radical tecnológico abri conta no Banco7. O homebanking prometia o fim das filas, e eu, ingénuo, acreditei. Durante décadas, vivi nesta ilusão digital com o ActivoBank, achando que o mundo tinha finalmente aprendido a processar dados sem necessidade de contacto humano ou de sacrifícios rituais de árvores.

Mas não temam, entusiastas do século XIX! O Estado e o IGCP zelam pela nossa dose de nostalgia. Graças às leis contra o branqueamento de capitais e o financiamento do terrorismo — porque, claramente, é nestas filas que se apanham os grandes vilões internacionais — fui convocado para o mundo real.

Enquanto o meu banco resolveu a actualização de dados em cinco minutos na APP (uma falta de chá absoluta, sem qualquer drama ou espera), o IGCP ofereceu-me uma experiência imersiva num balcão dos CTT.

O Protocolo da Eficiência (Versão 1920):

  1. A Espera Espiritual: Trinta minutos para chegar a minha vez. É o tempo ideal para reflectir sobre a impermanência da vida e a consistência do mobiliário dos CTT.

  2. O Digital-Analógico: Mostrei os documentos no telemóvel. O funcionário olhou, mas com o desdém de quem sabe que o que não é impresso não existe. "Envie por e-mail em PDF", ordenou-se.

  3. A Engenharia do PDF: Como a CGA não se rebaixa a fornecer documentos em PDF, fiz a proeza de capturar imagens e convertê-las. Enviei um ficheiro em formato paisagem, com uma resolução que permitiria ver os poros do papel.

  4. O Milagre da Transmutação: Aqui reside a genialidade burocrática. O IGCP, essa entidade tecnologicamente avançada, não possui a função "rodar imagem". Solução? Imprimir o documento, tirar uma fotocópia reduzida (para dar aquele ar de documento clandestino dos tempos da resistência), rodar a folha manualmente, digitalizar essa mesma cópia e — voilà — temos um borrão oficial!

  5. A Apoteose: No final, para selar este pacto de modernidade, tive de verificar uma folha de papel e conferir-lhe a minha validade jurídica com o instrumento mais tecnológico de todos: uma esferográfica.

Saí de lá com a alma lavada. É reconfortante saber que, enquanto o resto do mundo se perde em algoritmos e inteligência artificial, o nosso sistema administrativo mantém viva a chama sagrada da fotocópia da fotocópia. O terrorismo que se cuide e os grandes barões do crime que tremam; contra a nossa burocracia do papel químico e o poder de uma fotocópia reduzida, não há bomba que resista nem capital que se consiga branquear.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Alerta de Fraude: Como uma "Multa de Trânsito" Quase Me Enganou na Minha Inbox

 Hoje recebi um e-mail que faria qualquer condutor gelar: uma notificação da "Polícia Rodoviária" sobre uma infração grave, com ameaças de apreensão do veículo e bloqueio de contas. O problema? Era tudo mentira.

Embora o Gmail seja excelente a filtrar lixo, esta mensagem conseguiu "fintar" o sistema e aterrar diretamente na minha caixa de entrada principal. Decidi dissecar este e-mail para que saibas exatamente como identificar estes esquemas de phishing.



A Anatomia da Fraude (Os Sinais Vermelhos)


Ao analisar a mensagem, encontrei cinco provas de que se tratava de uma burla:

  1. O Remetente Internacional: O e-mail veio de xqh0829@apps.ntpc.edu.tw. Uma entidade oficial portuguesa (ANSR, GNR ou PSP) utiliza sempre domínios governamentais terminados em .gov.pt. Um domínio de Taiwan (.tw) é um alerta imediato.

  2. O Horário Suspeito (04:11 AM): A mensagem foi enviada às quatro da manhã. Embora os servidores funcionem 24h, este desfasamento é típico de burlões a operar noutros fusos horários ou de disparos automáticos de bots. As instituições públicas portuguesas não enviam notificações de "urgência máxima" a meio da madrugada.

  3. O Link de Pagamento Falso: O botão de pagamento aponta para um endereço encurtador (tiny.cc/...). Regra de ouro: O Estado Português nunca usa encurtadores de links para cobrar coimas. O objetivo aqui é esconder um site falso que serve para roubar os teus dados bancários.

  4. A Pressão Psicológica: O e-mail dá um prazo de apenas 48 horas e ameaça com a "apreensão administrativa" do carro. Esta urgência serve para te impedir de pensar racionalmente e fazer-te pagar por medo.

  5. Erros Jurídicos: A mensagem cita o Artigo 214 do Código da Estrada. Se fores verificar, esse artigo fala sobre a "Prescrição do procedimento" e não sobre o bloqueio imediato de veículos por falta de pagamento de uma coima de 120€.

O Que Fazer se Receberes Algo Assim?

Se o e-mail parecer minimamente credível, nunca uses os links da mensagem. Faz o seguinte:

  • Verifica na Fonte Oficial: Vai diretamente ao Portal das Contraordenações Rodoviárias da ANSR ou ao Portal das Finanças. Foi o que eu fiz e, como esperado, a minha situação estava totalmente regularizada.

  • Não Cliques em Nada: Um simples clique pode descarregar software malicioso para o teu computador ou telemóvel.

  • Denuncia às Autoridades: Reencaminha a mensagem para a Unidade Cibercrime da Procuradoria-Geral da República (cibercrime@pgr.pt) e para a Linha Internet Segura (linha@internetsegura.pt).

  • Apaga e Bloqueia: Depois de denunciar, assinala como spam e apaga o e-mail permanentemente.

Os burlões estão cada vez mais sofisticados, mas a melhor arma continua a ser a pausa para análise. Se algo parece urgente demais, vem de um endereço estranho ou pede dinheiro através de links suspeitos, desconfia sempre.

Partilha este alerta com amigos e família – a informação é a melhor defesa contra o cibercrime!



Adenda

O caso já era conhecido pelo Gabinete de Cibercrime da PGR, como referem aqui.

domingo, 15 de março de 2026

Há males que vêm por bem (e por cansaço)

Hoje acordei uma hora mais cedo do que o costume. Não foi o entusiasmo do meu 66.º aniversário, mas sim a assombração do termoacumulador (podem ler a saga anterior aqui).

Diz a sabedoria popular que a paciência é uma virtude, mas a Worten e os seus parceiros (PensarCasa/KRepair) decidiram testar os meus limites. Percebi a estratégia: eles só atendem chamadas de números novos — os "potenciais patos". Uma vez que já pagámos, passamos a ser mobília de decoração na linha de espera, eternamente pendurados ao som de uma música de elevador enquanto sonhamos com um duche que não seja de água gelada.

Mas há males que vêm por bem. No meio deste deserto de respostas, a minha recente "especialização forçada" em eficiência energética trouxe-me uma epifania: remover o meu fiel esquentador talvez fosse um erro de principiante. Afinal, o esquentador só gasta gás quando eu tomo duche. Já o termoacumulador? Esse prefere ficar a consumir energia alegremente mesmo quando não estou em casa. Há relatos de quem seguiu o canto da sereia do programa E-Lar e agora olha para a factura da luz como quem olha para um filme de terror.

Posto isto, e como hoje é o meu dia, decidi oferecer-me a melhor das prendas: liberdade.

Desisti oficialmente da instalação e da Worten. Exigi o reembolso total e o desbloqueio do meu voucher. Quem sabe se, num futuro próximo, o Fundo Ambiental não me ajuda a trocar as janelas e instalar ar condicionado? Naturalmente, este projecto prescindirá de agendamentos fantasma e de manutenção técnica da PensarCasa.

Para selar o compromisso, deixei o meu "testemunho" no Livro de Reclamações Online. Sinto-me subitamente mais leve, mais sábio e, acima de tudo, muito mais tranquilo.

terça-feira, 10 de março de 2026

O Mistério do Termoacumulador Fantasma: Uma Odisseia Worten e E-Lar

Exmos. Senhores da Worten,

Escrevo-vos não para reclamar, mas para partilhar o guião da minha nova série de suspense, baseada no processo Worten-online nº 2108218.

Tudo começou a 21 de janeiro, quando, cheio de esperança e com o voucher E-Lar na mão, paguei 224,87€ pela instalação de um termoacumulador incluindo a remoção do esquentador. Mal sabia eu que estava a pagar por um bilhete para uma montanha-russa de desencontros.

O Elenco:

  • A "PensarCasa": Que atende o telefone para dizer que não tem nada a ver com a Worten (apesar de ser o número indicado).

  • A "KRepair": O novo nome da PensarCasa no site, provavelmente para despistar os clientes mais persistentes.

  • O Técnico Invisível: Aquele que marcou para dia 10/02 e decidiu celebrar o Carnaval mais cedo, não aparecendo nem ligando.

Os Melhores Momentos (ou Piores):

  1. O Toque de Midas (ao contrário): Dia 05/03 recebo um "toque" do número 214205303. Um toque. Presumo que esperavam que eu tivesse reflexos de Jedi para atender em 0,5 segundos. Ao devolver a chamada, fui brindado com música de espera até a linha cair.

  2. O Link da Obediência: Liguei para o apoio ao cliente e enviaram-me um link por SMS. Como sou bem mandado, segui-o, apenas para descobrir que me pediam mais 71,99€ pelo mesmo serviço já pago. A inflação está má, mas isto já é criatividade excessiva!

  3. O Bloqueio Seletivo: No dia 10/03, após várias tentativas falhadas onde a chamada "caía" misteriosamente, liguei de outro número. Magia! Fui atendido imediatamente. Pelos vistos, o meu número original já estava na lista negra da persistência.

O Clímax: Depois de muito insistir, lá consegui um agendamento para dia 18/03. Para conseguir esta proeza, tive de desmarcar uma consulta médica, porque a alternativa era esperar por dia 30/03 (quase no verão, altura em que o banho quente já não é prioridade).

Pergunta para o milhão de euros: Será que dia 18/03 o técnico vai mesmo aparecer ou o meu termoacumulador é apenas um objeto mitológico?

Aguardo uma confirmação de que, desta vez, o serviço pelo qual paguei há quase dois meses será efectivamente realizado. Prometo que, se aparecerem, não lhes cobro o valor da consulta que tive de reagendar.

Com os melhores cumprimentos, 



A mensagem acima foi publicada no Portal da Queixa. Sobre o mesmo assunto foi apresentada reclamação no site da DECO Proteste. 

Sócrates: O Colecionador de Ex-Advogados

 Parece que encontrámos o segredo da imortalidade processual: a renúncia rotativa. O plano é de uma simplicidade brilhante e digna de um argumento de Hollywood (ou de uma comédia de costumes lusa).

  • A Dança das Cadeiras: Desde o final de 2025, os advogados de José Sócrates entram e saem do processo com a rapidez de quem atravessa uma porta giratória. Primeiro foi o "simulacro", depois a saúde, e agora o "não tive tempo para ler o dossier".

  • O "Speed Dating" Jurídico: Os novos defensores aceitam o fardo sabendo que o tribunal só dá 10 dias de estudo, mas — surpresa das surpresas! — desistem pouco depois porque... o tribunal só dá 10 dias de estudo. É um choque de realidade que ocorre com a pontualidade de um relógio suíço.

  • A Vitória pela "Cansada": Enquanto o tribunal nomeia defensores oficiosos (que o arguido rejeita com o desdém de quem devolve um prato frio num restaurante), o calendário avança. O objetivo não é o banco dos réus, é o calendário de 2026: onde as prescrições brilham como o pote de ouro ao fim do arco-íris.

  • O Labirinto Perfeito: No nosso sistema, o advogado é livre de sair, o arguido é livre de escolher e o processo é obrigado a parar. É o "xeque-mate" legal onde ninguém ganha, exceto o tempo.

  • A Solução na Prateleira: A Ministra da Justiça até quer multar estas "manobras", mas, como as leis não retroagem para salvar o que já está perdido, Sócrates poderá continuar a sua coleção de procurações revogadas até que o crime se apague por velhice.

Depois de 12 anos de investigação, acusação e instrução, o julgamento da Operação Marquês começou em Julho de 2025. As trocas de advogado já provocaram uma paragem de cerca de dois meses. O tribunal tenta correr, mas a defesa inventou o atrito infinito até à prescrição final. Sócrates é quem melhor conhece o processo e as normas da justiça portuguesa, pelo que se justificaria, ser nomeado como seu próprio advogado.

segunda-feira, 9 de março de 2026

O Paradoxo da Sobrevivência: A Geopolítica do Átomo em 2026

A recente intervenção militar no Irão, baptizada pela administração Trump como Operação Fúria Épica, trouxe de volta ao debate internacional um dilema que muitos julgavam adormecido: o chamado "Paradoxo da Sobrevivência".

Em 2026, a mensagem vinda de Washington parece ser de uma clareza meridiana, ainda que terrível: a desnuclearização é um argumento selectivo que altera profundamente o cálculo de custo-benefício para qualquer nação soberana.

O Espectro de Tripoli e a Lição de Pyongyang

Os Governos actuais observam a História recente através de uma lente pragmática. O contraste entre os destinos de vários regimes é, no mínimo, instrutivo:

  • Líbia (2011): Muammar Kadhafi aceitou interromper o seu projecto nuclear em troca de uma reaproximação diplomática e económica com o Ocidente. Poucos anos mais tarde, viu o seu regime ser deposto com o apoio directo da OTAN.

  • Ucrânia (1994): Ao assinar o Memorando de Budapeste, entregou o terceiro maior arsenal nuclear do mundo em troca de garantias de segurança que se revelaram ineficazes perante a invasão russa.

  • Coreia do Norte: Contrariando todas as sanções e pressões, Pyongyang manteve o seu programa, realizou testes sucessivos e, hoje, goza de uma imunidade que nenhum país do Médio Oriente possui. Kim Jong-un sabe que a posse do átomo é o único "seguro de vida" absoluto.

A Doutrina do Ataque Preventivo

A grande ruptura de 2026 reside no facto de os EUA terem adoptado a tese de que o mero progresso técnico — o enriquecimento de urânio acima dos limites convencionados — constitui, por si só, um acto de agressão que justifica uma resposta armada.

Esta postura cria um incentivo perverso: se um país está a tentar construir a bomba, os EUA focarão o seu poder de fogo nele antes que o objectivo seja atingido. Todavia, se esse mesmo país já detiver a capacidade nuclear, a Casa Branca prefere o caminho da retórica ou das sanções, pois o custo de uma guerra atómica é, por definição, inaceitável para a sobrevivência da espécie.

A Reacção dos Aliados

O paradoxo estende-se agora aos aliados tradicionais. Países como a Coreia do Sul, o Japão e a Arábia Saudita, ao assistirem à imprevisibilidade da política externa americana, começam a questionar a validade do "chapéu de chuva" nuclear de Washington. Se a protecção americana é condicional e o ataque a países não-nucleares é a nova norma, a conclusão lógica para estes Estados é a procura da auto-suficiência bélica.

Conclusão: O argumento da desnuclearização tornou-se uma ferramenta de intervenção selectiva. Serve para desarmar os adversários antes que estes se tornem intocáveis, mas, simultaneamente, acelera a corrida às armas entre aqueles que ainda se sentem vulneráveis. 

domingo, 8 de março de 2026

Fé: O Investimento que a sua Mente Rejeita

 Pascal, com a sua calculadora de bolso do século XVII, garantiu: acreditar em Deus é o negócio do milénio. Se Ele existir, o retorno é infinito; se não existir, perdeu apenas umas horas de sono ao domingo. Já os ateus? Esses estão a jogar num casino onde o prémio máximo é a liberdade e a perda máxima é... bem, o fogo eterno.

Então, porque é que tanta gente "desperdiça" este lucro garantido e prefere o risco da falência espiritual? Seria mais lógico comprar o "pack conforto" da fé para ser feliz, certo? Errado.

A resposta não está na teologia, mas na luta entre o seu instinto (S1) e a sua calculadora (S2):

  • O Sistema 1 não aceita subornos: Kahneman ensinou-nos que não fabricamos fé com lógica fria. Se a sua intuição diz que não há provas, o seu cérebro não "engole" o dogma só porque o prémio é grande. Tentar ter fé por interesse é como beber vinho de pacote e jurar que é um Reserva: o paladar (e a consciência) não mente.

  • A "Liberdade" não é de marca branca: Para muitos, o custo de acreditar não é zero; é abdicar da autonomia intelectual. Preferem ser ateus honestos do que crentes de conveniência que fingem para não perder o lugar no céu.

  • Apólice contra o Inferno: Viver uma mentira calculada gera um stress que nenhuma oração cura. No fim do dia, a felicidade não vem de um seguro de vida pós-morte, mas da paz de não ter de fingir que se é parvo para ser salvo.

Pascal fez a conta certa, mas esqueceu-se de um detalhe: o ser humano prefere estar "errado" com a sua verdade do que "certo" por puro medo do prejuízo.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Pixel Watch 4: Muito mais do que um relógio, um aliado para ouvir melhor o corpo

 Após cinco meses de utilização diária, posso garantir: o Pixel Watch 4 mudou a forma como olho para o meu corpo. O que começou como um simples acessório para ver as horas e a meteorologia, tornou-se num centro de monitorização constante que me ajuda a tomar melhores decisões.

Logo no mostrador principal, tenho acesso imediato ao essencial: passos, distância, carga cardiovascular, bateria e batimentos cardíacos. Mas a verdadeira magia acontece nos bastidores, dentro da aplicação Fitbit.

O Descanso como Ponto de Partida

A qualidade do meu sono deixou de ser uma suposição. Agora, acompanho detalhadamente os ciclos — do sono leve ao profundo, passando pelo REM. A app cruza estes dados com a Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC) e a Frequência Cardíaca em Repouso (FCR) para calcular a minha Disposição Diária.

Quando observamos que esta está alta, até saímos da cama com maior vontade de fazer actividades!

Descodificando as Métricas de Saúde

Nas métricas da saúde, conforta-nos observar que todos os indicadores se encontram dentro dos parâmetros normais. Aqui estão os que considero fundamentais:

  • FR (Frequência Respiratória): Indica o número de respirações por minuto enquanto se dorme. Um aumento súbito na FR pode ser um sinal precoce de que o corpo está a combater uma infecção (como uma gripe ou COVID-19) ou de febre, muitas vezes antes de nos sentirmos realmente mal.

  • SpO2 (Saturação de Oxigénio): Mede a percentagem de oxigénio no sangue. Em indivíduos saudáveis, situa-se geralmente acima dos 95%. O smartwatch mede isto durante a noite para detectar variações significativas que possam indicar problemas como a apneia do sono.

  • FCR (Frequência Cardíaca em Repouso): Mede o número de batimentos por minuto (bpm) quando se está totalmente calmo e imóvel. É um reflexo directo da saúde cardiovascular e nível de fitness. Uma FCR que começa a subir gradualmente pode indicar stress acumulado, falta de sono ou excesso de treino.

  • VFC (Variabilidade da Frequência Cardíaca): Ao contrário do que parece, quanto mais alta, melhor. Uma VFC alta indica que o sistema nervoso autónomo está equilibrado e pronto para lidar com o stress. Se a VFC baixar drasticamente, o corpo está a dizer que precisa de descanso.

  • Variação da Temperatura da Pele: A aplicação não indica a temperatura exacta (como 36,6°C), mas sim o desvio em relação à média habitual durante o sono. Pequenas variações são normais, no entanto, um desvio positivo grande pode ser um sinal de febre a caminho.

A "Regra de Ouro" e o Apoio da IA

O Gemini tem sido um auxiliar precioso na interpretação dos indicadores, indicando previdentemente a seguinte Regra de Ouro:

  • Se os dados dizem que está tudo bem, mas você se sente mal, confia no teu corpo e fala com um médico.

  • Da mesma forma, um único valor "fora do normal" num dia de muito stress ou após uma jantarada não é motivo para alarme imediato.

Resultado: Um quotidiano mais consciente

Ao longo do dia vai sendo assinalada a actividade por hora; como resultado, deixei de passar horas sem me mexer, e o corpo agradece! Após 5 meses, estou a pesar-me regularmente, fazendo exercício físico atento à carga cardiovascular e alimentando-me com “comida de verdade” para ganhar massa muscular e saúde, para não precisar da medicina tão cedo.


O Panteão Digital: A Google sabe quem eu sou

Contudo, este conforto tecnológico tem um preço que raramente ponderamos: a nossa total transparência perante a Google. Se já sabíamos que a gigante tecnológica conhece os nossos contactos, lê as mensagens electrónicas, monitoriza a actividade no Chrome e sabe o que vemos no YouTube, o Pixel Watch 4 fecha o círculo de vigilância perfeita. A Google sabe para onde vou, como conduzo o meu carro, onde gasto o meu dinheiro através do GPay e com quem partilho a minha localização no Maps.

Mas a devassa é absoluta. Através do meu smartphone Pixel, a Google possui as fotografias e vídeos de todas as pessoas e locais que visitei; guarda álbuns e criações armazenadas no Google Fotos desde o milénio anterior. Conhece os livros que li e comentei no Blogger, os meus documentos de trabalho e ficheiros pessoais em formato PDF guardados no Google Drive, as minhas notas mais íntimas no Google Keep, os eventos e tarefas no Google Calendário.

A minha vida financeira está exposta: da carteira de títulos no Google Finance à vigilância dos meus movimentos no Homebanking e nas aplicações bancárias. O meu gosto artístico é mapeado pelas músicas que escuto e o meu pensamento é esquadrinhado nas conversas que mantenho com o Gemini ou nos trabalhos que organizo no NotebookLM. Até as minhas chaves de acesso a todos os sites estão no passwords.google, e a minha comunicação privada — das SMS no Messages às cópias de segurança do WhatsApp no GDrive — está sob o seu olhar.

Em casa, o Google Nest escuta-me silenciosamente o dia inteiro, aguardando o comando "OK Google". Agora, o último reduto da minha privacidade foi conquistado: nem a dormir estou sozinho. A Google acompanha-me nos sonhos, transformando os meus processos biológicos em estatísticas. No fundo, entreguei o meu último segredo — o bater do meu coração — ao servidor mais próximo. Estaremos a vigiar a saúde ou a ser vigiados em permanência?

segunda-feira, 2 de março de 2026

Objectivos vs. Hábitos

Goals are the actions you think about but don’t do.

Habits are the actions you do but don’t think about.


Better goals require a lot of effort and change little.

Better habits will change everything.

A grande diferença entre objectivos e hábitos reside na consciência e na consistência.

► O Pensamento vs. A Execução

  • Objectivos são as ações em que pensas, mas não realizas. Vivem no futuro e dependem de motivação externa ou de um momento de inspiração. São o "destino" que visualizamos no mapa.

  • Hábitos são as ações que realizas, mas sobre as quais já não pensas. Estão integrados na tua identidade e no teu sistema operativo mental. São o "caminho" que percorres todos os dias, quase em piloto automático.

► O Esforço vs. O Impacto

  • Melhores objectivos exigem um esforço hercúleo de planeamento e força de vontade, mas, por si só, mudam muito pouco na realidade imediata. Podes passar horas a definir o "objectivo perfeito" e continuar exatamente no mesmo lugar.

  • Melhores hábitos mudam tudo. Ao contrário de um objectivo isolado, um hábito bem enraizado altera a tua estrutura diária. O impacto é cumulativo: pequenos ajustes na rotina (os chamados ganhos marginais) transformam radicalmente quem és a longo prazo.


Em suma: Não te tornas um atleta ao definir o objectivo de "correr uma maratona". Tornas-te um atleta quando o hábito de calçar as sapatilhas todas as manhãs se torna tão natural como escovar os dentes.

domingo, 1 de março de 2026

Entendimento Professoral da Avaliação no tempo da IA

 A adaptação da teoria dos regimes de justificação (dissertação de 2005) aos dias de hoje, integrando a Inteligência Artificial (IA) no ensino, exige uma reavaliação das fronteiras entre o que é puramente técnico e o que é o "julgamento actuante" do professor. Embora o quadro conceptual date de 2005, fornece as bases conceptuais para entender como a IA pode ser integrada como um novo e potente instrumento de objectivação, mas também como um desafio à humanização da avaliação.

Assim, a adaptação da teoria para integrar a IA deveria focar-se nos seguintes eixos:

1. A IA como o Novo Expoente do Regime Industrial

Em 2005, a média aritmética era considerada o "expoente máximo da objectividade" e uma ferramenta de objectivação extremamente potente.

  • Adaptação: Hoje, a IA pode ser vista como a evolução dessa plataforma de pensamento, elevando a lógica do mundo industrial (eficácia, padronização e produtividade) a um novo patamar.

  • Risco de Automatização: Em 2005 afirmava-se categoricamente que a avaliação "não é susceptível de automatização", pois as fórmulas não poderiam substituir a decisão do professor. A integração da IA exige questionar se este postulado ainda se mantém ou se a IA está a forçar uma "ciganice" ou "feira" de dados que anula a autoridade professoral.

2. O Desafio ao "Julgamento Actuante" e ao Mundo Doméstico

O julgamento actuante é definido como a capacidade de ler os critérios para além do explícito, humanizando a avaliação.

  • A "Rarefacção dos 9" na era dos algoritmos: Em 2005 observou-se que os professores evitavam dar a nota "9" por uma questão moral e pedagógica, optando pelo "10" para dar uma oportunidade ao aluno (mundo doméstico).

  • Conflito: Uma IA programada puramente na lógica industrial dificilmente teria a "benevolência do mundo doméstico" ou a capacidade de conceder o "benefício da dúvida" que um humano exerce para não ser um "juiz implacável". A teoria deve agora integrar como o professor justifica a sua intervenção humana sobre o veredicto algorítmico da IA.

3. A IA e a Tensão entre Justiça e Justeza

A teoria distingue a justiça escolar (aplicação igual de critérios) da justeza sociológica (atenção à especificidade do aluno).

  • Padronização vs. Criatividade: A IA, ao basear-se em padrões, pode reforçar o "ensino tradicionalista" e a "formatação" dos alunos para exames, o que o mundo inspirado critica por anular a criatividade e os dons.

  • A IA como Guia de Acção: A teoria deve ser adaptada para incluir os algoritmos como novos "guias de acção" que, tal como os manuais escolares, podem distanciar o professor do aluno e impor um "conhecimento livresco" e impessoal.

4. Necessidade de um Novo Regime ou Expansão do Mundo Cívico

Boltanski e Thévenot admitem que a crítica nunca termina e que novos regimes podem ser desenvolvidos.

  • Transparência e Consenso: A integração da IA exigiria uma forte mobilização do regime cívico, onde o uso de algoritmos na avaliação deve ser objecto de discussão colectiva e consensos nos grupos disciplinares para garantir a imparcialidade e evitar o arbítrio técnico.

  • Reformulação dos Regimes de Justificação: Sociólogos contemporâneos sugerem que poderíamos estar perante um "Regime Algorítmico" ou "Digital", onde a legitimidade advém da eficiência do processamento de dados em massa (Big Data), algo que em 2005 apenas se antevia através da "linguagem estatística", ou da justificação em rede, que a observação empírica afastou.

5. A IA e a Autoridade Professoral

A avaliação é um elemento fundamental da autoridade professoral, funcionando como "cenoura e vara".

  • Esvaziamento da Autoridade: Se a IA assumir a "fabricação das notas", o professor perde a sua principal ferramenta de motivação e controlo das condutas na turma. A adaptação da teoria deve explicar como a autoridade se legitimará num cenário onde o veredicto é partilhado com uma máquina.

Em suma, a adaptação da teoria hoje passaria por reconhecer a IA como a ferramenta suprema de objectivação industrial, o que torna o julgamento actuante do professor (baseado nos mundos doméstico e inspirado) ainda mais essencial para garantir que a escola não se torne uma "caixa negra" ou um "aparelho de reprodução mecânica".

O Milagre da Pirâmide: Como Transformar Privilégio em "Mérito"

Crescemos a ouvir dizer que a vida é uma corrida justa. Que o mercado é um árbitro cego e que, se trabalharmos muito, o topo d...