quinta-feira, 24 de julho de 2008

Aprendam com os Estados Unidos!


Num post anterior escrevi que há mais vida para além dos défices, mas não o justifiquei. É o que faço aqui olhando para o debate político nos Estados Unidos. Lá os democratas propõem um pacote de estímulos económicos com aumento da despesa em estradas, pontes, escolas, e outras estruturas públicas. (Ver New York Times). Aumentando a despesa pública, o Estado vai criar mais postos de trabalho, dinamizando a economia, numa fase em que o perigo de a deixar entregue aos mecanismos de mercado parece muito maior que qualquer excesso de intervenção económica.

Qualquer comparação com o que o se passa por cá é anedótica. Portugal tem que cumprir os critérios de convergência impostos pela pertença à zona Euro. Apesar de passarmos todo o tempo a seguir políticas restritivas, desde 2000 que estamos a divergir da União Europeia – isto é, a crescer abaixo da média, ficando mais afastados desta – e mesmo seguindo escrupulosamente as directrizes do BCE ainda temos visitas do FMI. No entanto a dívida pública americana é maior que a portuguesa, tal como o défice orçamental americano é muito maior que o nosso...


Fonte: World Economic and Financial Surveys, FMI.

A Portugal são impostas políticas restritivas enquanto os Estados Unidos seguirão políticas expansionistas. Ora se os EUA estivessem coagidos pelos limites do BCE não poderiam escolher esta opção, porque de acordo com os números do FMI o seu défice público em percentagem do PIB é de 4,5% em 2008 e a dívida pública em percentagem do PIB é de 63,2%. Ambos os valores estão acima dos valores míticos impostos pelo BCE, que são respectivamente 3% e 60%. E os Estados Unidos nunca recearão subir estes indicadores porque o FMI existe para impor a ordem americana!

A dimensão e a produtividade contam. A economia americana produz 60 vezes mais que nós, enquanto a sua população corresponde apenas a 28 “portuguais”.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Enquanto há língua, há esperança


Segue-se uma lista de algumas das anedotas que pretendem impingir-nos com o Acordo Ortográfico:

  • COR-DE-ROSA escreve-se com hífen, por causa da consagração pelo uso, diz o AO, mas COR DE LARANJA escreve-se sem hífen, porque não.


  • PÁRA (verbo) deixa OBRIGATORIAMENTE de ter acento e escrever-se-á PARA, não se distinguindo da preposição PARA.

    Mas PÔR (verbo) mantém OBRIGATORIAMENTE acento para se distinguir da preposição POR.

    PODE (pretérito perfeito) tem FACULTATIVAMENTE acento (PÔDE) para se distinguir de PODE (presente do indicativo).

    FORMA (substantivo) tem FACULTATIVAMENTE acento (FÔRMA) para se distinguir de FORMA (verbo e substantivo).

    Mas ACORDO, ACERTO, CERCA, etc. (substantivos) OBRIGATORIAMENTE não têm acento e não se distinguem de ACORDO, ACERTO, CERCA, etc. (verbos).

    DEMOS (presente do conjuntivo) tem FACULTATIVAMENTE acento (DÊMOS) para se distinguir de DEMOS (pretérito perfeito).

    Mas PODEMOS (presente do indicativo) OBRIGATORIAMENTE não tem acento e não se distingue da forma PUDEMOS (pretérito perfeito).

  • E as formas com acentuação facultativa que o AO contempla AVERÍGUO, AVERÍGUAS, AVERÍGUA, ENXÁGUO, ENXÁGUAS, ENXÁGUA, DELÍNQUO, DELÍNQUES, DELÍNQUE, etc. dos verbos AVERIGUAR, ENXAGUAR, DELINQUIR? De que língua são? O que as distingue de certas formas incorrectas, muito correntes em Portugal, como FÁÇAMOS, PÓSSAMOS, TÊNHAMOS e SUPÔNHAMOS? E por que é que estas últimas não são então formas consagradas pelo uso?



  • Por exemplo, formas verbais como ‘fraccionámos’ e ‘decepcionámos’ passarão a ter, não duas, mas quatro grafias correctas na “ortografia unificada” do português, assim:

    fraccionámos, fraccionamos, fracionámos, fracionámos;

    decepcionámos, decepcionamos, dececionámos, dececionamos.

  • O adjectivo ‘electrónico’ passa a ter quatro:

    electrónico, eletrónico, electrônico, eletrônico.

  • "Rua de Santo António" terá oito formas correctas na “ortografia unificada”:

    Rua de Santo António, Rua de Santo Antônio,
    Rua de santo António, Rua de santo Antônio,
    rua de Santo António, rua de Santo António,
    rua de santo António, rua de santo Antônio.

  • Um termo como ‘perspectiva cónica’ passa a ter quatro formas correctas,

    perspectiva cónica, perspectiva cônica,
    perspetiva cónica, perspetiva cônica.

  • Mas um termo como ‘dactiloscopia electrónica’ terá oito:

    dactiloscopia electrónica, dactiloscopia electrônica,
    dactiloscopia eletrónica, dactiloscopia eletrônica,
    datiloscopia electrónica, datiloscopia electrônica,
    datiloscopia eletrónica, datiloscopia eletrônica.
    Fonte: Em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico


Escreveu Vasco Graça Moura no último post:

  • Da sua análise implacável resulta que se está perante um verdadeiro crime contra a língua portuguesa.

    Ante todo este escândalo, a sociedade civil não pode cruzar os braços. Tem de insistir no seu protesto. Tem de engrossar o caudal das suas tomadas de posição. Tem de assinar maciçamente a petição/manifesto que corre na Internet. Tem de começar a enviar sms para todos os lados, dizendo que o Acordo Ortográfico é uma vergonha nacional. Tem de provocar a revisão dessa enormidade. Tem de afirmar em todas as ocasiões que não o aceita e se recusa a dar-lhe cumprimento.


Subscrevo. É a resistência cívica a que me tinha referido num post anterior.

A petição continua online aqui.


  • O Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Portugal já ratificaram o acordo e todos os seus protocolos modificativos, falta ainda a regularização por parte de Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor-Leste.
    PÚBLICO, 24.07.2008


Oxalá Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor-Leste não ratifiquem o AO nunca...

OHHHHASAAAAEEEEEE!!!! OHHHHH AAAAAAAASSSSSAAAAAAEEEEEEEE!!!!! OHHHHHH


A ASAE descobriu a sua vocação apreendendo pornochanxada. Segundo refere o EXPRESSO:

  • As principais infracções prendem-se com ausência de licenciamento, falta de rotulagem em português, de cadastro, de livro de reclamações e de indicação dos preços.


Não vejo o problema que possa surgir da falta de instruções em português num vibrador ou noutros produtos do ramo.

Imaginem-se os problemas de rotulagem dos vídeos. Bem podiam indicar nº 1, nº 2, nº 3, etc. Mas até são simpáticos, e inventam títulos sugestivos. A notícia não se refere a problemas com a língua, mas é com esses que estou preocupado, porque não sei até onde a ASAE poderá ir... Os vídeos são mesmo para ver sem legendas. Têm sido os únicos filmes que se tem vendido por cá dobrados em castelhano, e estão muito bem assim ;) Se forem falados em brasileiro já são familiares demais, e aí deixam de cumprir a sua função. Em português nem pensar!

Se a ASAE quiser trabalhar há dois mercados que resistem a todas as reclamações dos consumidores e que apresentam lucros anormalmente elevados: a banca e as gasolineiras. Estes sectores estão fora da vossa competência? Claro! O roubo organizado que faz parte do sistema é intocável.

terça-feira, 22 de julho de 2008

90.000 assinaturas ignoradas


O PR ratificou o Acordo Ortográfico que a AR tinha aprovado, ignorando as cerca de 90.000 assinaturas da petição online.

Anunciando o caos que se avizinha, o PÚBLICO escreve umas vezes que o Parlamento ratificou, outras que aprovou... e ainda o AO não entrou em vigor ;) Daqui em diante a falta de formação jurídica terá mais uma desculpa.

  • O Presidente da República, Cavaco Silva, já promulgou o Acordo Ortográfico, ratificado no Parlamento a 16 de Maio deste ano, disse hoje fonte oficial da presidência.

    O Segundo Protocolo do Acordo Ortográfico, cuja ratificação era essencial para a entrada em vigor do acordo, foi aprovado no Parlamento a 16 de Maio com os votos favoráveis do PS, PSD, Bloco de Esquerda e sete deputados do CDS. Três deputados do PSD, Henrique Freitas, Regina Bastos e Zita Seabra - que invocou "conflito de interesses" por ser editora - além de Matilde Sousa Franco, do PS, abandonaram o hemiciclo antes da votação.

    O acordo contou ainda com a abstenção das bancadas do PCP, PEV e dos deputados Paulo Portas, José Paulo Carvalho e Abel Baptista (CDS-PP). Contra votaram Manuel Alegre, PS, Nuno Melo e António Carlos Monteiro (CDS) e a deputada não inscrita Luísa Mesquita (ex-PCP). Paulo Portas e o deputado João Oliveira anunciaram declarações de voto. PÚBLICO


Resta a resistência cívica.

Há mais vida para além dos défices

Esta imagem é para descontrair. Não se deixem abater pelas projecções do FMI, e pensem em alternativas a Sócrates!


Esta imagem é de Hat Lamai Beach, Tailândia. Mas conheço paraísos mais próximos!
Há mais vida para além dos défices!

Sócrates, podes seguir em frente!


Apesar de Portugal se estar submetido à disciplina da zona Euro, o FMI voltou a pronunciar-se recentemente sobre a economia portuguesa. No seu entendimento:

  • Estão a ser tomadas medidas decisivas, centradas no sector público, para corrigir os desequilíbrios acumulados durante os anos 90, e os resultados estão a ser visíveis. As condições mundiais mais frágeis tornam mais difícil e urgente fazer face aos desafios económicos de Portugal. As políticas deverão tirar partido dos progressos recentes e evitar pôr em causa os objectivos de longo prazo para obter ganhos a curto prazo. Isto significa que se deverá prosseguir a consolidação e as reformas orçamentais, mantendo a solidez do sistema financeiro e prosseguindo a implementação de reformas do lado da oferta, para tornar a economia mais produtiva e flexível e reactivar o processo de convergência.
    Relatório do FMI   Backup




Apesar de o país se estar a afastar dos padrões europeus, como “em média” continua viver acima das suas possibilidades, a receita é continuar a apertar o cinto daqueles que a quem é possível apertar mais. A crise não é sentida por todos, porque por exemplo, as vendas de automóveis, certamente de alta cilindrada, até estão a aumentar. Sobre a crescente inequidade na repartição do rendimento o relatório não diz uma palavra. Chama a atenção para a necessidade de evitar que os custos do trabalho degradem a competitividade da economia, e elogia “a solidez do sistema financeiro e bem supervisionado”(?). As famílias portuguesas estão muito endividadas porque compraram a sua habitação quando mal podiam adquirir uma bicicleta, mas “o Banco de Portugal está ciente destas vulnerabilidades, que não são novas, e tem adoptado uma abordagem pró-activa”, exigindo aos bancos o reforço dos amortecedores de liquidez, para fazer face a potenciais faltas de liquidez...

Pelo caminho que o FMI aconselha, cada passo em frente já sabe onde vamos dar.

Analise-se o percurso que temos feito utilizando os próprios números do FMI. Em 1995 o Produto Interno Bruto per capita português não se afastava tanto do espanhol nem do grego. Em 2006 fomos passados pela Eslovénia. A distância relativamente aos outros países aumenta se perspectivarmos 2013.

Fonte: World Economic Outlook Database, FMI

Belo caminho!




Post
relacionado
Programa de Estabilização Económica, 1978-79, também conhecido como primeiro pacote do FMI. Numa imagem sintetizam-se as políticas então propostas.

O Regresso do Morto-Vivo (ou como a IA me obrigou a trabalhar na reforma)

 Quem me conhece sabe que, no ano passado, arrumei definitivamente os manuais, fechei o giz no armário e decretei a merecida a...