sábado, 12 de julho de 2008

Para ensinar é necessário saber


Há coisas que me parecem tão simples, que nem perco tempo a pensar nelas. Para mim, é óbvio, que não se poderá ser um bom professor numa área disciplinar onde não se tenha formação académica de base.

O conhecimento encontra-se “arrumado” por ciências, que na escola dão lugar a disciplinas: Economia, Sociologia, Direito, etc. Não é por acaso que o conhecimento científico se encontra hoje compartimentado, fora da escola. O crescimento exponencial do conhecimento científico forçou à sua especialização em áreas bem definidas. Os autores são conhecidos na respectiva temática, as teorias e modelos explicativos dependem da abordagem científica. Os profissionais podem ser excelentes num ramo do saber, mas nulidades noutros aspectos. Por exemplo, nenhuma companhia seguradora se lembrará de contratar um excelente advogado para calcular o valor do prémios a solicitar aos segurados, pois isso seria a sua ruína.

Nas escolas temos um mundo à parte, onde todas as barbaridades são possíveis, porque as escolas não vão à falência. Eu próprio já dei aulas de Matemática e de Direito e de muito mais coisas que não devia ter dado. Estou farto de preparar programas, porque sou dos docentes relativamente mais jovens, isto é, pertenço ao grupo que fica com o que sobra depois dos colegas terem indicado as suas preferências por disciplinas, por anos, por turnos, etc. Até compreendo que o serviço docente seja distribuído exclusivamente tendo em consideração o tempo de serviço, apesar de dar origem a uma hierarquia acomodatícia em função da qual são escolhidas disciplinas. Tem a vantagem de ser um critério prático em termos administrativos, mas quando se pensa em avaliação do desempenho é de uma injustiça atroz.

A avaliação de desempenho deveria garantir a todos idênticas oportunidades para ser justa. Ora, um professor com muitos anos de serviço, que escolheu horário primeiro, e vai fazer o que sempre fez, teria obrigação de evidenciar um melhor desempenho que o seu colega mais novo, que fica com o que sobra, e por isso anda sempre a preparar níveis diferentes.

Especialmente para quem está for a do ensino, e não percebe tão bem as regras do “baile” a que me refiro acima, posso adiantar que até hoje, a Licenciatura em Economia já me permitiu leccionar o seguinte: Área Interdisciplinar, Comércio e Distribuição, Contabilidade, Direito, Economia Política, Introdução à Actividade Económica, Introdução à Economia, Introdução à Política, Introdução ao Desenvolvimento Económico e Social, Introdução ao Marketing, Introdução às Tecnologias da Informação, Matemática, Métodos Quantitativos, Noções de Administração Pública, Organização e Métodos, Psicossociologia, Relações Públicas e Sociologia.

Se eu pudesse teria leccionado sempre Economia. Nas outras disciplinas fico como que castrado, por não poder levar as últimas novidades, nem poder utilizar a linguagem que é própria da Economia, mas posso garantir que independentemente da disciplina, o quadro de referência e organização continua a ser o pensamento económico. O meu repertório de exemplos está centrado na Economia, portanto outras disciplinas nunca saem tão bem. Por maior que seja a preparação de uma disciplina em que não tenha formação, as aulas nunca têm o brilhantismo do improviso como nas de Economia.

Não caso único certamente. Estou absolutamente convencido desta regra geral: para ensinar é necessário saber. Ao longo da minha carreira tive várias vezes turmas do 11º ano de Economia. Quando as turmas tinham tido o 10º ano com colegas de Economia o meu trabalho prosseguia tranquilamente. Quando os alunos tinham apanhado alguém de Direito no 10º ano, era uma catástrofe: não sabiam Economia, tinham obtido classificações elevadíssimas e fazendo a média do 10º com 11º já estavam passados!

Entendo que criticar a falta de formação científica é fácil demais. E como entretanto comecei a leccionar Sociologia, entendi que deveria fazer um Mestrado em Sociologia para me justificar como professor da disciplina.

Escrevi este post porque não entendo como o ME quer implementar o modelo de avaliação do desempenho assim. O meu grupo disciplinar (antigo 7º grupo), incluía economistas e advogados quando comecei a dar aulas (1984/85). Posteriormente entraram alguns sociólogos. O ano passado foi alargado aos contabilistas. Certamente não foi feita nenhuma avaliação do impacto desta alteração sobre a qualidade do ensino, mas este ano o ME alargou novamente o grupo. Agora inclui economistas, advogados, sociólogos, contabilistas, historiadores, filósofos, geógrafos, técnicos de sectariado, professores de moral e religião.

Isto quer dizer que de acordo com a lei, eu poderei adicionalmente vir a dar aulas de história, filosofia, geografia, etc. e todos estes meus colegas poderão leccionar Economia!



Que avaliação do desempenho quer o Ministério se não cria condições para que cada qual possa mostrar o que sabe?
Pior, quando cria situações que colocam à partida os professores mais jovens em circunstâncias muito mais desvantajosas. A criação deste mega-grupo foi apenas um atentado contra a avaliação do desempenho a que ME não se cansa de fazer propaganda. E neste caso a culpa não foi dos professores, nem das escolas, nem dos sindicatos, nem de mais ninguém. Mas se o ME quer o caos completo, sugiro que para o ano alargue o grupo disciplinar a todos os departamentos, pois seria mais simples recrutar os docentes para um DEPARTAMENTO ÚNICO. Então, independentemente da formação académica, qualquer professor poderia leccionar português, francês, inglês, alemão, latim, grego, história, filosofia, geografia, matemática, economia, sociologia, direito, contabilidade, etc.

Entenda senhora Ministra que esta proposta é para ser levada a sério. Os alunos poderiam não aprender quase nada, mas teriam certamente classificações mais elevadas! Não é isso que se pretende?

Adenda
Faltei a esta reunião. Nunca falto durante o ano lectivo, mas durante o período de semi-férias... Afinal a reunião de distribuição de horários não foi tão confusa quanto tinha imaginado. Participei apenas na reunião do 430 (economia, contabilidade, sociologia, direito). O mega-grupo a que me refiro acima funcionou "apenas" para efeito de recrutamento de professores. Mas mantenho as críticas, porque se é indiferente recrutar docentes de grupos tão díspares, certamente se entende que o seu perfil se adequa às mesmas necessidades...

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