sábado, 28 de fevereiro de 2026

O Nosso Admirável Talento para Ignorar o Óbvio


Versão ácida do artigo de Luisa Schmidt
EXPRESSO, 26/FEV/2026

O economista Nicholas Stern anda desde 2007 a prever que a inação perante o clima custa caro. Que falta de visão a dele! Nós, por cá, preferimos o modelo "pague depois e pague o triplo". É uma questão de estilo: porquê investir na prevenção se podemos hipotecar o futuro com toda a pompa e circunstância?

1. Uma Tradição de Surdez Seletiva

Não se pode dizer que não fomos avisados. Ribeiro Telles, esse "profeta da desgraça", já em 1967 — após as cheias de Lisboa — insistia em conceitos bizarros como "ordenamento". Teve até o desplante de criar a REN (Reserva Ecológica Nacional) nos anos 80, só para tentar impedir a construção de casas em leitos de cheia e arribas. Que mania a de querer travar o progresso de betão em cima de lama!

Claro que ignorámos com sucesso. De 2017 a 2024, entre fogos, tempestades como a "Leslie", secas e ondas de calor que despacharam quase 3.000 pessoas, mantivemo-nos firmes na nossa patologia crónica. Afinal, para quê ouvir a ciência (que nos avisa há 30 anos com projetos como o SIAM) quando podemos culpar a "fatalidade"?

2. O Triunfo do Betão sobre o Bom Senso

É verdadeiramente inspirador ver como chegámos a 2026 com milhares de casas estrategicamente plantadas em dunas, pântanos e encostas que se desfazem ao olhar para elas. Temos de tudo:

  • A Pobreza Criativa: Casas feitas como deu e onde deu.

  • A Arrogância de Elite: Projetos PIN (Projetos de Interesse Nacional — ou será de Inconsciência Nacional?), onde o imobiliário especulativo desafia as marés com uma confiança que o mar, infelizmente, não partilha.

E as nossas infraestruturas? Um luxo de fragilidade. Estradas, ferrovias e redes elétricas que parecem ter sido desenhadas para um clima que já não existe há décadas. Mas não se preocupem: a ministra já prometeu "reavaliar". E todos sabemos que uma reavaliação é o primeiro passo para um relatório que ficará guardado numa gaveta muito segura.

3. A Ciência é Ótima, mas a Gaveta é Melhor

Temos bons técnicos, o IPMA faz um trabalho hercúleo e há até autarquias — como Setúbal e Cascais — que cometeram a "excentricidade" de criar bacias de retenção e renaturalizar ribeiras. Resultou? Sim. Mas onde está a emoção de uma boa catástrofe se tudo estiver planeado?

Até temos uma Lei de Bases do Clima desde 2021. É um documento lindíssimo, cheio de rigor científico, que celebrará o seu 5.º aniversário de existência sem nunca ter incomodado a realidade da prática. É a nossa "Bela Adormecida" legislativa.

E como esquecer o desfile de fenómenos que, com nomes mais ou menos poéticos, nos trouxeram à realidade? Da trágica herança de 2017 à fúria da tempestade "Leslie" em 2018, passando pela seca ruinosa de 2024 e pelas ondas de calor extremas que se seguiram, os danos não foram apenas estatísticas de jornal. Em 2026, com o "comboio de tempestades" Harry, Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo, Marta, foram telhados que decidiram emigrar, frentes de mar que "encolheram" até à sala de estar de condomínios de luxo e estradas que passaram a funcionar como canais navegáveis. Entre a destruição de infraestruturas públicas e o luto por vidas que a ciência disse que podiam ser poupadas, os danos são a prova viva de que a natureza não tem grande sentido de humor para a nossa inação. Uniram-nos na lama e na contemplação de milhões de euros a desfazerem-se como torrões de açúcar. Um espetáculo inesquecível, sem dúvida.


Conclusão: Nicholas Stern tinha razão, a fatura chegou e não aceita prestações. Este inverno, as águas e os ventos uniram-nos finalmente... no lodo. Agora, corre o boato de que há uma "rara concordância pública" sobre as causas do desastre. Quem sabe se, desta vez, em vez de reforçarmos apenas as promessas, não reforçamos mesmo as instituições? Seria uma novidade absoluta: tratar a proteção do ambiente como se fosse, de facto, uma questão de sobrevivência.


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