Se a riqueza da Europa fosse um bolo: 50% da população estaria a disputar as migalhas (1,6%), enquanto 10% da mesa devora mais de dois terços do bolo — com o topo 1% a ficar, sozinho, com quase um terço de tudo.
Há dias em que a caridadezinha de serviço e os apóstolos do livre mercado sem travões acordam em sobressalto, sobressaltados com o espectro do «Limitarismo». «Valha-me Deus, querem acabar com a minha sagrada e esforçada capacidade de acumular o meu 15.º bilião!», grita o multimilionário de serviço, entre uma garfada de caviar e uma vista d’olhos nos mapas de navegação do seu jacto privado.
Acalmem-se. Ninguém está a tentar cortar a mesada a quem ganha a vida a trabalhar. O que a apresentação «Limitarismo: O Tecto da Riqueza» propõe é simplesmente um bocadinho de higiene económica e de lucidez civilizacional.
Senão veja-se o escândalo das evidências:
A Eficiência Económica (ou a mania de querer pôr o dinheiro a circular): É preciso um desplante enorme para lembrar que um euro adicional no bolso de quem ganha o salário mínimo serve para comprar pão, livros e pagar a luz, ao passo que o mesmo euro no bolso do topo 1% serve apenas para engordar uma conta num paraíso fiscal. Aparentemente, chamar a isto «baixa propensão marginal ao consumo» e preferir uma economia real dinâmica em vez de um motor entalado com gordura financeira é uma audácia desmedida.
A Equidade (e o mito do «Self-Made Man» que nunca dorme): Ainda há quem acredite, piamente, que acumular dezenas de milhares de milhões é fruto de trabalhar 800 horas por dia. O facto de a sorte geográfica, a herança familiar, a genética e os monopolismos de mercado contarem mais do que o esforço puramente individual é um detalhe chato que a narrativa meritocrática prefere ignorar. Limitar as disparidades salariais entre CEOs e trabalhadores e redistribuir lucros? Que afronta!
A Estabilidade Macroeconómica (o vício da captura): Estranho, também, é ver o FMI — esse perigoso antro de esquerdistas radicais — a avisar que a desigualdade extrema estagna o crescimento e sufoca a economia. Mas claro, nada garante melhor a estabilidade do que deixar o excesso de capital converter-se em poder político de lóbi, compra de comunicação social e controlo das regras do jogo.
A Sustentabilidade do Planeta (o carbono de uns poucos contra o ar de todos): E para fechar com chave de ouro, a ecologia. Se um cidadão comum emite umas modestas 8 toneladas de CO2 por ano, o topo 1% gasta uma média de 101 toneladas, havendo quem atinja confortavelmente as 8000 toneladas anuais a passear de jacto e iate. Mas a culpa do aquecimento global, como todos sabemos, é do utilizador que se esqueceu de separar a palhinha do sumo.
Para quem quiser perceber como a introdução de um tecto à riqueza extrema não serve para punir o sucesso, mas sim para garantir que a democracia e o planeta sobrevivem à voragem da acumulação infinita, deixo o convite para aprofundarem o tema.
Valerá a pena ler a apresentação completa «Limitarismo: O Tecto da Riqueza». Quem sabe se não descobrem que ter um chão digno para todos exige, afinal, que a casa tenha um tecto.