sexta-feira, 16 de maio de 2008

China: Um exemplo da pluralidade de justificações que apresentamos em função das situações

Texto 1
A China ocupa o segundo lugar na lista dos maiores exportadores do mundo, e arrecada o terceiro quando se fala em países importadores. Só em 2007, o volume de exportações da União Europeia para o gigante asiático chegou aos 48 mil milhões de euros. Em Portugal, a Associação Comercial e Industrial Luso-Chinesa assegura que há 20 mil chineses legalizados, 5 mil estabelecimentos comerciais e 400 restaurantes. Imparável, a China conquista o Mundo debaixo de um coro de protestos - pelas metrópoles por onde passou a tocha olímpica, não faltaram palavras de ordem contra os alegados crimes praticados por Pequim contra os Direitos Humanos...
http://clix.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/315577

Texto 2
Quando acordei quis saber que horas seriam. Não que tivesse alguma coisa importante marcada, mas é aquele hábito humano quase irresistível do «ter de saber as horas». Foi quando me lembrei que no dia anterior tinha banido todos os relógios do meu quarto, por serem fabricados na China. O primeiro desafio desta aventura foi, pois, saber a que horas andava - e eu já tinha posto de lado telemóvel e computador. Embora o telemóvel tenha sido fabricado na Finlândia, a bateria e respectivo carregador foram feitos na China, o que constituiu, aliás, o grande problema para o substituir por outro. O mesmo se passou em relação ao computador e respectivo rato. Liguei a televisão, estava a dar um dos noticiários das 10h, o problema de saber as horas estava resolvido. Escolher o que vestir hoje foi frustrante, pouca coisa no meu roupeiro escapou à invasão chinesa. Da minha roupa interior quase nada resta, o blusão para o frio foi banido, casacos de malha igual a zero, camisas o mesmo, algumas calças de ganga escaparam... acabei por me vestir «made in India», o que incluiu uma camisola da minha mãe. A melhor notícia do dia foi… todos os meus sapatos são de países diferentes e nenhum é chinês. A pior notícia: tenho urgentemente de ir às compras.
Fonte: Diário de uma Estudante, que resistiu aos produtos chineses durante um mês, EXPRESSO/Assinatura, 10/MAIO/2008

Admitindo a complexidade da realidade, e a facilidade das pessoas em justificarem as suas acções em função de cada situação, compreendem-se situações aparentemente contraditórias. A oposição política à China a propósito da violação dos Direitos Humanos, convive muito bem as “oportunidades de negócio” com a China e os seus produtos baratos. Não há racionalidade económica que explique a pluralidade de justificações que mobilizam os seres humanos nos mais variados contextos.

O "eu-que-vai-às-compras" não suportaria sistematicamente a tirania do "eu-político"...
Escrevi pluralidade no título porque de facto nem sei quantos "eus" cada um de nós tem: depende da situação... Pelo menos quando decidimos divertir-nos deixamos num plano secundário a vertente política e a económica, emergindo uma espécie de "eu-divirto-me" ;) Também não me divirto lá grande coisa se der muita atenção ao "eu-ecologista", que me pede para deixar o carro na garagem...

terça-feira, 13 de maio de 2008

Multado por não consumir gasolina/gasóleo

Neste país tudo é possível.

  • "A Direcção-Geral das Alfândegas e Impostos fez um cálculo aos combustíveis fósseis que deixei de consumir por ter tornado a junta auto-suficiente através da produção de bio-combustível", disse Joaquim Casado. "Irei até aos últimos trâmites para não pagar um imposto que considero injusto".PÚBLICO, 09.05.2008


Pensavam que reciclar os óleos era uma atitude exemplar?
Ainda não perceberam que o Sol, quando nasce, não é para todos? A lógica das finanças é deixar instalar painéis solares agora, para multar depois ;)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

É escandaloso que um gestor receba num mês o mesmo que um trabalhador em 13,7 anos! (*)

Quando Helena Garrido procurava apresentar argumentos na esfera da racionalidade económica para justificar tamanha discrepância, não conseguiu melhor que o recurso à metáfora da água e dos diamantes. Foi obrigada a recorrer à metáfora precisamente porque não tem argumentos no âmbito da racionalidade económica.

O termo de comparação para os administradores portugueses, quando pensam no seu ordenado, são os administradores alemães, independentemente da produtividade das empresas. Já quando “estudam” os salários dos trabalhadores têm que ter necessariamente em conta a “produtividade das empresas”... Como resultado Portugal continua a desenvolver uma repartição do rendimento terceiro-mundista que cada vez mais nos envergonhará no contexto da União Europeia.

Luc Boltanski explica que os seres humanos convivem bem com uma multiplicidade de justificações contraditórias entre si, que seleccionam em função da situação em que se encontram.
Mais um exemplo. O protesto contra o desrespeito dos Direitos Humanos na China também convive muito bem o crescente consumo dos produtos chineses... não dá jeito nenhum pensar na política quando vamos às compras, não é?




(*) As contas são simples. http://vistodaeconomia.blogspot.com/ indica que o salário médio da administração foi, o ano passado, 164,1 vezes a remuneração média dos outros trabalhadores, no caso da Sonae SGPS - liderada por Paulo Azevedo, filho de Belmiro de Azevedo. 164,1/12=13,7.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Truque que dispensa as progressões e evita as quotas na carreira

A vida está difícil para todos, ouve-se todos os dias. Os funcionários públicos queixam-se de quotas que os impedem de progredir na carreira, e de um sistema de avaliação burocratizado.
Aqui fica a dica desta secretária: pediu para ser exonerada a 31 de Março, para ser nomeada a 1 de Abril ;) Cada qual revela o mérito à sua maneira!

Fonte: DR.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Intervenções do Doutor Azambuja

Nas escolas participamos em reuniões e falamos com muitos colegas ilustres. Um deles atingiu ontem o estrelato com uma máxima digna de ser transcrita para este blogue. Recordando outras pérolas suas da inforfobia, seleccionadas em mais de 20 anos de convívio, escrevi um post divertido.

  • Os bons professores não precisam de utilizar tecnologias para nada, explicam as coisas. Já reparam como fazem os explicadores? Algum utiliza um computador? Os computadores só são bons para aqueles que não percebem nada da matéria.
    07/MAIO/2008


  • O Excel é tão avançado que até faz gráficos a três dimensões! (Não consegui explicar-lhe a diferença entre gráficos no espaço R3 e o efeito 3D nos gráficos do Excel)
    s/d


  • - O meu computador é tão avançado que nem têm disco rígido!
    - Não pode ser...
    - Pode, sim. É dos novos... Funciona com uma pen...
    s/d


Evidentemente que não quer ser avaliado, sendo capaz de recitar inúmeros poetas para se justificar.

O título utilizado garante o seu anonimato e homenageia a obra de Medina Ribeiro. Entretanto a FCCN disponibilizou o referido e-book, Crónicas da InforFobia. Boa leitura.

domingo, 4 de maio de 2008

Enquanto o pau vai e vem folgam as costas

Estratégia proposta no terrear:

  • "(...) A docente recusa igualmente o modelo de avaliação, um processo que considera "pesado" e "burocrático" que "vai parar as escolas" e propõe, como alternativa, uma "maior intervenção da Inspecção-Geral da Educação", a "identificação e acompanhamento dos professores com maiores dificuldades" e acções de formação, estas últimas previstas no decreto-regulamentar. (...)" Link directo


Se os alunos descobrem como eternizar a avaliação formativa, inviabilizando qualquer avaliação su(o)mativa...

MFL planeia aliviar o Estado da Saúde e da Educação

Extracto da entrevista de Manuela Ferreira Leite (MFL) ao EXPRESSO:

  • Como é que aliviaria o peso do Estado?
    Ideologicamente não tenho nada contra que certos sectores, desde que devidamente regulados e fiscalizados pelo Estado, possam estar no sector privado. Por exemplo, não há nenhum motivo para que o sector privado não tenha um papel decisivo na Saúde e na Educação. EXPRESSO/Assinatura, 03/MAIO/2008


Sem dúvida que o PS tem promovido nas áreas da Saúde e da Educação políticas que o PSD poderá desenvolver... No caso de Maria de Lurdes Rodrigues, até seria inteligente invocar a procura de consensos alargados na sociedade e propor-lhe a continuidade como Ministra da Educação do PSD, de MFL. Não existem quaisquer barreiras ideológicas entre o PS e o PSD para que Milu seja impedida de continuar a sua obra: a destruição da escola pública, muito bem exposta no artigo "agenda oculta para a educação". O programa liberal do PSD, deixa logo à margem aqueles que não puderem pagar o acesso à saúde e à educação, dispensando o palavreado das "novas oportunidades" socialistas.

A propósito, recorda-se uma célebre afirmação de Cavaco Silva, o seu líder, sobre os funcionários públicos, que MFL certamente subscreverá:

  • "Como nos vamos livrar deles? Reformá-los não resolve, porque deixam de descontar para a Caixa Geral de Aposentações e diminui as receitas de IRS. Só resta esperar que acabem por morrer".


Portanto, aliviar o Estado dos funcionários (ditos) excedentários certamente que não será uma tarefa fácil.



Post-Scriptum

A memória foi-me avivada por um mail que transcrevo abaixo.

"O Sindicato dos Trabalhadores da Administração Pública (SINTAP) emitiu ontem uma nota de imprensa em que considera "impróprias e injuriosas" as afirmações de Cavaco Silva, ao abordar a necessidade de diminuição de funcionários públicos, numa conferência proferida na passada quarta-feira, na Faculdade de Economia do Porto. "Como nos vamos livrar deles? Reformá-los não resolve, porque deixam de descontar para a Caixa Geral de Aposentações e diminui as receitas de IRS. Só resta esperar que acabem por morrer", afirmou o antigo líder do PSD."

- publicado no Público, "Sindicato da Administração Pública Contesta Declarações de Cavaco" - no dia 2 de Março de 2002.

O Regresso do Morto-Vivo (ou como a IA me obrigou a trabalhar na reforma)

 Quem me conhece sabe que, no ano passado, arrumei definitivamente os manuais, fechei o giz no armário e decretei a merecida a...