sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Do Panteão à marca registada: a metamorfose da camisola 7

A grande vantagem de se ser uma marca global é que a realidade do campo passa a ser apenas um detalhe decorativo. Há já mais de 16 anos — digamos, sensivelmente desde o episódio de 2010, na África do Sul: “Fale com o Carlos Queiroz” — que a camisola número 7 da Selecção funciona mais como um valor activo do balanço financeiro e um contrato de direitos de imagem do que como uma escolha de rendimento desportivo.

Acontece que o futebol, na sua teimosia táctica, continua a insistir em jogar-se com 11 elementos que correm, pressionam e aceitam as ordens de quem está no banco.

Jorge Jesus, especialista em colocar a utilidade do colectivo acima de qualquer estatuto, cometeu o sacrilégio de o deixar 45 minutos a aquecer na linha lateral em Copenhaga. Para o jogador comum, o aquecimento serve para entrar em jogo. Para um produto corporativo com jacto privado à porta, 45 minutos de corrida de aquecimento sem chamada ao relvado é uma clara quebra de contrato.

Golos de bicicleta e momentos de antologia: gestos técnicos que começam a ficar ensombrados pela gestão do final de carreira.

A comparação com o passado torna-se inevitável e dolorosa. Quando Eusébio perdeu o seu fulgor e a capacidade de fazer a diferença em campo, não exigiu avenças de titularidade nem ameaçou sair do palco. Manteve-se como embaixador afectivo do futebol português, um símbolo de união, simplicidade e amor à camisola que o tempo encarregou de guiar até ao Panteão Nacional. Já Ronaldo prefere a lógica da multinacional: quando a utilidade desportiva se esgota, activa-se o protocolo de evacuação imediata no jacto privado.

Pelo caminho, enlameiam-se belas memórias e momentos de pura plasticidade — como os golos de bicicleta que outrora paravam o País e arrancavam aplausos em qualquer estádio do Mundo —, reduzindo monumentos do desporto a notas de rodapé de um ego ferido.

A Selecção venceu a Dinamarca por 4-2, demonstrando a estranha teoria de que dez jogadores no relvado a correr produzem mais do que um monumento no ataque. O capitão promete agora contar «a sua verdade» a seu tempo. Ficamos a aguardar o comunicado oficial ao mercado, de preferência em formato de webinar ou através de uma publicação patrocinada nas redes sociais.

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