terça-feira, 18 de março de 2008

A escassez da água potável



Quando confrontadas com este tema, uma das perguntas mais comuns que as pessoas fazem será, certamente, “mas o planeta não é composto maioritariamente de água? Fala-se em aquecimento global e o subir do nível das águas do mar, como poderá haver escassez de água?” De facto, cerca de 70% do planeta Terra está coberto de água, mas a percentagem passível de ser utilizada é muito menor, como podemos ver no gráfico seguinte:

Fonte: UNESCO, Seeking Alpha.

De toda a água presente no planeta, apenas 3% é doce. A restante, englobando os oceanos, golfos e mares, é salgada e, como tal, não pode ser consumida, nem tão pouco utilizável em agricultura. Olhando só para a água doce, dois terços desta está gelada nos pólos e inacessível para tratamento, deixando só um terço (ou 1% do total) acessível em aquíferos e nascentes.

Contudo, a poluição, os despejos de dejectos, fertilizantes e outros factores têm vindo a diminuir a quantidade de água potável. Muito embora a água seja, de certo modo, renovável, com o ciclo da água – ou ciclo hidrológico, no qual existe uma rotação contínua da água entre os oceanos, os continentes e a atmosfera através de evaporação e precipitação – nada garante que a potável na última passagem pelo ciclo, o seja novamente na próxima. Existem mais de 300 químicos diferentes utilizados em abundância por todo o mundo que contaminam os intervenientes no ciclo. Cada vez mais, para que a água seja utilizável, necessita ser minada, processada, empacotada e distribuída.

Estima-se, assim, que só cerca de 0,25% da água total seja actualmente potável. Fazendo uma analogia, se toda a água do planeta coubesse numa garrafa de 1,5 litros, então a água potável não encheria por completo uma colher de chá.



Contexto Social

Do ponto de vista social, assistimos ao crescimento da população mundial e à utilização da água a ritmos cada vez maiores. Desde 1950, a população mundial mais que duplicou e o consumo de água triplicou, mas apenas 20% tem água corrente e menos de um terço sequer acesso a água potável, facto agravado pelos custos bastante elevados das infra-estruturas necessárias à distribuição da água.

As Nações Unidas estimam que cerca de 50% de todas as camas de hospital a nível mundial estão ocupadas com doentes que padecem de enfermidades relacionadas com água contaminada, sendo que estas doenças representam 80% de todas as doenças em países subdesenvolvidos e cerca de 5 milhões de vidas por ano.

A sociedade moderna consome água a um nível bastante superior ao que o ciclo hidrológico a consegue reciclar, e quando tomamos em conta a industrialização dos países em vias de desenvolvimento, que envolvem consumos de água bastante superiores (não só pelas necessidades das indústrias como também pelo facto que o aumento da qualidade de vida representa maior utilização deste bem) facilmente concluímos que a tendência é que esta situação se agrave. Neste momento, mais de 1,1 biliões de pessoas não têm acesso a meios razoáveis de distribuição de água e prevê-se que este número ascenda a 2,3 biliões até 2025.

No gráfico seguinte podemos verificar a situação em 1995 e as estimativas para 2025, tomando por base a extracção de água (ajustada para o crescimento mundial previsto) em relação ao disponível na área.

Fonte: World Meteorological Organisation (WMO), Geneva, 1996; Global Environment Outlook 2000 (GEO), UNEP, Earthscan, London, 1999. http://maps.grida.no/go/graphic/freshwater-stress-1995-and-2025

Racionalidade Económica

A água é um bem de primeira necessidade para o consumo doméstico e para a indústria, e só existe uma quantidade finita deste recurso. Já podemos notar, hoje, o aumento que o preço da água tem vindo a sofrer, basta pensar que há uns anos em grande parte do mundo desenvolvido, a água era paga a uma preço fixo, independentemente do uso e, actualmente como sabemos, existem contadores em todos os domicílios. Mais ainda, se olharmos para o preço de uma garrafa de água mineral, dependendo do local de compra pode, muitas vezes, ser mais caro que o preço do litro do gasóleo.

Sabemos, por outro lado, que este bem é extremamente inelástico – a procura de água não será, naturalmente, afectada por ciclos económicos; não terão efeitos a inflação, as taxas de juros, o câmbio monetário nem o preço de produtos substitutos, que, como já vimos, simplesmente não existem. Muito embora os volumes utilizados pela indústria poderão aumentar e diminuir consoante a sua produção (consequente da maior ou menor procura pelos produtos finais aí preparados), certamente que a população não deixará de beber água. A procura da água está a ser e será impulsionada pelo crescimento populacional contraposto por uma maior escassez. E se existe alguma possibilidade de encontrar água potável de outra forma, nomeadamente através da dessalinização (processo físico-químico de retirada de sais da água), os custos associados e, de maior importância, a quantidade energética necessária para este processo é de tal ordem que estudos indicam que não será viável durante largos anos. Acrescente-se que menos de 50% da água completa o processo, resultando também uma grande quantidade de dejectos dos quais terão de se desfazer (com os custos monetários e ambientais associados a tal).

Os custos associados com a construção de infra-estruturas de tratamento e distribuição de água são muito elevados, criando barreiras à entrada de novas empresas, mas salientando também uma excelente oportunidade para investimento. Como exemplo, a EPA (Environmental Protection Agency – agência para a protecção do ambiente) dos EUA prevê que terá de ser gasto até $1 trilião nos próximos anos para renovar e remodelar a estrutura de distribuição no país, na medida em que boa parte desta tem mais de 20 anos.

Estima-se que o mercado global de tratamento e distribuição de água represente cerca de 240 mil milhões de euros, com crescimentos na ordem dos 4% a 6% nos países desenvolvidos e 10% a 15% nos países em desenvolvimento. O sector público não conseguirá acompanhar os volumes de investimento necessários, muitas vezes no âmbito local ou regional, para renovar e construir infra-estruturas, pelo que, cada vez mais, necessite de investimento privado e se assista, inclusive, à privatização de várias áreas do sector. A Lehman Brothers, estima que o número de pessoas em todo o mundo servidas por companhias de água detidas por investidores privados cresça 500% nos próximos 10 anos.

Assim, o potencial de crescimento das empresas relacionadas com a indústria global da água é elevado, não só para as directamente envolvidas, como companhias de tratamento, de distribuição urbana e de gestão da água, mas também para as que, indirectamente, fazem parte do processo sendo fornecedores das anteriores, como são os fabricantes de bombas, tubos, válvulas, filtros, instrumentação e construção de sistemas de água.



Em conclusão...

Todos os factores supracitados ajudam-nos a concluir que as palavras de W.H. Auden teriam, realmente, um significado profundo. Sendo um bem naturalmente escasso, e indubitavelmente essencial à preservação da vida, a água é, cada vez mais, um bem precioso, com potencial de procura em muito superior ao carvão, ouro, gás ou petróleo.

É necessário, neste momento e de futuro, um grande investimento privado para a concretização de enormes reestruturações, que aumentarão as redes de distribuição globalmente, assim como existe um potencial de crescimento elevado nos mercados, com o actual boom da população mundial e estimativas futuras.

Será o crescimento do sector sustentável? É uma pergunta aberta a debate, mas o facto permanece que a água tem características muito semelhantes às commodities, como o ouro e o petróleo, na sua procura crescente e oferta decrescente. E, tal como na famosa Febre do Ouro do século XIX, as maiores fortunas podem não vir necessariamente de quem encontrou o ouro, mas sim dos comerciantes na retaguarda, que vendiam as picaretas, panelas e restantes ferramentas...

Muita gente consegue viver sem amor, mas ninguém sobrevive sem água. Portanto face à sua procura crescente pode dizer-se que este investimento é dos que apresenta risco praticamente nulo, e rentabilidade garantida. No entanto não se nota entre os particulares qualquer interesse por este negócio, porque exige a construção de infra-estruras que apenas remunerarão o capital investido a longo prazo. No entanto é próprio equilíbrio da Terra que exige esse esforço de investimento. Então não pode deixar de se colocar a questão: permitirão as nossas economias de mercado o desenvolvimento sustentável do Planeta?

segunda-feira, 17 de março de 2008

A distribuição Normal: fazer amor, cumprir tarefas e fazer sexo

A distribuição Normal pode ter as mais diversas aplicações. A partir do momento em que se estabelecem três áreas sob a função de distribuição, podemos utilizar a nossa imaginação para a aplicar nos mais diversos campos. A aplicação mais divertida que li, relaciona o número de ocorrências com o grau de devassidão da relação sexual para distinguir fazer amor de cumprir tarefas e de fazer sexo.




Aos interessados neste tema proponho a leitura do site que serviu de inspiração, embora não o recomende a leitores sensíveis ;)
http://www.cocadaboa.com/arquivos/008777.php

A distribuição Normal e conflito entre o ME e os sindicatos

Naturalmente que há interesses conflituantes, mas sobre esses não me quero aqui referir. Gostaria apenas de enfatizar neste post que o conflito entre o ME e os sindicatos poderá resultar em parte das próprias ferramentas cognitivas que utilizam, designadamente da curva normal. A curva normal padrão, com média 0 (zero) e desvio padrão 1 (um) apresenta a seguinte configuração.


Na sua caracterização apresentam-se geralmente as percentagens definidas pelos valores:
- a média mais ou menos 1 desvio padrão


- a média mais ou menos 2 desvios padrões


- a média mais ou menos 3 desvios padrões



Recordando as suas aulas de Estatística elementar os sindicatos argumentarão que a generalidade dos professores (99,7%) têm um desempenho mediano, não fazendo sentido implementar mecanismos de avaliação que apenas satisfariam o ego de conjunto reduzidíssimo de profissionais.
Por seu lado, o ME recordará igualmente a sua Estatística elementar, mas incluirá apenas na classe mediana 68% dos docentes, justificando assim a sua persistência em implementar um modelo de avaliação dos professores.

  • "Em qualquer grupo [profissional], se todos puderem ser excelentes o que está errado é a própria definição de excelência", disse Jorge Pedreira na abertura do seminário 'A escola face à diversidade: percepções, práticas e perspectivas' que decorre hoje no Conselho Nacional de Educação, em Lisboa.
    PÚBLICO, 29.05.2008


  • A Federação Nacional dos Sindicatos da Educação (FNE) manifestou hoje a sua “completa rejeição” do despacho que estipula as quotas para as classificações mais elevadas no âmbito da avaliação dos professores, por não permitir uma “avaliação correcta” dos docentes.
    PÚBLICO, 29.05.2008



Qualquer das partes envolvidas teria interesse em observar o que se passa noutros países desenvolvidos, como a Finlândia, para se libertar desta linguagem de debate e de pensamento introduzida pela Estatística.

Uma mãe e encarregada de educação agradecida

Transcrevo abaixo um mail que circula na Internet, denunciando a política educativa do ME como ajustamento dos recursos humanos à escola-depósito.


CARTA DE AGRADECIMENTO

Logo depois de ter lido aqueles documentos sobre a avaliação dos professores, pensei como lhe deveria agradecer, Srª Ministra. Afinal, aquelas horas passadas diariamente junto do meu filho a verificar se os cadernos e as fichas estavam bem organizados, a preparar a mochila e as matérias a estudar para o dia seguinte, a folhear a caderneta escolar, a analisar e a assinar os trabalhos e os testes realizados nas muitas disciplinas, a curar a inflamação de uma garganta dorida pela voz de comando “Vai estudar!” ou pela frase insistentemente repetida, de 2ª a 6ª feira: “DESPACHA-TE! AINDA CHEGAS ATRASADO!” ou o incómodo e o tempo perdido para o levar diariamente à Escola, percorrendo, mais cedo do que seria necessário, um caminho contrário àquele que me conduziria ao meu emprego, tinham finalmente, os seus dias contados. Doravante, essa responsabilidade passaria para a Escola e, individualmente, para cada um dos seus professores. Finalmente, poderei ir ao cinema, dar dois dedos de conversa no Café do Sr. Artur, trocar umas receitinhas com a minha vizinha (está entrevadinha, coitadinha!) ou acomodar-me deliciosamente no sofá da sala a ver a minha telenovela brasileira preferida.

O rapaz ainda me alertou para os efeitos das faltas o conduzirem à realização de uma prova de recuperação. Fiz contas e encolhi os ombros - poupo gasóleo e muitos minutos de caminho, de tráfego e de ajuntamentos. Afinal, ele até é esperto e, se calhar, na internet, encontra alguns trabalhos ou testes já feitos… Sempre pode fazer “copy – paste”… Efectivamente, as provas de recuperação parecem-me a melhor solução para acabar com a minha asfixia matinal e vespertina. Ontem, a minha vizinha da frente, que tem dois ganapos na escola do meu, disse-me que, se ele continuar a faltar, o vêm buscar a casa, e que, no próximo ano lectivo, os professores vão tomar conta deles depois das aulas.

Oiro sobre azul. Obrigada, Srª Ministra. A Senhora é que percebe desta coisa de ser mãe! A Senhora desculpe a minha ousadia, mas será que também não seria possível fazer uma lei para os miúdos poderem ficar a dormir na escola? Bastava mandar retirar as mesas e cadeiras das salas de aula e substituí-las por beliches, à noite. De manhã, era só desmontar e voltar a arrumar. Têm bar, cantina e até duche. Com jeito, eles ainda aprendiam alguma coisinha sobre tarefas domésticas, porque, em casa, não os podemos obrigar a fazer nada ou somos acusados de exploradores do trabalho infantil com a ameaça dos putos ainda poderem apresentar queixa junto das autoridades policiais.

Ao Sábado, Srª Ministra, podiam ocupá-los com actividades desportivas ou de grupo, teatro, catequese, escuteiros, defesa pessoal…

O ideal mesmo era que os pudéssemos ir buscar ao Domingo, só para não se esquecerem dos rostos familiares.

O meu medo, Srª Ministra é aquela ideia que a minha vizinha Sandrinha, aquela dos três ganapos, comentava hoje comigo. Dizia-me que a Senhora Ministra quer criar o ensino doméstico. Eu acho que ela deve ter ouvido mal ou então confundiu o jornal da SIC com aquele programa da troca de casais do canal 24. Eu acho que isso não vinga em Portugal, porque não temos a extensão de uma América do Norte ou de uma Austrália e, por outro lado, tinha que comprar e equipar os VEI (veículos de educação itinerante), o que iria agravar mais o deficit das contas públicas e o insucesso dos nossos miúdos. Foi isso eu disse à Sandrinha. Acho que ela deve estar enganada. Logo agora, que podemos respirar de alívio porque não temos que nos preocupar com a escola dos garotos, essa ideia vinha destruir tudo, porque os obrigava a ficar em casa para receberem os VEI e aos pais ainda iria ser exigido algum acompanhamento.

A Senhora faça é aquilo que decidiu e não oiça o que os inimigos dos pais e das mães lhe tentam dizer (já agora, lembre-se da minha sugestãozita!). Assim, os professores, com medo da sua própria avaliação, passam a dar boas notas e a passar todos os miúdos e, desta forma, o nosso país varre o lixo para debaixo do tapete, porque é muito feio e incomodativo mostrarmos, lá fora, que somos menos capacitados que os nossos “hermanos” europeus.

Uma mãe e encarregada de educação agradecida

quinta-feira, 13 de março de 2008

Avaliação dos professores: O exemplo da Finlândia


Assistiu-se entre nós a um diálogo extremado entre duas posições antagónicas:

1 - Os sindicatos pretendem que se perpetue o modelo de “avaliação” anterior, que permite a cada professor passar confortavelmente toda a sua carreira sem dar cavaco a ninguém;

2 - O ME quer impor um modelo industrial que tem subjacente a distribuição normal, forçando os professores a distribuir entre si uma quota limitada de “excelentes” e de “muito bons”, situação geradora de conflitos no quotidiano das escolas.

O primeiro cenário é propício à pasmaceira e acomodação dos docentes ao doce fare niente, que desmotiva aqueles que tomem a dignidade da profissão a sério, isto é, para além das palavras de ordem, interiorizando-a no seu quotidiano escolar. Porém o segundo, é um conjunto de escalas semelhantes às que os professores utilizam para classificarem os seus alunos, e que a generalidade deles até pensa que são objectivas, apenas porque lhes permitem objectivar as notas. Ambas realizam a magia de medir o não mensurável, esquecendo frequentemente o que é importante.

Uma forma de nos afastarmos deste diálogo do Terceiro Mundo, é olharmos para um país que é sempre apresentado como referência quando se debatem os resultados escolares internacionais a Matemática. Na Finlândia os professores não andam enrolados em “objectivos individuais” em função do “plano educativo”, blá, blá, blá,... Respondem perante um “principal” que lhes estabelece os objectivos.



Fonte:
http://www.eurydice.org/ressources/eurydice/eurybase/pdf/0_integral/FI_EN.pdf

segunda-feira, 10 de março de 2008

A avaliação de professores e o ciclo político

As reformas em educação exigem tempo para produzirem resultados. A avaliação de professores é evidentemente necessária, mas para o processo ser implementado sem provocar situações injustas, seria necessário equacioná-lo a longo prazo, o que entra em colisão com o ciclo político. No passado dia 8, João Santos chamou a atenção para este aspecto evocando os princípios teóricos de João Freire, numa mensagem que dirigiu ao Director do PÙBLICO.
Os políticos têm outras preocupações. Daria imenso jeito a Sócrates que este dossier não se arrastasse até 2009, e que ficasse resolvido quanto antes. Em resultado dos limites impostos pelo ciclo político, as escolas têm sido alvo da diarreia legislativa do ME. O concurso extraordinário para professores titulares é apenas um exemplo de como se pode fazer depressa, desde que não se acautelem as mínimas garantias de justiça. A uns faltaram uns míseros pontos. A outros saiu-lhes a lotaria, mas não se reconhecem de modo nenhum mais competentes que os colegas.

Transcrevo abaixo o texto de João Santos.




Senhor Director,



Li, com muita atenção e interesse, o artigo do Prof. João Freire hoje publicado no jornal que dirige, sob o título A rua não tem sempre razão. A leitura do Estudo sobre a reorganização da carreira docente do Ministério da Educação, que conheço há cerca de um ano, levou-me a querer participar na sua discussão, o que fiz através de um texto a que tive a presunção de chamar, após o antetítulo com o nome do trabalho, Um exemplo de reconstrução normativa da ‘profissão docente’. Um título excessivamente distante da rua, por certo, posto que logo traduzido, pela pessoa com responsabilidade editorial, por um mais prosaico Mudança por decreto(1), ‘sindical’ e infiel ao meu respeito pelo império da lei e consideração democrática pelo governo legítimo.

Na altura, apesar das, penso que fundamentadas, críticas que lhe dirigi, quis reconhecer ao trabalho de João Freire a qualidade da prudência. Mas eis que hoje, depois de percorrido o artigo atrás citado, me ficou uma dúvida. Em que ponto é que o texto de João Freire ‘não cola’, na sua esforçada tentativa de esvaziar a rua ou, ao menos, o peso político dessa rua que por aí vai? O que é que nele é menos concordante com o pensamento expresso do próprio João Freire, homem que julgo saber prudente e meticuloso? Não, certamente, o modelo de uma carreira piramidal, com múltiplos momentos de avaliação. Não, certamente, o reconhecimento da escassez de evidências empíricas capazes de suportar, sem mais, as propostas que apresentou ao ME em 2005. Nem, também, a sua esboçada posição sobre o modelo de gestão das escolas, que seria de grande interesse reeditar neste momento. Na verdade, de nada disso se tratava, realmente, no artigo de João Freire, mas antes, e tão-só, de nos precaver contra a rua. Então, por que razão me deixou alerta? Não, como é evidente, pela originalidade do argumento. Foi então que descobri.

Em Dezembro de 2005, João Freire era um homem sem pressa. Permita que transcreva da minha própria prosa:

«A transição para a nova estrutura de carreira, e particularmente o acesso dos professores de 8º, 9º e 10º escalão ao estatuto de professor titular, é pensada por JF como um processo em dois momentos: equiparação e titularização efectiva, mediante provas públicas com debate de “port-folio documental e reflexivo” relativo aos últimos 10 anos de carreira, a realizar apenas quando todo o dispositivo de avaliação estivesse montado, i.e., em 2009/10. Ponto relevante, e repetidas vezes sustentado, a rápida obsolescência e irrelevância de juízos avaliativos transactos e, mesmo, de títulos académicos e profissionais» (itálicos meus).

E é precisamente aqui, no que diz respeito a carreiras e avaliação, que as coisas continuam a não bater certo. Ao extraordinário concurso para professor titular segue-se um dispositivo de avaliação digno de um deus enlouquecido, com prazos e modalidades de concretização absurdos, e nisto, justiça lhe seja, João Freire não tem qualquer responsabilidade. Porquê, então, ignorar, neste ‘texto de combate’, as suas próprias, e sábias, palavras, se elas vão direitas ao coração da rua, ao cerne da motivação - anómica, conceda-se - desta rua? Referindo-se ao processo de transposição e incorporação das medidas que propunha para as organizações educativas, João Freire dizia:

«Aqui apenas desejamos chamar a atenção dos responsáveis para dois ou três preceitos simples: − A grande escala dos dados em presença (números de docentes e de alunos) torna por vezes decisiva a fixação de um pormenor; − A responsabilidade dos “negociadores” deve estar menos ligada à sua capacidade de ameaça conjuntural presente (pressão ou retaliação) mas sobretudo aos efeitos de médio/longo prazo sobre a dinâmica dos sistemas em causa; − A representação colectiva de interesses e a assunção de determinados valores tem de ser escrutinada não apenas num “balanço económico” de custos e ganhos internos, mas também num conjunto sistémico que engloba todos os actores em presença (vide a conhecida imagem daqueles que serram o ramo em que estão assentes)» (Estudo, p. 105).

Por tudo isto – lição de João Freire – se torna particularmente incómoda a sugestão de que há uma categoria de trabalhadores que devem esconder de si próprios a sua, ainda não inteiramente delinquente, condição de assalariados, ao mesmo tempo que se vai brandindo aos quatro ventos as respectivas insuficiências e a absoluta necessidade de lhes corrigir os defeitos, praticando, sempre, o vício intelectual da amálgama: «os professores» (Vital Moreira, Público, 4.3.08). A rua não tem sempre razão. Nem o governo. Nem o secretário-geral do meu partido. E outras vezes têm. Mas há uma categoria de cidadãos que certamente nunca tem, por deformação moral e cívica incorrigível: os zelotas que por aí vão pululando e que o comentário frívolo, maniqueu e tauromáquico conforta. E esses, Senhor Director, não lêem João Freire, tanto o João Freire desta manhã como o intelectual tranquilo e humilde que, seguro da importância do que propunha (basta lê-lo), se esqueceu, há 3 anos, de que era preciso ‘pô-los na ordem’ até às eleições de 2009. Apenas porque isso é funcionalmente requerido pela disputa dos votos do centro, esse outro lado da rua de que ninguém quer falar. Ou por uma ilusão de reforma. Por quase mais nada.

Cordialmente,

João Santos

(1) Jornal de Letras nº 969, 21 de Novembro a 4 de Dezembro.

domingo, 9 de março de 2008

As pessoas têm o direito de se manifestar...

  • As pessoas têm o direito de se manifestar. Mas era o que faltava se a acção governativa dependesse agora do nível das manifestações. Quem determina a acção governativa são os portugueses quando escolhem o governo. É bom que não nos esqueçamos disso.
    José Sócrates


Já sabemos que o PS não tem oposição. Falta saber até quando os barões do PS suportarão Sócrates.

O Regresso do Morto-Vivo (ou como a IA me obrigou a trabalhar na reforma)

 Quem me conhece sabe que, no ano passado, arrumei definitivamente os manuais, fechei o giz no armário e decretei a merecida a...