sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A estatística do pirilampo e a vertigem do click

Há uma venerável tradição no jornalismo moderno que consiste em olhar para o mundo através do buraco de uma fechadura e, acto contínuo, anunciar ao país que o horizonte desapareceu.

O Professor Luís Aguiar-Conraria assinou no Expresso um texto exemplar sobre esta curiosa arte de fabricar o apocalipse à semana. O enredo é simples, quase bucólico: as candidaturas ao ensino superior atrasaram-se um par de dias por mor de um percalço informático na emissão das fichas ENES. Nada que perturbasse o destino do mundo ou a contagem final dos prazos — que, para cúmulo, até eram mais longos este ano.

Porém, para a nossa imprensa sequiosa de drama, um atraso burocrático de quarenta e oito horas não é um contratempo: é uma tragédia nacional. Em menos de nada, lá surgiram as manchetes catastróficas a proclamar que o país tinha deixado de querer estudar. Ao quinto dia, já se contabilizavam quedas vertiginosas de 63% e se encomendavam exéquias à juventude portuguesa.

Marshall McLuhan explicou-nos, há meio século, que o meio é a mensagem. Tinha razão, mas pecou por escassez. Hoje, o meio não é apenas a mensagem: é uma vertigem. A imprensa já não informa sobre a realidade; compete com ela em velocidade. E nessa corrida desenfreada pelo clique imediato, um facto completo e contextualizado é um obstáculo imperdoável. A notícia tem de ser rápida, quente e, sobretudo, assustadora. Se a realidade recusa cooperar com a catástrofe, pior para a realidade: ajusta-se a escala, isola-se o primeiro dia da contagem e serve-se o pânico em bandeja de prata.

Seguiram-se, como era inevitável, os habituais doutores da mula ruça, prontos a explicar a "crise" com teorias de profundidade abissal: a demografia, o preço das casas em Lisboa, a desvalorização dos diplomas e a sociologia do desalento. Ninguém ousou olhar para o óbvio — a mudança das regras dos exames e um simples relógio burocrático. Para quê a simplicidade dos factos quando se pode ter a sumptuosidade de uma boa teoria do caos?

A verdadeira notícia — a de que as candidaturas estavam, afinal, a subir e a recuperar — ficou na gaveta. Afinal de contas, "tudo corre dentro da normalidade" é uma manchete que não vende jornais, não gera shares e, pior do que tudo, obriga a pensar antes de escrever. E pensar, nos tempos que correm, é um luxo que o algoritmo não tolera.

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A estatística do pirilampo e a vertigem do <em>click</em>

Há uma venerável tradição no jornalismo moderno que consiste em olhar para o mundo através do buraco de uma fechadura e, acto contínuo, anun...