A adaptação da teoria dos regimes de justificação (dissertação de 2005) aos dias de hoje, integrando a Inteligência Artificial (IA) no ensino, exige uma reavaliação das fronteiras entre o que é puramente técnico e o que é o "julgamento actuante" do professor. Embora o quadro conceptual date de 2005, fornece as bases conceptuais para entender como a IA pode ser integrada como um novo e potente instrumento de objectivação, mas também como um desafio à humanização da avaliação.
Assim, a adaptação da teoria para integrar a IA deveria focar-se nos seguintes eixos:
1. A IA como o Novo Expoente do Regime Industrial
Em 2005, a média aritmética era considerada o "expoente máximo da objectividade" e uma ferramenta de objectivação extremamente potente.
Adaptação: Hoje, a IA pode ser vista como a evolução dessa plataforma de pensamento, elevando a lógica do mundo industrial (eficácia, padronização e produtividade) a um novo patamar.
Risco de Automatização: Em 2005 afirmava-se categoricamente que a avaliação "não é susceptível de automatização", pois as fórmulas não poderiam substituir a decisão do professor. A integração da IA exige questionar se este postulado ainda se mantém ou se a IA está a forçar uma "ciganice" ou "feira" de dados que anula a autoridade professoral.
2. O Desafio ao "Julgamento Actuante" e ao Mundo Doméstico
O julgamento actuante é definido como a capacidade de ler os critérios para além do explícito, humanizando a avaliação.
A "Rarefacção dos 9" na era dos algoritmos: Em 2005 observou-se que os professores evitavam dar a nota "9" por uma questão moral e pedagógica, optando pelo "10" para dar uma oportunidade ao aluno (mundo doméstico).
Conflito: Uma IA programada puramente na lógica industrial dificilmente teria a "benevolência do mundo doméstico" ou a capacidade de conceder o "benefício da dúvida" que um humano exerce para não ser um "juiz implacável". A teoria deve agora integrar como o professor justifica a sua intervenção humana sobre o veredicto algorítmico da IA.
3. A IA e a Tensão entre Justiça e Justeza
A teoria distingue a justiça escolar (aplicação igual de critérios) da justeza sociológica (atenção à especificidade do aluno).
Padronização vs. Criatividade: A IA, ao basear-se em padrões, pode reforçar o "ensino tradicionalista" e a "formatação" dos alunos para exames, o que o mundo inspirado critica por anular a criatividade e os dons.
A IA como Guia de Acção: A teoria deve ser adaptada para incluir os algoritmos como novos "guias de acção" que, tal como os manuais escolares, podem distanciar o professor do aluno e impor um "conhecimento livresco" e impessoal.
4. Necessidade de um Novo Regime ou Expansão do Mundo Cívico
Boltanski e Thévenot admitem que a crítica nunca termina e que novos regimes podem ser desenvolvidos.
Transparência e Consenso: A integração da IA exigiria uma forte mobilização do regime cívico, onde o uso de algoritmos na avaliação deve ser objecto de discussão colectiva e consensos nos grupos disciplinares para garantir a imparcialidade e evitar o arbítrio técnico.
Reformulação dos Regimes de Justificação: Sociólogos contemporâneos sugerem que poderíamos estar perante um "Regime Algorítmico" ou "Digital", onde a legitimidade advém da eficiência do processamento de dados em massa (Big Data), algo que em 2005 apenas se antevia através da "linguagem estatística", ou da justificação em rede, que a observação empírica afastou.
5. A IA e a Autoridade Professoral
A avaliação é um elemento fundamental da autoridade professoral, funcionando como "cenoura e vara".
Esvaziamento da Autoridade: Se a IA assumir a "fabricação das notas", o professor perde a sua principal ferramenta de motivação e controlo das condutas na turma. A adaptação da teoria deve explicar como a autoridade se legitimará num cenário onde o veredicto é partilhado com uma máquina.
Em suma, a adaptação da teoria hoje passaria por reconhecer a IA como a ferramenta suprema de objectivação industrial, o que torna o julgamento actuante do professor (baseado nos mundos doméstico e inspirado) ainda mais essencial para garantir que a escola não se torne uma "caixa negra" ou um "aparelho de reprodução mecânica".

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