sábado, 4 de outubro de 2008

A domesticação dos professores


Manifestações como a de 8 de Março certamente não voltarão a repetir-se, mas isso não significa que os docentes tenham hoje menos motivos, apenas foram domesticados.

De educação a imagem que o Governo tem não pode dissociar-se do perfil académico do Primeiro-Ministro. Pi.

Milu observa a educação do ponto de vista da Sociologia barata interessando-se pelas estatísticas. Até concordo consigo quando à não obrigatoriedade do 12º ano, nas não devido ao sucesso das Novas Oportunidades criadas ao estilo socratiano. Como socióloga deveria levar em consideração os estudos sociológicos, designadamente de Basil Bernstein, que demonstram que o investimento do Estado seria mais produtivo se apostasse na entrada das crianças do ensino infantil antecipando a sua entrada na escolaridade obrigatória em dois anos. Nas nenhum político pega neste tema porque em termos de marketing político o 12º ano é muito mais vistoso para a generalidade dos eleitores.

Milu conseguiu domesticar os professores com uma espécie de sociologia orçamental assente em suas premissas fundamentais: (1) dar cada vez mais trabalho aos docentes independente da sua utilidade pedagógica, pois o objectivo é o massacre; (2) criar condições excepcionais de reforma aplicáveis a quem se encontra perto da meta.

Tenho que elogiar a Ministra da Educação que com a invenção do 11º escalão retirou argumentos a quem estava no 10º para não ser avaliado. Entretanto também lhes criou um quadro legal mais favorável à antecipação da reforma como escapatória de fuga. Esta via será a escolhida pela brigada do reumático, que já iniciou a sua contagem decrescente para abandonar as escolas e portanto não adianta manifestar-se porque o pior ficará para os colegas. Os mais novos até vão beneficiar dos lugares que assim irão ficar abertos… E os ensanduichados entre os que os saem e os que entram têm oportunidade para ficar relativamente melhor posicionados na escolha do seu horário. Bem vistas as coisas até foram distribuídos rebuçados a todos, e ME assegurará o mesmo serviço gastando menos dinheiro! Ganharam os contribuintes à custa da sobrecarga de trabalho dos professores, mas pelos motivos que expliquei a manifestação de 8 de Março não se repetirá.

Para a semana tenho marcada uma reunião para segunda-feira, outra para terça, outra para quarta... Não é nenhuma semana especial. Tem sido e vai continuar assim. Apetece-me gritar DEIXEM-ME TRABALHAR!

Quando é que começam a utilizar a Internet como ferramenta de trabalho colaborativo na escola? Já sei que os Velhos do Restelo ficaram a rir-se com esta pergunta, mas não desistirei.

Como contribuinte, até apreciaria as poupanças orçamentais de Milu com os professores, se não se desse o caso de o Governo ter desbaratado muito mais recursos com os políticos. Motivos de descontentamento não faltam ao aos professores.


Escrevi isto a propósito de um artigo publicado na Visão que vale a pena ler.

Um comentário:

Professorinha disse...

A hipocrisia do Sócrates irrita-me solenemente. O facto de ele dizer que as facilidades se acabaram quando falamos nos professores no desemprego dá-me vontade de regurgitar ao pensar nas facilidades das novas oportunidades e dos CEf e afins...

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