No final da entrevista à Grande Reportagem [RTP, 6 de Março], Judite de Sousa pediu-lhe para se imaginar na situação de professora, que até já foi, e perguntou-lhe se como professora iria à manifestação de dia 8. A sua resposta deixou-me desconcertado:
- Não sei!
Como pode estar a defender politicamente um modelo que poderia contestar como professora?
O grande problema é que aceitou a "tarefa" de impor a avaliação, mas nem ela acredita convictamente no modelo que propôs.
Esta Ministra é uma anedota. Os professores que queriam ser avaliados nem terão possibilidade disso. Aqueles que tinham receio da avaliação já se safaram.
sexta-feira, 7 de março de 2008
Ministra da Educação tentou demonstrar que o modelo de avaliação dos professores não inflacciona as classificações dos alunos
Uma das críticas que tem sido feita ao modelo de avaliação do desempenho dos professores consiste em observar que o sistema conduz a classificações artificialmente elevadas, criando um sucesso estatístico que não corresponderá ao nível dos conhecimentos adquiridos.
A Ministra da Educação tentou demonstrar ontem, na Grande Entrevista [RTP, 6 de Março] que o modelo de avaliação proposto não tem esse efeito perverso. Deu então o brilhante exemplo que irei reproduzir de memória, mas desde já garanto fiabilidade na sua reprodução porque o escutei atentamente.
Disse então que um professor que apenas tivesse 8’s na sua pauta poderia ser melhor que outro que apenas tivesse 18’s. E explicou que o modelo de avaliação terá em conta o “contexto da escola” e os “objectivos individuais dos docentes”. Depois apresentou a seguinte contabilidade:
1- se o professor que deu 18’s já tinha alunos de 18 o seu valor acrescentado é nulo;
2- se o professor que deu 8’s tinha alunos de 5, o seu valor acrescentado é 3.
A Ministra introduziu o “valor acrescentado” como indicador do “mérito” dos docentes, e pela sua lógica o segundo seria melhor que o primeiro. Que sentido faz? Significa antes de tudo que possui um termómetro apuradíssimo para distinguir entre os alunos de 5, de 6, de 7 e de 8... Quando diz nulo o valor acrescentado daquele que atribui 18’s, também dá a ideia de que não é necessário trabalhar para manter boas notas, o que é obviamente falso.
Tanto o “contexto da escola” como os “objectivos individuais dos docentes” são obviamente retórica do "eduquês", que complexificam o processo de avaliação.
A Ministra da Educação tentou demonstrar ontem, na Grande Entrevista [RTP, 6 de Março] que o modelo de avaliação proposto não tem esse efeito perverso. Deu então o brilhante exemplo que irei reproduzir de memória, mas desde já garanto fiabilidade na sua reprodução porque o escutei atentamente.
Disse então que um professor que apenas tivesse 8’s na sua pauta poderia ser melhor que outro que apenas tivesse 18’s. E explicou que o modelo de avaliação terá em conta o “contexto da escola” e os “objectivos individuais dos docentes”. Depois apresentou a seguinte contabilidade:
1- se o professor que deu 18’s já tinha alunos de 18 o seu valor acrescentado é nulo;
2- se o professor que deu 8’s tinha alunos de 5, o seu valor acrescentado é 3.
A Ministra introduziu o “valor acrescentado” como indicador do “mérito” dos docentes, e pela sua lógica o segundo seria melhor que o primeiro. Que sentido faz? Significa antes de tudo que possui um termómetro apuradíssimo para distinguir entre os alunos de 5, de 6, de 7 e de 8... Quando diz nulo o valor acrescentado daquele que atribui 18’s, também dá a ideia de que não é necessário trabalhar para manter boas notas, o que é obviamente falso.
Tanto o “contexto da escola” como os “objectivos individuais dos docentes” são obviamente retórica do "eduquês", que complexificam o processo de avaliação.
A negação do diálogo
Se Guterres era acusado de excesso de diálogo, Sócrates cortou o "mal" pela raiz.
Esta convocatória significa que, antes de tudo, se vão contar as cabeças no comício do PS no Porto, e compará-las com quantas descerão a Avenida da Liberdade na manifestação da FENPROF. Definitivamente, o diálogo não consta da agenda do Governo.
- Secretariado Nacional [PS] convoca para dia 15 comício nacional no Porto
Partido Socialista
Esta convocatória significa que, antes de tudo, se vão contar as cabeças no comício do PS no Porto, e compará-las com quantas descerão a Avenida da Liberdade na manifestação da FENPROF. Definitivamente, o diálogo não consta da agenda do Governo.
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Intimidação
- A Direcção Nacional da PSP deu orientações a todos os comandos da PSP do país para que obtenham dados relacionados com o número estimado de pessoas que vão deslocar-se amanhã a Lisboa para a manifestação de professores, número de autocarros envolvidos no transporte e horários previstos de chegada. Uma "recolha de dados" que, segundo um comunicado enviado às redacções, visa "apenas e somente garantir a segurança dos manifestantes" e "facilitar a liberdade de circulação", mas que os sindicatos consideram "completamente inaceitável".
Jornal de Notícias
Salazar Outrora Caiu. Regressou Agora Transformado Em Sócrates!
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quinta-feira, 6 de março de 2008
Já vale contratar palhaços para falarem publicamente contra os professores?
O oportunismo dos representantes dos pais (CONFAP) também fica mal à Ministra que não olha a meios para ter argumentos contra os professores. A documentação do caso num blogue é clara.
Porque não terá a CONFAP associados, que paguem as suas quotas? É deste modo que funcionam associações de professores, assegurando a sua independência. Resultado: como expressam os anseios dos seus associados podem ser ignoradas ou afastadas do debate pelo Ministério em momentos cruciais.
A CONFAP recebe dinheiro para quê? Também faz estudos de "eduquês"? Precisam de pagar viagens, almoços, estadias nos Hotéis? Que credibilidade tem a sua voz? Expressam-se para defender os pais ou para justificar o subsídio?
O Ministério que nos obrigou a viver nas escolas com um estrangulamento financeiro sistemático - que chega ao racionamento do giz e do papel higiénico - deveria explicar aos contribuintes como justifica este financiamento. Já vale contratar palhaços para falarem publicamente contra os professores?
Porque não terá a CONFAP associados, que paguem as suas quotas? É deste modo que funcionam associações de professores, assegurando a sua independência. Resultado: como expressam os anseios dos seus associados podem ser ignoradas ou afastadas do debate pelo Ministério em momentos cruciais.
A CONFAP recebe dinheiro para quê? Também faz estudos de "eduquês"? Precisam de pagar viagens, almoços, estadias nos Hotéis? Que credibilidade tem a sua voz? Expressam-se para defender os pais ou para justificar o subsídio?
O Ministério que nos obrigou a viver nas escolas com um estrangulamento financeiro sistemático - que chega ao racionamento do giz e do papel higiénico - deveria explicar aos contribuintes como justifica este financiamento. Já vale contratar palhaços para falarem publicamente contra os professores?
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terça-feira, 4 de março de 2008
É Licenciado? Fala Inglês? Tem conhecimentos de Informática?
Quanto vale uma cunha?
Empresário: Bom dia Sr. Eng., há quanto tempo??!!!
Ministro: Olha, olha, está tudo bem?!
Empresário: Eh pá, mais ou menos, tenho o meu filho desempregado tu é que eras homem para me desenrascar o miúdo.
Ministro: E que habilitações ele tem?!
Empresário: Tem o 12.º completo.
Ministro: O que ele sabe fazer?!
Empresário: Nada, sabe ir para a Discoteca e deitar-se às tantas da manhã!
Ministro: Posso arranjar-lhe um lugar como Assessor, fica a ganhar cerca de 4000, agrada-te?!
Empresário: Isso é muito dinheiro, com a cabeça que ele tem era uma desgraça não arranjas algo com um ordenado mais baixo?!
Ministro: Sim, um lugar de Secretario já se ganha 3000 !...
Empresário: Ainda é muito dinheiro, não tens nada volta dos 500/600 ???
Ministro: Eh pá, isso não, para esse ordenado tem de ser Licenciado, falar Inglês e dominar Informática!!!...
PS - Anedota recebida por mail.
Empresário: Bom dia Sr. Eng., há quanto tempo??!!!
Ministro: Olha, olha, está tudo bem?!
Empresário: Eh pá, mais ou menos, tenho o meu filho desempregado tu é que eras homem para me desenrascar o miúdo.
Ministro: E que habilitações ele tem?!
Empresário: Tem o 12.º completo.
Ministro: O que ele sabe fazer?!
Empresário: Nada, sabe ir para a Discoteca e deitar-se às tantas da manhã!
Ministro: Posso arranjar-lhe um lugar como Assessor, fica a ganhar cerca de 4000, agrada-te?!
Empresário: Isso é muito dinheiro, com a cabeça que ele tem era uma desgraça não arranjas algo com um ordenado mais baixo?!
Ministro: Sim, um lugar de Secretario já se ganha 3000 !...
Empresário: Ainda é muito dinheiro, não tens nada volta dos 500/600 ???
Ministro: Eh pá, isso não, para esse ordenado tem de ser Licenciado, falar Inglês e dominar Informática!!!...
PS - Anedota recebida por mail.
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segunda-feira, 3 de março de 2008
Maria de Lurdes Rodrigues está a suicidar-se
- Sobre o processo da avaliação a ministra esclarece que, apesar das dificuldades, há escolas que têm "muito trabalho feito e algumas começam já na próxima semana com a observação das aulas".
PÚBLICO
Algum professor levará a sério as palavras da Ministra? O Decreto Regulamentar nº 2/2008 obrigava à assistência a uma aula de cada professor durante o 2º período. Neste preciso momento faltam duas semanas para as férias começarem. Os instrumentos de avaliação não foram aprovados. Mesmo que se esquecessem as providências cautelares que suspenderam o processo de avaliação, que aulas desejaria Ministra que fossem observadas? Na última semana entregam-se os testes e faz-se a sua correcção. Outra aula é gasta com a auto-avaliação dos alunos. A última semana de cada período é sempre atípica, e nunca deveria ser considerada para recolher informações sobre qualquer professor, senhora Ministra! Os professores sabem isto, e o que disse só a descredibiliza mais ainda, reforçando a "União Nacional". Isto é, MLR, ao continuar a dizer disparates está a suicidar-se.
União Nacional contra Maria de Lurdes Rodrigues

Não vou perder-me nos motivos que os professores têm para se mostrar indignados com a actuação da Ministra da Educação, apesar de pessoalmente ter até motivos adicionais aos que têm sido apontados. Não vale a pena bater mais numa senhora que já está a cair. Porém, importa reflectir sobre os motivos que terão levado à formação desta estranha “União Nacional” contra a Ministra, que inclui todos os sindicatos e partidos – incluindo sectores do PS – bem como uma serie de movimentos “espontâneos”. Como explicar esta unanimidade dos docentes que agora despertou, e que antes estava adormecida? Que bicho lhes mordeu que os pôs a mexer? Estão a maltratar o Deixa-Andar?
Evidentemente que o motivo que desencadeou a cadeia de manifestações que actualmente se vive foi o Decreto Regulamentar nº 2/2008, de 10 de Janeiro, que estipula como deverá decorrer o processo de avaliação dos professores. Em muitos pontos a Ministra falhou ou não foi hábil num processo delicado, onde as novidades iam surgindo de dia para dia, num trabalho feito em cima do joelho e ao sabor da inspiração de cada dia, oferecendo pretexto a uma assinalável indignação legítima dos professores. Eu tomo a liberdade de me incluir neste conjunto.
Agora quando vejo nos TeleJornais a “União Nacional” contra a Ministra, lembro-me de muitas coisas, ainda de forma desestruturada, mas que gostaria de deixar aqui registadas:
1. Cavaco Silva, enquanto professor de Economia Pública explicava no início dos anos 80 que os professores não precisavam de ser bem remunerados porque eram “professoras”, e se ganhassem melhor poriam em causa o poder dos maridos;
2. Os Licenciados foram aceitando salários mais baixos enquanto docentes, relativamente a outras profissões, porque dispunham de outras regalias, designadamente a ausência de um chefe para aturar e um horário de 22 horas lectivas semanais.
3. As escolas aceitaram todos os Licenciados desempregues até ao dia em que ficaram com as suas vagas preenchidas. A partir do momento em que ficaram "cheias", a sociedade portuguesa começou a conhecer o fenómeno de desemprego entre os Licenciados. A geração que encheu as escolas nunca conheceu o desemprego, mas isso não significa que seja mais competente, apenas teve a vantagem de viver noutra conjuntura económica e social, mas não o reconhece, e luta por direitos adquiridos que são uma miragem para os jovens.
4. Muitos professores colocados nas escolas, conseguem ter tempo para uma segunda actividade, o que é plenamente aceite pelos colegas por “a escola pagar mal”. Evidentemente que nunca têm tempo para ler um mal nem a Web. Alguns terão tido a primeira experiência com a Internet no Concurso para Professores Titulares...
5. A Ministra inventou a estupidez das aulas de substituição, nas quais se transformam os professores em cães de guarda para evitar que o rebanho se tresmalhe. Compreendo que queira segurança nas escolas e poupar dinheiro ao Ministério. Não compreendo que roube aos jovens tempo de convívio e que deixe subtilizados os centros de recursos que actualmente equipam as escolas.
A escola a tempo inteiro agrada às famílias que querem ter os filhos à guarda dos professores, mas traduz-se na sobrecarga destes, sem proveitos para os alunos.
6. A Ministra impôs uma sobrecarga de trabalho a todos, provavelmente na esperança de que aqueles que têm duplo ou triplo emprego abandonassem a escola. Não teve coragem para impedir as acumulações pelo simples controlo das declarações de IRS, e agora ouvirá os seus assobios no momento da saída.
7. A Ministra provavelmente mudou mais a escola em 3 anos que os seus colegas em 30. Tinha ideias fortes e incontestáveis: 1) a necessidade de criação de uma hierarquia; 2) a necessidade de avaliação dos docentes. Estes dois pontos podem parecer pouco, mas representam uma alteração radical da vida das escolas.
Recordo-me no primeiro ano em me foram distribuídas tarefas na escola, as despachei o mais rapidamente que pude. Então deram-me mais trabalho, e fui avisado que se fosse demasiado rápido levaria uma nova dose. Assim me ensinaram que o trabalho na escola “não é para ser feito, é para ir fazendo”. Foi assim que me socializaram no funcionalismo, que nivela todos os professores e obviamente detesta a avaliação. É este espírito que eu vejo na “União Nacional”.
8. A Ministra precisava de um Primeiro-Ministro que a apoiasse contra as corporações profissionais, mas Sócrates não tem legitimidade para isso. Afinal ele nem concluiu a Licenciatura, e pelo menos do ponto de vista académico, importantíssimo para os professores, Sócrates está uns pontos abaixo deles. E como o seu objectivo prioritário é manter-se na chefia do Governo, certamente que sacrificará Maria de Lurdes Rodrigues, (2005-2008).
9. Um aspecto positivo da indignação manifestada é a comparação que os professores fazem entre os seus vencimentos e os de outros servidores de Estado muito melhor remunerados, como os políticos e os juízes. A Internet possibilita hoje o acesso à lista mensal dos aposentados e reformados, logo à entrada do site da Caixa Geral de Aposentações, tornando as desigualdades na repartição do rendimento ilegítimas mais difíceis de suportar, mais intoleráveis. E Portugal tem indicadores vergonhosos segundo os parâmetros europeus quando se observa a distribuição do rendimento, problema que não é acessório quando se debate a educação. As questões andam certamente correlacionadas, porque maior rendimento significa sempre maior liberdade de escolha, e procura-se sempre a qualidade, também na educação.
domingo, 2 de março de 2008
"Perdi os professores, mas ganhei a população"
- Os alunos portugueses desistiram e chumbaram menos no último ano lectivo em todos os ciclos do ensino básico e no ensino secundário com os números a mostrarem uma diminuição de quase 20 por cento, segundo anunciou o Ministério da Educação.(...)
Quem já mostrou satisfação por estes números foi a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, que considerou "notável" a diminuição em quase 20 por cento da taxa de chumbos e retenções no último ano lectivo, atribuindo este resultado ao trabalho desenvolvido pelos professores e pelas escolas.
RTP
Porém, talvez os elogios da ministra ao trabalho dos professores já tenham vindo tarde demais.
Em vésperas da hiper-mega-super-manifestação marcada para dia 8 estes comentários da Ministra são música para os ouvidos dos professores, que se recordam bem de outro tipo de afirmações:
"Perdi os professores, mas ganhei a população", disse em 20/NOV/2006, e jamais será esquecida.
Dentro do PS, a corrida para a sua cadeira já começou:
- "Desde o início que nunca houve, da parte desta equipa ministerial, um diálogo construtivo. Acho que este modo muito autoritário e muito seco que a ministra tem adoptado não tem condições porque não se pode governar contra as pessoas". Ana Benavente
Jornal de Notícias
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Milu
sábado, 1 de março de 2008
O problema de fundo e o ruído na avaliação dos professores
As manifestações são apenas ruído gerado pelo problema de fundo: a avaliação dos professores. Em termos teóricos são concebíveis dois modelos: a) avaliação interna; b) avaliação externa.
O regime proposto assemelha-se a uma avaliação interna, visto que cada professor será avaliado pelos seus pares. Evidentemente que neste caso a proximidade entre o avaliador e o avaliado pode ser grande. Geralmente este aspecto é apontado como inconveniente porque se crê na avaliação “objectiva” e “imparcial” que exige que o avaliador esteja a milhas do avaliado… Preferencialmente, seria como nos exames, o anonimato asseguraria a independência! Pensamos assim porque estamos viciados neste padrão de pensamento.
A alternativa a este modelo é o ME designar um júri externo – imaginemos professores universitários – que cai de pára-quedas um dia na escola para avaliar os professores, faz o seu trabalho e desaparece. Por nos desconhecerem é que seriam “objectivos” e “independentes”? Creio que não. O seu poder seria certamente mais arbitrário porque não responderiam perante ninguém.
No modelo proposto ainda tenho algum controlo sobre os avaliadores, porque os conheço, e eles não podem tomar decisões arbitrárias porque vão continuar nas escolas, precisam de manter a sua consciência tranquila e quererão usufruir do reconhecimento da comunidade escolar, o que apenas conseguirão com decisões justas.
Foram cometidos muitos atropelos, e estão a ser impostas muitas coisas que não fazem sentido, mas convém que na base do modelo de avaliação dos professores continuem os seus pares, contrariamente a muita opinião publicada.
O regime proposto assemelha-se a uma avaliação interna, visto que cada professor será avaliado pelos seus pares. Evidentemente que neste caso a proximidade entre o avaliador e o avaliado pode ser grande. Geralmente este aspecto é apontado como inconveniente porque se crê na avaliação “objectiva” e “imparcial” que exige que o avaliador esteja a milhas do avaliado… Preferencialmente, seria como nos exames, o anonimato asseguraria a independência! Pensamos assim porque estamos viciados neste padrão de pensamento.
A alternativa a este modelo é o ME designar um júri externo – imaginemos professores universitários – que cai de pára-quedas um dia na escola para avaliar os professores, faz o seu trabalho e desaparece. Por nos desconhecerem é que seriam “objectivos” e “independentes”? Creio que não. O seu poder seria certamente mais arbitrário porque não responderiam perante ninguém.
No modelo proposto ainda tenho algum controlo sobre os avaliadores, porque os conheço, e eles não podem tomar decisões arbitrárias porque vão continuar nas escolas, precisam de manter a sua consciência tranquila e quererão usufruir do reconhecimento da comunidade escolar, o que apenas conseguirão com decisões justas.
Foram cometidos muitos atropelos, e estão a ser impostas muitas coisas que não fazem sentido, mas convém que na base do modelo de avaliação dos professores continuem os seus pares, contrariamente a muita opinião publicada.
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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
29/Fev - Balanço da luta dos professores, in PÚBLICO
Já saíram à rua mais de 10 mil professores
Isabel Leiria
Acesso à categoria de titular, avaliação e alterações à gestão escolar são alguns dos motivos na origem dos protestos desta semana
Ao longo de três anos de governo, a actual equipa do Ministério da Educação já enfrentou greves em época de exames nacionais, a maior manifestação de professores dos últimos 25 anos, vigílias à porta da 5 de Outubro, semanas de luta. Mas nunca como agora a contestação às políticas educativas foi tão intensa.
Numa semana, desde o protesto de sábado passado no Porto até ontem em Aveiro, mais de dez mil docentes saíram às ruas, em diferentes cidades, de acordo com as contas dos sindicatos, movimentos e polícia. E continuarão, a um ritmo quase diário, até 8 de Março, data da "marcha de indignação dos professores".
Inicialmente promovidos por sindicatos afectos à Fenprof (à excepção da concentração no Porto, convocada por SMS, mails e blogues, sem que se tenha tornado pública a sua origem), os protestos têm ganho dimensão com ajuda da promoção feita em páginas na Internet dedicadas à educação e ao "passa SMS" entre milhares de colegas que se sentem "atacados" como nunca. Vários manifestam-se pela primeira vez e muitos têm-se juntado em torno de movimentos cívicos que, em um mês, se transformaram em novos protagonistas da contestação.
Os movimentos
Movimento dos Professores em Luta, Movimento dos Professores Revoltados, Defende a Profissão, Em Defesa da Escola Pública são apenas alguns exemplos de grupos docentes à margem das organizações sindicais e que se assumem como apartidários. "Há um mal-estar social que não atinge apenas os professores. E a tensão que se vive nas escolas levou as pessoas a procurar formas de expor os seus receios. Daí a criação de movimentos cívicos por todo o lado", diz o professor de História Vitorino Guerra, um dos fundadores do movimento Em Defesa da Escola Pública. Na sua primeira reunião, em Leiria, contou com 160 docentes. Semanas depois juntaram-se oito centenas.
"Parecia-nos que as organizações sindicais não estavam a mobilizar-se, em termos de acções de luta, de forma eficaz e que a sua ligação às escolas estava um pouco suspensa. Foi isso que nos levou a criar um movimento paralelo e complementar dos sindicatos", explica Mário Machaqueiro, promotor da Associação de Professores e Educadores em Defesa do Ensino, que reúne vários movimentos cívicos.
Nas escolas têm sido vários os conselhos pedagógicos e executivos a aprovar declarações de repúdio, particularmente em relação à avaliação. Da esquerda à direita chovem críticas dos partidos a todos os diplomas que vão sendo aprovados. E nem as recentes palavras de elogio ao "esforço" da classe que se têm ouvido a José Sócrates e à ministra da Educação parecem já servir para apaziguar os ânimos.
Manuela Teixeira, a ex-dirigente que esteve 25 anos à frente da Federação Nacional dos Sindicatos da Educação, diz mesmo não se recordar de nenhum momento de contestação como o que se está a viver por estes dias (ver texto nestas páginas).
"Processo viciado"
Na opinião de Vitorino Guerra, o agravamento do mal-estar aconteceu com o concurso para professor titular (a mais alta categoria prevista no novo estatuto). "Geraram-se injustiças terríveis e a partir daí o processo ficou viciado." "O discurso é o do mérito. Mas não houve avaliação da qualidade da prática pedagógica, nem dos conhecimentos técnico-científicos", justifica. Como o concurso só valorizou o percurso dos professores nos últimos sete anos, tudo o que foi feito para trás não contou. E, como se realizou ao nível da escola, houve professores de escalões mais elevados e com pontuações superiores ultrapassados por outros. Alguns ficaram excluídos por um ponto, exemplifica este professor.
O decreto regulamentar da avaliação dos professores e o novo modelo de gestão escolar, aprovados já este ano, acabaram por se tornar na gota de água. Sobre a avaliação disparam-se críticas em várias direcções. Desde o calendário escolhido pelo ME - as escolas foram chamadas, a meio do 2.º período, a elaborar os instrumentos de medida da avaliação, a adaptar os documentos internos e a definir com os professores os objectivos para este ano lectivo e o próximo - aos critérios previstos. "O professor surge como o único responsável pelo sucesso dos alunos, como se não houvesse outras variáveis sócio-culturais e económicas", exemplifica Vitorino Guerra.
Sobre a gestão questiona-se a "democraticidade" de um sistema em que muitos poderes são concentrados num director, que escolhe os coordenadores dos departamentos e avalia os professores.
Mário Machaqueiro pergunta, por seu turno, por que razão se invoca a necessidade de reforçar as lideranças com este modelo de gestão, quando, de acordo com a Inspecção-Geral da Educação, 83 por cento de 100 escolas avaliadas merecem uma classificação de bom ou muito bom e 90 por cento obtiveram a mesma nota na organização e gestão.
Álvaro dos Santos, presidente do Conselho das Escolas, admite que a contestação é "inelutável", mas, pessoalmente, considera que alguma está a ser "empolada". Como presidente deste órgão consultivo garante que vai continuar a "fazer tudo para que as escolas tenham condições efectivas para fazer bem o seu trabalho".
16 de Fevereiro
Dezenas de pessoas, convocadas por SMS, manifestam-se à porta da sede do PS em Lisboa, quando Sócrates se reunia com docentes socialistas
23 de Fevereiro
Mais de dois mil juntam-se no Porto, Leiria e Caldas da Rainha
26 de Fevereiro
Três mil professores desfilam em Coimbra. Nos dias seguintes protestos em Viseu, Guarda e Castelo Branco juntaram mais de cinco mil
Plataforma espera mais de 25 mil em Lisboa
Sindicatos recorrem a Cavaco Silva
Perante o que considera ser um "quadro de grande instabilidade nas escolas" e a "panela de pressão" em que se transformou o sistema educativo, a plataforma sindical que reúne as dez organizações representativas da classe considera que é "fundamental, urgente e inadiável" a intervenção do Presidente da República. "Vamos pedir uma audiência ao Presidente da República, para que fique na posse de todos dados sobre o que se passa na Educação. Respeitaremos a sua decisão, mas queremos prestar todos os esclarecimentos", anunciou ontem Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof.
Sobre a "marcha da indignação", marcada para dia 8 de Março e que contará com o apoio de todos os sindicatos, da Associação Nacional dos Professores, estando aberta a todos os docentes, sublinhou Mário Nogueira, as expectativas são grandes. "Esperamos, no mínimo, tantos como os que estiveram na última manifestação [25 mil, em Outubro de 2006]. O largo fronteiriço à Assembleia da República seria demasiado pequeno", explicou ainda Mário Nogueira, justificando assim a alteração de percurso, que se iniciará no Marquês de Pombal e terminará na Praça do Rossio. "O primeiro-ministro vai perceber que a contestação às políticas do ME não são uma invenção dos sindicatos", disse.
Por considerar o momento actual "politicamente gravíssimo", Mário Nogueira entende que esta seria também a altura de marcar a reunião "há muito pedida" com José Sócrates, de forma a discutir "cara a cara" a resolução da situação. I.L.
Ontem o protesto foi em Aveiro
Maria José Santana
"Maria de Lurdes dá-me a tua camisola." O pedido estava escrito num dos vários cartazes exibidos pelos mais de 2000 professores que ontem à noite se manifestaram nas ruas de Aveiro. "No futebol toda a gente quer a camisola do seu ídolo. Como admiro muito a ministra, quero a camisola dela", explicava Teixeira Homem, o autor da irónica mensagem. Com mais de 30 anos de serviço na docência, este professor da Escola Secundária Jaime Magalhães Lima, em Esgueira, no concelho de Aveiro, garante ter realizado ontem a sua estreia em manifestações de protesto. "Porquê agora? Porque nenhum outro governo havia tratado tão mal os professores", asseverou.
Maria José Tavares, professora do primeiro ciclo, na Gafanha da Nazaré, em Ílhavo, também garantiu ser uma estreante em acções de protesto, apesar de já contar com 30 anos de serviço. "Estou contra tudo. É muito injusto ter já todo este tempo de serviço, estar com 52 anos, e saber que só saio aos 65 anos", relatou. À medida que vai falando, Maria José não consegue parar a enunciação dos motivos do seu descontentamento. "Vou ser avaliada por colegas que têm muito menos anos de serviço do que eu, que não têm prática nenhuma", apontou. Logo a seguir deixa o desabafo: "Obrigam-nos, agora, a preencher uma série de papelada, burocracias, e ficamos sem tempo para preparar as aulas. Eu tirei um curso para ensinar crianças e não para preencher papéis."
A manifestação que ontem tomou conta da principal artéria de Aveiro, e que foi convocada pela Fenprof, aconteceu uma semana depois de uma marcha de protesto de professores ter percorrido as ruas da cidade da ria, no âmbito de um movimento espontâneo, nascido na Escola Básica Integrada (EBI) de Eixo, no concelho de Aveiro. Há um mês, os docentes começaram a ir para esta escola vestidos de negro, em sinal de luto, e, rapidamente, passaram a sua luta para as ruas. Primeiro, com uma pequena concentração à porta da EBI de Eixo, no dia 14. Uma semana depois, e já com a participação de mais de uma centena de colegas de outras escolas da região - convocados por e-mail e SMS -, desfilaram ao longo da Avenida Dr. Lourenço Peixinho rumo ao Governo Civil, no mais completo silêncio e à luz das velas.
António Morais, responsável pelo movimento de docentes de Eixo, e autor de um manifesto e uma carta aberta a todos os professores, declarou ao PÚBLICO que, ontem, já estava a assinalar o 31.º dia de luto. E fez questão de deixar um aviso a José Sócrates: "Estes professores não são todos comunistas, nem sindicalistas e muito menos professorzecos." Já para a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, dirigiu a acusação de que está a fazer com que a educação fique "em cacos". "É muito boa a decidir, mas muitas vezes decide mal. Mas é péssima a motivar e seria uma péssima professora", referiu António Morais - uma declaração que foi fortemente aplaudida pelos manifestantes.
"Será muito difícil travar este movimento"
Reuniões pela madrugada fora. Plenários cheios. Greves "daquelas que fechavam escolas". Manifestações - a 18 de Novembro de 1988, por exemplo, saíram 20 mil à rua em Lisboa, nas contas da Fenprof. Os anos de 1988, 89 e 90 marcam um dos períodos de maior contestação da classe docente nas duas últimas décadas. A ex-sindicalista Manuela Teixeira recorda esse tempo em que dirigia a Federação Nacional dos Sindicatos de Educação (FNE) e em que o Estatuto da Carreira Docente proposto pelo então ministro da Educação Roberto Carneiro (Cavaco Silva era primeiro-ministro) desencadeou uma irritação geral. Mas, ao contrário do que se tem passado por estes dias, nessa altura os sindicatos tinham o monopólio da organização dos protestos. Hoje não é bem assim. E "será muito mais difícil travar este movimento" de contestação que está em curso, acredita.
Manuela Teixeira - que durante 25 anos esteve à frente da FNE e hoje se dedica ao ensino - justifica esta afirmação não só pelo número de professores que estão a manifestar-se todos os dias, como sobretudo pelas características dos protestos.
As greves
É certo que não há greves sucessivas - como as que os professores fizeram em alguns momentos nos últimos 20 anos. Em 1991, por exemplo, os professores decidiram faltar alternadamente às reuniões de avaliação (num dia só paravam os de Inglês, noutro os de Matemática e assim sucessivamente), para exigir os aumentos salariais que o Governo tinha prometido. E, em 1995 (era ministra Manuela Ferreira Leite), várias greves de docentes do ensino superior impediram que milhares de alunos fizessem provas específicas. Agora, diz Teixeira, "os professores ponderam 20 vezes antes de fazer uma greve, porque as greves mexem muito no bolso, os seus salários não têm sido aumentados e muitos têm cônjuges no desemprego."
O que não significa um movimento menos forte. "Dantes sentíamos revolta", diz. "Hoje, os professores sentem-se desrespeitados, há um sentimento de desespero." Mas há ainda um outro factor que distingue o momento que se vive: "O Governo teve a preocupação de dispersar os sindicatos, que foram quem sempre mobilizou a luta dos docentes" e quem assumiu o papel de interlocutor do executivo. Se, no passado, após um período de contestação, havia acordos entre ministério e sindicatos, os sócios destes últimos aceitavam o acordado. Agora, quando são grupos de docentes a, espontaneamente, marcar vigílias e marchas, "será muito mais difícil travar este movimento, porque o Governo não tem interlocutores". Andreia Sanches
1988 e 1989: Os professores recusam passar a receber menos do que os técnicos superiores da função pública, contestam o Estatuto da Carreira Docente e exigem uma gestão democrática das escolas. Há manifestações e greve. Roberto Carneiro é o ministro da Educação
1990: A prova de acesso ao 8.º escalão, último grau da carreira docente, gera grande contestação
1998: Sindicatos unem-se para reclamar nas ruas a redução da carreira docente para 25 anos. Marçal Grilo é o ministro da Educação
2000: Várias acções de luta alertam para o desemprego dos professores. O ano começa com a ocupação de centros
de emprego. Guilherme
d"Oliveira Martins é o ministro da Educação
2005: Federação Nacional da Educação (FNE) e Fenprof convocam quatro dias de greve aos exames nacionais do 9.º e 12.º anos. Contestam o congelamento das progressões automáticas e o aumento da idade da reforma
2006: A manifestação de professores do dia 5 de Outubro junta um número considerado recorde de docentes - 25 mil. Mais uma revisão do Estatuto da Carreira Docente está no centro da polémica. A avaliação dos professores é dos pontos mais contestados.
PS - Eu não teria copiado os textos se a política do jornal PÚBLICO fosse manter os artigos online, caso em que apenas faria os respectivos links.
Isabel Leiria
Acesso à categoria de titular, avaliação e alterações à gestão escolar são alguns dos motivos na origem dos protestos desta semana
Ao longo de três anos de governo, a actual equipa do Ministério da Educação já enfrentou greves em época de exames nacionais, a maior manifestação de professores dos últimos 25 anos, vigílias à porta da 5 de Outubro, semanas de luta. Mas nunca como agora a contestação às políticas educativas foi tão intensa.
Numa semana, desde o protesto de sábado passado no Porto até ontem em Aveiro, mais de dez mil docentes saíram às ruas, em diferentes cidades, de acordo com as contas dos sindicatos, movimentos e polícia. E continuarão, a um ritmo quase diário, até 8 de Março, data da "marcha de indignação dos professores".
Inicialmente promovidos por sindicatos afectos à Fenprof (à excepção da concentração no Porto, convocada por SMS, mails e blogues, sem que se tenha tornado pública a sua origem), os protestos têm ganho dimensão com ajuda da promoção feita em páginas na Internet dedicadas à educação e ao "passa SMS" entre milhares de colegas que se sentem "atacados" como nunca. Vários manifestam-se pela primeira vez e muitos têm-se juntado em torno de movimentos cívicos que, em um mês, se transformaram em novos protagonistas da contestação.
Os movimentos
Movimento dos Professores em Luta, Movimento dos Professores Revoltados, Defende a Profissão, Em Defesa da Escola Pública são apenas alguns exemplos de grupos docentes à margem das organizações sindicais e que se assumem como apartidários. "Há um mal-estar social que não atinge apenas os professores. E a tensão que se vive nas escolas levou as pessoas a procurar formas de expor os seus receios. Daí a criação de movimentos cívicos por todo o lado", diz o professor de História Vitorino Guerra, um dos fundadores do movimento Em Defesa da Escola Pública. Na sua primeira reunião, em Leiria, contou com 160 docentes. Semanas depois juntaram-se oito centenas.
"Parecia-nos que as organizações sindicais não estavam a mobilizar-se, em termos de acções de luta, de forma eficaz e que a sua ligação às escolas estava um pouco suspensa. Foi isso que nos levou a criar um movimento paralelo e complementar dos sindicatos", explica Mário Machaqueiro, promotor da Associação de Professores e Educadores em Defesa do Ensino, que reúne vários movimentos cívicos.
Nas escolas têm sido vários os conselhos pedagógicos e executivos a aprovar declarações de repúdio, particularmente em relação à avaliação. Da esquerda à direita chovem críticas dos partidos a todos os diplomas que vão sendo aprovados. E nem as recentes palavras de elogio ao "esforço" da classe que se têm ouvido a José Sócrates e à ministra da Educação parecem já servir para apaziguar os ânimos.
Manuela Teixeira, a ex-dirigente que esteve 25 anos à frente da Federação Nacional dos Sindicatos da Educação, diz mesmo não se recordar de nenhum momento de contestação como o que se está a viver por estes dias (ver texto nestas páginas).
"Processo viciado"
Na opinião de Vitorino Guerra, o agravamento do mal-estar aconteceu com o concurso para professor titular (a mais alta categoria prevista no novo estatuto). "Geraram-se injustiças terríveis e a partir daí o processo ficou viciado." "O discurso é o do mérito. Mas não houve avaliação da qualidade da prática pedagógica, nem dos conhecimentos técnico-científicos", justifica. Como o concurso só valorizou o percurso dos professores nos últimos sete anos, tudo o que foi feito para trás não contou. E, como se realizou ao nível da escola, houve professores de escalões mais elevados e com pontuações superiores ultrapassados por outros. Alguns ficaram excluídos por um ponto, exemplifica este professor.
O decreto regulamentar da avaliação dos professores e o novo modelo de gestão escolar, aprovados já este ano, acabaram por se tornar na gota de água. Sobre a avaliação disparam-se críticas em várias direcções. Desde o calendário escolhido pelo ME - as escolas foram chamadas, a meio do 2.º período, a elaborar os instrumentos de medida da avaliação, a adaptar os documentos internos e a definir com os professores os objectivos para este ano lectivo e o próximo - aos critérios previstos. "O professor surge como o único responsável pelo sucesso dos alunos, como se não houvesse outras variáveis sócio-culturais e económicas", exemplifica Vitorino Guerra.
Sobre a gestão questiona-se a "democraticidade" de um sistema em que muitos poderes são concentrados num director, que escolhe os coordenadores dos departamentos e avalia os professores.
Mário Machaqueiro pergunta, por seu turno, por que razão se invoca a necessidade de reforçar as lideranças com este modelo de gestão, quando, de acordo com a Inspecção-Geral da Educação, 83 por cento de 100 escolas avaliadas merecem uma classificação de bom ou muito bom e 90 por cento obtiveram a mesma nota na organização e gestão.
Álvaro dos Santos, presidente do Conselho das Escolas, admite que a contestação é "inelutável", mas, pessoalmente, considera que alguma está a ser "empolada". Como presidente deste órgão consultivo garante que vai continuar a "fazer tudo para que as escolas tenham condições efectivas para fazer bem o seu trabalho".
16 de Fevereiro
Dezenas de pessoas, convocadas por SMS, manifestam-se à porta da sede do PS em Lisboa, quando Sócrates se reunia com docentes socialistas
23 de Fevereiro
Mais de dois mil juntam-se no Porto, Leiria e Caldas da Rainha
26 de Fevereiro
Três mil professores desfilam em Coimbra. Nos dias seguintes protestos em Viseu, Guarda e Castelo Branco juntaram mais de cinco mil
Plataforma espera mais de 25 mil em Lisboa
Sindicatos recorrem a Cavaco Silva
Perante o que considera ser um "quadro de grande instabilidade nas escolas" e a "panela de pressão" em que se transformou o sistema educativo, a plataforma sindical que reúne as dez organizações representativas da classe considera que é "fundamental, urgente e inadiável" a intervenção do Presidente da República. "Vamos pedir uma audiência ao Presidente da República, para que fique na posse de todos dados sobre o que se passa na Educação. Respeitaremos a sua decisão, mas queremos prestar todos os esclarecimentos", anunciou ontem Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof.
Sobre a "marcha da indignação", marcada para dia 8 de Março e que contará com o apoio de todos os sindicatos, da Associação Nacional dos Professores, estando aberta a todos os docentes, sublinhou Mário Nogueira, as expectativas são grandes. "Esperamos, no mínimo, tantos como os que estiveram na última manifestação [25 mil, em Outubro de 2006]. O largo fronteiriço à Assembleia da República seria demasiado pequeno", explicou ainda Mário Nogueira, justificando assim a alteração de percurso, que se iniciará no Marquês de Pombal e terminará na Praça do Rossio. "O primeiro-ministro vai perceber que a contestação às políticas do ME não são uma invenção dos sindicatos", disse.
Por considerar o momento actual "politicamente gravíssimo", Mário Nogueira entende que esta seria também a altura de marcar a reunião "há muito pedida" com José Sócrates, de forma a discutir "cara a cara" a resolução da situação. I.L.
Ontem o protesto foi em Aveiro
Maria José Santana
"Maria de Lurdes dá-me a tua camisola." O pedido estava escrito num dos vários cartazes exibidos pelos mais de 2000 professores que ontem à noite se manifestaram nas ruas de Aveiro. "No futebol toda a gente quer a camisola do seu ídolo. Como admiro muito a ministra, quero a camisola dela", explicava Teixeira Homem, o autor da irónica mensagem. Com mais de 30 anos de serviço na docência, este professor da Escola Secundária Jaime Magalhães Lima, em Esgueira, no concelho de Aveiro, garante ter realizado ontem a sua estreia em manifestações de protesto. "Porquê agora? Porque nenhum outro governo havia tratado tão mal os professores", asseverou.
Maria José Tavares, professora do primeiro ciclo, na Gafanha da Nazaré, em Ílhavo, também garantiu ser uma estreante em acções de protesto, apesar de já contar com 30 anos de serviço. "Estou contra tudo. É muito injusto ter já todo este tempo de serviço, estar com 52 anos, e saber que só saio aos 65 anos", relatou. À medida que vai falando, Maria José não consegue parar a enunciação dos motivos do seu descontentamento. "Vou ser avaliada por colegas que têm muito menos anos de serviço do que eu, que não têm prática nenhuma", apontou. Logo a seguir deixa o desabafo: "Obrigam-nos, agora, a preencher uma série de papelada, burocracias, e ficamos sem tempo para preparar as aulas. Eu tirei um curso para ensinar crianças e não para preencher papéis."
A manifestação que ontem tomou conta da principal artéria de Aveiro, e que foi convocada pela Fenprof, aconteceu uma semana depois de uma marcha de protesto de professores ter percorrido as ruas da cidade da ria, no âmbito de um movimento espontâneo, nascido na Escola Básica Integrada (EBI) de Eixo, no concelho de Aveiro. Há um mês, os docentes começaram a ir para esta escola vestidos de negro, em sinal de luto, e, rapidamente, passaram a sua luta para as ruas. Primeiro, com uma pequena concentração à porta da EBI de Eixo, no dia 14. Uma semana depois, e já com a participação de mais de uma centena de colegas de outras escolas da região - convocados por e-mail e SMS -, desfilaram ao longo da Avenida Dr. Lourenço Peixinho rumo ao Governo Civil, no mais completo silêncio e à luz das velas.
António Morais, responsável pelo movimento de docentes de Eixo, e autor de um manifesto e uma carta aberta a todos os professores, declarou ao PÚBLICO que, ontem, já estava a assinalar o 31.º dia de luto. E fez questão de deixar um aviso a José Sócrates: "Estes professores não são todos comunistas, nem sindicalistas e muito menos professorzecos." Já para a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, dirigiu a acusação de que está a fazer com que a educação fique "em cacos". "É muito boa a decidir, mas muitas vezes decide mal. Mas é péssima a motivar e seria uma péssima professora", referiu António Morais - uma declaração que foi fortemente aplaudida pelos manifestantes.
"Será muito difícil travar este movimento"
Reuniões pela madrugada fora. Plenários cheios. Greves "daquelas que fechavam escolas". Manifestações - a 18 de Novembro de 1988, por exemplo, saíram 20 mil à rua em Lisboa, nas contas da Fenprof. Os anos de 1988, 89 e 90 marcam um dos períodos de maior contestação da classe docente nas duas últimas décadas. A ex-sindicalista Manuela Teixeira recorda esse tempo em que dirigia a Federação Nacional dos Sindicatos de Educação (FNE) e em que o Estatuto da Carreira Docente proposto pelo então ministro da Educação Roberto Carneiro (Cavaco Silva era primeiro-ministro) desencadeou uma irritação geral. Mas, ao contrário do que se tem passado por estes dias, nessa altura os sindicatos tinham o monopólio da organização dos protestos. Hoje não é bem assim. E "será muito mais difícil travar este movimento" de contestação que está em curso, acredita.
Manuela Teixeira - que durante 25 anos esteve à frente da FNE e hoje se dedica ao ensino - justifica esta afirmação não só pelo número de professores que estão a manifestar-se todos os dias, como sobretudo pelas características dos protestos.
As greves
É certo que não há greves sucessivas - como as que os professores fizeram em alguns momentos nos últimos 20 anos. Em 1991, por exemplo, os professores decidiram faltar alternadamente às reuniões de avaliação (num dia só paravam os de Inglês, noutro os de Matemática e assim sucessivamente), para exigir os aumentos salariais que o Governo tinha prometido. E, em 1995 (era ministra Manuela Ferreira Leite), várias greves de docentes do ensino superior impediram que milhares de alunos fizessem provas específicas. Agora, diz Teixeira, "os professores ponderam 20 vezes antes de fazer uma greve, porque as greves mexem muito no bolso, os seus salários não têm sido aumentados e muitos têm cônjuges no desemprego."
O que não significa um movimento menos forte. "Dantes sentíamos revolta", diz. "Hoje, os professores sentem-se desrespeitados, há um sentimento de desespero." Mas há ainda um outro factor que distingue o momento que se vive: "O Governo teve a preocupação de dispersar os sindicatos, que foram quem sempre mobilizou a luta dos docentes" e quem assumiu o papel de interlocutor do executivo. Se, no passado, após um período de contestação, havia acordos entre ministério e sindicatos, os sócios destes últimos aceitavam o acordado. Agora, quando são grupos de docentes a, espontaneamente, marcar vigílias e marchas, "será muito mais difícil travar este movimento, porque o Governo não tem interlocutores". Andreia Sanches
1988 e 1989: Os professores recusam passar a receber menos do que os técnicos superiores da função pública, contestam o Estatuto da Carreira Docente e exigem uma gestão democrática das escolas. Há manifestações e greve. Roberto Carneiro é o ministro da Educação
1990: A prova de acesso ao 8.º escalão, último grau da carreira docente, gera grande contestação
1998: Sindicatos unem-se para reclamar nas ruas a redução da carreira docente para 25 anos. Marçal Grilo é o ministro da Educação
2000: Várias acções de luta alertam para o desemprego dos professores. O ano começa com a ocupação de centros
de emprego. Guilherme
d"Oliveira Martins é o ministro da Educação
2005: Federação Nacional da Educação (FNE) e Fenprof convocam quatro dias de greve aos exames nacionais do 9.º e 12.º anos. Contestam o congelamento das progressões automáticas e o aumento da idade da reforma
2006: A manifestação de professores do dia 5 de Outubro junta um número considerado recorde de docentes - 25 mil. Mais uma revisão do Estatuto da Carreira Docente está no centro da polémica. A avaliação dos professores é dos pontos mais contestados.
PS - Eu não teria copiado os textos se a política do jornal PÚBLICO fosse manter os artigos online, caso em que apenas faria os respectivos links.
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Mais uma injustiça: Aos professores da Madeira não se aplicam quotas nem a carreira conhece diferentes categorias!
Incrível!
Que lógica tem isto? Alguém será capaz de explicar?
- De acordo com o Estatuto, não é exigida uma prova de avaliação de conhecimentos e competências para o ingresso na carreira, não há hierarquização da carreira em duas categorias (professor e professor titular) e não há quotas no escalão máximo (oitavo) da carreira docente (no Continente, foi estabelecido um limite de Professores Titulares por escola).
Correio da Manhã
Que lógica tem isto? Alguém será capaz de explicar?
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26/Fev - Manifestação em Coimbra
O número considerável de participantes, com mais gente do que a própria organização previa, veio demonstrar o descontentamento pelas políticas educativas. Diário de Coimbra
Do meu ponto de vista é pena que a FENPROF se entretenha agora com a exigência do pagamento de uns trocos [Minuta do Requerimento], como se estas "aulas" tivessem sido um serviço prestado digno desse nome. Creio que a denúncia das aulas de substituição deveria continuar, porque o "trabalho" do professor nessas aulas continua a ser mesmo: tal como o cão pastor evita que o rebanho tresmalhe, o professor mantêm os alunos fechados na sala de aula, em prejuízo do seu convívio e da subutilização dos centros de recursos, bibliotecas mais sofisticadas que as que seus pais conheceram, porque equipadas com computadores e outros recursos multimédia.
A posição dos professores é ambígua neste aspecto, porque apesar de terem consciência da inutilidade pedagógica da tarefa, sempre sonharam obter por via judicial um acréscimo do vencimento do qual se encontram dependentes. Mas porque razão esse pagamento só será feito até Janeiro de 2007? Só porque entrou em vigor Estatuto da Carreira Docente que ente outras aberrações integrou as aulas de substituição na componente não lectiva???? Acho que os professores se deixam socratear facilmente ;)
Do meu ponto de vista é pena que a FENPROF se entretenha agora com a exigência do pagamento de uns trocos [Minuta do Requerimento], como se estas "aulas" tivessem sido um serviço prestado digno desse nome. Creio que a denúncia das aulas de substituição deveria continuar, porque o "trabalho" do professor nessas aulas continua a ser mesmo: tal como o cão pastor evita que o rebanho tresmalhe, o professor mantêm os alunos fechados na sala de aula, em prejuízo do seu convívio e da subutilização dos centros de recursos, bibliotecas mais sofisticadas que as que seus pais conheceram, porque equipadas com computadores e outros recursos multimédia.
A posição dos professores é ambígua neste aspecto, porque apesar de terem consciência da inutilidade pedagógica da tarefa, sempre sonharam obter por via judicial um acréscimo do vencimento do qual se encontram dependentes. Mas porque razão esse pagamento só será feito até Janeiro de 2007? Só porque entrou em vigor Estatuto da Carreira Docente que ente outras aberrações integrou as aulas de substituição na componente não lectiva???? Acho que os professores se deixam socratear facilmente ;)
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Milu
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Os piores cegos são os que não querem ver
O processo de avaliação [de desempenho dos professores] "está em campo e continua dentro da normalidade", disse Maria de Lurdes Rodrigues. Ler mais?
Em que país vive esta sra?
Em que país vive esta sra?
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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
23/Fev - Manifestação no Porto - Os motivos da indignação
A Manifestação no Porto foi convocada por sms's, e-mail's, blogues difundidos um pouco por toda a rede - uma originalidade - de modo que ninguém é capaz de identificar quem a convocou ;)
Como não foram respeitadas as formalidades previstas na lei, a manifestação foi ilegal. Iniciativas deste género deverão brevemente multiplicar-se noutras áreas devido à crescente penetração das tecnologias na vida das pessoas. Os legisladores devem ficar atentos ao fenómeno, para poderem adaptar a lei às novas circunstâncias.
Segundo o PÚBLICO, foram mais de 2.000 os professores que manifestaram no Porto contra a política educativa do Governo, à margem das suas estruturas representativas.
Para compreender os motivos da indignação, faça o download dos seguintes documentos:
Como não foram respeitadas as formalidades previstas na lei, a manifestação foi ilegal. Iniciativas deste género deverão brevemente multiplicar-se noutras áreas devido à crescente penetração das tecnologias na vida das pessoas. Os legisladores devem ficar atentos ao fenómeno, para poderem adaptar a lei às novas circunstâncias.
Segundo o PÚBLICO, foram mais de 2.000 os professores que manifestaram no Porto contra a política educativa do Governo, à margem das suas estruturas representativas.
Para compreender os motivos da indignação, faça o download dos seguintes documentos:
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