Parece que vivemos tempos de prodígios estatísticos. Se ligarmos a televisão ou abrirmos as páginas de opinião, o veredito é unânime: Seguro é um gigante eleitoral. Dizem-nos, com a gravidade de quem descobriu a pólvora, que Seguro teve mais votos do que Mário Soares em 1986 ou Ramalho Eanes em 1976. Em termos absolutos, os números não mentem, mas a estatística é a arte de torturar os dados até que eles confessem a nossa conveniência.
A Matemática de Conveniência
É fascinante ver como a análise política decidiu ignorar variáveis elementares como o aumento da população ou o crescimento do número de eleitores inscritos. Comparar votos absolutos de 2026 com os das primeiras eleições da democracia é tão útil como dizer que o Macron tem maior legitimidade do que o Presidente de Portugal apenas porque tem mais boletins na urna. São factos desprovidos de contexto que servem para alimentar uma narrativa de grandeza que a percentagem real teima em desmentir.
O Melhor Diretor de Campanha do Presidente
O que as análises mais entusiastas parecem esquecer é que a impressionante votação de Seguro não se deveu exclusivamente ao seu carisma. Deve-se, em grande parte, ao maior mobilizador da década: André Ventura.
Nunca tínhamos visto um fenómeno de voto por reação com esta expressão. Ventura conseguiu a proeza de ser o principal cabo eleitoral do seu adversário ao mobilizar o eleitorado contra si próprio. Esta dinâmica empurrou para as urnas uma massa de gente que estava mais interessada em travar um candidato do que em escolher outro, um fenómeno que nunca teve este peso nas presidenciais anteriores. A legitimidade existe e é soberana, mas convém não confundir o apoio convicto com o pânico preventivo.
Um Horizonte Distante
Resta-nos agora navegar nesta euforia de comentadores que preferem a aritmética básica à sociologia política. O recorde está batido, a história foi escrita à medida do presente e o país segue o seu caminho.
Parabéns ao senhor Presidente Seguro. O triunfo é histórico e a memória é curta. Ficamos à espera de ver se este entusiasmo estatístico sobrevive até 2036.
Em construção

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