quinta-feira, 22 de maio de 2008

A construção estatística das crises económicas

Em grande parte a referência quotidiana às crises económicas resulta da afirmação do jornalismo como novo produto de consumo. O ardina que vendia jornais no meu bairro apregoava sempre “Olha o desastre!”, mesmo que os jornais nesse dia não fizessem referência nenhum. Era a sua técnica de marketing. Os jornalistas de economia precisam de anunciar, descrever, falar de crises, porque a sua profissão vive delas.

Trata-se de um trabalho que pode ser feito com maior ou menor seriedade, mas o mundo dos blogues obriga também o círculo relativamente fechado dos especialistas a abrirem-se a outros olhares. Vêm isto a propósito de um post que chama a atenção para um aspecto – o 4º trimestre de 2008 teve mais 3 dias úteis que em 2007 - que terá passado despercebido entre a generalidade dos analistas, tornando as estatísticas portuguesas incomparáveis com as da União Europeia, só porque o INE não adopta a mesma metodologia dos seus congéneres, invocando a complexidade do processo.

Fonte: Síntese Económica de Conjuntura - Mensal - Abril de 2008

"Não haverão países "pobres" - só países ignorantes. E o mesmo será verdade para os indivíduos, as empresas, as indústrias e todos os tipos de organizações", disse Peter Drucker.

O que confere validade às estatísticas não é cada indicador calculado isoladamente, mas a rede de equivalência que se estabelece entre os diversos indicadores da rede estatística. Descoberta uma falha, os autores do post colocam naturalmente em causa todo o sistema: o INE, os jornais, designadamente os especializados, os economistas profissionais, a oposição, o Governo...

Concluem que...




Concordo.

7 anos depois, José Sócrates foi condenado

Fica registado.

  • O primeiro-ministro José Sócrates foi condenado, na semana passada, pelo Tribunal da Relação de Lisboa, a pagar 10 mil euros por danos não patrimoniais causados ao jornalista do "Público" José António Cerejo.
    Em Março de 2001, José Sócrates, então ministro do Ambiente, escreveu uma carta publicada no Público em que acusava o jornalista de ser "leviano e incompetente" e acusando-o de servir "propósitos estranhos à actividade de jornalista".
    EXPRESSO, 21/MAIO/2008

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Ridículo: Prédio no valor de 38 mil euros penhorado por divida de 75,43 euros

A eficácia da máquina fiscal é exemplar.

  • A Direcção-Geral dos Impostos (DGCI) penhorou e colocou à venda dois imóveis, cujo valor patrimonial é superior a 38 mil euros, a um contribuinte com uma dívida de 235,88 euros. Deste montante, no entanto, apenas 75,43 euros correspondem ao não pagamento da contribuição autárquica e o restante diz respeito a acréscimos legais, como juros de mora e custas do processo.
    Jornal de Negócios, 21/Maio/2008


Que justiça é esta? É o cumprimento da lei para quem não conhece nenhum politicu daqueles que se atropelam pelos corredores do poder para nos sacar os cobres.

Este episódio é ainda mais anedótico se tivermos em consideração que a antiga Contribuição Autárquica (CA) chegava até nós em facturas do SMAS, que não se distinguiam daquelas que pagamos regularmente pelo consumo de água. Estou a imaginar a situação de um indivíduo prático e distraído. Como é prático tem tudo a pagamento por transferência bancária, porque pode dar-se ao luxo de não se preocupar com as contas. O problema é que a CA não foi “cair” na sua conta bancária, era necessário fazer o pagamento por MultiBanco. Como é distraído alguns papéis podem ir para o lixo mais rapidamente do que deviam ;) Um ano não pagou a CA e saiu-lhe o jackpot acumulado!

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Futebol, Fados e Fátima

Tudo vai bem no país dos 3 F's.
O futebol é o desporto nacional de bancada. Se fosse uma indústria seria certamente o sector de actividade mais importante em termos do seu contributo para o PIB, em razão dos salários milionários pagos aos jogadores.
O fado é a canção nacional, melancólica, que representa o estado de espírito típico dos portugueses.
Fátima representa a desistência de lutar - trabalhando - por uma vida melhor. Os portugueses preferem esperar pelos milagres da Nossa Senhora, porque é mais cómodo que definir e tentar atingir objectivos realistas.

Num país adormecido os indivíduos até acham "natural" que o autor da lei de perseguição aos fumadores possa fumar! E ele tem justificações para tudo.
  • «Estava convencido que não estava a violar nenhuma lei nem nenhum regulamento. Infelizmente há essa polémica em Portugal e eu quero lamentar essa polémica. Se por algum motivo violei algum regulamento, alguma lei, lamento e peço desculpa, não voltará acontecer», declarou o primeiro-ministro, que anunciou também que iria deixar de fumar em definitivo. Diário Digital / Lusa, 14-05-2008


Sócrates lança grandes obras públicas que frequentemente revelam não servir para nada, a não ser para alimentar o lobby da construção civil, como os estádios do Euro 2004, que agora não têm utilização, no país do futebol de bancada.

No fado não se tem dado pelo florescimento de muitas estrelas, mas contando com outros géneros musicais certamente que nunca terá sido tão fácil gravar um CD. Os artistas do futebol e da música são utilizados em campanhas publicitárias para promover a imagem do país, como na criada por Pedro Bidarra, da BBDO, Portugal - Europe's West Coast.
Backup de Portugal - Europe's West Coast


Fátima ofereceu a Licenciatura ao especialista em Marketing. A trapalhada foi de tal calibre que não encontrou outra solução que poupasse o encerramento da Universidade. Uma vez que conseguiu resistir a essa fraude, adquiriu imunidade para outras palhaçadas, como esta, que vão dando para a malta se divertir.

Sabem porque é que não se pode fumar nos aviões?

- Porque o exemplo tem de vir de cima.

China: Um exemplo da pluralidade de justificações que apresentamos em função das situações

Texto 1
A China ocupa o segundo lugar na lista dos maiores exportadores do mundo, e arrecada o terceiro quando se fala em países importadores. Só em 2007, o volume de exportações da União Europeia para o gigante asiático chegou aos 48 mil milhões de euros. Em Portugal, a Associação Comercial e Industrial Luso-Chinesa assegura que há 20 mil chineses legalizados, 5 mil estabelecimentos comerciais e 400 restaurantes. Imparável, a China conquista o Mundo debaixo de um coro de protestos - pelas metrópoles por onde passou a tocha olímpica, não faltaram palavras de ordem contra os alegados crimes praticados por Pequim contra os Direitos Humanos...
http://clix.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/315577

Texto 2
Quando acordei quis saber que horas seriam. Não que tivesse alguma coisa importante marcada, mas é aquele hábito humano quase irresistível do «ter de saber as horas». Foi quando me lembrei que no dia anterior tinha banido todos os relógios do meu quarto, por serem fabricados na China. O primeiro desafio desta aventura foi, pois, saber a que horas andava - e eu já tinha posto de lado telemóvel e computador. Embora o telemóvel tenha sido fabricado na Finlândia, a bateria e respectivo carregador foram feitos na China, o que constituiu, aliás, o grande problema para o substituir por outro. O mesmo se passou em relação ao computador e respectivo rato. Liguei a televisão, estava a dar um dos noticiários das 10h, o problema de saber as horas estava resolvido. Escolher o que vestir hoje foi frustrante, pouca coisa no meu roupeiro escapou à invasão chinesa. Da minha roupa interior quase nada resta, o blusão para o frio foi banido, casacos de malha igual a zero, camisas o mesmo, algumas calças de ganga escaparam... acabei por me vestir «made in India», o que incluiu uma camisola da minha mãe. A melhor notícia do dia foi… todos os meus sapatos são de países diferentes e nenhum é chinês. A pior notícia: tenho urgentemente de ir às compras.
Fonte: Diário de uma Estudante, que resistiu aos produtos chineses durante um mês, EXPRESSO/Assinatura, 10/MAIO/2008

Admitindo a complexidade da realidade, e a facilidade das pessoas em justificarem as suas acções em função de cada situação, compreendem-se situações aparentemente contraditórias. A oposição política à China a propósito da violação dos Direitos Humanos, convive muito bem as “oportunidades de negócio” com a China e os seus produtos baratos. Não há racionalidade económica que explique a pluralidade de justificações que mobilizam os seres humanos nos mais variados contextos.

O "eu-que-vai-às-compras" não suportaria sistematicamente a tirania do "eu-político"...
Escrevi pluralidade no título porque de facto nem sei quantos "eus" cada um de nós tem: depende da situação... Pelo menos quando decidimos divertir-nos deixamos num plano secundário a vertente política e a económica, emergindo uma espécie de "eu-divirto-me" ;) Também não me divirto lá grande coisa se der muita atenção ao "eu-ecologista", que me pede para deixar o carro na garagem...

terça-feira, 13 de maio de 2008

Multado por não consumir gasolina/gasóleo

Neste país tudo é possível.

  • "A Direcção-Geral das Alfândegas e Impostos fez um cálculo aos combustíveis fósseis que deixei de consumir por ter tornado a junta auto-suficiente através da produção de bio-combustível", disse Joaquim Casado. "Irei até aos últimos trâmites para não pagar um imposto que considero injusto".PÚBLICO, 09.05.2008


Pensavam que reciclar os óleos era uma atitude exemplar?
Ainda não perceberam que o Sol, quando nasce, não é para todos? A lógica das finanças é deixar instalar painéis solares agora, para multar depois ;)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

É escandaloso que um gestor receba num mês o mesmo que um trabalhador em 13,7 anos! (*)

Quando Helena Garrido procurava apresentar argumentos na esfera da racionalidade económica para justificar tamanha discrepância, não conseguiu melhor que o recurso à metáfora da água e dos diamantes. Foi obrigada a recorrer à metáfora precisamente porque não tem argumentos no âmbito da racionalidade económica.

O termo de comparação para os administradores portugueses, quando pensam no seu ordenado, são os administradores alemães, independentemente da produtividade das empresas. Já quando “estudam” os salários dos trabalhadores têm que ter necessariamente em conta a “produtividade das empresas”... Como resultado Portugal continua a desenvolver uma repartição do rendimento terceiro-mundista que cada vez mais nos envergonhará no contexto da União Europeia.

Luc Boltanski explica que os seres humanos convivem bem com uma multiplicidade de justificações contraditórias entre si, que seleccionam em função da situação em que se encontram.
Mais um exemplo. O protesto contra o desrespeito dos Direitos Humanos na China também convive muito bem o crescente consumo dos produtos chineses... não dá jeito nenhum pensar na política quando vamos às compras, não é?




(*) As contas são simples. http://vistodaeconomia.blogspot.com/ indica que o salário médio da administração foi, o ano passado, 164,1 vezes a remuneração média dos outros trabalhadores, no caso da Sonae SGPS - liderada por Paulo Azevedo, filho de Belmiro de Azevedo. 164,1/12=13,7.

O Regresso do Morto-Vivo (ou como a IA me obrigou a trabalhar na reforma)

 Quem me conhece sabe que, no ano passado, arrumei definitivamente os manuais, fechei o giz no armário e decretei a merecida a...