segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Um sistema político podre


Já passou uma semana desde que rebentou o Lisboagate (caso da distribuição arbitrária de casas em Lisboa pela CML) e nenhum dos líderes políticos se referiu ao assunto. PSD e CDS não podem tocar no assunto porque comem da mesma gamela que o PS. E o Partido Comunista? E o Bloco de Esquerda? Porque será que não aproveitam a oportunidade para darem um ar da sua graça? Todos têm receio que seja divulgada a lista dos beneficiários, ninguém luta pela transparência.

Ana Sara Brito,
sem vergonha, não vê qualquer incompatibilidade entre o exercício de funções públicas e o usufruto de uma casa por 146 euros mensais quando declara em sede de IRS 46.000 euros anuais. E ainda tem lata para falar em valores éticos...

Os partidos desapareceram, e onde estão as instituições democráticas?

Onde está o Presidente da República?

Onde está o Procurador?

O Governo continua fazer propaganda como se nada se passasse.

Este arbítrio não é crime para chegar aos Tribunais?



Chego a ter vergonha de viver neste país.



Para evitar que o caso seja esquecido, o blogue passará a exibir o Contador Lisboagate.



Há quem devesse ter vergonha dos sem-abrigo, mas tem abrigos sem vergonha.
Jornal de Negócios, 29 de Setembro de 2008

sábado, 4 de outubro de 2008

A domesticação dos professores


Manifestações como a de 8 de Março certamente não voltarão a repetir-se, mas isso não significa que os docentes tenham hoje menos motivos, apenas foram domesticados.

De educação a imagem que o Governo tem não pode dissociar-se do perfil académico do Primeiro-Ministro. Pi.

Milu observa a educação do ponto de vista da Sociologia barata interessando-se pelas estatísticas. Até concordo consigo quando à não obrigatoriedade do 12º ano, nas não devido ao sucesso das Novas Oportunidades criadas ao estilo socratiano. Como socióloga deveria levar em consideração os estudos sociológicos, designadamente de Basil Bernstein, que demonstram que o investimento do Estado seria mais produtivo se apostasse na entrada das crianças do ensino infantil antecipando a sua entrada na escolaridade obrigatória em dois anos. Nas nenhum político pega neste tema porque em termos de marketing político o 12º ano é muito mais vistoso para a generalidade dos eleitores.

Milu conseguiu domesticar os professores com uma espécie de sociologia orçamental assente em suas premissas fundamentais: (1) dar cada vez mais trabalho aos docentes independente da sua utilidade pedagógica, pois o objectivo é o massacre; (2) criar condições excepcionais de reforma aplicáveis a quem se encontra perto da meta.

Tenho que elogiar a Ministra da Educação que com a invenção do 11º escalão retirou argumentos a quem estava no 10º para não ser avaliado. Entretanto também lhes criou um quadro legal mais favorável à antecipação da reforma como escapatória de fuga. Esta via será a escolhida pela brigada do reumático, que já iniciou a sua contagem decrescente para abandonar as escolas e portanto não adianta manifestar-se porque o pior ficará para os colegas. Os mais novos até vão beneficiar dos lugares que assim irão ficar abertos… E os ensanduichados entre os que os saem e os que entram têm oportunidade para ficar relativamente melhor posicionados na escolha do seu horário. Bem vistas as coisas até foram distribuídos rebuçados a todos, e ME assegurará o mesmo serviço gastando menos dinheiro! Ganharam os contribuintes à custa da sobrecarga de trabalho dos professores, mas pelos motivos que expliquei a manifestação de 8 de Março não se repetirá.

Para a semana tenho marcada uma reunião para segunda-feira, outra para terça, outra para quarta... Não é nenhuma semana especial. Tem sido e vai continuar assim. Apetece-me gritar DEIXEM-ME TRABALHAR!

Quando é que começam a utilizar a Internet como ferramenta de trabalho colaborativo na escola? Já sei que os Velhos do Restelo ficaram a rir-se com esta pergunta, mas não desistirei.

Como contribuinte, até apreciaria as poupanças orçamentais de Milu com os professores, se não se desse o caso de o Governo ter desbaratado muito mais recursos com os políticos. Motivos de descontentamento não faltam ao aos professores.


Escrevi isto a propósito de um artigo publicado na Visão que vale a pena ler.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A hipocrisia dos moralistas num sistema podre


Escrevem muito bem e dão sempre grandes lições de moral, até que se descobre que o telhado era de vidro: Baptista-Bastos, mais um artista português.

Gostei de ler o seu ARGUMENTO DA HONRA a propósito da reforma de Eanes, mas a seguindo a mesma lógica, como não acredito que um escritor e jornalista viva propriamente em circunstâncias miseráveis, que justifiquem o apoio estatal, considero que deveria repor o dinheiro que indevidamente arrecadou, pela renda que não pagou. Pelo que disse ao EXPRESSO não será esta a sua intenção.

  • Baptista-Bastos e o mistério da Estrada da Luz
    Há 14 anos a CML atribuiu ao escritor e jornalista Baptista-Bastos um andar em Benfica, na Estrada da Luz, era Jorge Sampaio presidente da autarquia e João Soares vereador da Cultura. “Não há aqui prendas. A casa que alugava há 32 anos em Alfama estava a cair, eu tinha três filhos e não tinha meios. Escrevi à presidência a pedir uma casa”. Garante que a sua situação económica foi avaliada e que foi celebrado um contrato de arrendamento, que se mantém. “Quanto pago é privado”. E conta como sempre fora prática comum a atribuição de casas a jornalistas e artistas. Nos anos 80, foi chamado à CML por Abecassis. “Tinha uma casa para mim. Disse-lhe que não. Quando precisei pedi”. Na altura em que se mudou para Benfica, comprou casa em Constância.
    E-EXPRESSO (Assinatura) 27.09.2008


Se sempre foi prática atribuir uma casa a jornalistas e artistas, privilégio que como simples contribuinte desconhecia, então a CML deve publicar uma lista completa com o nome de todos os bobos da corte. É injusto o Baptista-Bastos ficar com o “azar” da denúncia, mas pior ainda é saber que há mais 3.200...

O argumento da honra exige que o passo seguinte seja o fim dessa prática terceiro-mundista. Se quisermos construir um país moderno, temos de nos relacionar de modo transparente. É preciso que o Estado institua regras conhecidas e respeitadas por todos.

  • Há mais de 30 anos que o esquema existe e, normalmente, tem sido o vereador da Habitação, ou os seus serviços - quando não o próprio presidente da Câmara -, a conceder aquelas habitações de forma directa. A gente pobre, mas também a amigos, a artistas, a familiares, a correligionários.
    A média das rendas cobradas é de 35,48 euros,
    mas ninguém sabe ao certo qual a percentagem das que são pagas.
    Estas casas - palácios, moradias, apartamentos, lojas - fazem parte do chamado Património Disperso e, segundo um estudo da Universidade Lusófona, “a CML não sabia, nem sabe, do que é dona”.
    EXPRESSO (Assinatura) 27.09.2008


Se a situação perdura à 30 anos, isso significa que já todos os partidos com possibilidades de chegar ao poder partilharam este bolo. Não posso deixar de perguntar porque é que só agora surge a denúncia. É uma clara demonstração de que o sistema político está podre.

A mão-invisível do mecanismo dos preços foi substituída pela teoria do "olhamento", curiosa expressão para referir o arbítrio nas regras:

  • Os abusos na atribuição de casas pela autarquia eram, afinal, justificados pelas melhores razões: do Presidente da República à esposa do primeiro-ministro, todos metiam cunhas e pediam casas, mas sempre a favor do pobrezinho desamparado. A cunha, boa parte das vezes, não beneficia directamente o próprio e é feita com o argumento de reparar uma injustiça. O problema é que, sem a existência de regras claras e justas, passa a haver uma espécie de fotogenia da pobreza: beneficiam aqueles que melhor comoverem os poderosos. Claro que atrás do pobre vem o motorista do Presidente que mora longe, coitado, e atrás do motorista vem a funcionária que se divorciou e não tem para onde ir, e atrás da funcionária vem o filho da funcionária, que também é filho de Deus.
    O CASO 'LISBOAGATE' E A CULTURA DA CUNHA, Diário de Notícias, 30.09.2008



Haverão regras mais claras e justas que cada qual pagar a casa que habita?

sábado, 13 de setembro de 2008

Fantasias estatísticas da educação e do sucesso escolar


O que medem os números? Querem impor-me realidades com as séries estatísticas? Escrevo este post para registar que o que sinto no terreno difere muito do mundo maravilhoso que os números do ME sugerem.

  • Os resultados escolares de 2007/2008 apresentam uma melhoria acentuada em todos os ciclos de ensino, consolidando o patamar já alcançado no ano lectivo anterior, indicam os dados provisórios apurados pelo Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação relativos às taxas de retenção e de desistência. Os valores divulgados são os mais baixos dos últimos 12 anos. www.mim-edu.pt


Se houvesse uma melhoria acentuada do nível cognitivo em todos os ciclos de ensino, eu não poderia contar historietas, como a que decorreu esta semana numa turma do ensino secundário:

- Quanto dá 500 a dividir por 1.000?
- ... 100
- ... 500
- ... 1.000
- Na máquina dá 0,5!
- OK. A máquina está certa!

Naturalmente, todos os alunos desta turma contribuíram para o sucesso estatístico que o ME contabilizou!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Médicos chegam a receber 2500 euros por dia


  • Há médicos que ganham 2500 euros numa urgência de 24 horas num hospital público, quando contratados por empresas privadas. Alguns pertencem ao quadro da unidade de saúde, onde fazem o “banco” através da empresa.


Com a alteração do Estatuto da Carreira Docente o Governo reduziu o vencimento dos professores, visto que estes até passaram a dar aulas gratuitamente, absurdamente integradas na componente não lectiva. Como já pouparam uns trocos, podem pagar num dia a um médico, mais do que a um professor num mês...

A subcontratação é o caminho indicado para um Estado pequeno ficar mais caro e menos eficiente que um maior, maior barato e mais produtivo.

sábado, 6 de setembro de 2008

Gramática das Novas Oportunidades


Esta gramática é um guia para descodificação do vocabulário associado aos cursos EFA do Ensino Secundário, na perspectiva de quem vai leccionar STC, Sociedade, Tecnologia e Ciência. Uma espécie de cábula de um novato que agora entra nestas lides, e que não deverá ser tomada como referência por ninguém.

O mais importante para descodificar a retórica das Novas Oportunidades é ter presente os seus princípios orientadores, a sua filosofia. Os formandos – foi suprimida a expressão alunos do seu léxico - dirigem-se à escola porque "aprender compensa"... Presume-se que as pessoas já têm competências que a escola não lhes reconheceu, e cabe aos formadores – também é interdita a expressão professores - organizarem o ensino de modo a que o adulto revele as competências que se encontram ocultas em si.

“As situações de vida do adulto constituem o ponto de partida e motor da desocultação, evidenciação e validação das competências; elas constituem igualmente motor do desenvolvimento dos percursos formativos assentes em competências chave” (RCC, p. 25). Para conseguir este desiderato os formadores/facilitadores/organizadores jamais deverão pensar sequer na realização de qualquer teste. Esta técnica está interdita porque é incompatível com a estratégia de desocultação dos conhecimentos. Em alternativa serão utilizadas “abordagens auto-biográficas a trabalhar com os candidatos, a realização de exercícios de balanço de competências, a construção de portefólios reflexivos de aprendizagens, e o recurso a outras técnicas e estratégias de aproximação aos adultos e de desocultação das competências a evidenciar” (GO, p. 13).

O objectivo do programa Novas Oportunidades é certificar até 2010 um milhão de pessoas com o 9º ano de escolaridade, e 650.000 em cursos de dupla certificação ao nível do 12º ano (Relatório da OCDE, Junho de 2008, p. 136).


A distância social medida pela diferenciação dos saberes académicos é muito maior que aquela a que se chegará se medirem as diferentes tarefas que são capazes de executar, ou competências-chave.


Domínios de Referência para a acção:
DR1 – Contexto privado
DR2 – Contexto profissional
DR3 – Contexto institucional
DR4 – Contexto macro-estrutural


Dimensões das competências:
Social (sociedade)
Tecnológica ( tecnologia)
Científica (ciência)


Núcleos Geradores: 7 áreas transversais às diversas disciplinas:
1. Equipamentos - princípios de funcionamento
2. Sistemas ambientais
3. Saúde – comportamentos e instituições
4. Relações económicas
5. Redes de informação e comunicação
6. Modelos de urbanismo e mobilidade
7. Sociedade, tecnologia e ciência – fundamentos



Critérios de Evidência: Do cruzamento das três Dimensões das Competências (Sociedade, Tecnologia e Ciência) pelos quatro Domínios de Referência (Contexto privado, Contexto profissional, Contexto institucional e Contexto macro-estututal) resultam os Temas. Para cada Tema são propostos ao formando três objectivos com dificuldade crescente: Tipo I, II e III, que se designam Elementos de Complexidade.

Elementos de Complexidade:
· Tipo I... - Identificação
· Tipo II.. - Compreensão
· Tipo III. - Intervenção


Se identificou e compreendeu e já evidenciou aquisição de competências... Pode não lhe ter apetecido intervir ;)

Sendo a avaliação qualitativa, o formando pode obter o máximo de 84 “certos” quando conquistam um DR, por verificação dos critérios de evidência. Chega-se ao 84 no conjunto dos 7 Núcleos Geradores, desdobrados em 3 dimensões e 4 DR’s. 7 x 3 x 4 = 84. Para concluir o curso precisa de validar metade destes, ou seja, 42.

Não há programas. O mais próximo desse conceito é o Referencial de Competências-Chave.   Backup

Eis os Temas de STC:


No Ensino Secundário todas as UFCD são de 50 horas. Devem ficar completas após 67 tempos de 45 minutos (33 com um professor, 34 com outro).

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A Escada Social Tecnográfica


JOSH BERNOFF é um dos mais citados analistas americanos na área das tecnologias da informação. Josh tem sido analista de mercado e é actualmente vice-presidente da Forrester Research.

Criou a segmentação Tecnográfica, com a qual visa uma compreensão mais profunda das pessoas, como usam a tecnologia, e como esta afecta os negócios.

A sua classificação foi construída para analisar o consumo, mas não resisto a copia-la para aqui, e cada qual será responsável pelas suas extrapolações.





Na sua metáfora da escada descreve seis níveis de familiaridade com as tecnologias:

  • Criativos: publicam conteúdos sociais. Escrevem blogues, fazem o upload de vídeos, música ou textos.
  • Críticos: respondem aos conteúdos dos outros. Postam nas revistas, nos comentários dos blogues, participam nos fóruns e editam artigos wiki.
  • Coleccionadores: organizam conteúdos para si próprios ou outros utilizando feeds RSS, tags, e votando em sites como o Digg.com.
  • Membros: ligam-se a redes sociais como o MySpace e o FaceBook. Em Portugal tem maior expressão o Hi5.
  • Espectadores: consomem conteúdos sociais, incluindo blogues, vídeos, podcasts, fóruns ou revistas.
  • Inactivos: nem criam nem consomem conteúdos sociais de qualquer tipo.


JOSH BERNOFF explica a sua metáfora da escada numa apresentação, do blogue que escreve em parceria com CHARLENE LI.

Qual o peso relativo das categorias acima apresentadas? Como variam por grupos etários? Como variam por géneros? Para responder questões destas utilize o Profile Tool.

O Regresso do Morto-Vivo (ou como a IA me obrigou a trabalhar na reforma)

 Quem me conhece sabe que, no ano passado, arrumei definitivamente os manuais, fechei o giz no armário e decretei a merecida a...