quinta-feira, 17 de abril de 2008

A concepção da criança e a violência juvenil

As modalidades de combate à violência juvenil dependem da concepção da criança de que partimos, e aqui temos duas possibilidades: (1) a criança como um selvagem, que compete à escola “educar”; (2) a criança bondosa, que através do processo de socialização, que em grande parte decorre na Escola, se pode transformar num “selvagem”.

Evidentemente que estas concepções são representações sociais simplificam largamente uma realidade muito mais complexa, multifacetada, heterogénea, aberta, que não se pode descrever nestas breves linhas. Apenas referi concepções da criança porque creio que ajudam a compreender o fenómeno da violência juvenil. Claro que nem as crianças nascem selvagens para que alguma Escola precise das “civilizar”, nem nascem anjinhos que se tenham inevitavelmente de perder em resultado do próprio processo de socialização.

O Reino Unido e Portugal estão a seguir políticas divergentes no combate à violência juvenil, como podem conferir no blogue http://pombaisonline.blogspot.com/2008/03/violncia-nas-escolas-o-que-se-faz.html

E nesta “Ciência” da Educação(?)... nem é preciso que a realidade portuguesa seja muito diferente da britânica... basta que as autoridades políticas tenham diferentes concepções.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Bardamerda para o entendimento!

Os professores não mudam de opinião de um dia para o outro. Os sindicalistas é que devem estar com vontade de ir passar as férias às Caraíbas, e por este ano querem dar o seu “trabalho” como cumprido.

É significativo que numa amostra tão pequena já se refiram tantas escolas a votar contra. Reparem que não estão a votar contra o procedimento simplificado adoptado este ano lectivo, mas contra o modelo chileno que o ME teima em impor em 2008/09. Portanto é abusivo afirmar que os



  • Professores aprovam por "esmagadora maioria" acordo com Ministério da Educação



Teve razão Ana Benavente quando classificou este entendimento de "chantagem". Efectivamente...


  • ...“quando escolas afirmam que não têm condições para fazer a avaliação este ano”, dizer aos professores contratados que “no próximo ano não serão colocados”, é “ameaçar com o desemprego”. “Isto é uma forma de chantagem”.



Posso mesmo afirmar que na minha escola, o sentimento generalizado entre os colegas com os quais falei era de espanto. Ninguém esperava que os Sindicatos chegassem a um compromisso com ME neste momento do calendário escolar. Aliviar a Milu da avaliação de 7.000 professores este ano, para recomeçar em Setembro com o modelo que parametriza todo o processo educativo, para tornar cada docente num valor comparável através de escalas de equivalência previamente concebidas para a redução despesa pública com a educação, só porque é considerado excessivo o défice orçamental, no quadro da União Europeia... bardamerda para o entendimento! Porque não uma Assembleia da República apenas com 100 deputados (como propôs António José Saraiva) e com menos mordomias?

domingo, 13 de abril de 2008

Memorando de Entendimento

Fica aqui arquivado o documento - Backup do Documento - assinado entre o ME e a FENPROF, que inventou o procedimento simplificado para a avaliação de professores, reduzido aos seguintes elementos: (1) ficha de auto-avaliação; (2) assiduidade; (3) serviço distribuído; e (4) acções de formação, quando obrigatória e desde que existisse oferta financiada nos termos legais.

ME e Sindicatos clamaram vitória, como se tivessem chegado a alguma coisa. Apenas compreendo que ambos os lados precisassem de salvar a face. O nome que deram ao documento indica bem que apenas se trata de uma declaração de princípios sobre banalidades.



Tendo em consideração esta "simplificação", o trabalho que eu tinha no tempo das "progressões automáticas" era estupidamente excessivo. Ver Relatório Crítico de Actividades - Julho de 1997.

É incrível como as pessoas mudam em função das situações e dos papéis que são chamados a desempenhar. Durão Barroso, passou de jovem maoísta eme-erre-pum-pum a servidor dos interesses americanos, e até descobriu a "utilidade" da Guerra contra o Iraque ;)



Milu, também passou pela escola eme-ele, tendo-se tornado recentemente o expoente máximo da defesa do neoliberalismo na educação. Ver testemunho do professor Raul Iturra e artigo sobre a agenda oculta para a educação.

O texto não representa nenhum acordo, porque o ME continua com a sua agenda, e os Sindicatos voltarão a exigir novas simplificações do DR nº 2/2008. Recorda-se que o Memorando o prevê a abertura de diversos "processos negociais". Neste sentido entenderam-se para uma breve trégua...

Portanto, neste caso, o título do PÚBLICO é enganador:



Paradoxalmente, a imagem transmitida para a opinião pública por ambas as partes é de satisfação com o "trabalho realizado". Só que as posições estavam (e continuam) extremadas... Seria a mesma coisa que no final de um jogo de futebol ganharam ambas as equipas ;)

Os Sindicatos já deixaram o aviso:

sábado, 5 de abril de 2008

Discurso politico lunático

Os políticos utilizam as estatísticas para dizer o que lhes apetece, sem a menor preocupação de coerência entre as suas afirmações e os dados empíricos. Veja-se este exemplo.

Facto:

  • De acordo com as participações às forças de segurança, os números registados nos relatórios do Programa Escola Segura ao longo da última década permitem constatar ainda que o número de armas de fogo apreendidas no último ano lectivo (13) foi praticamente igual às armas apreendidas há precisamente dez anos (12). (...)


Comentário do político:

  • (...) o secretário de Estado da Administração Interna, Rui Sá Gomes, disse que o número de armas apreendidas nas escolas não tem aumentado. "O número não aumentou, é um fenómeno normal, não houve evolução", disse, defendendo que o Programa Escola Segura é uma resposta "eficaz" ao problema.

Cada povo tem os políticos que merece! Portugal tem lunáticos que fingem não ver os problemas para se desresponsabilizarem - NÃO É SUPOSTO HAVEREM ARMAS NAS ESCOLAS, E ESSA TAREFA NÃO COMPETE AOS DOCENTES - das suas funções.

Os relatórios e estudos também não servem de base às decisões políticas, nem se estabelece qualquer vínculo entre a realidade que retratam e os decisores políticos.
É assim que se compreendem as afirmações do Procurador Geral da República (PGR) sem qualquer repercussão prática:

  • "(...) tenho elementos seguros de escolas em que os alunos vão armados com pistolas de 6,35mm ou mesmo de 9mm, para já não falar das facas que são às centenas. Vão de pistola para as aulas e isso desde os seis anos".

O PGR "sabe" o que se passa pelos relatórios, mas não sente seu dever actuar para garantir a segurança... Afinal, nós, comuns mortais não deveríamos saber nada disto porque na opinião dos magistrados, a afirmação...

  • (...) pode lançar o pânico nas famílias dos estudantes.

Lembrei-me da estratégia de uma turma do 7º ano, numa das últimas aulas de substituição. Quando lhes perguntei quantas negativas tinham tido no 2º período, quase nenhum aluno me soube responder. Achei estranho, mas depois fiquei esclarecido. É que não "tinham tido tempo" para ir ver a pauta ;) Aprenderam com os políticos da nossa praça a ignorar os factos para poderem dizer mais livremente os maiores disparates.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

27% = 0 para Mariano Gago

Quando cheguei ontem à aula de Economia fui confrontado com a novidade:

- Então professor! Não há desemprego entre os licenciados! Foi o que o Ministro disse...

  • O ministro da Ciência e Ensino Superior está convencido de que quase não há licenciados desempregados em Portugal...


Sabiam que aquela novidade ia contra as minhas lições, porque o que sempre tinha dito até ali é que a licenciatura garante cada vez menos o emprego. Este post repõe a minha resposta num ambiente mais alargado.

O organismo oficial responsável pelas estatísticas em Portugal é o INE. O quadro abaixo reproduz o quadro que encontrará hoje quem seguir o este link.



Observando o quadro é fácil constatar que segundo os dados mais recentes, relativos ao quarto trimestre de 2007, entre os indivíduos com nível de escolaridade superior, que se encontram no grupo etário abaixo dos 24 anos a taxa de desemprego atinge os 27,4%. No grupo etário dos 25 aos 34 anos o desemprego é menor, mas 11,8% não são nada desprezíveis, sobretudo para as mulheres, cuja taxa de desemprego ultrapassa o dobro da homóloga masculina (14,5% para 7,1%).

Os estudantes de Economia conhecem o conceito de desemprego friccional: um desempregado não encontra imediatamente um novo empregador, assim como um estudante não encontra o emprego que deseja imediatamente depois de concluir o seu curso... mas os valores estimados pelo INE são demasiado elevados para interpretar o desemprego estrutural dos licenciados como se fosse friccional.

As habilitações académicas podem mesmo revelar-se um obstáculo ao emprego, porque na perspectiva dos “empresários” que temos apenas os custos aumentam quando contratam licenciados, mestres ou doutores... O vídeo abaixo mostra alguns casos paradigmáticos de desemprego estrutural.




Mariano Gago já aprendeu umas coisas com o “aluno exemplar” que foi José Sócrates!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Estatísticas da SIDA e sucesso escolar

Como compreender esta anedota?

  • Um em cada dez estudantes universitários de Coimbra acredita que a pílula anticoncepcional protege da infecção por VIH/sida, segundo um inquérito realizado pela investigadora Aliete Cunha-Oliveira, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
    PÚBLICO


Resta saber em que condições foram inquiridos os estudantes. No final de alguma festa, após três ou quatro shots teriam uma certa propensão a garantir à inquiridora que o preservativo é dispensável, e até para lhe demonstrarem...

Se outros indicadores vierem confirmar este inquérito, teremos de concluir que o 12º ano não garante realmente nada, nem que o individuo seja capaz de proteger a sua saúde de riscos reais.

quarta-feira, 26 de março de 2008

O critério da avaliação de professores

O critério da avaliação de professores consiste na redução de despesa pública independentemente da forma como venha a ser realizada a dita "avaliação de desempenho".

  • Maria de Lurdes Rodrigues assegura que «tudo se resolverá» e que «a avaliação não está adiada e não está suspensa». A ministra admite, porém que haja uma «simplificação do processo», que pode passar, em algumas escolas, por não haver aulas observadas e por uma alteração dos prazos.
    SOL


Portanto cada escola poderá continuar à sua maneira, porque o que realmente interessa é justificar o congelamento da larga maioria que não progredirá, porque a convergência com a União Europeia obriga o Estado português a ser menos generoso para com os seus funcionários.

Fonte: http://www.portugal.gov.pt/NR/rdonlyres/3499C15E-A66E-4BE2-B7BD-326060082699/0/Produtividade_quadros.pdf

Os professores têm o azar de ser muitos, e daí o seu peso na factura do Estado. Os políticos não são tantos, mas têm um peso relativo muito maior. Será possível continuar a proletarizar os professores enquanto se garantem maiores privilégios aos políticos? (Ver assistentes individuais)

O Regresso do Morto-Vivo (ou como a IA me obrigou a trabalhar na reforma)

 Quem me conhece sabe que, no ano passado, arrumei definitivamente os manuais, fechei o giz no armário e decretei a merecida a...